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Sobre o modo como a velocidade das transformações afeta o modo como as vemos , e o conceito de ganhos de causa como alento em tempos de mudanças lentas

1814 Frost Fair,  Fire-eater - Julia Fullerton-Batten (2019)


As transformações que desejamos ver acontecer no mundo, tal como aquelas que desejamos evitar que aconteçam, vêm associadas a constantes de tempo que regem a apreciação que fazemos da evolução desses casos. Pela dimensão temporal variável, processos rápidos tendem a ser vistos como transformações intensas, e processos lentos como ausência de transformação de todo. Esta assimetria remete para o que em nós é a noção de produtividade dos processos de mudança, havendo na minha opinião um viés cognitivo que favorece a rapidez e que penaliza em excesso a lentidão.

Acontece que a velocidade da mudança não é linear, como de resto não o são tantas coisas sujeitas à dinâmica humana e/ou natural. Que o diga Malcolm Gladwell, no seu livro Tipping Point. Não devemos dar, portanto, a velocidade como um dado adquirido num processo de mudança.   Do mesmo modo, não devemos cingir a análise das transformações a contrastes binários do tipo sim ou sopas, all-in, ou vai ou racha, porque há matizes de vitória e de derrota nesses processos que não cabem nesses casos limites. 

O que a realidade me vem aclarando nos últimos tempos é a importância de focar no que tenho definido como os ganhos de causa, que são nada mais nada menos do que vitórias (ou derrotas) parciais, que vão fazendo pender o braço de ferro da transformação num dado sentido. É uma leitura mais paciente do mundo, e por isso contrária a estilos e egos impulsivos, gulosos, inquietos. Porém, é uma estratégia que dá alento onde estes últimos encontram desolação, descrença, impotência, e que permite detetar sinais de que o processo de mudança está mesmo em marcha. De ganho de causa em ganho de causa é possível alterar o status quo, mas este é um trabalho que vai parecer pouco intenso e inconsequente até, pelo menos até que algo de maior monta finalmente comece a vislumbrar-se. Haja fé no poder transformacional dos ganhos de causa.


Publicação original: 03/2023
Revisão: 10/2024

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