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Sobre nobres razões não-monetárias para se manter um blogue, e a turbidez mental ocidental na utopia do lucro



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Na qualidade de blogger há mais de uma década, manifestei-me recentemente em fórum próprio contra uma forte tendência que leva inúmeras pessoas a quererem iniciar ou avaliar blogues tendo como principal mote a monetização dos mesmos e a propiciação de lucro com a atividade de publicar. O meu insurgimento resultou de me parecer haver uma autêntica avalanche de expectativas capitalistas e de começar a ser difícil preservar na memória colectiva que é possível e legítimo ter projetos editoriais pessoais sem que o sucesso ou continuidade destes tenha de ser afinado pelo diapasão dos retornos monetários.

Nessa mesma crítica, invoquei quatro missões não-monetárias passíveis de ser abraçadas em qualquer projecto pessoal, a saber: fazer trabalho voluntário; ser um educador/pedagogo; promover a cidadania ativa; e constituir uma fonte de inspiração para os outros. Apesar de poderem ser conciliadas com formas de monetização (fica ao cuidado e critério de cada um), a aposta numa ou várias destas quatro missões remete o esforço e a dedicação para domínios nobres e porventura intangíveis, capazes de tranquilizar aquele que publica relativamente ao seu contributo para a comunidade, e de o motivar a perseverar independentemente dos caudais de leitores e seguidores que granjeie.

É que na base desta distorção das coisas está uma febre por lucro que vamos encontrar hoje como esteio primordial do pensamento ocidental: uma espécie de simbiose capitalista e tecnológica, que se alimenta de progresso na busca do Santo Graal do sucesso económico enquanto sinónimo de felicidade. Nesse rumo, como que o sucesso económica nos salvará das maleitas mundanas, dos outros e seus planos, e de nós mesmos (emocional e intelectualmente falando). Pelo meio definham formas de estar nobres, sadias, e poderosas, que desde os primórdios da humanidade nos acompanham e fazem felizes, e que muito pouco têm que ver com o tilintar de moedas ou com o imprimir de extratos bancários.
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Sobre a monocultura e a policultura, e o denominador comum deste debate na agricultura, educação e cultura, ao som de 'Fields of Gold' (Sting)


Open Door - Helen Lundeberg (1964)

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Contactei recentemente de forma mais substancial com o embate ideológico existente em torno da visão para agricultura que opõe os defensores da policultura ao status quo industrial da monocultura. Excusando-me a desenvolver o que sei ou não sei sobre as diferenças técnicas, políticas e filósoficas de cada corrente, prefiro concentrar-me no paralelo legítimo que se pode traçar com os embates que outros travam em quadrantes diferentes da sociedade, como são o da educação e o da cultura.

É que quem defende as policulturas na agricultura, defende a liberdade de deixar nascer e crescer o que naturalmente (local e tempo, logo conjuntura) encontra condições para vingar. Falamos da chance de colher o que cada a época (cada geração, cada era) dá de melhor, e da chance de diferentes espécies cohabitarem e se autoprotegerem naturalmente pelo efeito de grupo, que previne pragas absolutas (leia-se de conhecimento e maleitas) e razias de desempenho (leia-se competências e ideologias). Veja-se então o que sucede na cultura e na educação (à falta de mais exemplos), e se muito do questionamento do status quo atual não incide também ele no combate à uniformização  (monocultura) excessiva dos métodos formativos ou na hegemonia e viralidade de uma cultura musical, cinematográfica, alimentar, estética (e outras) que aprisiona as preferências na estreiteza e especificidade que se permite e celebriza.

Veja-se também o modo como o embate da monocultura vs. policultura tem, no universo agrícola, a mesma dificuldade em afirmar-se que a educação ou a cultura têm no questionamento dos respetivos status quo. Os argumentos da rentabilidade económica imediatista e da utilidade objetiva  superam expectativas de ganhos imateriais a médio ou longo prazo, e as discussões perdem-se na utopia de um futuro melhor vs. no pragmatismo de um curto prazo mais eficiente e lucrativo. A multidisciplinaridade técnica e específica destes diferentes domínios e áreas societais não consegue ocultar que a batalha é a mesma, e que há sempre quem não deixe de imaginar um mundo menos ditatorial e mais respeitador da multiplicidade de forma e conteúdo, balizado pelo respeito ao próximo e à natureza/universo. Só assim o mundo pula e avança.

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Sobre o documentário 'Wild Wild Country', o guru Osho e o seu projeto de Rajneeshpuram, ao som de 'Land of Hope and Dreams' (Bruce Springsteen)



Os reinos da espirtualidade, tipicamente traduzidos na forma de religiões ou de associações catalogadas como seitas ou bandos, deparam-se invariavelmente com problemas de coerência decorrentes do desafio da plasmação prática dos preceitos espirituais que preconizam. É que a operacionalização de uma fé, doutrina ou ideologia implica o alargamento da teia de relações e causalidade à complexidade do mundo real, mundo esse que carece de uma leitura e interpretação (ou seja, construção de perspetivas) unívoca, cenário que se torna pródigo em erros de posicionamento e impossibilidades de consensualidade.

Esta convicção foi particularmente bem cristalizada após visionar o documentário Wild Wild Country, em torno a comuna norte-americana Rajneeshpuram, construída de raiz para albergar o guru indiano Bhagwan Shree Rajneesh (Osho) e seus seguidores, e fundada numa remota localidade do estado do Oregon. Naquela que foi algures chamada de experiência social com vista a provocar um despertar de consciência nos EUA, esta comunidade cresceu sobre regras morais próprias e numa lógica de autonomia e sustentabilidade, mas rapidamente colidiu com a envolvência - as comunidades locais - que não partilhavam os mesmo valores e que a viu como empecilho.

Da paz à guerra é uma questão de muito pouco tempo, e nem aqueles que tentam plasmar na Terra preceitos espirituais pacifistas conseguem, em verdade, fugir à inevitabilidade de que a Terra é por norma palco da imperfeição e das consequências dessa imperfeição. Osho e a experiência de Rajneeshpuram, pese embora os vários erros cometidos, ficam para a história como uma bem sucedida experiência social centrada na partilha ideológica da espiritualidade, que mostrou como uma comunidade consegue sentir-se livre mesmo não estando sempre em democracia, desde que os ideais fundacionais sejam genuínos e prevaleçam na maior parte do que se pense, diga ou faça. O resto é ruído, política, e luta de egos.


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Sobre haver cepos e cepos, e não ser claro o que pode significar, afinal, "ser-se um como um cepo"


Collision of Accumulated Progression - Kishio Suga (2009)

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A palavra "cepa" está associada a raízes grossas (sobretudo de videira). Já "cepo" remete para troncos cortados transversalmente, que se mantêm ligados à terra e ao sistema de raízes mas que não possuem o fulgor vertical característico dos ramos e ramagem. Apesar ser sinónimo de estagnação e ausência de consequência, a vida só não é possível com oposto do cepo, ou seja, estruturas vegetais que se mantenham vivas só com um bocado de tronco mais o sistema de ramagem (sem raízes). Posto isto, a vida é melhor preservada na forma de "cepo" do que no seu oposto. Claro que no meio, e preferível, é poder contar com a estrutura completa: raízes, tronco e ramos com folhagem.

Acontece que a vida e as estações do ano não permitem que a folhagem, floração, e frutificação se aguentem permanentemente nas plantas (tal como em todos nós), conduzindo a períodos em que o tronco e a raíz prevaleçam (e eventualmente alguns ramos), e aguentem a planta. Acresce a isto a invenção funcional da poda, que reduz o desperdício de recursos da planta (e do homem) e que permite reorganizar as energias para pontos de desenvolvimento mais estratégicos. Há árvores que depois de podadas ficam "cepos" autênticos, mas isso não quer dizer que não voltem a ramificar, ganhar folhagem e frutificar. Estão apenas em transição. 

Postas estas considerações, não é assim tão óbvio que a associação de alguém à imagem de um "cepo" seja de todo um desprestígio. Cepos há que são exemplos de eficiência na manutenção da vida, crescendo com menos ambição e mais tino, expandido-se apenas dentro do razoável e necessário, e preservando na sua moderação um sábio sentido de vida pouco assente na competição desmedida pela exuberância e pela grandeza. 
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Sobre a predisposição natural para o erro, e o motor comum que tanto gera problemas e como soluções na vida, ornado por 'Lucioles' (Alexander Calder)


Lucioles - Alexander Calder (1972)

A imperfeição humana acompanha-nos como uma condição umbilical de se estar vivo. Cometemos erros quase por uma predisposição para não conseguir fazer sempre igual até ao fim dos nosso dias. Surge sempre uma falta de atenção ao virar da esquina, ou uma noite mal dormida ou convulsão emocional que deturpa a habitual forma de estar e ver as coisas. Ou então, existe sempre uma pulsão criativa que leva a interpretar a realidade com novos olhos, e a testá-la sob novos ângulos.

Por outro lado, as mutações ao que já somos, fazemos, pensamos, são precisamente as fontes dos maiores problemas e das maiores soluções com que nos deparamos. Essa dislexia faz porventura parte do melhoramento das características das espécies, como também é motor da manifestação de anomalias e descontrolos metabólicos. Ambas derivam da mesma fonte, mas destoam no desfecho funcional que implicam. São a possibilidade de um fim feliz ou de um fim triste, revelando uma natureza polarizada mas interligada, catalisando no homem um motor (do tipo yin e yang) que lhe desbloqueia o presente.

Uma parte significativa do buliço mental e emocional das pessoas joga-se na minimização de erros ou na gestão da ocorrência destes, particularmente pelo lado doloroso que estes acarretam ao corpo, à reputação, ao ego, e sabe-se mais a quê. Porém, não é preciso ir muito longe para ouvir falar da pedagogia do erro, do modo como este é fator de crescimento. O erro faz crescer quem o comete, mas também faz sofrer quem o comete. Quer isto dizer que para crescer é (quase sempre) preciso sofrer? Indo um pouco mais além: pode o erro e a inconstância na abordagem ao mundo ser caminho para uma maior felicidade futura ?
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Sobre a relativização do tempo e espaço nos noticiários internacionais (Luc de Brabandere), e a importância desigual destes com o contexto


untitled - Jun Kaneko (2017)

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« CNN makes a mockery of time zones like a fly makes mockery of an air pocket. CNN clocks only have one hand – the minute hand. The right is news time, and that’s all that matters. The newsreaders don’t say “good morning” because there’s no morning, and they don’t say “good evening”  because there’s no evening. They’ll say “it’s night-time in America, midday in the Middle East, and morning in Europe”, or something like that. They say “welcome” 24 hours a day and they don’t say “good-bye” but “see you soon”. On CNN, time doesn’t exist any more than space does. Where are all these mornings and evening speakers, anyway? In the United States, in “duplex” on mission, or on a time delay? CNN is perpetual-motion media. The clock has only one hand. »



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Sobre a quebra do segredo justiça ser ilegal mas poder ser justa, e o entendimento civil da justiça à luz do binómino igualdade vs. equidade


här - Elis Eriksson (1963)

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Violar a lei é errado no código de valores pressuposto por essa lei. Porém, como a lei não é a justiça, antes uma tentativa de garantir justiça numa sociedade, a sua eficácia e adequação estão longe de ser dados adquiridos, pelo que violar a lei pode ser ilegal mas justo. Posto isto, estranho quando vejo gente agarrar-se dogmaticamente ao estrito cumprimento do segredo de justiça, na forma de intransigente objeção à revelação jornalística de factos sobre crimes cometidos no domínio da coisa/causa pública, onde pode haver privacidade mas não é suposto haver segredos.

Parece-me a mim que o binómio igualdade vs. equidade faz com que aqueles que fundam a sua compreensão do mundo no conceito de igualdade achem que não se pode quebrar nunca o segredo de justiça independentemente da gravidade dos factos. Já os subscritores de um modelo assente na equidade conseguirão porventura perceber que a justiça real reside em diferenciar as coisas quando essa diferenciação equilibra a sensação de justiça no plano geral. Assim, em equidade poderá justificar-se que se viole a lei (quebrando o segredo de justiça) para se combater a injustiça, sobretudo quando os visados  envolvidos foram detentores de cargos ou de decisões/negócios públicos (escrutináveis), e/ou quando estão no limiar de ter construído uma teia ardilosa com vista a poder escapar ao fôlego de apreciação de uma investigação e julgamento formal. É tão injusto quebrar o segredo de justiça como tratar como igual aquilo que é diferente (como um crime maior do que aquele que um tribunal consegue em tempo útil investigar e julgar).

Para terminar, recupero uma reflexão publicada neste espaço anteriormente, no qual elogiei "o levar uma vida simples" pela "sua vantagem aquando de investigações criminais". A este respeito, recordo a seguinte passagem: "Levar uma vida o mais simples possível, operando sobre ela através de decisões e reorganizações necessários para tal, é uma meta que muitos dirão ser de ordem metafísica ou espiritual, mas que arriscaria dizer ser também de segurança pessoal e de justiça. A dita simplificação, que assenta na ideia de nos focarmos progressivamente mais no que em nós é superior, decisivo e intemporal (e não no inferior, fútil e passageiro) trás como sinergia positiva uma igualmente menor complexidade na relação com o mundo, mais precisamente com os outros seres humanos". Ora não há vida simples quando existem offshores, quando se compram pessoas, ou quando as conversas que se têm em privado são diametralmente opostas (em sentido e ética) das que se teria caso as mesmas fossem de consulta pública.
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Sobre o retardar do amadurecimento através do culto ao conforto (Agustina Bessa-Luís), ornado com 'Photosynthesis' (Willy Verginer)




Photosynthesis - Willy Verginer (2017)

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"O contacto premente com os radicais problemas da vida moldara-a desde a infância, amadurecera-a depressa, tornara-a incapaz de folgar com aquelas cândidas raparigas a quem o conforto retardava, prolongando-lhe os tempos infantis."

A Sibila - Agustina Bessa-Luís
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Sobre a intemporal e omnipresente moral da ascensão e queda de Ícaro, e o desafio da ambição e do equilíbrio nos dias que correm



Icarus flying high - 3vial Art (2018)

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A icónica história mitológica de Ícaro fala-nos de um homem que ambicionou algo e que mobilizou esforços para o conseguir: idealizou voar com as asas com que lhe foram concedidas, mas não obedeceu à regra básica (proferida pela experiência de vida) de não se aproximar demasiado do sol. Assim aconteceu a Ícaro: teve o céu para si e a liberdade de voar, e no entanto despenhou-se pela consequência da sua ambição desmedida e do seu descontrolo durante o processo de vôo.

Esta história muito merece figurar no plano formativo de qualquer jovem pessoa e de ser inclusive recordada no decorrer da vida adulta, porque a vida proporciona oportunidades que são ao mesmo tempo (e praticamente sempre) armadilhas "solares". Vivemos com uma ambição de conquistar mais, de conseguir mais, de ambicionar mais, sob o mote de que isso nos faz saudavelmente esticar o nosso limite físico e psicológico, bem como romper para novos paradigmas e patamares de realização. Mas o "mais" pode facilmente desembocar num "demais", e ser esse o preciso ponto em que as asas de Ícaro chegam à proximidade fatídica do sol em que a cera que as consolida e aguenta começará a derreter e colapsar.

O derretimento das asas de Ícaro é o produto do dizer português de que "tudo o que é demais é exagero", mas o desafio real é que em pleno voo nem sempre é discernível quando é que estamos no risco de cair nesse exagero. Só com bom senso (um elixir natural) e com o salutar cultivo do equilíbrio (e das virtudes) é que os exageros podem ser detetados a tempo de corrigir a distância ao sol, ou seja, a ponto de evitar que as asas dramaticamente derretam e vivamos um subsequente período de queda a pique rumo ao duro solo lá em baixo.
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Sobre as 'rotundas' e os 'semáforos' na gestão e regulação da coisa pública, ornado por 'A proportion calculator' (Alyson Souza)


A proportion calculator - Alyson Souza (2018)

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Hoje, enquanto conduzia, vislumbrei de repente que a forma mais inteligente (enquanto engenheiro) de tornar a coisa pública mais eficiente e justa, é dotá-la de mais "rotundas", em detrimento de "semáforos". Isto porque um semáforo é projetado num determinado conjunto de premissas obtidas através de um estudo de projeto (tipologia do cruzamento, nº de carros em cada sentido, etc ) e o seu sucesso depende diretamente deste estar ajustado às premissas iniciais e à não modificação das mesmas ao longo do tempo.

Ora uma rotunda cumpre o mesmo propósito regulatório e utilitário de um semáforo, mas fá-lo de modo menos pré-definido e deslocado do que pode suceder ou mudar em tempo real. Ela respeita na mesma as possibilidades do cruzamento bem como os fluxos previstos para cada sentido (e como bónus permite sempre a inversão de marcha). Porém, não tenta sequestrar a realidade, com todas as suas nuances (por exemplo, à sexta e ao sábado a realidade pode ser diferente), nem regular sobre coisas quando estas não se aplicam (por exemplo, na ausência de carros). Mais, mesmo que algo mais estrutural falhe (por exemplo a tecnologia), esta solução permite ainda assim o cumprimento do fim  último para o qual foi concebida e implementada. É, nesta perspectiva, um conceito mais robusto.

Com isto, o vislumbre rodoviário reforçou em mim a convicção de que o Estado precisa de inovar honrando bem os seus compromissos logo à primeira, e isso poderá significar idealizar mais "rotundas" para as diferentes atividades que tem de regular e gerir. Soluções equivalentes a "semáforos" obrigarão a retoques e revisão constantes, que dificilmente libertam os políticos e autoridades, como tampouco libertam os cidadãos para um mais livre e responsável exercício dos seus deveres e direitos.
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