O livro A Aristocracia do Talento - Como a meritocracia criou o mundo moderno [tradução não oficial do título em inglês, pois o livro não está traduzido para português], da autoria de Adrian Wooldridge, é um compêndio não escolar sobre o papel da meritocracia na história da humanidade até aos dias do agora. Está escrito com dedicada elaboração, evidenciada por uma vasta citação de início ao fim, mas, sobretudo, pela atenção ao detalhe. Dos discursos políticos às figuras marginais na história mas centrais para ganhos de causa no tema da meritocracia. O autor é ainda generoso no reconhecimento de outras vozes e livros, concorrentes à sua e ao seu livro, procurando reunir pela sua escrita o melhor e o mais completo que se pode destacar no percurso temporal do mérito nas diferentes sociedades, especialmente a norte‑americana e a britânica.
Tendo eu referenciado este livro pelo interesse pessoal sobre o tema do mérito e da meritocracia, não antecipei duas coisas que aqui partilho. O assunto é eminentemente histórico, e portanto falar dele é falar de marcos como a queda das dinastias e linhagens de sangue enquanto privilégios de classe sucessórios; o dealbar do reconhecimento de que quem é excecional não gera forçosamente descendência privilegiada cognitivamente; o reconhecimento do talento versus barreiras do preconceito ou limitação étnica; os direitos das mulheres ao mérito; e, ainda, a história da afirmação do sistema académico centrado em critérios objetivos de elegibilidade, em tenra idade ou em admissão universitária.
Menos interessante para mim no que almejava com esta leitura é o tema do controverso QI e em como o esforço civilizacional de traduzir inteligência em métricas quantitativas colide com um mar de limitações metodológicas, desde logo o efeito de vantagem ou desvantagem na qualidade do desempenho medido aportável pelo meio e recursos contextuais do indivíduo.
Por fim, o livro surpreende ao interligar o Brexit e o surgimento de populismo inclusive nos EUA pela autopreservação dos vencedores da meritocracia no cume da pirâmide da mobilidade social, por motivos como o de casarem entre si e com isso internalizarem mais vantagens sociais, mas também pela tentação de usar poder económico para comprar vantagem para que os seus descendentes acedam naturalmente às instituições de ensino mais credíveis e abridoras de possibilidades profissionais. A tese do autor é que esse descontentamento silencioso mas crescente culminou na pressão para o aparecimento de figuras políticas altamente contestatárias do estado das coisas, contra as elites que já não têm um sentido de dever público, que ignoram as desigualdades estruturais que bloqueiam o elevador social aos descapitalizados, e que vivem a trabalhar no seu interesse próprio, inclusive as próprias elites políticas.
Por tudo isto, considero uma leitura importante e pertinente para compreender que a democracia liberal deve à meritocracia muito, mas também que os vencedores da meritocracia criaram condições para furar as próprias regras que, algures, os levaram ou aos seus brilhantes antepassados, a patamares de privilégio económico-social, e que isso fere de morte a justiça inerente a uma aristocracia do talento que se regenere a cada nova geração em função do que vai sendo a essência do mérito em cada tranche histórica vivida.








