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Sobre os museus e o seu conteúdo

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No rescaldo de uma ociosa visita a três célebres museus da capital espanhola, sinto satisfação por ter tido a oportunidade de contemplar muitas das mais famosas obras de arte dos séculos 13 a 20. O acumular de horas a contactar com tanta pintura criou alvoroço em mim no sentido de meditar sobre a génese da arte bem como o seu valor, interesse ou essência.

Em primeiro lugar, fui levado a concluir, com manifesta surpresa, que há pouca metafísica patente na arte antiga, salvo a de natureza cristã, e isso é sintomático através da previsibilidade dos temas da maior parte do que vi: monarquia, religião e mitologia. É curioso notar que a mitologia, sendo o simbólico resquício da era que precedeu à hegemonia cristã, pareceu constituir durante séculos a fuga criativa de inúmeros pintores, que para ela canalizaram seus ímpetos irreverentes de pincel.

Sendo um ignorante nos assuntos que à arte diz respeito, como a história da arte ou o fim de um museu como o do Prado, acho que ela espelha com uma transparência de cristal a clausura criativa em que se viveu durante mais de meio milénio e ainda a supremacia civilizacional assumida na Europa face aos restante povos do mundo, traduzida numa sobrevalorização de peças europeias em detrimento de arte asiática, africana ou americana. A arte norte-americana, cuja presença timidamente se fez notar nas minhas visitas, apenas parece constar nos museus que visitei como produto da irrevogável ascensão económica desse país. De resto, aquilo que se chama a Arte dos séculos 13 a 20 parece ser obra de um círculo fechado de nações (França, Espanha, Itália, Inglaterra, Holanda e Alemanha), e nada mais. Curiosamente, na visita ao Palácio Real de Madrid, verifiquei que se reservou uma sala para a arte chinesa, sinal de que ela existia e era valorizada como expressão artística alternativa aos cânones europeus, mas nem por isso consta desses 3 museus que visitei.

Admitindo que a grande maioria das pessoas que visita os museus do mundo não está em condições de apreciar a técnica de pintura ou compreender esteticamente certos registos e opções dos pintores, é caso para perguntar, nem que a título introspectivo, qual o sentido da presença de um cidadão num museu. No meu caso, a ida ao museu serve para reflectir sobre a condição humana e a sua evolução, mas com a crucial ressalva de que o que vemos é produto de uma selecção, um compilação, uma idealização por parte de alguém. O que qualquer museu apresenta não é a Arte, mas uma exposição de Arte, na inequívoca medida em que o espólio apresentado é sempre uma incisão intencional segundo um ângulo premeditado. É bom ter isto presente, mesmo quando a nossa ignorância nos impede de ver mais e melhor.

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