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Sobre oito mil metros de profundidade da tristeza, e a linha recta ser aconselhável à deslabirintação dos espírito turtuosos (António Lobo Antunes)


High dive (dimensions drovided are with frame) - Robert C. Jackson

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" - Você encontra-se (observe-me bem) por felicidade sua e infelicidade minha defronte o maior espeleólogo da depressão: oito mil metros de profundidade oceânica da tristeza, negrume de águas gelatinosas sem vida salvo um outro repugnante monstro sublunar de antenas, e tudo isto sem batiscafo, sem escafandro, sem oxigénio, o que significa, obviamente, que agonizo.

- Porque é que não volta para casa?, perguntou a enfermeira que possuía o sentimento prático da existência e a certeza inabalável de que ainda que a linha recta não seja forçosamente o caminho mais curto entre dois pontos é pelo menos aconselhável à deslabirintação dos espírito turtuosos."

Memória de Elefante - António Lobo Antunes

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Caminhadas pela vizinhança (2020.4): três espécies de mulheres, educação para o bem-estar, e a ética médica não é a única ética

Le Printemps  - René Magritte (1965)

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"Há três espécies de mulheres neste mundo: a mulher que se admira, a mulher que se deseja e a mulher que se ama. A beleza, o espírito, a graça, os dotes da alma e do corpo geram a admiração. 
Certas formas, certo ar voluptuoso, criam o desejo. O que produz o amor, não se sabe; é tudo isto às vezes; é mais do que isto, não é nada disto. Não sei o que é; mas sei que se pode admirar uma mulher sem a desejar, que se pode desejar sem a amar."




"A Educação Positiva corresponde ao desenvolvimento dos saberes tradicionais e dos que levam ao bem-estar. Para a implementar, há, por isso, a necessidade de ensinar as competências do currículo mais as competências do bem-estar – objetivando melhorar a qualidade de vida de alunos e professores. De resto, esta concede uma grande importância aos traços positivos ou “forças de caráter” (empatia, criatividade, bondade, otimismo, entre outras), em conjunto com a promoção do bem-estar e felicidade. Além disso, procura que esses traços positivos conduzam as pessoas a enfrentarem a vida de forma mais resiliente e equilibrada."


"A ética médica não é a única ética, nem essa ética trespassa dogmaticamente todos os médicos. A deontologia médica, como conjunto normativo por que se regem as boas práticas clínicas, não constitui uma ética, não é uma teoria moral. Por isso mesmo, os médicos distribuem-se numa ampla gama entre o “favor absoluto” e o “contra absoluto” da eutanásia, existindo uma grande variabilidade inter e intra-médico, com combinações infinitas perante as mais diversas situações, mutáveis no tempo e sob a influência de uma intersubjetividade assombrosa. O mesmo médico, perante dois doentes diferentes, pode ser a favor ou contra a eutanásia, e estas posições podem não perseverar no tempo. Não existe, portanto, uma ética médica monolítica, graniticamente gravada num qualquer tratado de medicina ética."
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Sobre a produtividade portuguesa, a cultura do burro de carga, e a aposta nas doses diárias recomendadas no longo prazo ao invés de potência máxima todos os dias

Marx and Donkey -  Qin Qi 秦琦 (2018)

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Os portugueses têm um misto de veneração e repulsa pelos povos que são mais produtivos e ricos. Os alemães são porventura a nação referência nesta questão, em que o seu desempenho produtivo serve de exemplo e de castigo para assinalar o tanto que temos ainda de avançar e ambicionar até podermos dar-nos por contentes com as nossas prestações. Sendo certo que queremos ser alemães no desempenho mas portugueses na cultura e nacionalidade, fica em aberto como implementar, à escala individual, uma resposta cabal ao défice de desempenho que nos é permanentemente apresentado.

Vem isto a propósito de encontrarmos demasiado por cá uma cultura do burro de carga, na forma de alguém que trabalhar como se não houvesse dia seguinte  para ver se no dia de hoje garante ganhos e produtividade maiores. Quem alinha por este diapasão facilmente trabalha mais horas do que as que deve, e vai-se esgotando a cada dia um bocadinho mais do que é saudável. Fá-lo para ficar bem junto de todos, inclusive de si, e para mostrar que não foi por ele/ela que não se chegou mais além nas conquistas.

Os alemães têm um provérbio que também deveria merecer a atenção dos trabalhadores e patrões portugueses, a de que o diabo mora nos detalhes. A cultura do burro de carga, por cansar as pessoas e levá-las a perdas significativas de discernimento e consciência da sua envolvência, transforma os trabalhadores em plantas ávidas assentes em solo pouco nutrido. Daí à perda de produtividade é um passo natural, porque o se faz hoje a mais é o que fica duplamente a faltar amanhã, por falta de forças, fraqueza de espírito ou frustração de expectativas. A produtividade pode não ser uma questão de trabalhar mais e mais em espaços de tempo específicos, mas antes num exercício de doses diárias recomendadas (DDR) preservadas também no longo prazo.

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Sobre a paciência da terra e a inquietação do céu, o oferecer horizonte e caminho, e o recuperar um dia o que foi emprestado (José Luís Peixoto)

The Earth - Vlada Ralko (2013)

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"A terra é mais velha do que o céu, pensava. A terra sabe mais. Num dia, o céu muda de juízo a toda a hora, parece um rapaz com o cu aos saltos. Ora acha que há-de escurecer, ora acha que há-de clarear, não pára quieto, não está bem em lado nenhum. A terra tem boa paciência, assiste a essa desinquietação e resolve-a."
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"A terra faz nascer do seu interior. Depois, acautela essa vida, alimenta-a, oferece-lhe horizonte e caminho.A seguir, tarde ou cedo, recupera o que emprestou. Plantas e animais caíram nesta terra, mergulharam na sua profundidade até lhe tocarem o centro. Objectos de toda a história foram recebidos nesta terra. A humanidade inteira, pais dos pais foram recebidos nesta terra onde viveram. A terra é tudo o que existiu, desfeito e misturado."

Galveias - José Luís Peixoto

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Caminhadas pela vizinhança (2020.3): liberdade e verdade, molduras mentais, e a escrita como uma horta

untitled - Marcelo Daldoce (2015)

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"Sociedades da desconfiança. No nosso querido Portugal, no modus próprio dos nossos brandos costumes, continuamos num lugar e num tempo desses, que também entre nós devia ser já aberrante. Vivemos numa cultura assim, no vazio de confiança. Confiança que é condição do desenvolvimento das sociedades e do progresso humano, presos no registo persistente da tradição de inquisições recorrentes que tivemos. Um fenómeno que as redes sociais revelam hoje sem disfarce e com efeitos ainda mais devastadores."


"Every field and industry has its special knowledge, specific vocabulary, and ways of communicating in shorthand. This permits efficiency for those in the same discipline. But it also  limits entry  and is mysterious to those outside – like secret societies with secret handshakes. A person with a law degree might see every conflict as a potential lawsuit, or one with an MBA might see financial disciplines as the solution to every problem. Sometimes the narrow mental frames gained through years of success can be applied in ludicrous ways."

  • 'Nótulas (75)' por J. Rentes de Carvalho no blogue Tempo Contado;

"Nisto de escrita há quem tenha uma quinta, por vezes um latifúndio, mas a maioria, e aí me incluo, tem uma horta. Em geral, quando o digo, as pessoas não gostam. Uns acham pedantice, a outros parece vaidade disfarçada de modéstia, este e aquele aborrecem-se porque consideram que a escrita, aos seus olhos coisa elevada, nobre, não se deve banalizar em comparações que lhe embaciam o brilho. Mas essa é a minha opinião e por ela me fico. A escrita é a minha horta. Com respeito pelo que faço e como o faço, semeio, lavro, rego, podo, corto uns galhos, queimo umas folhas. Sigo ainda o exemplo do hortelão quando ofereço o fruto ou o ponho à venda, o que só faço quando o julgo maduro."
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Sobre o Sol enquanto regente do tempo, iluminação e calor, e a sua omnipresença e omnipotência na 'Criação'

Light Carrier - Sun Daliang (2010-2011)

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Poucas evidências há de contacto real e necessário com o cosmos Criação do que a experiência diária e acumulada da Humanidade com o sol. Este astro que conta no seu currículo com a histórica demonstração de que a Terra (e o Homem) não é o centro do universo, assume uma importância incomparável e quase absoluta para os fenómenos biológicos. 

O Sol rege o tempo, a iluminação e o calor. Pelo lado simbólico destes elementos, falamos de iluminação como imagem de conhecimento, inteligência, inspiração, e falamos de calor para classificar o efeito de camaradagem, empatia, amor que é capaz de ligar seres humanos. Estes conceitos são indispensáveis em quaisquer religiões, mas estas devem-nos à imagética encerrada nas dinâmicas da função solar connosco. Porém, embora várias religiões coloquem muita ênfase na criação e na relação entre Deus e o Homem, preferem abordar e aproximar-se de Deus equivalendo-o a um ser humano superpoderoso, ao invés de o plasmar naquilo que em termos de universo (de 'Criação') aparenta representar o máximo que o mundo físico nos é capaz de proporcionar como evidência. E esse máximo pode perfeitamente ser o Sol, com a sua omnipresença e omnipotência nas vidas humanas, que orbitam metabólica ou psicologicamente em função de condições de luz e calor direta ou indiretamente proporcionadas pelo astro. Não podemos igualmente esquecer que a contabilização do tempo se deve aos ciclos encerrados no conceito de dia e ano, os quais resultam de condições impostas pela realidade solar. O Sol rege-nos também a sensação de passagem de tempo e de progresso, sendo responsável pela metragem com que mapeamos o envelhecimento das pessoas, as fases das plantas e dos oceanos, bem como a coordenação de toda uma população mundial nas seus infinitas constelações de tarefas, postos de trabalho e recriação.

Tecnologicamente muito do que tentamos fazer é contornar ou ir para além do que o sol proporciona. A luz artificial, o aquecimento ou arrefecimento controlados, os incessantes aumentos de produtividade para conseguir encaixar cada vez mais ações no espaço temporal fixo de um dia (balizado pelo nascer do sol e por do sol). A urgência de rapidez e eficiência nos transportes deve-se a que o dia é finito, e ao facto de a luz solar definir e restringir o nosso momento útil de atuação. Essa urgência deve-se o dia termina, e na ausência de luz e calor solar queremos é voltar e permanecer ao nosso abrigo, acautelados dos suprimentos necessários.

Assim, a Vida decorre numa ciclicidade transcendente onde o Sol, na sua apatia e indiferença de astro sem vida humana, é ininterruptamente o regente. Não pretendo com este reconhecimento recomendar que se preste um culto folclórico ao sol (tal como aplaudi-lo), apenas que se reflita que este astro está mais próximo de objetivamente mostrar o que é ser Deus, do que qualquer figura semi-humana que nos mostrem ou preguem debaixo de um teto durante anos a fio.

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Sobre as muitas formas da adversidade, e o dominar das circunstâncias para não acabar dominado por elas (Amor Towles)



I Control the Sun - Lilly McElroy (2016)

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"Foi assim que o Grão Duque se tornou zeloso guardião do Conde. E quando os pais do Conde sucumbiram à cólera, um ano após o outro, no espaço de umas horas, em 1900, foi o Grão-Duque que chamou o jovem Conde à parte e lhe explicou que tinha de ser forte, para bem da irmã; que a adversidade se apresenta sob muitas formas; e que se um homem não domina as suas circunstâncias, acabará por ser dominado por elas. "

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Caminhadas pela vizinhança (2020.2): saberes úteis e inúteis, a política das emoções, e o valor económico de conhecer as pessoas certas


Untitled Watercolor -  Marcelo Daldoce (2015)

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"Os conhecimentos inúteis, rejeitados por Demetrius, não se definem pelo seu conteúdo. Definem-se por um modo de conhecimento, um modo de conhecimento causal que tem a dupla propriedade, ou melhor esta dupla fraqueza, que podemos definir na relação com os outros: são conhecimentos que não se podem transformar em prescrições, que não têm pertinência prescritiva; em segundo lugar, não têm, quando tomamos deles conhecimento, efeito sobre o modo de ser do sujeito. No lado oposto, irá ser validado um modo de conhecimento que, considerando todas as coisas do mundo ( os deuses, o cosmos, os outros, etc)  em relação connosco, de repente poderemos transcrevê-las em prescrições, e elas modificarão o que nós somos.(…)"



" (...) o regime é hoje mais democrático. O leque de pessoas “presidenciáveis” é hoje mais alargado. Se os “afetos” importam tanto ou mais do que a experiência e as qualificações, Cristina Ferreira pode ser apenas a primeira de uma nova vaga de candidatos. Segundo, a nossa democracia está cada vez mais vulnerável a uma política das emoções que mascara a ausência de conteúdos programáticos por detrás da exploração mediática das experiências pessoais."



" (...) “We find strong evidence that the social and business connections of corporate directors are factored into their pay. That is because these increased director connections can lead to new contracts, attract better financing, or provide strategic information that can generate profitable business opportunities.” (...) Ferris found that that increased social connections of directors can increase annual total compensation of a director by as much as $20,550 or about 17 percent of overall compensation."



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Sobre os tiranos, colonizadores e usurpadores de recursos africanos não se deverem à cor, nacionalidade ou ideologia política

Spirale - Alexander Calder (1969)

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Rouba quem está em condições de roubar e, estando-o, não consegue manter-se casto. A história recentes das nações africanas irá mostrar que os tiranos, colonizadores e usurpadores de recursos não têm cor, nacionalidade ou ideologia política. É recorrente e incontornável ao falar da história dessas terras aludir à lastimável herança do saque feito por nações europeias imperialistas. Esse saque, porém, implicou nações ganharem com recursos alheios, e não saques onde cidadãos bem posicionados dessa mesma nação fazem fortuna com recursos nacionais.

É oportuno também recordar a sabedoria popular na sua asserção de que a "ocasião faz o ladrão", mas também contrastar tal naco de sapiência com um outro que muito agradeço que continue a revelar-se certeiro, a de que "a verdade é como o azeite, vem sempre ao de cima". O mundo de hoje é extremamente pródigo e aliciante em ocasiões para ladrões, mas encontra na realidade penal, estatal e jornalística cada vez mais coordenação, capacidade e vontade de denunciar e investigar - quando não misturadas - tais fraudes.

Saúdo portanto os recentes desenvolvimentos que chegam sobre figuras de topo em Angola, não só porque repõem uma verdade importante, a de o saque aos países tão se dá por nações imperialistas como se dá por concidadãos desonestos e privilegiados, mas também pelo extraordinário mecanismo em cadeia com que uma fortuna e o poder conseguem ser neutralizados e diluir-se rapidamente por salvaguardas legais, estatais e mediáticas. Antecipo que este tipo de fraudes compensará cada vez mais apenas no curto prazo, e levará a que o consequente tombo financeiro e mediático consiga ser majestosamente proporcional à magnitude do saque feito.
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