MIND BLOWN - Joe Webb (2022)
Não existem adágios, provérbios ou máximas que se apliquem com total ubiquidade temática e temporal, o que faz com que cada pessoa acabe por se reunir de coleções destes, que vai então aplicando, em jeito de teste de hipóteses, à realidade que a circunda ou inunda. Com o passar dos anos é normal e previsível que a vida passe a ser avaliada sob o poder dessa constelação de adágios, provérbios ou máximas, levando a pessoa a crer que detém na sua memória recursos e ferramentas suficientes para a boa dissecção do que a vida lhe trás a cada maré.
Poderemos perguntar-nos o que seria do nosso esforço cognitivo se não existisse a muleta de fazer encaixar novas situações em conhecimento empírico que se mostrou plausível após largamente crivado pelo tempo. Algures no livro D. Quixote de La Mancha, a personagem de Sancho começa a viciar-se em reagir publicamente com este tipo de dizeres, intercalando tantos seguidos (ex.: em casa cheia depressa se cozinha a ceia, e quem corta não baralha, e a bom salvo está quem repica, e dar e ter requer juízo), e fá-lo como mecanismo de defesa perante a necessidade de se posicionar sobre assuntos que, de outro modo, lhe poderiam escapar ou levá-lo a assumir não ter capacidade cognitiva para discorrer sobre eles.
Acrescentaria também um outro mecanismo que detecto existir, e que decorre de dar uso a ideias, exemplos, entendimentos, atitudes que circulam no espaço público ou mediático fruto de estarem na ordem do dia. Refiro-me à transposição de conceitos ou práticas (exemplo: "recorrer ao VAR num dado assunto", quando uma ocorrência é dúbia e pudesse beneficiar videoarbitragem) como forma de lhes dar um seguimento moral ou avaliativo. Tais analogias concorrem para a formação de determinadas modas/zeitgeists argumentativos, e espelham como o poder ampliativo das redes sociais, podcasts, vídeos curtos permite implantar no imaginário ferramentas de uso expresso (instantâneo) que permitem poupar tempo na interpelação cognitiva de realidades. Um exemplo é alegar que determinada situação é um estreito de Ormuz, ou que o fulano não sei quantos é o Trump ou o Putin de serviço.
Um terceiro elemento que merece referência, e que é terceiro apenas pela enumeração aqui seguida e não porque figure ou o entenda em valor nessa hierarquia, compreende obras artísticas como músicas, livros, filmes, que possam reverter após consumidos para o imaginário de recursos analíticos aplicáveis a situações mundanas. Um refrão de uma música, uma moral de história num filme, um personagem de um livro e seu destino, um nome, profissão ou característica são candidatos a vetores explicativos da realidade.
Conclui-se portanto que num mundo amplificado de estímulos culturais, por um lado as grandes autoestradas de alcance de conteúdos permitem fazer-nos avaliar as coisas pelo que está na moda pensar e dizer, mas também que a raiz cultural ou a procura de conteúdos culturais que reverberem em nós são também elas acervos explicativos da natureza humana. Cabe-nos selecionar e apurar quais adágios, provérbios ou máximas, sejam os mais clássicos ou os mais desfigurados porque contemporâneos, nos servem melhor apostar, testar e validar. Mais do que o saber avulso contido nestes concentrados de entendimentos, é a boa correspondência com a realidade requerente de respostas que faz brilhar toda essa mecânica explicativa assente em formas consolidadas de exercer a compreensão.








