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Sobre a falácia de que uma imagem vale mais que mil palavras no que toca à correta avaliação de seres humanos

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 Thousand eyes - Louis Touchagues (1960)

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A bem aceite ideia de que uma imagem vale mais que mil palavras ganha outros contornos se aplicada ao aspeto das pessoas. Será que o que visualiamos de uma pessoa vale mais do que mil palavras ditas por ela para comunicar em frases as suas ideias e ideais? Da loira que é conotada como pouco inteligente, ao aspeto físico das pessoas - inclusive roupas - enquanto marcador da sua erudição cultural ou do desenvolvimento pessoal que atingiram, nunca como hoje vivemos numa civilização que se quer ver ao espelho como sendo integradora, tolerante e despreconceituosa, e nunca como hoje os cuidados com a imagem, o corpo, o estilo ou os adornos de imagem atingem píncaros de importância no jogo da construção e preservação da auto-estima individual e sensação de sucesso.

A televisão pública soprou-me aos sentidos recentemente o caso quase esquecido de um encadernador de livros, profissional que ainda hoje dá a livros capas robustas e duradouras de belo efeito para bibliotecas que se querem homogéneas, mas cuja atividade colide com a evolução da própria indústria livreira, onde a capa de um livro é um atributo de imprescindível personalização para que a imagem externa do objeto livro suscite interesse nas muitas mil palavras que oferece. Quanto mais posicionamos os assuntos e a visão do mundo (pessoas, empresas, marcas, etc) numa base mercantilista, mais a diferenciação nos parecerá imprescindível para que qualquer critério assente na seleção, seja a meritocracia ou algo puramente matemático como uma pontuação aritmética.

Se a vida fornece vários contextos em que um primeiro impacto do aspeto é decisivo e um fator de exclusão direto - por exemplo quando há excesso de oferta, ou se tem critérios de procura muito específicos - muitas ocasiões há em que ao primeiro impacto se sucede um segundo, um terceiro e muitos outros mais. Nestes casos, nao tão raros quanto isso, o desafio não é que a imagem valha mais que mil palavras, mas que a imagem não defraude as mil palavras que se lhe seguirão nos encontros seguintes, sob ângulos e situações de espontaneidade distintos. É bem mais difícil falsificar mil palavras do que falsificar a imagem, porque não existe a mesma cosmética, cirurgia estética, nem manobras de distração no que toca aos princípios, valores, e pensamentos que norteiam o conduta e a identidade de uma pessoa. O teste de algodão das pessoas faz-se verdadeiramente na esfera das mil palavras, por muito que o atalho da imagem pareça conseguir ludibriar esta regra e granjear um prestígio e sucesso efémeros. É sempre uma mera questão de tempo até que cada pessoa se aperceba disto. 

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