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Sobre sabermos a sorte que temos, e em como é mais fácil (mas erróneo) procurar a sorte apenas naquilo que de bom ou muito bom nos sucede

Balance of things 12 - dawit-abebe- (2021)

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Nem sempre sabemos a sorte que temos. Foi este o lema promocional da lotaria de natal do ano transato. Por visualizar essa mensagem diariamente num cartaz à porta de casa, ela tem-me feito insistir na decifragem do seu significado. Embora tenha sido concebida na ótica de incentivo a tentar ganhar um prémio monetário, ela é mais profunda que isso e permite uma análise mas ampla sobre o que é achar que se conhece a sorte.

Passo a explicar: a sorte que temos não é apenas o produto das coisas boas ou muito boas que nos acontecem. Tudo que de mal poderia acontecer e não acontece é também parte da sorte que temos. Não é por acaso que quando superamos um episódio de doença ou de algum tipo de trauma emocional encaramos a vida com uma renovada alegria mesmo que nada de especial, de bom ou muito bom, nos esteja a acontecer. Nesses momentos sabemos reconhecer bem a sorte que temos por tudo poder estar tão normal, sob controlo, só que essa noção acaba por se diluir precisamente no mar de insipidez inerente à normalidade, até que começamos a não achar que temos especial sorte por participar nesse ralenti existencial. Nesse momento, começamos a salivar por algo de bom ou muito bom que nos aconteça em cima dessa própria normalidade, tal como ganhar uma lotaria.

O tema recorda-me uma máxima com que contactei há uns ano, que dizia que para se ser rico há dois caminhos: ter muito ou querer pouco. A sorte que temos é completamente diferente quando a mente se sintoniza num lado desta proposta ou no outro. Há muita não-ocorrência que participa no processo pessoal de sorte ou azar, só porque ser invisível, nem sequer num cartaz somos alertados para ela. Ninguém  a premeia, mas é uma excelente cautela a ter num sorteio a nosso favor.

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