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Sobre o livro 'a máquina de fazer espanhóis' (Valter Hugo Mãe), e a ideia de que aproximação ao fim de linha pessoal pode ser um terreno fértil para a amizade sincera e solidária

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Holding hands to grow old - Chen Cheng Hsiung(2020)

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'a máquina de fazer espanhóis' (do português Valter Hugo Mãe) é um livro sobre a viuvez, velhice e morte de um senhor de nome Silva como interno do lar de idosos Feliz Idade. Para o meu gosto, o livro é demasiado morno na história, pois não consegue ter grandes e entusiasmantes ápices ou volte-faces, mas não quero com isso sugerir que seja de leitura supérflua. Hugo Mãe cativa pela escrita sempre fluida e desregrada face aos cânones de estilo, pela criatividade de associações, e pelo capricho de dotar cada capítulo de um título de uma frase ou expressão que a leitura do capítulo faz emergir em momentos e sentidos imprevisíveis (nisto assemelha-se a Machado de Assis).

Estou em crer que o título não reflete a ideia-chave do livro, que mais do que ser a propensão portuguesa para piscar o olho à nacionalidade espanhola (como forma de anular as máculas da portugalidade), aquilo que quanto mim esta obra muito bem sublinha e reforça são duas coisas. Primeiro, os perigos inerentes ao depósito tácito de idosos em lares, e a aura de morte e negócio em torno desta que pode perfidamente instalar-se nessas instituições. Segundo, a ideia de que aproximação ao fim de linha pessoal pode ser um terreno fértil para a amizade sincera e solidária, a ponto de substituir o marasmo motivacional e social que a perda do cônjuge pode suscitar na vida do idoso. Um título mais afim com estas mensagens faria mais jus ao mérito do livro.

Por último, referir que é muito fácil de perceber o cunho pessoal da escrita de Hugo Mãe no que toca ao estilo, mas o mesmo não se pode dizer no que diz respeito à trama. O narrador da história é o próprio senhor Silva, e nada nele denuncia a opinião ou vinculação do escritor, exceto num ponto: a frescura mental, ausência de circularidade de ideias, e boa memória são mais plausíveis para o escritor do que para a personagem principal que alimenta a narração. Neste particular contraste com 'Para Sempre' (de Virgílio Ferreira), que também versa sobre a velhice e aproximação ao óbito, mas num personagem com muito menos vigor mental.

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