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Sobre o filme “A Quinta”, a inquietação de pertencer a um mundo que insiste em deslocar pessoas, e a tentação de habitar uma vida que não é a sua

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O filme A quinta (Una Quinta Portuguesa, 2025), com direção de Avelina Prat, narra uma história curiosa e inesperada passada entre a cidade de Madrid e uma propriedade agrícola na região de Ponte de Lima. Esta maridagem de espaço físico é complementada na ação pelas facetas coincidentes com que o tema da identidade individual é explorada nas personagens de Milena (por Kasia Kapcia), Fernando (Manolo Solo), e Amália (Maria de Medeiros). Cada qual da sua nacionalidade, as três são alvo de constrangimentos na história da sua vida que as fazem repensar o sentimento de pertença (ou rejeição) em função do que reconhecem na sua envolvência humana ou cultural.

As personagens valem pela normalidade das suas figuras e plausibilidade emocional que confere uma estética realista às suas vivências, e o filme invocou-me traços do livro O Falecido Mattia Pascal, do italiano Luigi Pirandello, pois há na história duas tentativas de pessoas a fazer-se viver em nome de gente já falecida: primeiro Fernando com o tentar viver uma vida de jardineiro na Quinta em substituição de um falecido jardineiro espanhol que conheceu fortuitamente - Manuel (por Xavi Mira) - e em segundo lugar, por uma mulher de nome Olga (por Branka Katic), que se faz passar por Milena em Madrid (entretanto falecida na Bósnia). Estas camadas intersetáveis de busca pela verdade, de busca por uma identidade, de busca pela felicidade possível no meio de transtornos macro sofridos sem possibilidade de os inverter, cunham no filme um mérito que cativa pela qualidade da tecelagem do enredo. As mesmas três personagens acabam ainda por estar unidas pelo tema da imigração/deslocalização (Angola, Bósnia, Espanha) e de como isso é um motor crítico de desenraizamento de um ser humano do perímetro físico originalmente definidor da sua identidade.

Por fim, na parte passada em Portugal a fotografia da quinta é de uma beleza enorme, não só pela traça granítica da casa principal de Amália, mas também pela envolvência natural da propriedade, ora bucólica quando chove ora sedutora com bom tempo. Serve esta imagem de cartão de visita cinematográfico para um Portugal pouco visitado quer por espanhóis quer pelas hordas de turismo internacional que aflui por roteiros massificados do país que não passam pelo Minho profundo.

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