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Sobre o uso de um ensinamento técnico na vida real

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Um dos ensinamentos gerais de engenharia prende-se com a incontornável gestão da margem do erro inerente a tudo o que é calculado, ideia esta que justifica os prédios levarem mais betão e vigas do que matematicamente necessitam, que os equipamentos que trabalham a elevada pressão tenham paredes mais grossas do de facto precisam ou que as dimensões de um tanque seja sempre sobredimensionado para que este nunca chegue a transbordar.

Tento que este ensinamento se inscreva na minha vida para além da vertente profissional assim como gostaria de contribuir para outras pessoas possam considerar inscrevê-lo nas suas vidas tanto para o bem como para o mal, tanto para o sim como para o não.

Permitam-me referir que a gíria e o calão da engenharia chama ao factor de incerteza que se introduz nos cálculos o "factor de cagaço", designação repleta de pragmatismo e que dispensa a explicações mais extensas. O referido factor serve para descansar o engenheiro e para descansar aqueles que usarão o equipamento, na medida em que cria uma margem perante o frágil controlo que o engenheiro consegue ter perante todas as variáveis que afectam o desempenho, a contrução e a operação do objecto dos seus cálculos.

Voltando à vida extra-profissional, parece-me igualmente avisado que desenvolvamos uma atitude de humildade perante o frágil controlo que conseguimos ter da vida. Uma vez genuinamente convencidos do benefício que este ensinamento pode acarretar a cada vida pessoal, a progressiva colocação em prática do mesmo resgatar-nos-á de uma certa corda bamba desnecessária que nos faz reféns da conjuntura com que nos deparamos. Evitará, por exemplo, suores relacionados com saúde, com dinheiro, com família, entre outros.

O "factor de cagaço" é então um reconhecimento da importância de se ser prudente. Quem o tem percebe a importância de poupar, a importância de adquirir hábitos saudáveis, a importância de cuidar bem das relações familiares, ect.

É sobretudo na vertente económica que à luz deste ensinamento franzo mais as sobrancelhas relativamente aos políticos, aos gestores, às famílias e até aos banqueiros e investidores, que após tantos anos a ganhar 2 e gastar 3, reclamam agora contra as dificuldades que lhes chegam e que são provocadas pela aplicação pelo lado certo do “factor de cagaço” no domínio orçamental do país: poupar 3 para pagar 2.

Em jeito de conclusão, despeço-me lançando a perguntar ao leitor: a crise que temos não provém numa boa parte da nossa falta de humildade colectiva relativamente à vida e ao que é frágil nela?

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