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"Confissão", do russo Leo Tolstoi, foi a minha estreia com o autor, e não posso dizer que tenha sido satisfatória e apaziguada. O livro não é de ficção, sendo antes um ancoradouro de pensamentos, perspetivas e aprendizagens que o escritor narra em torno do mistério do sentido da vida. Após ter experimentado o sucesso profissional e uma vida pessoal de privilégio, Tolstoi desespera por uma resposta convicente que o tranquilize e permita viver sem ter de ponderar o suicídio como inevitável.
De um livro espero sempre alguns requisitos base, e um deles é a organização. Quem escreve tem por antecipação todo o tempo do mundo para resolver conflitos e dúvidas que manchem a grande ideia que justifica a publicação do livro. Tolstoi escreveu "Confissão" sob angústia, desnorte, e vertigem de desistência. Procura aclarar os mistérios da vida agarrando-se inutilmente ao que sobrevive ao seu crivo racional, desde logo a fé e a vida assente no dogma, mas nem essas.
É possível que o mérito de um livro seja a problematização e uma enchurrada de arrasos a vários caminhos de falsa partida para processos de resposta. Porém, creio que Tolstoi deveria ter abortado a publicação deste livro, porque não chegou a lado algum com ele, e roubar o tempo de leitores para chafurdar no seu ziguezague emocional e anímico, é deveras espúrio. O voyerismo está longe de ser um farol para respostas de índole metafísica, mas é único prémio veiculado ao leitor nesta experiência de leitura.
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