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Sobre os limites humanos e biónicos na polissemia do mundo, à distância de uma janela com luz acesa à noite

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Quiet Geometry of Winter Light, Neom Bauchaus (2024)


Épocas houve em que, ao circular fora de casa numa madrugada, ao deparar-me com janelas com luzes acesas, a minha imberbe juventude me levava a pensar que se tratava de algum jovem que ficasse a ver televisão até tarde ou a jogar videojogos até altas horas, eventualmente online em comunidade com outros jogadores.

Hoje, na qualidade de pai de três crianças, essa mesma experiência observacional remete-me para imaginar pais que andam a pé durante a noite para alimentar a sua prole, ou a pé devido a filhos doentes, ou ainda de pessoas doentes que estejam a passar a noite em branco total ou parcialmente.

Esta mudança de imagens sugeridas por uma mesma experiência mundana explica a polissemia do mundo, em particular a importância da maturidade etária do agente pensante quando se propõe a destilar de sentido sobre o que sensorialmente ausculta.

Hoje, essa polissemia pode ser ampliada com recurso à inteligência artificial, que nos permite operar para lá da nossa capacidade de imaginação, assim como testar quão cliché ou plausível é a nossa capacidade de vislumbre. Vejamos, ao solicitar a uma dessas que me dê cinco possibilidades de resposta para o fenómeno observacional descrito, duas das respostas (que pedi para substituir por outras), coincidiram com as minhas, a saber: possibilidade de cuidado a crianças; e tardar devido a um filme ou jogo.

Estas foram as possibilidades não antecipadas por mim que obtive da inteligência artificial: Trabalho noturno ou fuso horário diferente (Teletrabalho internacional, turnos, prazos ou estudo fora do horário comum); Insónia ou distúrbio temporário do sono (Dificuldade em dormir, acordar precoce ou ciclo de sono desregulado); Problema doméstico pontual (Infiltração, avaria, alarme, disjuntor ou outra situação que exija intervenção imediata); Luz esquecida ou sistema automático (Candeeiros deixados acesos, temporizadores, sensores ou iluminação inteligente mal ajustada); Vigilância ou necessidade de segurança momentânea (Alguém acordado por um ruído, à espera de alguém chegar, ou a verificar algo anómalo no prédio ou na rua).

Ocorre-me recordar a este respeito declarações de um visionário multimilionário futurista norte-americano que me apareceu há dias num meio multimédia a explicar que estender a longevidade humana talvez não seja boa ideia porque as pessoas enclausuram-se em convicções e isso é um fator de bloqueio à inovação e progresso. Razoabilidade ética do argumento à parte, entende-se que se vamos apurando o sentido que extraímos do mundo é possível que nos deixemos sedimentar numa derradeira interpretação do mesmo de onde não mais nos permitamos cansar na busca de novos sentidos.

Assim, se a falta de maturidade etária pode promover construções de sentido mais incompletas por lacunas de mundividência, ela pode pelo mesmo motivo permitir valiosos campos de liberdade cujo expoente máximo de demonstração são as crianças com as suas livres associações de ideias e criação de sentido. 

Excluindo a inteligência artificial, o sensato poderia ser um meio termo de maturidade, onde nem demasiado júnior nem adiantado sénior, subsista uma franja de perspicácia contemplativa de onde brotem linhas de entendimento que integrem mais hipóteses ou mais plausíveis hipóteses de sentido do que aquelas que os extremos de maturidade são pródigos em produzir. Porém, a chegada desse oráculo que é a inteligência artificial vem baralhar os limites humanos, a ponto de o limite humano poder não mais vir a ser admissível enquanto limitador do espectro de polissemia que efemérides observacionais possam suscitar. Não é uma demissão de capacidade pensante, é uma simbiose de combinatória e lógica.

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