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Sobre a implementação de um sistema de revisão de pares na sociedade, numa base de meritocracia intelectual e prestígio

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Crossing - Michael Beitz (2004)

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A revisão de pares, sistema que governa todo o edifício da publicação de artigos científicos em revistas de especialidade credíveis,  encerra em si mesmo um mecanismo que revolucionaria qualquer sociedade caso fosse implementado em larga escala aos cidadãos. Imagine-se isto: quer comprar uma casa? Está com um dado problema na vida? Submeta o seu plano de forma estruturada: introdução, métodos, hipóteses/resultados, conclusão, juntamente com todas as informações necessárias à sua compreensão a um painel qualificado para o avaliar, que aferirá e se pronunciará sobre o assunto num prazo de alguns meses. No fim, a decisão continua a ser , mas contaria para além de si com o feedback honesto de até quatro pessoas a dizer-lhe o que acha dessa decisão no seu contexto de vida, e a questioná-lo sobre omissões, erros de raciocínio, ou alternativas ao/no seu plano. 

Enquanto sociedade, este tipo de mecanismo existe entre nós como serviço pago (coaching, consulta médica, parecer, jurídico, simulação bancária, etc), mas em ciência ela existe desassociada de transações financeiras, apenas numa base de meritocracia intelectual e de prestígio entre pares. Ao decorrer nestes moldes, o revisor de um trabalho não tem conflitos de interesse com o assunto que está a analisar, comprometendo-se a opinar sobre ele para o bem comum. É próximo do que um júri civil é chamado a fazer num processo em tribunal, com a diferença substancial de que o objeto da análise neste case não teria de ser um ato ilícito ou suspeitas de irregularidades jurídicas. 

Um sistema de revisão de pares como aquele que aqui refiro seria também uma forma de potenciar a cidadania ativa, porque estar disponível para avaliar anonimamente situações de vida de concidadãos (também eles anónimos) seria um processo de cooperação e voluntariado em prol do bem comum: seres humanos mais felizes por que minimizam os seus erros. Claro que às virtudes de um tal sistema de feedback gratuito teríamos de antecipar os riscos de fraude (manipulação, abuso de poder, negligência, etc), mas estou em crer que os benefícios conseguiriam exceder os prejuízos em larga escala.

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