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Sobre o Festival da Canção enquanto fórum cultural mais bem sucedido no país, e o que está latente na preferência nacional pela arte de Conan Osíris



O Festival da Canção é porventura o fórum cultural mais bem sucedido no país. Peritos e não peritos ouvem e avaliam, votam e elegem, e o processo criativo é democraticamente julgado e refinado ano após ano. O recente modelo de convidar artistas estabelecidos ou emergentes a produzir uma proposta de música representante do país não só presta homenagem àqueles que se aventuram numa carreira musical nem sempre orientada (e visível) para as massas, como também cria uma lógica de competição no próprio processo artístico centrada na reação direta à arte criada, e assim saudavelmente imune a critérios económicos como indicadores do sucesso da produção artística.

E é aqui que a arte e criação proposta por Conan Osíris - entretanto eleito como o artista representante do nosso país na edição de 2019 do festival - vem expor junto de todos os pilares sobre os quais efetivamente avaliamos a cultura e o que desta vai brotando. Sem que tenhamos consciência, as nossas reações às músicas propostas para o Festival da Canção assentam em critérios perfeitamente distintos, que julgo ser: popularidade, bom gosto, beleza, e impressionabilidade. Conan impressiona, e fá-lo porque explora o bom gosto e a beleza no sentido inverso do que a cabeça de qualquer pessoa sensata está preparada para encontrar. Com isso potencia a sua popularidade, porque a aversão a cânones estéticos primários consegue ser fonte de popularidade nos dias de hoje. Cativa por isso mesmo, por não se inscrever no expetável.

Quando contrastamos a criação de Conan com a proposta musical vencedora de Salvador Sobral, encontramos nesse duelo o confronto com uma abordagem artística que apontou inequivocamente no sentido do Belo (ideal) e que com isso prontamente se inscreveu no Bom Gosto percecionável pelas massas. Essa foi a força de Sobral: conseguiu ser popular e impressionar pela sublime capacidade de se aproximar do êxtase estético que mora no que se consegue aproximar um pouco mais do Belo. Pessoalmente prefiro como referencial existencial a abordagem de Sobral. Sinto que essa me está mais nos genes do que a exploração da aversão e da repugnância na forma de impressionabilidade e quebra do status quo. Ambas são Arte, mas em sentidos (e utopias) opostos.
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Sobre o estarrecedor filme Filomena, o ubíquo e multifacetado problema de relação da Igreja com a sexualidade, e a urgência de mudar de paradigma



Assistir ao filme Filomena no contexto atual da Igreja Católica, achacada por escândalos incontidos de abusos impunes de membros do clero a crianças, freiras, outros membros internos ou externos, e cruzá-lo com o modo como o estatuto e diplomacia eclesiástica conseguiu repetidas vezes abafar, ilibar e minorar a gravidade dos mesmos escândalos, é um parto difícil.

E escrevo parto porque é em torno disso que este filme orbita, pois tudo começa com o parto de uma menor de idade numa congregação de freiras irlandesa no seguimento de uma gravidez não planeada, e a venda da criança para adoção nos EUA, com posterior rutura de elo entre mãe e filho, e à revelia da vontade daquela. A história é baseada em factos reais, e portanto é assustador perceber que nos ditos escândalos atuais da igreja católica, tal como no escândalo que é esta história, está patente uma questão de fundo que forçosamente terá de ser resolvida pela igreja para que se reencontre e se apazigue definitivamente: a sexualidade é necessária ao homem e à mulher, cumpre uma função vital, e nada tem de pecaminosa a priori.

Também neste filme, o que está indiretamente em causa é o voto de castidade que os integrantes de estruturas católicas têm de fazer, desde logo porque, sob a aura de uma castidade imaculada, as freiras que venderam a criança e a afastaram da mãe acham que a haver alguma culpa no processo é a culpa de quem cedeu inicialmente aos desejos carnais. O resto não é culpa, é pena moral a cumprir, sob a capa de um prazer perverso de ver castigada quem ousou não ser casta, mesmo que não tendo obrigação formal de o ser (e portanto ser livre de o não ser). Um grande filme, repleto de pertinência nos tempos que correm.
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Sobre ter razão antes do tempo significar não ter razão, e os riscos e oportunidades de explorar as sensações vigentes em detrimento da antecipação da verdade


Untitled (Glass & Boat) - Liliana Porter (1975)

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Ter razão antes do tempo é não ter razão. Não que concorde pessoalmente com isso - porque ser capaz de acautelar e antecipar o que acontecerá deveria constituir uma vantagem em qualquer sistema - mas as observações que fiz até hoje mostram que, em matérias envolvendo humanos, seja um círculo familiar, um círculo político ou outras esferas, ter razão antes do tempo é negativo a curto prazo e provoca desgaste. É que existe uma coisa que é a sensação, e essa nem sempre está alinhada com a razão.

Sempre que, em assuntos humanos, a sensação generalizada sobre algo favorecer uma decisão ou disposição contrária àquela que a pessoa que tem razão antes do tempo defende ou apregoa, haverá lugar a um enorme esforço para conseguir contrariar essa sensação dominante, a ponto de tal fardo tender para o descrédito ou multiplicar contrariedades emocionais para o seu promotor. Nesses casos, ter razão antes do tempo será sinónimo de convulsão social, de tumulto anímico e de um teste à auto-estima e conduta do próprio. A força das massas (quando detentoras de sensações bem arraigadas) junto da ausência de resultados favoráveis no imediato conseguem delapidar muita da vitalidade e confiança pessoal daquele se posiciona contra a maré de alguma dessas sensações.

Por outro lado, fóruns como o marketing ou a política muito interesse encontra no capitalizar em torno da exploração de sensações vigentes, rendendendo-se facilmente à máxima de que ter razão antes do tempo é de facto não ter razão. Governam as suas atividades em função da sensação das massas, eventualmente influenciando-as parcial e subtilmente em eixos e ângulos de convicção mais frágil, sem nunca colidir diametralmente com o status quo que as suporta. É assim que são eleitos ou preferidos pelos consumidores sem que estes tenham razões plausíveis para isso, e é o mesmo motivo que leva a que pessoas demasiado visionárias na perceção de desfechos oposto às sensações vigentes sofram na pele o dilema de falar ou ficar calado e esperar pela (muitas vezes dura) realidade, quando a alvorada da sua visão termina e o dia por fim começa para todos.
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Sobre a automatização parecer uma coisa boa mas a robotização não, e a recomendação de não se viver em piloto automático

The Winch - Sybil Andrews (1930)

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Automático é um adjetivo conducente a uma impressão boa ou má? Para os humanos, a automatização de processos e mecanismos representa eficiência, produtividade, pluralidade de tarefas e, sob este prisma, pode surgir como uma fonte de maior qualidade de vida, na forma de liberdade, descanso, bem como oportunidade de enfoque noutras questões. Nem tudo pode ser automatizado, mas se algumas coisas o forem talvez as vidas se tornem melhores, assim esperam e acreditam muitos de nós, mais do que convencidos das virtudes inegáveis de poder delegar numa máquina o que outro fora uma fonte de preocupação e gestão. Neste sentido, automático é um adjetivo com veicula uma vantagem ou forma de lucro: carro automático, porta automática, sincronização automática, envio automático, controlo automático, etc.

Nos antípodas disto surge o adjetivo robotizado, cuja impressão que causa talvez seja bem menos consensual. Um robot de cozinha ou um aspirador robot são porventura máquinas simpáticas para automatizar muitos lares, mas convenhamos que quando promovemos automatismos em tarefas expetavelmente humanas, as vantagens podem compensar pouco: pensemos num atendedor automático de chamadas, e no modo como preferiríamos interagir com alguém de carne e osso. Nesta vertente, a robotização induzem necessariamente a uma degradação do valor original daquilo foi objetivo da automatização, diretamente ligada à desumanização do processo.

Acontece, porém, que, enquanto humanos, podemos deixar-nos cair em graus progressivos de robotização, a ponto de por distração, negligência ou deliberada decisão, passar a interagir com os outros e com o mundo em geral de uma forma automatizada, repleta de mecanismos impensados que nos garantem a manutenção do status quo mas que igualmente encerram um risco real de desumanização. A mesma que tanto lamentamos numa vending machine quando nos fica com o troco ou o produto preso, ou quando nos envia repetidamente um e-mail sem se aperceber de que o está a fazer. 

Em suma, estou em crer que gerir as várias frentes da vida num piloto automático é uma decisão arriscada mas de fácil acesso, basta que nos distraiamos e logo começam a surgir as decisões-robot, conversas-robot, reações-robot, e mais um conjunto de lapsos e falhas que magoam e mostram desconsideração pelos que nos rodeiam. A vida não é isso, e a diferença entre as pessoas hoje em dia joga-se muito na capacidade de contrariar a sua suscetibilidade de cair no robotização de si mesma na forma de gestão da vida em piloto automático.
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Sobre a tragédia de Borba (ainda), e o milagre invertido da separação das águas de Moisés


Untitled - Kwon Young-Woo (1985)

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O trágico acidente numa pedreira em Borba situa-se nos antípodas da célebre passagem bíblica em que Moisés separa as águas do mar para o povo o poder transpor. Na versão alentejana separou-se a terra até ao ponto em que o povo foi levado a não mais a poder transpor. Vem isto a propósito de que há mais na Terra quem pense em transpor caminho à custo da possível paragem dos outros, do que em trabalhar para desbravar a passagem para os pares, facilitando-lhes a passagem.

Depois de entrevistadas pessoas relevantes e estudados os ângulos possíveis ao assunto, o milagre de Borba,  a existir, é o de se constatar não haver mais caos no mundo do que aquele que a dimensão das falhas humanas em coisas sérias sugere poder haver. Quando reparamos nas negligências, na ignorância, na mistura de boa fé e comodismo de algumas pessoas imputáveis, do culto nacional à passividade, e o cruzamos com a ganância de lucrar económica ou politicamente com o status quo, piscando ao olho às vantagens do dia de amanhã, é uma total surpresa perceber que o mundo desaba apenas parcialmente quando os acidentes acontecem. Por sorte não há um dominó de derrocadas.

Nos idos de uma civilização menos detentora de meios técnicos e tecnológicos para prever e manipular a causalidade dos seus atos e de alguns fenómenos talvez fosse mais aceitável alegar que qualquer catástrofe só acontece que porque tem divinamente de acontecer. Sem prejuízo da incerteza decorrente das incertas probabilidades de vários desfechos poderem acontecer, não somos nem queremos ser como o povo de Moisés, que dialoga com Deus para aferir o bem e mal. Por cá, o bem conduz não raro ao lucro do homem mais responsável por ele, e para o mal há cadeias de responsáveis que têm de ser responsabilizados nas suas várias formas de prevaricação. Só assim o povo pode continuar a transpor a barreira da impunidade sobre a qual, aí sim, tudo se pode desmoronar em dominó. É o êxodo pela justiça terrena.
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Sobre haver sempre qualquer coisa que está pra acontecer, e que se devia perceber, e a inquietação de questionar mais e mais (J.M. Branco)


Frankly - Veronica deJesus (2019)

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"Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho"

Inquietação - José Mário Branco

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Sobre o excessivo poder dos compromissos comerciais, e a inversão da importância e naturalidade das coisas


envelope’s structure -90 - Kishio Suga (1990)

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Os compromissos comerciais ditam mais do que deveriam ditar. É preciso assistir a um raro jogo de futebol marcado para meio da tarde de um sábado de inverno e parar para pensar no que ali aconteceu. Os compromissos comerciais transformaram uma atividade naturalmente diurna numa atividade noturna, e as contrapartidas disso não são de pouca monta.

Devido a eles, os estádios passaram a necessitar de enormes e dispendiosas torres de iluminação. Devido a eles, milhares de pessoas assistem aos jogos a céu aberto e passam frio, pese embora pagarem a peso de ouro por um bilhete. Devido a eles milhares de pessoas vindas de longe chegarão a tarde e más horas às suas terras natais.

Devido a eles, a noite e a iluminação colocam todo o ênfase no campo e nas publicidades, reforçando o poder de ambos e deslocando-os para um papel motriz. O que é falso: só há jogos se houver interessados em assistir. Só isso cria interesses comerciais, que depois de assinados resultam nos ditos compromissos.

Devido a eles, a estratégia de jogo é ensaiada às tardes e manhãs mas posta em prática à noite, e o equipamento desportivo não contempla proteção contra a potencialmente excessiva luz solar. Devido a eles, ninguém pondera se vai jogador a favor ou contra a direção do sol.

Debaixo de intenso sol de inverno, as figuras que jogam, as entidades que publicitam, e as pessoas que assistem são todas colocados em perspetiva: não passam de peças complementares num todo cósmico com um poder incomensuravelmente superior a cada uma delas. A noite favorece os compromissos comerciais, mas deturpa muitas outras coisas ao desbarato sem sequer olhar para trás para disso tomar consciência. Por este motivo reitero: tais interesses ditam hoje mais do que deveriam ditar, expondo uma das costelas do problema atual da civilização relativamente a valores e hierarquia de princípios.
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Sobre o filme 'O Ben Está de Volta', e a chance do Natal ser território de manisfestação dos problemas que podem morar num lar




Foi envolvido pelo convencional espírito natalício inerente às férias da quadra que me desloquei a uma sala de cinema para assistir ao filme O Ben Está de Volta, assinado e escrito por Peter Hedges, para aquilo que foi um inesperado embate com uma realidade dramática, encapotada pela satisfação de reencontrar Julia Roberts num papel principal desse género (drama).

Na génese do embate está o nem sempre consciente mas intenso património de cultural em torno da celebração do Natal, cuja aura de calor humano e generosidade se difunde um pouco por todo lado apimentado pelas gambiarras piscantes, pinheiros de polímero, e atoalhados vermelhos. Nesse contexto, o filme a que assisti representa uma rotura emocional com este clichê, mostrando que a intensidade do Natal é também propícia a dramáticos desvios à normalidade quando dentro de portas (e corações) há problemas e situações que assim o ditam.

Em particular, 'O Ben Está de Volta' aborda a desesperante situação da dependência de drogas quando vivida no seio de famílias, nomeadamente o perverso modo como conduz à erosão da saúde, dinheiro e harmonia das famílias e comunidades envolventes, inclusive (ou mormente!) num período como o Natal, onde a maior tolerância e generosidade são igualmente fragilizações do estado de vigilância e alerta que tais problemas de percurso não deixam nunca de prescindir.

Por fim, o filme faz uma crítica subtil mas suficiente à negligência ou imoralidade com que profissionais ligados à saúde, passíveis de encontrar em interfaces médicas com consultórios ou farmácias, consentem que o fármaco que salva seja vendido juntamente com o fármaco que mata, eventualmente para a mesma pessoa, ou onde o excesso de prescrição quando um problema de saúde surge venha a ser embrião de uma nova dependência, a do próprio medicamento.
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Sobre os espirros emocionais, e a expulsão do que se sente à custa de um estímulo gatilho



White Flag - Liliana Porter (2018)

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Tendemos a persistir extremamente ignorantes quanto às emoções humanas e aos mecanismos pelos quais se regulam, nomeadamente a sua sazonalidade, as órbitas que com fazem as suas rotações e translações no contexto de um dia ou ano de vida.

Afigura-se-me tentador equivaler o surgimento de emoções nas pessoas com a imprevisilibidade (ou não) com que os espirros ocorrem entre nós. Estes tipicamente decorrem do binómio ambiente-pessoa, do qual nem sempre se está consciente, ou da dinâmica pessoa-pessoa, numa corrente contagiosa que assola em cadeia. 

Em casa, no trabalho, a caminho de qualquer sítio, numa rede social, através do correio, música ou outro conteúdo gráfico, as correntes e linhas passíveis de transmissão emocional são abundantes e naturais face às rotinas. São como os fios eléctricos ou as redes sem fios, que permitem um ubiquidade de sinal da qual até nos esquecemos que coexiste por onde circulamos.

Pelo meio ficam espirros emocionais inesperados, de consequências variáveis, assomos de fúria, tristeza, júbilo ou motivação, acoplados a incessantes cadeias de transmissão sequencial dos mesmos, também eles com consequências imprevisíveis. Recomendam-se ligações à terra, que nos salvem do curto-circuito ou do colapso sensitivo, mas em matéria deste tipo de energia somos ainda frágeis e artesanais, logo permeáveis, sofredores e subalternos às forças da corrente que circulam em nosso redor. Emocionalmente somos praticamente tão vulneráveis como no dia em que viemos ao  mundo pela primeira vez. É uma questão de tempo (e espirros) até percebê-lo.
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Sobre o filme 'Le jeu' (2018) a interseção da tecnologia com a subtileza e variedade personalística das pessoas que julgamos conhecer




'Le jeu' é uma filme francês de comédia lançado em 2018 (direção Fred Cavayé) , que consegue resumir-se a um conjunto de personagens sentados numa mesa de jantar, à espera que os telemóveis de cada um toquem ou recebam uma notificação, a qual deve então ser lida, vista ou exposta com altifalante para todos os presentes. Trata-se de um jogo inesperadamente intenso que um grupo de amigos (e seus cônjuges) aceitam jogar, como picardia de saber quem entre eles guarda segredos e devido ao orgulho dos mais incautos no não dar parte fraca e impedir que tal quebra de privacidade se imponha à mesa.

À vez, cada personagem da história (mas não todas) acaba por ir sendo vítima de contactos externos de pessoas a quem estão ligados(as) por assuntos maioritariamente relacionados com relações ou seduções extraconjugais, mas também assuntos e problemas internos das relações, tais como a gestão de relação com um filha que já é mulher, a decisão de fazer uma cirurgia estética ou o plano de se inscrever uma sogra chata num lar. 

Acima de tudo, e não deixando de ser uma comédia, 'Le jeu' toca brilhantemente no tema das várias camadas que hoje em dia a presença social se permite, e muito em particular o modo como tais círculos conseguem manter-se relativamente independentes entre si pelos muros que as tecnologias permite criar. Pelo meio, o digital e as telecomunicações dão guarida a erupções de quebra de conduta ética ou à exposição de temas sensíveis que é difícil abordar, enfrentar e assumir no dia-a-dia e no frente-a-frente. Por tudo isto, este filme é uma produção cativante, não óbvia, e pedagógica sem deixar de ser divertida, e um excelente ponto de partida para se discutir a interseção da tecnologia com a subtileza e variedade personalística das pessoas que julgamos conhecer.
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Sobre a negligência e tirania das grandes empresas nos problemas reais do quotidiano que infligem aos clientes

Take a number - Andrew Ohanesian (2017)

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O presente ano de 2018 será seguramente o ano das más experiências pessoais em serviços prestados por empresas de renome: uma empresa de viagens, uma de telecomunicações, uma de aviação, e uma grande superfície comercial. Em todos casos, algures no processo de relação com o cliente (comigo) houve uma quebra com o esperado ou um erro próprio e inesperado, levando a que eu, enquanto consumidor, tenha sido involuntariamente lesado. 

Ao desencadear para todos os incidentes os respetivos processos de reclamação, verifiquei que nenhuma entidade foi capaz de ouvir e reagir ao problema com celeridade (prime time), havendo algumas que ainda nem sequer reagiram ao meu contacto. Outras reagiram, corrigiram algo mas nem desculpas pedem. E outras ainda só estão preparadas para nada fazer, pedir desculpa e obrigar o cliente a encaixar estoicamente o dano e inconveniente causados. Ora tudo isto decorre em empresas que investem muito na construção e preservação de uma reputação, desde logo com estudos de mercado, selos de confiança ao consumidor, e assim por diante.

Pessoalmente, acho abjeto o modo como as estruturas empresariais se desligam da realidade humana e decidem operar numa certa mecanização e inimputabilidade. Gastam-se milhões para convencer os clientes no abstrato, e gasta-se o mínimo (zero!) a tentar compensá-los quando são lesados pela ineficiência ou incompetência da própria empresa. Preferem ser exuberantes e cuidadosas no grande holofote (em abstrato), e depois negligentes e tiranas nos problemas reais do quotidiano. Falta-lhes Pessoa.

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Para ser grande, sê inteiro: nada 
          Teu exagera ou exclui. 

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és 
          No mínimo que fazes. 

Assim em cada lago a lua toda 
          Brilha, porque alta vive 

Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

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Sobre o livro 'Memórias Póstumas de Brás Cubas' (Machado de Assis) e o Realismo de escrever pouco mas bem para se contar uma boa história



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Memórias Póstumas de Brás Cubas é um livro único em absoluto, e preferencialmente apreciado por todos os que não apenas estimem uma boa história, mas também encontrem na concisão e criatividade qualidades valiosas em literatura. Num tempo em que se publica a metro e em que muitos mais se deveriam perguntar se se justifica o tempo que querem roubar ao leitor, Machado de Assis mostrou há mais de 200 anos como um bom livro nada tem que ver com o número de páginas escritas.

A história fala-nos de Brás Cubas, na qualidade simultânea de defunto, narrador e protagonista mor do enredo, e com ela Machado de Assis inaugurou e celebrizou para a posteridade a corrente realista em língua portuguesa. Sucintamente, o livro trata do percurso de um jovem privilegiado pela riqueza e cultura, que vagueia pela vida ao ritmo de falsas partidas e ausência de motivos reais de realização. No amor e no trabalho fracassa, e o expoente máximo da sua vida é o adultério prolongado, mesclado com a frustração de coabitar e ser adjunto político do marido da consorte.

A título de exemplo, é extraordinário que um autor consiga abdicar de escrever um capítulo inteiro e  o troque apenas pelo título (que basta para se perceber o avanço na história), tal como é que estonteante que o próprio narrador qualifique alguns capítulos que escreveu (e obrigou o leitor a ler) como sendo maus ou desnecessários. Na minha opinião, o livro vale sobretudo pela forma como o conteúdo está organizado, sem a qual a história poderia a arriscar-se a ser medíocre. Pelo exposto, Memórias Póstumas de Brás Cubas é uma obra de referência em matéria de expressão escrita, que merece e justifica todo o destaque possível na atualidade, sobretudo pela bênção de se tratar de uma produção lusófona.
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Sobre touradas, e a genealogia de formatos de entretenimento em torno de duelos causadores de êxtase ou sofrimento gratuitos


 Plaza de Toros 13 - Hiroshi Watanabe (2000)

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Embora seja um progressista e um adepto da busca incessante por melhorias de compreensão sobre os fenómenos do mundo e sobre o papel do homem nos ecossistemas em que participa, sou forçado a admitir que existe património civilizacional condensado na forma de traços culturais e que estes, se ancestrais ou ditos históricos, merecem a mesma consideração e respeito que a vida de um avô ou bisavó merecem, pese embora estas terem sido bastante diferentes da nossa vida em termos de entendimento moral, científico, social, político, etc.

Acredito que as arenas de tourada são da árvore genealógica das arenas romanas em coliseus, e encontram na atualidade descendência em arenas de futebol com exatamente a mesma função. Na modernidade é homem contra homem, sem direito a violência física ou moral, e tentando ganhar pela vantagem técnica, seja física ou intelectual, na leitura do duelo e execução de uma estratégia para o vencer. Porém, o legado pré-desporto colocou porventura as touradas com idêntico propósito mas sem o desconforto da convivência natural com o risco de morte, a ação militar ou bélica pelas próprias mãos, e de uma relação platónica na forma como os animais participam no raio de ação humano.

Posto isto, embora não me reveja de forma nenhuma no rito que representa a tourada, temo que legislar-lhe uma proibição é renegar arbitrariamente um legado que, a ter de cair, deveria desvanecer-se por falta de adeptos e não por força de um súbito autoritarismo ideológico progressista. Afinal, algo no ritual da tourada continua a existir na sociedade de hoje, quer porque gostamos de confrontos que produzem idêntica chance de êxtase ou sofrimento, quer porque muito do nosso entretenimento, turismo e afirmação decorre de imagens, memórias ou construções onde homens ou animais sofrem ou sofreram maus tratos desnecessários e condenáveis a troco de se arriscarem num duelo para provar algo em que acreditavam ou queriam demonstrar.
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Sobre o traço personalístico português do culto sádico em torno de fazer rolar cabeças alheias (e o exemplo do desporto)

Untitled - Mzwandile Buthelezi (2018)

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Um outro traço personalístico da nacionalidade portuguesa é o culto discursivo sádico em torno de fazer rolar cabeças alheias, resultante da armadilha de canalizar a intensidade com que se sente desaires ou injustiças para extremismos de opinião que desaguam nessas motivações. Encontro no desporto o escancarado exemplo disto, sobretudo porque que a nossa particular forma de estar lusa pode ser, neste mesmo domínio, contrastada com realidades não latinas a decorrer em paralelo.

Um grande clube de futebol normalmente é um centro de várias modalidades, pelo que quando uma destas passa menos bem há sempre como compensar relevando outras. Nisto os clubes fornecem aos amantes do desporto e da competição desportiva válvulas de escape à tensão e desânimo que o infortúnio numa só modalidade possa causar. Mas nem isso impede os fãs de mostrar lenços brancos, assobiar durante os encontros (em claro prejuízo da equipa que dizem prezar) e de vaiar os atletas à saída dos recintos.

Acharão porventura que fazê-lo é da maior justiça, mas eu pergunto: quem acharia justo ser vaiado e despedido do seu emprego à mínima sucessão de desaires? Ninguém! Mais vos digo, a rapidez com se pedem e querem ver cabeças alheias a rolar costuma ter mais a ver com egos próprios e sua satisfação, do que amor ou consideração por uma causa. Isto vale para o desporto, para a política, ou para qualquer núcleo profisisonal. Por isso, quando vejo almas exaltadas a pedir despedimentos, penso que a tristeza do fado que coroa a portugalidade é nalguns fóruns hipotecada pelo triste enfado da expiação sádica. Os meus lenços brancos para essa modalidade existencial.
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Sobre o Orçamento de Estado, e as reencarnações e roda do karma à portuguesa


Man Lying in Grass - Tim Eitel (2018)

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Todos os anos, quando o governo em funções apresenta a sua proposta de Orçamento de Estado, começa um clímax existencial no nosso sistema político, sindical, patronal, e mesmo ao nível do cidadão comum (estudante, trabalhador, reformado), porque dessa proposta resultam mudanças ou permanências que afetarão a vida individual e coletiva durante pelo menos mais um ano. Analisado sob o estado de graça da minha transcendental romagem turística à Índia no último Verão, o fenómeno parece uma teatral representação dos princípios da reencarnação e da roda do karma (Samsara).

A lógica que preside às reencarnações prevê que qualquer um deva aceitar aquilo que em sorte lhe coube nesta vida, podendo esperar a uma melhoria de condição na encarnação seguinte como prémio pelo que nesta sucedeu. Nessa altura poderá transitar para um estatuto que se espera melhor, ficando expectavelmente mais desafogado face à sua condição anterior. No nosso mundo português tão marcado pela lógica do défice e do endividamento, o momento a reencarnação ocorre quando um novo Orçamento é proposto e aprovado, e cada ser olha para o novo mundo que se avinha na perspectiva do que lhe caberá em sorte, e na expetativa de encontrar melhorias.

Por não ser um ato divino, e porque no nosso exemplo português a reencarnação não é desprovida de memória sobre a encarnação anterior (ou anteriores), aquilo que nos cabe em sorte no Samsara dos Orçamentos, e que depende daquilo e de quem que somos hoje (diz o karma que a futura encarnação reflete o que se passou na encarnação anterior), leva a condição humana a pender entre o protesto, a desconfiança, crítica e a tolerância, resignação ou entusiasmo. Isto porque para um português de gema, e ao contrário do que preconiza banca, rendibilidades passadas devem sempre garantir rendibilidades futuras. Nisto somos indianos à nossa própria maneira.

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Sobre o balanço entre o esforço de (re)organização e o esforço de conviver com um mundo desorganizado, ornado por Primary Play (Power Boothe)


Primary Play - Power Boothe (2015)

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A braços no último mês com uma intensa e arrebatadora atividade de formatação e organização de textos diferentemente produzidos por centenas de pessoas apesar de terem todas elas recebido as mesmas instruções iniciais, sensibilizei-me com reforçado ânimo para a importância de se assegurar harmonia no mundo. Embora não costumemos ver assim as profissões, várias delas são específicamente centradas na organização, asseio, triagem, manutenção da ordem, enfim vocacionadas para o assegurar e responder à necessidade de tranquilizar e estabilizar a alma e a disposição emocional das comunidades envolvidas.

Porém, há um desgaste associado ao esforço de organizar as coisas, desde logo porque o mesmo não produz um prazer imediato que nos faça querer fazê-lo por ócio. Para além disso, sedentos como estamos da aparência de novidade, a organização das coisas é um processo de revisita e, como tal, nada aliciante para os mais sequiosos da sensação de novidade. Porém, vendo as coisas do outro lado da barricada, há um esforço (crescente) associado a ter de se conviver com a desorganização (crescente). A pessoa que caminha pelo mundo sem o organizar corre o risco de começar a sentir a passada mais lenta e custosa, enredando-se inesperadamente em pontas soltas e desarrumadas que lhe causam perdas de tempo, confusões, conflitos, etc. Podem surgem na forma de ideias, objetos, memórias, compromissos, emoções, sonhos.

Dito isto, a organização da vida, seja limpeza do espaço físico, formatação de documentos segundo um formato padrão (o meu caso no último mês), ou mesmo a arrumação mental das ideias é uma tarefa que pese embora o que custa, acaba por compensar. Para a fazer há que encarar o que está desalinhado e sujo e investir no reposicionamento criterioso desse elemento. A repetição desta atividade trará um cumulativo de paz interior. Talvez por isto os japoneses tenham inscrito na sua cultura rotinas diárias de limpeza de casa, espaço público ou local de trabalho.

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Sobre a alimentação ao serviço de disputas filosóficas, ambientais, religiosas, políticas, e outras, ornado com 'Natural selection' (Bo Bartlett)


Natural selection - Bo Bartlett

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De entre as necessidades fisiológicas do homem, a alimentação é porventura aquela que mais espelha a riqueza e heterogeneidade de entendimentos e comportamentos inerentes ao progresso da atividade humana enquanto civilização global. Os alimentos têm hoje conotações filosóficas, ambientais, religiosas, políticas, científicas, televisivas, e outras que tais. Por este motivo, aquilo que comemos é atualmente uma fonte de informação, que pode evidenciar com relativa clareza as convicções políticas, religiosas, industriais, etc; a falta delas; ou a incoerência entre elas.

Falemos da globalização (revolução digital). Esta escancarou a porta ao entretenimento dirigido ao nicho da gastronomia. Temos reality shows centrados na confeção multinacional de comida  temos programas de turismo centrados na divulgação do que se come em cada sítio, e estilos de vida altamente propensos à pontuação de restaurantes e ao culto ao empreendedorismo na vertente da oferta gastronómica das cidades. Temos o enraizamento de comida não-nativa como o novo normal.

Acrescem a tudo isto as interseções do tema da carne (tipo de animal, leite) com problemáticas como o aquecimento global ou o necessário diálogo e convívio inter-religioso. Ou a estranha lógica do rótulo bio ("saudável" porque minimiza o selo industrial) com os suplementos e comida tipo fármacos ("saudável" porque permite estrito controlo industrial sobre a composição nutricional e não só). E há ainda o vegetarianismo, o veganismo e a crescente disputa filosófica em torno da nova posição do homem face aos demais animais. Por tudo isto, a alimentação é hoje uma necessidade fisiológica ao serviço de necessidades não fisiológicas, com o risco de ser arma de arremesso ou escudo de defesa.

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Sobre o que se diz, pensa, ou expressa num clímax desportivo, a operacionalização subjectiva da justiça, e o álibi da discriminação pessoal




Oneness of space - Kishio Suga (2008)

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A recente polémica em torno de uma jogadora de ténis norte-americana de grande nomeada que fez uma birra perante uma sanção disciplinar invulgar do juiz (por sinal de nacionalidade portuguesa) impôs-se como uma enorme oportunidade mediática para discutir racismo, feminismo, desportivismo, conservadorismo, e outras causas que tal.


Ressalvaria deste caso duas coisas que mostrama relatividade e diversidade cultural humana. Em primeiro lugar, no ténis parte-se recorrentemente a raquete em sinal de protesto, fúria ou simples descontentamento. Já no estilo musical rock parte-se não raras vezes a guitarra como forma de manifestação de clímax, derradeiro desfrute, transe de prazer. As emoções humanas socorrem-se do que está ao dispor e tomam controlo das pessoas sempre que a parada está alta, seja num concerto de rock ou num torneio de ténis. Tais momentos estão longe de ser aqueles em que um ser humano se encontra em recomendáveis condições de revelar sensatez, pelo que o melhor é não sobrevalorizar que neles se diz, pensa, ou expressa.

Em segundo lugar, do que entendo da justiça civil, sempre que um dado tipo de caso é julgado favoravelmente ou não favoravelmente pela primeira vez isso abre um precedente (jurisprudência), marcando as probabilidade futuras de que tal decisão se venha a repetir. No desporto não existe propriamente jurisprudência (creio) mas isso não invalida que possam existir momentos em que o juiz, dentro da sua subjetividade de interpretação da lei do jogo, possa abrir um precedente e penalizar o que habitualmente não levava a condenação. Não é recomendável que se confunda isso com formas de discriminação ou partidarismo.

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Sobre o livro 'Um Gentleman em Moscovo' (Amor Towles) e o Russian Dream de continuar a ser aquilo que à força a ideologia quer despojar




O livro Um Gentleman em Moscovo, do norte-americano Amor Towles, é uma longa história que orbita em torno da personagem Aleksandr Rostov, um aristocrata russo que se vê em prisão domiciliária no prestigiante e vasto Hotel Metropol por um período de nada mais menos do que metade da sua vida. A história ficcionada avança sincronizada com a história da Rússia no período narrado (começando em 1922), o que permite entrelaçar diferentes elementos sobre esse país: o valioso património cultural russo, as traços identitários e característicos da elite aristocrata da Rússia Imperial, e as mudanças sociais e económicas em curso na Rússia rumo à ditadura do proletariado.

Pessoalmente, muito apreciei a escrita ritmada, criativa, surpreendente do livro, mas considerei a história longa demais na segunda metade do livro. Em todo o caso, o final é convincente e muito bem gizado. Acresce ainda que a obra consegue intercalar de modo exemplar momentos de romance ficcional, com notas históricas e opiniões do autor sobre as mesmas, e ainda todas essas com informações de cultura geral. Tudo com uma linguagem rica e revigorante que torna a leitura prazerosa mesmo nas partes da história menos pujantes e aliciantes.

Como nota de reflexão, Um Gentleman em Moscovo apresenta uma proposta de vida erudita mas acessível, bem disposta mas firme, e assente na força dos princípios cavalheirescos para a personalidade, capazes de deslocar a realidade para contextos de respeito, apreço, fraternidade, e sorte. Rostov é um ser ao serviço da vontade de viver, e a vida acaba por premiá-lo de múltiplas formas por não se ter deixado derrotar pelas vicissitudes históricas desfavoráveis para uma pessoa com a sua genealogia. À sua maneira vive o Russian Dream: continuar a ser aquilo que à força a ideologia quer despojar.
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Sobre escolher o mundo ou ser-se escolhido por ele, ornado com 'Head' (Arshile Gorky) e ao som de 'Incompatible' (Beady Belle)

Head - Arshile Gorky (1931-1934)

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"O espírito de Palomar oscila entre dois impulsos contrastantes: aquele que tende para um conhecimento completo, exaustivo, e que apenas poderia ser satisfeito experimentando todas as qualidades de queijos; e o que tende para uma escolha absoluta, para a identificação do queijo que é o seu, um queijo que certamente não existe, mesmo que ele ainda não o saiba reconhecer (não saiba reconhecer-se nele).

Ou então, talvez não se trate de escolher o seu próprio queijo, mas sim de ser escolhido. Existe uma relação recíproca entre queijo e cliente: cada queijo espera o seu cliente, toma a atitude mais indicada para o atrair, com uma firmeza ou granulosidade um tanto ou quanto altivas. Ou, ao contrário, derretendo-se num abandono de quem se rende."

Palomar - Italo Calvino

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