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Sobre a tragédia de Borba (ainda), e o milagre invertido da separação das águas de Moisés


Untitled - Kwon Young-Woo (1985)

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O trágico acidente numa pedreira em Borba situa-se nos antípodas da célebre passagem bíblica em que Moisés separa as águas do mar para o povo o poder transpor. Na versão alentejana separou-se a terra até ao ponto em que o povo foi levado a não mais a poder transpor. Vem isto a propósito de que há mais na Terra quem pense em transpor caminho à custo da possível paragem dos outros, do que em trabalhar para desbravar a passagem para os pares, facilitando-lhes a passagem.

Depois de entrevistadas pessoas relevantes e estudados os ângulos possíveis ao assunto, o milagre de Borba,  a existir, é o de se constatar não haver mais caos no mundo do que aquele que a dimensão das falhas humanas em coisas sérias sugere poder haver. Quando reparamos nas negligências, na ignorância, na mistura de boa fé e comodismo de algumas pessoas imputáveis, do culto nacional à passividade, e o cruzamos com a ganância de lucrar económica ou politicamente com o status quo, piscando ao olho às vantagens do dia de amanhã, é uma total surpresa perceber que o mundo desaba apenas parcialmente quando os acidentes acontecem. Por sorte não há um dominó de derrocadas.

Nos idos de uma civilização menos detentora de meios técnicos e tecnológicos para prever e manipular a causalidade dos seus atos e de alguns fenómenos talvez fosse mais aceitável alegar que qualquer catástrofe só acontece que porque tem divinamente de acontecer. Sem prejuízo da incerteza decorrente das incertas probabilidades de vários desfechos poderem acontecer, não somos nem queremos ser como o povo de Moisés, que dialoga com Deus para aferir o bem e mal. Por cá, o bem conduz não raro ao lucro do homem mais responsável por ele, e para o mal há cadeias de responsáveis que têm de ser responsabilizados nas suas várias formas de prevaricação. Só assim o povo pode continuar a transpor a barreira da impunidade sobre a qual, aí sim, tudo se pode desmoronar em dominó. É o êxodo pela justiça terrena.
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Sobre haver sempre qualquer coisa que está pra acontecer, e que se devia perceber, e a inquietação de questionar mais e mais (J.M. Branco)


Frankly - Veronica deJesus (2019)

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"Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho"

Inquietação - José Mário Branco

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Sobre o excessivo poder dos compromissos comerciais, e a inversão da importância e naturalidade das coisas


envelope’s structure -90 - Kishio Suga (1990)

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Os compromissos comerciais ditam mais do que deveriam ditar. É preciso assistir a um raro jogo de futebol marcado para meio da tarde de um sábado de inverno e parar para pensar no que ali aconteceu. Os compromissos comerciais transformaram uma atividade naturalmente diurna numa atividade noturna, e as contrapartidas disso não são de pouca monta.

Devido a eles, os estádios passaram a necessitar de enormes e dispendiosas torres de iluminação. Devido a eles, milhares de pessoas assistem aos jogos a céu aberto e passam frio, pese embora pagarem a peso de ouro por um bilhete. Devido a eles milhares de pessoas vindas de longe chegarão a tarde e más horas às suas terras natais.

Devido a eles, a noite e a iluminação colocam todo o ênfase no campo e nas publicidades, reforçando o poder de ambos e deslocando-os para um papel motriz. O que é falso: só há jogos se houver interessados em assistir. Só isso cria interesses comerciais, que depois de assinados resultam nos ditos compromissos.

Devido a eles, a estratégia de jogo é ensaiada às tardes e manhãs mas posta em prática à noite, e o equipamento desportivo não contempla proteção contra a potencialmente excessiva luz solar. Devido a eles, ninguém pondera se vai jogador a favor ou contra a direção do sol.

Debaixo de intenso sol de inverno, as figuras que jogam, as entidades que publicitam, e as pessoas que assistem são todas colocados em perspetiva: não passam de peças complementares num todo cósmico com um poder incomensuravelmente superior a cada uma delas. A noite favorece os compromissos comerciais, mas deturpa muitas outras coisas ao desbarato sem sequer olhar para trás para disso tomar consciência. Por este motivo reitero: tais interesses ditam hoje mais do que deveriam ditar, expondo uma das costelas do problema atual da civilização relativamente a valores e hierarquia de princípios.
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Sobre o filme 'O Ben Está de Volta', e a chance do Natal ser território de manisfestação dos problemas que podem morar num lar




Foi envolvido pelo convencional espírito natalício inerente às férias da quadra que me desloquei a uma sala de cinema para assistir ao filme O Ben Está de Volta, assinado e escrito por Peter Hedges, para aquilo que foi um inesperado embate com uma realidade dramática, encapotada pela satisfação de reencontrar Julia Roberts num papel principal desse género (drama).

Na génese do embate está o nem sempre consciente mas intenso património de cultural em torno da celebração do Natal, cuja aura de calor humano e generosidade se difunde um pouco por todo lado apimentado pelas gambiarras piscantes, pinheiros de polímero, e atoalhados vermelhos. Nesse contexto, o filme a que assisti representa uma rotura emocional com este clichê, mostrando que a intensidade do Natal é também propícia a dramáticos desvios à normalidade quando dentro de portas (e corações) há problemas e situações que assim o ditam.

Em particular, 'O Ben Está de Volta' aborda a desesperante situação da dependência de drogas quando vivida no seio de famílias, nomeadamente o perverso modo como conduz à erosão da saúde, dinheiro e harmonia das famílias e comunidades envolventes, inclusive (ou mormente!) num período como o Natal, onde a maior tolerância e generosidade são igualmente fragilizações do estado de vigilância e alerta que tais problemas de percurso não deixam nunca de prescindir.

Por fim, o filme faz uma crítica subtil mas suficiente à negligência ou imoralidade com que profissionais ligados à saúde, passíveis de encontrar em interfaces médicas com consultórios ou farmácias, consentem que o fármaco que salva seja vendido juntamente com o fármaco que mata, eventualmente para a mesma pessoa, ou onde o excesso de prescrição quando um problema de saúde surge venha a ser embrião de uma nova dependência, a do próprio medicamento.
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Sobre os espirros emocionais, e a expulsão do que se sente à custa de um estímulo gatilho



White Flag - Liliana Porter (2018)

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Tendemos a persistir extremamente ignorantes quanto às emoções humanas e aos mecanismos pelos quais se regulam, nomeadamente a sua sazonalidade, as órbitas que com fazem as suas rotações e translações no contexto de um dia ou ano de vida.

Afigura-se-me tentador equivaler o surgimento de emoções nas pessoas com a imprevisilibidade (ou não) com que os espirros ocorrem entre nós. Estes tipicamente decorrem do binómio ambiente-pessoa, do qual nem sempre se está consciente, ou da dinâmica pessoa-pessoa, numa corrente contagiosa que assola em cadeia. 

Em casa, no trabalho, a caminho de qualquer sítio, numa rede social, através do correio, música ou outro conteúdo gráfico, as correntes e linhas passíveis de transmissão emocional são abundantes e naturais face às rotinas. São como os fios eléctricos ou as redes sem fios, que permitem um ubiquidade de sinal da qual até nos esquecemos que coexiste por onde circulamos.

Pelo meio ficam espirros emocionais inesperados, de consequências variáveis, assomos de fúria, tristeza, júbilo ou motivação, acoplados a incessantes cadeias de transmissão sequencial dos mesmos, também eles com consequências imprevisíveis. Recomendam-se ligações à terra, que nos salvem do curto-circuito ou do colapso sensitivo, mas em matéria deste tipo de energia somos ainda frágeis e artesanais, logo permeáveis, sofredores e subalternos às forças da corrente que circulam em nosso redor. Emocionalmente somos praticamente tão vulneráveis como no dia em que viemos ao  mundo pela primeira vez. É uma questão de tempo (e espirros) até percebê-lo.
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Sobre o filme 'Le jeu' (2018) a interseção da tecnologia com a subtileza e variedade personalística das pessoas que julgamos conhecer




'Le jeu' é uma filme francês de comédia lançado em 2018 (direção Fred Cavayé) , que consegue resumir-se a um conjunto de personagens sentados numa mesa de jantar, à espera que os telemóveis de cada um toquem ou recebam uma notificação, a qual deve então ser lida, vista ou exposta com altifalante para todos os presentes. Trata-se de um jogo inesperadamente intenso que um grupo de amigos (e seus cônjuges) aceitam jogar, como picardia de saber quem entre eles guarda segredos e devido ao orgulho dos mais incautos no não dar parte fraca e impedir que tal quebra de privacidade se imponha à mesa.

À vez, cada personagem da história (mas não todas) acaba por ir sendo vítima de contactos externos de pessoas a quem estão ligados(as) por assuntos maioritariamente relacionados com relações ou seduções extraconjugais, mas também assuntos e problemas internos das relações, tais como a gestão de relação com um filha que já é mulher, a decisão de fazer uma cirurgia estética ou o plano de se inscrever uma sogra chata num lar. 

Acima de tudo, e não deixando de ser uma comédia, 'Le jeu' toca brilhantemente no tema das várias camadas que hoje em dia a presença social se permite, e muito em particular o modo como tais círculos conseguem manter-se relativamente independentes entre si pelos muros que as tecnologias permite criar. Pelo meio, o digital e as telecomunicações dão guarida a erupções de quebra de conduta ética ou à exposição de temas sensíveis que é difícil abordar, enfrentar e assumir no dia-a-dia e no frente-a-frente. Por tudo isto, este filme é uma produção cativante, não óbvia, e pedagógica sem deixar de ser divertida, e um excelente ponto de partida para se discutir a interseção da tecnologia com a subtileza e variedade personalística das pessoas que julgamos conhecer.
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Sobre a negligência e tirania das grandes empresas nos problemas reais do quotidiano que infligem aos clientes

Take a number - Andrew Ohanesian (2017)

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O presente ano de 2018 será seguramente o ano das más experiências pessoais em serviços prestados por empresas de renome: uma empresa de viagens, uma de telecomunicações, uma de aviação, e uma grande superfície comercial. Em todos casos, algures no processo de relação com o cliente (comigo) houve uma quebra com o esperado ou um erro próprio e inesperado, levando a que eu, enquanto consumidor, tenha sido involuntariamente lesado. 

Ao desencadear para todos os incidentes os respetivos processos de reclamação, verifiquei que nenhuma entidade foi capaz de ouvir e reagir ao problema com celeridade (prime time), havendo algumas que ainda nem sequer reagiram ao meu contacto. Outras reagiram, corrigiram algo mas nem desculpas pedem. E outras ainda só estão preparadas para nada fazer, pedir desculpa e obrigar o cliente a encaixar estoicamente o dano e inconveniente causados. Ora tudo isto decorre em empresas que investem muito na construção e preservação de uma reputação, desde logo com estudos de mercado, selos de confiança ao consumidor, e assim por diante.

Pessoalmente, acho abjeto o modo como as estruturas empresariais se desligam da realidade humana e decidem operar numa certa mecanização e inimputabilidade. Gastam-se milhões para convencer os clientes no abstrato, e gasta-se o mínimo (zero!) a tentar compensá-los quando são lesados pela ineficiência ou incompetência da própria empresa. Preferem ser exuberantes e cuidadosas no grande holofote (em abstrato), e depois negligentes e tiranas nos problemas reais do quotidiano. Falta-lhes Pessoa.

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Para ser grande, sê inteiro: nada 
          Teu exagera ou exclui. 

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és 
          No mínimo que fazes. 

Assim em cada lago a lua toda 
          Brilha, porque alta vive 

Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

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Sobre o livro 'Memórias Póstumas de Brás Cubas' (Machado de Assis) e o Realismo de escrever pouco mas bem para se contar uma boa história



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Memórias Póstumas de Brás Cubas é um livro único em absoluto, e preferencialmente apreciado por todos os que não apenas estimem uma boa história, mas também encontrem na concisão e criatividade qualidades valiosas em literatura. Num tempo em que se publica a metro e em que muitos mais se deveriam perguntar se se justifica o tempo que querem roubar ao leitor, Machado de Assis mostrou há mais de 200 anos como um bom livro nada tem que ver com o número de páginas escritas.

A história fala-nos de Brás Cubas, na qualidade simultânea de defunto, narrador e protagonista mor do enredo, e com ela Machado de Assis inaugurou e celebrizou para a posteridade a corrente realista em língua portuguesa. Sucintamente, o livro trata do percurso de um jovem privilegiado pela riqueza e cultura, que vagueia pela vida ao ritmo de falsas partidas e ausência de motivos reais de realização. No amor e no trabalho fracassa, e o expoente máximo da sua vida é o adultério prolongado, mesclado com a frustração de coabitar e ser adjunto político do marido da consorte.

A título de exemplo, é extraordinário que um autor consiga abdicar de escrever um capítulo inteiro e  o troque apenas pelo título (que basta para se perceber o avanço na história), tal como é que estonteante que o próprio narrador qualifique alguns capítulos que escreveu (e obrigou o leitor a ler) como sendo maus ou desnecessários. Na minha opinião, o livro vale sobretudo pela forma como o conteúdo está organizado, sem a qual a história poderia a arriscar-se a ser medíocre. Pelo exposto, Memórias Póstumas de Brás Cubas é uma obra de referência em matéria de expressão escrita, que merece e justifica todo o destaque possível na atualidade, sobretudo pela bênção de se tratar de uma produção lusófona.
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Sobre touradas, e a genealogia de formatos de entretenimento em torno de duelos causadores de êxtase ou sofrimento gratuitos


 Plaza de Toros 13 - Hiroshi Watanabe (2000)

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Embora seja um progressista e um adepto da busca incessante por melhorias de compreensão sobre os fenómenos do mundo e sobre o papel do homem nos ecossistemas em que participa, sou forçado a admitir que existe património civilizacional condensado na forma de traços culturais e que estes, se ancestrais ou ditos históricos, merecem a mesma consideração e respeito que a vida de um avô ou bisavó merecem, pese embora estas terem sido bastante diferentes da nossa vida em termos de entendimento moral, científico, social, político, etc.

Acredito que as arenas de tourada são da árvore genealógica das arenas romanas em coliseus, e encontram na atualidade descendência em arenas de futebol com exatamente a mesma função. Na modernidade é homem contra homem, sem direito a violência física ou moral, e tentando ganhar pela vantagem técnica, seja física ou intelectual, na leitura do duelo e execução de uma estratégia para o vencer. Porém, o legado pré-desporto colocou porventura as touradas com idêntico propósito mas sem o desconforto da convivência natural com o risco de morte, a ação militar ou bélica pelas próprias mãos, e de uma relação platónica na forma como os animais participam no raio de ação humano.

Posto isto, embora não me reveja de forma nenhuma no rito que representa a tourada, temo que legislar-lhe uma proibição é renegar arbitrariamente um legado que, a ter de cair, deveria desvanecer-se por falta de adeptos e não por força de um súbito autoritarismo ideológico progressista. Afinal, algo no ritual da tourada continua a existir na sociedade de hoje, quer porque gostamos de confrontos que produzem idêntica chance de êxtase ou sofrimento, quer porque muito do nosso entretenimento, turismo e afirmação decorre de imagens, memórias ou construções onde homens ou animais sofrem ou sofreram maus tratos desnecessários e condenáveis a troco de se arriscarem num duelo para provar algo em que acreditavam ou queriam demonstrar.
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Sobre o traço personalístico português do culto sádico em torno de fazer rolar cabeças alheias (e o exemplo do desporto)

Untitled - Mzwandile Buthelezi (2018)

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Um outro traço personalístico da nacionalidade portuguesa é o culto discursivo sádico em torno de fazer rolar cabeças alheias, resultante da armadilha de canalizar a intensidade com que se sente desaires ou injustiças para extremismos de opinião que desaguam nessas motivações. Encontro no desporto o escancarado exemplo disto, sobretudo porque que a nossa particular forma de estar lusa pode ser, neste mesmo domínio, contrastada com realidades não latinas a decorrer em paralelo.

Um grande clube de futebol normalmente é um centro de várias modalidades, pelo que quando uma destas passa menos bem há sempre como compensar relevando outras. Nisto os clubes fornecem aos amantes do desporto e da competição desportiva válvulas de escape à tensão e desânimo que o infortúnio numa só modalidade possa causar. Mas nem isso impede os fãs de mostrar lenços brancos, assobiar durante os encontros (em claro prejuízo da equipa que dizem prezar) e de vaiar os atletas à saída dos recintos.

Acharão porventura que fazê-lo é da maior justiça, mas eu pergunto: quem acharia justo ser vaiado e despedido do seu emprego à mínima sucessão de desaires? Ninguém! Mais vos digo, a rapidez com se pedem e querem ver cabeças alheias a rolar costuma ter mais a ver com egos próprios e sua satisfação, do que amor ou consideração por uma causa. Isto vale para o desporto, para a política, ou para qualquer núcleo profisisonal. Por isso, quando vejo almas exaltadas a pedir despedimentos, penso que a tristeza do fado que coroa a portugalidade é nalguns fóruns hipotecada pelo triste enfado da expiação sádica. Os meus lenços brancos para essa modalidade existencial.
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