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Sobre o ter “todas as condições para…”

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Imagem: THE MODERN CONDITION - FurnishNY


O trabalho científico executado em qualquer laboratório de investigação digno dessa classificação, onde é crucial garantir que não existem perturbações (desconhecidas ou conhecidas) a cada nova experiência, permite ponderar sobre o que se passa com as nossas próprias vidas, em particular, a tentativa nem sempre racional de se fazer conversa em torno do ter ou não “todas as condições para" algo . Não é difícil compreender que só barrando as interferências é possível sistematizar um fenómeno ou comportamento. Como sucede num laboratório e num experimento de índole científica, para se garantirem que as condições são as mesmas quer se trabalhe hoje, amanhã ou no próximo feriado, é necessário identificar o núcleo de interferências mais prementes e procurar certificar que estas são controladas. Convenhamos que é uma tarefa duplamente difícil: pela vertente da identificação, e pela vertente do controlo.

Pois bem, isto vale para um laboratório. Agora tomemos consciência do quão complexa pode ser uma vida humana, em termos de número de interferências e da aleatoriedade dos seus efeitos, para que se possa afirmar que determinada pessoa tem, tinha ou teve "todas as condições para...". Não, por mais óbvia que pareça uma situação que envolva um ser humano, não detemos controlo sobre essas condições todas e resta-nos actuar sobre as que são tangíveis à nossa acção, influenciar as que prevemos existir mas não são modeláveis directamente, e esperar que o desconhecido não prevaleça sobre o resultado final.

Isto é válido para o sucesso escolar, para o sucesso profissional, para os rumos que se escolhem ou mesmo para a felicidade ou a saúde de uma pessoa. Atentemos bem a esse tique intelectual que é afirmar peremptoriamente que se tem ou que determinada pessoa tem "todas as condições para". Não deixemos de o fazer igualmente para o seu contrário, a propósito da alegação de que "não se tem condições para". Qualquer atitude convicta neste sentido estará condenada a assumir-se como uma simplificação da dinâmica humana e da vida humana, pois tudo se esvai na nossa ignorância e impotência para vislumbrar e com mestria controlar as interferências, num laboratório como na vida.

Por conseguinte, brotam desta impossibilidade casos sucessivos de surpresa positiva e negativa com determinada pessoa, ou porque alegadamente tinha todas as condições e não singrou, ou porque conseguiu vingar a pulso um desejo, ideal ou projecto na sua vida, contra as adversidades que a vida lhe impunha e que levariam qualquer a concluir “inexistirem condições para…”.

Publicação original: 21-12-2010

Revisão: 20-09-2016

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