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Sobre a ousadia social de um idoso que conheci

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Confesso-me um generoso admirador das apetências sociais de alguns portugueses já com a sua idade, gente que prima por uma postura pública que para mim é exemplar, fundamentalmente pela concretização oral das suas observações, uma fácil criação de conversa que se afigura inesperadamente natural e surpreendentemente prazerosa.

Foi nesse contexto pessoal que fui surpreendido pelo senhor Américo Silva, um idoso de boa dicção e cuja bagagem cultural eu pressupus mal o ouvi falar. Conheci-o hoje na sala de espera do Hospital de S.João. Com uma calma e naturalidade que eu não conseguiria ter na abordagem a um estranho, fitou-me enquanto lia O Ano da Morte de Ricardo Reis, e disse-me: “O senhor desculpe, por acaso está a ler o Caim?”. Este foi um ponto de partida para uma conversa que durou mais de hora e meia, e que me alheou por completo das demais pessoas, e do tempo si.

O senhor Américo deve ser daquelas pessoas que viveram uma vida habituados ao contacto pessoal, familiarizado com a abordagem directa a pessoas: notei isso pela forma respeitosa como encarou as minhas opiniões, e como foi conquistando a minha confiança pela valorização do que lhe dizia. Hoje em dia estudam-se técnicas de comunicação, saber como falar numa entrevista de emprego, como falar em público, e eis que tive eu uma aula dessa natureza gratuitamente. Falámos privilegiadamente de religião, mas também de ciência, da vida, de Portugal e do mundo.

Eu olhava para a sala de espera do Hospital e pensava o que estariam a pensar as outras pessoas, gente que certamente aguardava a alta de familiares ou notícias que poderiam até nem ser positivas. Pois bem, eis que me rendi ao Senhor Américo com toda a sua vontade de comunicar comigo, e me abri com ele falando do que pensava sobre as matérias que o mesmo ia levantando. Acredito que ambos aprendemos, como de resto é esperado que acontece quando um jovem e um velho comunicam abertamente e honestamente. Bem haja, Senhor Américo, pela sua ousadia social.

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

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  2. é o que acontece quando nos jovens percebemos que tambem precisamos aprender coma s geraçoes anteriores...

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  3. Caro Marcelo Melo
    A sua experiência de hoje só vem confirmar, se é que era preciso confirmação, de quanto saber pode existir em cada idoso que por nós passa.
    Mas, no seu texto, o que me impressionou (se calhar não devia, pois considero que de si conheço o suficiente para o adivinhar)foi a forma carinhosa como falou do senhor Américo Silva, a consideração que exala das suas palavras, a admiração por uma pessoa que entrou na 3ª idade. Isso é de salientar e enaltecer. Você, meu caro amigo, está bem preparado para a vida, porque a sabe respeitar.
    Com um abraço deste seu amigo.

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  4. Caro Poeta do Penedo,

    Muito haveria para contar sobre essa conversa que tive, a qual dificilmente esquecerei porque se revestiu de pormenores deliciosos que guardarei por uma ocasião oportuna, na qual possa colocar este senhor e aquele momento no devido patamar do meu reconhecimento e agradecimento.

    Posso-lhe adiantar a si, no entanto, que a determinada altura da conversa revelei ao senhor Américo que, mal me sentara nas cadeiras da fila de espera, e já me apercebia que aquele senhor haveria de ter uma relação próxima com as palavras e com o conhecimento, visto a sua eloquência situar-se acima da média.

    A velhice esteve presente em força no meu crescimento, não raro em 2ª pessoa na minha educação, talvez seja isso que o caro Poeta do Penedo sentiu nas minhas palavras.

    Até breve,

    Marcelo Melo

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