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Sobre a abstenção crescente em Portugal, e a (in)disponibilidade para nos comprometermos publicamente com temas coletivos e transversais


Narcissus - Ghazi Baker (2017)

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Em véspera de novas eleições, adensa-se o risco de mais uma vez o número de pessoas que não faz valer o seu poder de voto ser uma ordem de grandeza comparável à dos cidadãos que participa no ato eleitoral pela vertente da tomada de decisão. Na primeira eleição democrática menos 10% não quis votar, e desde então esse valor tem vindo a subir, cifrando-se em 44.1 % em 2015. Isto em matéria de legislativas. Impõe-se perguntar: porque não votam as pessoas? 

Responder a esta questão é um ato de fé. Há quem diga que é da qualidade dos partidos com assento parlamentar, mas nunca como agora houve tantas opções políticas. Há quem diga que é desinteresse pelo sistema político como um todo, e aí, por ser uma resposta subjetiva e estéril, é mais fácil de concordar. Há quem diga que é porque o processo eleitoral ainda é demasiado material e presencial, e as pessoas se  aborrecem de ter ir a uma junta de freguesia ou escola pública para exercer o seu direito de voto. Poderá ser, mas será que é só isso?

Quero acreditar que o problema da participação na política é que as pessoas têm (alguma) dificuldade em comprometerem-se com o quer que seja por mero exercício de cidadania, a ponto de fugirem sempre que possível das suas responsabilidades de cidadão, cliente, usuário ou outras. Queremos cada vez mais poder circular, comprar, consumir, viver sem ser incomodados, sem a maçada de nos comprometermos publicamente com o que quer que seja. Julgo ser aqui que mora o problema da abstenção: a disponibilidade para nos comprometermos publicamente com temas coletivos e transversais é residual. Alguém que trate deles por nós, como que por procuração tácita. A outra metade do país que vota.
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Sobre o filme 'Revolutionary Road', e os dilemas humanos com caráter intemporal que podem abalar o equilíbrio de um casal



Revolutionary Road (direção Sam Mendes) é um filme belo mas complexo, que retrata o drama familiar de um jovem casal com filhos no Connecticut dos anos 50, Frank Wheeler (Leonardo Di Crapio) e April Wheeler (Kate Winslet). Visionado no séc. XXI, a história é extremamente bem-vinda como ponto de partida para um debate alargado sobre o que é a felicidade, os prós e contras dos caminhos para a alcançar, e os percalços que sempre podem surgir.

Traição, parentalidade, empregabilidade, socialização, gestão familiar. Todos estes temas são abordados simultaneamente pelo filme, e a complexidade deste resulta do modo como se cruzam e interligam incessantemente na história. Frank trai fortuitamente April, April trai fortuitamente Frank. April desafia Frank a reinventar a vida em Paris, e Frank vê-se surpreendido com a oportunidade de ascender na empresa quando estava já de saída. April convida para sua casa gente que lhe vem depois desestabilizar a vida com a sua sinceridade desapegada. April decide abortar de um terceiro filho numa altura em que a relação está muito fragilizada com os acontecimentos, e ao fazê-lo acaba por falecer também. Frank fica só, muda de casa, e cria os filhos por si.

Acredito que este filme consegue ser bastante completo, visto que cobre uma miríade de problemáticas que podem abalar o equilíbrio de um casal. Acresce que, ao retratar a vida como ela era nos anos 50, a história mostra como há dilemas humanos com carácter intemporal, e que os usos e costumes de cada época não os impedem de se continuar a repetir. 
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Sobre o livro Factfulness (H. Rosling), e evidências factuais mas em contracorrente de que habitamos hoje um planeta melhor do que alguma vez o foi


The RampK.S. Radhakrishnan

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O livro Factfulness tem uma capa e título chamativos, é um bestseller, mas está longe de corresponder a uma certa linhagem de publicações norte-americana que faz escola nas prateleiras de todo mundo pela sua capacidade de impressionar num primeiro momento mas também de fingir que tem mensagens, segredos ou perspetivas de mundo imperdíveis para veicular. Em verdade, é um livro que sumaria a experiência de toda uma vida de um homem muito viajado e instruído, e basta isso para que se demarque dos livros dessa tal linhagem.

Hans Rosling, médico sueco que correu o mundo em missões médicas, elegeu os números e factos suportados em evidência como mote profissional e pessoal, e com isso encontrou uma forma convincente e inatacável de mostrar aos pessimistas ou céticos deste mundo (e não são poucos) que habitamos hoje um planeta melhor do que alguma vez o foi. Se lhe custa a acreditar leia o livro e aborreça-se com o caudal de evidências que demonstram isso mesmo. Rosling mostra também como vivemos agarrados a construções desatualizadas sobre os povos e países, tais como os binómios Ocidente/Oriente ou países desenvolvidos e subdesenvolvidos, mas também o agrupamento dos países por religiões.

Aquela que para mim é uma ideia-chave deste livro, é que urge compreender que as coisas podem estar más e simultaneamente estar a melhorar, e que isso é melhor do que quando estão más e pioram ou se mantêm igualmente más. Hans Rosling mostra como as cabeças humanas caiem facilmente numa série de extrapolações e generalizações erróneas, mecanismos que nos fazem compreender o mundo abaixo do que um chimpanzé, com a sua aleatoriedade e limitação de resposta e entendimento, é capaz de fazer.
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Sobre 'Tender is the night' (F.S. Fitzgerald), e a conjugalidade em contexto de riqueza, misericórdia e apoio psiquiátrico

Cannes, France - Elliott Erwitt (1975)

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Tender is the night conta a história de Dick Diver e Nicole Diver, um casal que se uniu porque juntou o útil ao agradável. A história passa-se nos idos de 1920, e tem como palco a Riviera Francesa, bem como passagens pela Suíça, Paris e outros locais europeus. Nicole é filha de um magnata americano, e padece de esquizofrenia. Dick é um humilde mas promissor psiquiatra.

Nicole melhora das suas crises ao apaixonar-se por Dick, e Dick, enfatuado e fascinado pela posição social de Nicole, aceita casar com ela e tornar-se simultaneamente marido e médico pessoal. A fortuna de Nicole abre caminho a uma vida desafogada e altamente ociosa, que leva Nick a retardar a materialização dos seus planos académicos e clínicos, nomeadamente publicar livros de especialidade. Algures no percurso do casal surge Rosemary, uma emergente atriz americana, imberbe, bela, que acaba por se apaixonar por Dick ao mesmo tempo que se fascina com Nicole. O desgaste da relação cura Nicole e contamina psicologicamente Dick, até que a separação de ambos seja a decisão sensata a tomar.

Uma história forte, que caricatura a vida da elite no continente europeu à época em pano de fundo, enquanto sublinha que misericórdia e amor são propostas diferentes, e que o dinheiro não é tido nem achado para que ambas existam por si só ou se equilibrem conjugalmente.
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Sobre os incêndios florestais serem regra e não exceção em Portugal, e o fogo não ser uma ocorrência natural como ciclones, cheias ou tremores de terra


 Blaze - Andrea Kowch (2019)

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Sem prejuízo de tudo o que de melhor se possa fazer em matéria de organização e combate eficiente a incêndios florestais no período quente e seco do Verão português, não consigo deixar de pensar que quando um fenómeno de grandes dimensões é recorrente a ponto de ser presença assídua no território nacional, então ele não é exceção, ele é regra.

O fogo parece conseguir invocar um estranho estatuto de exceção que faz pender a causalidade da sua ocorrência para os confins da criminalidade ou negligência humanas. O questionamento que se impõe é o seguinte: é o homem diretamente responsável pela ocorrência de ciclones? É o homem diretamente responsável pela ocorrência de cheias naturais? É o homem diretamente responsável pela ocorrência de tremores de terra? Creio que não, e em matéria de incêndios persistentes, ano após ano, talvez também não o possa ou deva ser.

Nisto dos fogos há um jogo de responsabilização permanente que obedece a agendas pessoais ou corporativas egocêntricas. Acabamos sem prestar atenção àquilo que o passar dos anos mostra: Portugal é mais propenso a incêndios do que a cheias, tremores de terra ou ciclones. Ignorá-lo é ficar à mercê do político que quer ganhar ou deixar de perder votos com as declarações que faz, do ambientalista que vê como não natural a ocorrência de um fogo natural e prefere atacar as indústrias, da autoridade civil ou de corporação que quer mostrar que a haver erro não é deles, é dos outros. A Natureza não é tida nem achada nos incêndios, ela é forçosamente uma vítima de alguém muito mau, doido ou ganancioso. Coitada dela e de todos nós.
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Sobre o percurso evolutivo do Homem não passar por regressar ao estado selvagem que encontra na Natureza


Birch garden - Jennifer Hallgren (2019)

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Aquilo que entendemos por natural ou Natureza é função da proximidade em que nos encontramos ou que percecionamos estar do mundo selvagem. Falamos da Natureza no seu estado puro quando queremos aludir à ordem "natural" das coisas, a um estatuto virgem autoregulado por forças e critérios não humanos. Por seu lado, falamos de ambientes artificiais (industriais, urbanizados, etc) sempre que essas mesmas forças naturais parecem estar demasiado condicionadas ou subjugadas ao critério e vontade humana.

Menos comum entre nós é perceber que do mesmo modo que a  presença e atuação são uma forma de produzir impacto na Natureza, a ausência e não atuação também o são. Ocorre-me como exemplo pensar no que sucede com um canteiro de jardim. Alguém um dia concebe um pedaço de terra e trata de o dotar de espécimes e estética a seu gosto, ajardinando-o. Se bem feito, o espaço aparentar-se-á mais natural do que o mato ou ervas daninhas que antes ali existiam. Porém, passado algum tempo, aquele canteiro, pomar e/ou relvado poderá novamente aparentar-se a um matagal, e aí aludiremos à imperfeição humana, ao impacto do homem, mesmo que o colapso do jardim que existia se tenha devido à ausência e inação do homem nos cuidados que o jardim lhe mereciam. 

Talvez por estarmos demasiado em contacto com o mundo processado e determinado pelo homem, fantasiamos a Natureza para lá do que é razoável e recomendável. Se o homem se pautasse pelas regras do mundo selvagem, muitas das conquistas civilizacionais que alcançámos ficariam imediatamente sem efeito: acesso à educação, acesso a cuidados saúde, acesso a pensões e subsídios. No entanto, a vida seria sem dúvida mais natural e próxima das regras da Natureza. Haveria seguramente mais roubos , e também os cânones do comportamento sexual  em sociedade e da coesão familiar teriam de ser revistos. Por tudo isto, a Natureza merece grande apreço e será sempre uma fonte de inspiração para o Homem, mas o percurso evolutivo do Homem não passa por regressar ao estado selvagem que encontra na Natureza. Algo mais deve existir, e por isso não basta ao homem copiar impensadamente a ordem "natural" das coisas. Tem de a ler, interpretar e destilar sentido para si.
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Sobre desembolsar 120 M€ por um talento desportivo de 19 anos, e o sorteio semanal do Euromilhões


Il Flipper - Alberto Sughi (c. 1958)

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O surgimento de um possível negócio ibérico de escala mundial por um jovem português de 19 anos, envolvendo clubes de futebol de Lisboa e Madrid e um montante de 120 milhões de euros, em oportuna hora surge para que reflitamos sobre o que está por trás do valor individual e coletivo das coisas a que nos apegamos em sociedade.

Num negócio desta magnitude, torna-se muito mais fácil de entender as várias camadas que justificam o negócio. A primeira delas é a qualidade do recurso que está a ser vendido/comprado, e sobre isso a estatística, provas e avaliações desportivas ajudam a dar conta. A segunda é a abundância de recursos financeiros que reina no setor do entretenimento, sem a qual um fluxo de caixa desta magnitude seria impensável. A terceira é a perceção sobre a oportunidade, ou seja, a avaliação do momento e o contexto sobre o qual o negócio está envolto, nomeadamente quem mais está corrida par ao fazer e que riscos se correm. Finalmente, em quarto lugar, surge a projeção mediática lateral que quem compra e quem vende consegue alcançar, e que tem um valor económico também em termos de projeção de marca e imagem. Tudo isto vale para este negócio como vale a compra de uma casa ou automóvel por parte de um particular. A escala é que impressiona.

Agora o montante: 120 M€. É mais do que o prémio semanal a que milhões de concidadãos concorrem (Euromilhões). Porém, embora parece e seja muito dinheiro, em cerca de 3 semanas seria possível juntar esse montante recorrendo ao valor despendido por todos os que jogam nesse concurso (e que nada ganham com ele vez após vez). Visto desta forma talvez não seja assim tão proibitivo o montante desembolsado por um jovem de 19 anos que vai entreter todas as semanas centenas de milhões de pessoas durante os próximos anos. À escala de uma pessoa é uma brutalidade de valor, à escala da indústria de entretenimento mundial de que o futebol faz parte, é uma entre muitas apostas comerciais. É que a população mundial não pára de aumentar, e o futebol continua um desporto rei.

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Sobre 'sonhos se tornarem realidade se desejados com o coração' (na voz de Gregory Porter), ornado com 'Three full moons' (Paul Gagner)


Three  full moons - Paul Gagner (2019)


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"When you wish upon a star
Makes no difference who you are
Anything your heart desires
Will come to you

If your heart is in your dream
No request is too extreme
When you wish upon a star
As dreamers do

Fate is kind
She brings to those to love
The sweet fulfillment of
Their secret longing

Like a bolt out of the blue
Fate steps in and sees you through
When you wish upon a star
Your dreams come true"


When You Wish upon a Star - Cliff Edwards


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Sobre os riscos da limitação da liberdade de expressão imposta pela imprensa escrita devido à falta de rentabilidade dos seus projetos


Man Reading Newspaper - Michael Spano (1996)

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A democratização da expressão, que é o mesmo que aludir à capacitação das pessoas de que a liberdade de expressão, tal como o sol quando nasce, é um direito que lhes assiste por igual, veio asfixiar progressivamente a imprensa escrita, que se vê hoje na inevitabilidade de cortar acesso aos conteúdos que se propõe produzir para assim forçar a que as pessoas financiem planos de consumo no digital. (Pedir para o fazer em papel já parece algo do século passado, desapegado da rapidez e estado da arte tecnológica).

É sobejamente curioso verificar que a mesma imprensa que tantas portas e janelas abriu rumo à liberdade de expressão em anos cada vez mais distantes, está a ser enclausurada na falta dela pelo sistema capitalista de mercado livre. São tempos curiosos estes, em que um motivo adicional para as pessoas não lerem é que o acesso à (boa) imprensa está vedado pela própria mão de todos aqueles que a produzem. Sejamos pragmáticos: informação (boa, péssima, má, razoável) é o que mais há na internet, e pagar para a ter depois de anos a contar com ela em abundância e de borla é um retrocesso difícil de contrariar. As pessoas vão-se contentar em ler título e ver capas, ficando órfãs de compreensão mais detalhada e abrangente sobre realidade a envolvente.

Encontramo-nos assim às portas de uma nova forma de truncagem da liberdade de expressão, com prejuízos diretos e pesados para as sociedades. Sem jornalistas e profissionais deontologicamente preparados para gerir a informação noticiosa que chega às massas, estamos à mercê de projetos não-isentos que o façam, nos quais a independência e qualidade da curadoria de conteúdos é de desconfiar, e em que a gratuitidade ou mesmo o fulgor de carteira para patrocinar a sua disseminação deixa a liberdade de expressão à mercê do lobby interesseiro e de iniciativas com fins lucrativos de índole moral incerta.
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Sobre a rota de colisão com a palavra "spoiler" no contexto de ficção gravada, pelo que esta desnuda sobre o oásis da novidade no deserto existencial quotidiano em que estamos metidos


Una Storia Vera - Willy Verginer (2018)

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Há palavras que nos incomodam mais que outras. Os palavrões, pela sua carga emocional e imagem grotesca, são exemplos óbvio disso. Numa órbita menos extrema, encontro-me em crescente rota de colisão com a palavra "spoiler", pelo modo como inundou o espaço quotidiano, e por tudo aquilo que ao tê-lo feito vem dizer sobre nós. É uma palavra que desnuda uma forma de estar em sociedade e um estilo de vida doentio que vem fazendo escola entre nós.

Enquanto fã de futebol, sei bem o valor do direto (ao vivo). Tudo o que esteja a acontecer oficialmente num dado momento tem o seu valor máximo se consumido in loco. É como a comida acabada de cozinhar: o consumo imediato é tremendamente superior ao do momento em que esfria. Porém, a glutonaria que reina na ficção de entretenimento está a forçar a que conteúdos gravados queiram ter as benesses e honras do conteúdo em direto. É assim que se acaba com meio mundo a manusear acusatória ou preventivamente o termo "spoiler" para prevenir ou censurar os que desmancham prazeres e revelam passagens importantes de uma dada história.

A par da "selfie", o "spoiler" é mais um bastião do egoísmo e egocentrismo na relação com o mundo. Advertir alguém de que não se pode falar de um conteúdo gravado porque desmancha o prazer de quem ainda não o viu é um ato deliberado de privação da liberdade individual de expressão em detrimento da satisfação de um plano de vida em que o "ainda não vi e não quero que se fale disso" deve forçosamente impor-se ao "já vi e gostava de partilhar a minha experiência". O "eu" quer silenciar o "tu", porque o "eu" não tem a experiência que o "tu" já teve. A luta de egos faz (também) o seu caminho na voracidade por entretenimento. O oásis da novidade alimenta a sede de prazer no deserto existencial quotidiano.
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