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Sobre a gramática portuguesa dos pedidos de café e a portugalidade que nela se revela

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The Caffeination of St. Teresa - Eric Yahnker (2020)

Há reflexões que nascem pela disciplina de as fazer ver a luz do dia numa caixa de texto digital, outras que viajam connosco e conhecem público pela mão da oralidade, sendo chamadas à colação para conhecimento dos ouvintes, mas perdendo-se sem registo para posteridade. É o caso do texto de hoje, que já circula há vários anos comigo e foi lançado em conversas versando sobre a cultura portuguesa ou a natureza do português de gema.

Seria possível estabelecer um tratado de psicologia ou sociologia centrado no variegado modo como os portugueses abordam o tema do seu café matinal (ou não matinal), vulgo bica, expresso, cimbalino ou, insuspeitamente, um café. Para um item de tão reduzido valor económico unitário, e para um item de tão reduzida volumetria, há sentenças e ciência para todos os gostos e feitios. Senão veja-se a profusão de variantes nos pedidos destes “átomos” da cafeteria: café curto, café cheio, café três quartos, café pingado, pingo, carioca, café sem princípio, café em chávena escaldada, café em chávena fria, café com cheirinho (aguardente), e depois as versões de maior quantidade: o abatanado, o galão, a meia de leite, que dão sempre para associar considerações quanto à proporção leite-café através de qualitativos como “branquinha”, “escurinha”. E podemos ainda discutir com ou sem açúcar, com adoçante, com colher mas sem açúcar, com pau de canela, e finalmente a versão descafeinada ou ainda a cevadinha.

Diariamente deve haver centenas de milhar de itens destes a ser servidos aos mais diversos perfis de portugueses, e ressalta-se de tudo isto não a concretização que cada um pede mas a panorâmica de se contemplar um povo que se define também pelo ato social de apreciar café (em sentido lato) com tantos cambiantes. Só empregados bem resolvidos e batidos nesta cultura não levam as mãos à cabeça com o trabalho que tantas nuances de pedido requerem a quem as tem de servir à mesa ou ao balcão sem se enganar. A ponto de haver portugueses que passam a ser definidos nos estabelecimentos que frequentam pela excentricidade dos seus pedidos de café. É que a somar às especificações do café que se pretende consumir há o lado comunicacional, o sotaque ou vícios discursivos usados, ou a ênfase emocional que se põe no pedido, tentando impedir enganos ou assegurar confirmação de que quem recebe o pedido aquiesça de que percebeu na íntegra a vicissitude daquele café em concreto.

A globalização veio trazer mais nuances ao mundo do café, mas o mercado e os utilizadores ainda se dividem entre os que operam na portugalidade dos pedidos de café e os que já avançar para o cosmopolitismo cafezeiro, trazedor de variantes como os lattes, os cappuccinos, os caramelos, os toppings, a definição de tamanhos de copo, a dimensão extra que é definir camadas de espuma e, por fim, a dimensão estética dos desenhos, cores ou texturas associadas à apresentação dos cafés. Todo este certame internacional é um exemplo da colisão de mundos, o local e artesanal, com o global e de grande escala. Vivemos um período de coexistências de ambos, mas para a perceção da portugalidade apenas o local e artesanal concede vista pitoresca sobre a particular psicologia do português comum.

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