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Sobre o porquê do perfil educado, obediente e previsível não bastar para se atingir o ápice do desempenho: uma questão de impacto

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Impact - Gigi Scaria (2023)

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Ser bem educado não raro se (con)funde com ser obediente. A obediência é uma forma conservadora de assegurar a tranquilidade social e hierárquica, de existir e produzir de acordo com cânones comportamentais de causa-efeito antecipáveis, e conflui em idade escolar para a ideia de um bom aluno quando casada com a ideia de se ser aplicado e esmerado no corresponder às expectativas tutelares e no superar dos desafios diretamente colocados sob a forma de exames planeados para aferir a aquisição de conhecimentos e competências.

Não é de espantar que o mercado de trabalho, para os escolarizados, seja encarado como um jogo de saber corresponder às expectativas e superar os desafios que a cada um sejam colocados no decorrer do seu percurso. O viés que se gera nesta transposição é que a vida e o trabalho não são jogos de planeamento central, capazes de ser palmilhados de modo a que se saiba sempre e inequivocamente qual é o desafio o resolver, como se deve resolver, e quando é que é suposto solucioná-lo. Essas fronteiras não raro não existem explicitamente e portanto não são consultáveis ou verificáveis formalmente. E é neste viés que se joga muita da diferença de valor entre colaboradores, porque o grosso dos recursos humanos fica retido na mimetização do processo educativo recebido, em que um problema explícito tem de ser colocado num dado tempo de resposta (um exame, com duração conhecida); o pedido de resolução deve ser feito obrigatoriamente (calendário de exames), e a resolução deve então ser aplicada usando técnicas, ferramentas e procedimentos perfeitamente conhecidos (conteúdo ministrado em aula ou disponibilizado para a disciplina).

É impossível abranger com um breve texto toda a panóplia de profissões e suas escalas hierárquicas e nuances funcionais, mas ouso ainda assim dizer que o trabalhador obediente, tranquilo, que existe e produz sob cânones comportamentais de causa-efeito antecipáveis, aquele é aplicado e esmerado no corresponder a expectativas e no superar dos desafios diretamente colocados, será (quase) sempre tido como um bom trabalhador e um bom ser humano. Pode é nunca chegar ao topo da pirâmide evolutiva, ou porque as vagas para isso já estão ocupadas (azar: tente noutro lado); ou porque apesar de tudo o que tem de bom não tem um mérito suficientemente destacável para subir mais e mais (concorrência horizontal); ou porque, e é muito por aqui que pretendo sublinhar o ponto deste texto, as suas várias qualidades não chegam para criar o impacto necessário e surpreendente, pois as qualidades detidas resultam num perfil de risco baixo.

Ter um perfil de risco baixo é um seguro de vida fraco para impressionar, para identificar por si um silencioso problema que paira entre todos e que ainda não foi devidamente mencionado e definido; para ousar fazer o que ainda não foi feito, sobretudo quando nesse ousar morar a inovação, o ganho de eficiência ou tão só a boa tomada de decisão.  A mornidão do perfil obediente de que falo (e que ainda assim é totalmente preferível a perfis pessoais ou profissionais que fracassem nas qualidades que compõem tal perfil) impede-o de tentar dar o salto para um registo de maior valor acrescentado, onde a criação de impacto é a métrica de desempenho decisiva, para esse tabuleiro que modifica o modo como um profissional e ser humano passa a ser visto e avaliado. As pessoas que criam mais impacto são as que ficam para a história das famílias, das empresas, das sociedades; são aquelas que romperam algum caminho novo que abriu novas possibilidades e que foi premiado com retornos de outro modo não antecipáveis. Vale portanto a pena refletir sobre a ênfase e o valor que atribuímos ao perfil obediente da pessoa educada, pois não é bem isso que, bem vistas as coisas, se espera de um ser humano a quem foi dado intelecto, criatividade e vitalidade para fazer evoluir o estado geral das coisas que o rodeiam, e de quem se espera que possa contribuir para um mundo melhor do que aquele que encontrou.

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