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Sobre o belíssimo livro 'Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde', e o impacto do amor, justiça, princípios, e dever na vida romana (e não só)

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O livro Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, assinado por  Mário de Carvalho, constituiu para mim uma extraordinária, feliz e revigorante surpresa literária. Foi com um absoluto prazer que desfrutei deste livro, e impressionou-me a naturalidade com que o escritor conseguiu ficcionar credivalmente a Lusitânia do período de Marco Aurélio (121-181 d.C.), e de permitir aprender tanto sobre os romanos e a romanidade, sempre pelos olhos e mente do personagem principal (e narrador), Lúcio Quíncio, dúunviro (magistrado-mor) da cidade de Tarcisis.

Para além do empático embate entre o leitor e a o estilo de vida sob a governação e cultura romano, incluindo os rituais e protocolos, a dinâmica entre classes sociais, a organização do espaço pública, e tantas coisas mais, o leitor é confrontado com os dramas vividos por este Lúcio que, cioso dos princípios e virtudes mais do que os vícios e manhas pessoais, procura tomar as melhores decisões  judiciais para a cidade, do alto do seu inabalável sentido de Estado. Sendo por vocação filósofo -  Lúcio vê no imperador Marco Aurélio um grande mestre - isto abre caminnho a que o leitor vá acompanhando os debates de consciência e princípios travados entre Lúcio e os seus concidadãos, mas sobretudo consigo próprio, no apuramento da verdade e do bem.

O ápice da história é a trágica desacreditação do dúunviro junto da cidade que ajudou a gerir e proteger dos mouros. Para isto contribui em grande medida (qual gota de água) a excessiva complacência de Lúcio para com a emergente religião cristã, pelo facto de esta ter sido subscrita pela nobre viúva Iúnia Cantaber, por quem Lúcio tem um sentimento especial (cuja natureza nunca é objetivamente esclarecida na história). Não a conseguindo demover da sua crença, o magistrado paga o doloroso preço de ter de a condenar à morte para fazer cumprir a lei romana e de, em seguida, ter de resignar ao cargo e abandonar a cidade. Belíssima história sobre o amor, a justiça, os princípios, e o dever.

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