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Sobre o livro 'Food of the gods' (Terence McKena) e uma intrigante e controversa teoria evolutiva e visão para a sociedade assente no consumo de substâncias alucinogénicas

Mushroom - Hiroyuki Aoyama (2018)

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Food of the Gods é porventura dos livros mais intrigantes que já li.  Sugere uma teoria evolutiva incrível assente na ideia de que o cérebro humano tal como o conhecemos hoje tenha sido produto do consumo da substância alucinogénica psilocibina presente numa espécie de fungo que surgia naturalmente nos excrementos de gado bovino há nove mil anos atrás sob determinadas condições ambientais, a ponto do recorrente culto encontrado ao gado em gravuras rupestres (por exemplo em Tassili n’Ajjer, na atual Argélia) possa querer aludir à viagem mística por ele proporcionada.

O autor do livro - Terence McKena, investigador de etnobotânica - é muito hábil e eloquente na forma de expor e fundamentar como a consideração da hipótese evolutiva dos alucinogénicos encaixa nos vários registos que nos chegam de vários pontos do mundo com referências visuais aos cogumelos e ao modo como as práticas religiosas ancestrais estiveram associadas ao contacto com o divino pelo consumo de substâncias indutoras desse contacto. A narração faz uma cabal ponte evolutiva até aos dias de hoje mostrando como substâncias de substituição (canábis, ópio, açúcar, cafeína, cacau, álcool, cocaína, heroína, etc) foram aparecendo devido à ausência de condições necessárias à ocorrência natural da substância psilocibina ou sucedâneos. Esta resenha desagua no contemporâneo problema norte-americano com as drogas, levantando conspirações sobre o papel âmbiguo do governo na gestão do problema.

E é a partir deste ponto que me afasto e refuto a tese final do livro, pois não subscrevo que seja o regresso a uma prática xamânica nem o repúdio da ciência aquilo que precisamos para melhorar os destinos da humanidade, inclusive em matéria de dependências. Se McKena tem todo o mérito ao mostrar que o ser humano tem sido um ser vivo repleto de dependências químicas e hábitos sob alçada de oscilantes critérios culturais e morais, isso não quer dizer tudo o que tenha resultado da sociedade de ego dominante, de motor científico e tecnológico, deva ser posto em causa, a troco da liberalização do consumo de alucinogénicos. Não obstante esta forte divergência com o final do livro, a sua leitura é preciosa e urgente, pois mostra o poder de nos confrontarmos com novas hipóteses sobre a identidade do homem e o seu papel na natureza. 

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