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Sobre a progressão automática no que quer que seja

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Foi através do sistema público português que contactei com o conceito de progressão automática. Falava-se do melhoramento de condições de profissionais pela via da antiguidade em detrimento do mérito ou provas de reconhecimento.

A estrutura lógica deste conceito levou-me a pensar naquilo que sucede em alguns aspectos da vida que não os profissionais, sobre os quais o conceito incidia.

Existem aspectos na vida que vão mudando consoante a evolução do factor tempo, sem que tenham em linha de conta as reais capacidades, faculdades ou qualificações das pessoas envolvidas.

A título de exemplo, veja-se o marco etário da maioridade, que determina a chegada à condição de adulto e a todas as consequências legais que daí decorrem, e que pressupõe que um indivíduo com 18 anos seja capaz de assumir uma série de responsabilidades apenas porque atingiu essa idade. O elemento-chave do conceito de progressão automática é o valor da experiência, a sabedoria obtida via empirismo, e o quanto pode pesar na avaliação de um ser humano.

Aos 18 anos como aos 50, pressupõe-se que o indivíduo tenha atingido conhecimentos consoante uma duração, e é nesse pressuposto que atinge a maioridade ou que evolui na carreira. Só que convenhamos que viver com pressupostos é correr o risco de duas coisas: uma delas é atribuir algo a quem não está preparado para ela ou que não tem condições para a merecer, e a outra é que as pessoas em causa se apercebam de como a idade lhes garante por si melhorias em alguns aspectos da vida, e que passem a ser oportunistas e interesseiros, sob esse ponto de vista, viciando as coisas.

Não me consigo afirmar como um contestatário total do conceito de progressão automática, mas admito que na falta de mecanismos de controlo das imprecisões desse sistema, corre-se o risco abalar a sensação de justiça, de qualidade ou de mérito. E isto transcende o mundo profissional, aplica-se também à vida.

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Sobre o que é nacional


Rooster of Barcelos - 3vial Art

                         
Quem nunca se perguntou porque motivo cada vez mais o nosso povo prefere uma música inglesa ou um filme de Hollywood em detrimento de produções nacionais? Ninguém é obrigado a consumir aquilo com o qual não se identifica, mas a verdade é que quando se fica de pé atrás a priori e isso deturpa o apuramento do gosto, como acontece relativamente ao que é nacional, então isso denuncia vergonha cultural e no limite, vergonha do nosso país, do que nele se faz e de ser português. Muitos dirão que o que por cá se canta, encena, publica, come, etc, não é fashion, não é confortável de consumir, não dá o prazer gerado com o consumo do que é importado. 

Este hipnótico embebedamento com a cultura estrangeira como sendo o exlibris do que é bom e tem qualidade, indicia o problema gravíssimo que temos enquanto nação. É inconcebível que se consuma toda e qualquer porcaria estrangeira e não haja a mesma tolerância para com o que se faz por cá.

Os brasileiros chamam brega a uma certa música pouco elaborada e lamechas, baptizada por cá como pimba, mas conseguem promover-se e gostar da MPB, a música popular brasileira. Em Portugal, pimba é praticamente tudo o que seja portuguêsfacto que se vinca cada vez mais como um laivo de esquizofrenia da nossa cultura. 


No futebol conseguimos exponenciar uma identidade lusa que não pára de surpreender e da qual pessoa alguma não deixa de se orgulhar. Porque motivo, então, não há correntes de promoção de outras vertentes nacionais? Não nos podemos esquecer que se hoje há imensos futebolistas portugueses a dar cartas mundialmente e a promover o país e a nossa cultura, isso deve-se a ter existido gente que se concentrou na matéria-prima nacional em detrimento da estrangeira, gente que viu para lá do pimba.
É isto que falta por cá: acreditar nas nossas coisas, dar o benefício da dúvida e constatar depois que o que é nacional é tão bom como o estrangeiro, desde que não se cortem as asas à nascença, com os gumes do preconceito e da inveja.
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Sobre o GPS e os taxistas

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O sistema de posicionamento global, usualmente conhecido pela sua sigla, GPS, é hoje uma ferramenta profusamente difundida na sociedade, acumulando adeptos de forma convencida devido à sua inegável utilidade.

Na linha do que a tecnologia tem vindo a representar para algumas actividades profissionais, o GPS atenta contra aquilo que eram os taxistas e a sua actividade profissional até então. O taxista representava alguém que conhecia as ruas, os caminhos, as vias, alguém que, numa base empírica, saberia opinar sobre a escolha de trajectos, a ponto de ser por excelência a figura para dar indicações a qualquer motorista perdido ou desorientado. A profissão de taxista representava tudo isto de forma incomparável e porventura inigualável. Ora o GPS veio anular as competências que faziam dos taxistas autênticos especialistas nos trilhos urbanos, tornando-os de certa forma num GPS artesanal e simbólico.

Este é apenas mais um exemplo dos inúmeros casos em que certas profissões foram abaladas no seu âmago existencial pela tecnologia, a qual lhes retirou o charme, personalização, relevância, em detrimento da dispersão de competências que antes se denotavam únicas e decisivas.

No livro A Caverna, José Saramago expõe claramente os efeitos colaterais da tecnologia e de tudo que ela proporciona. Se, no livro, a actividade de oleiro se banalizava com a chegada de centros comerciais vendendo vasilhas e recipientes de outros materiais feitos de forma massiva, no caso dos taxistas a dispersão massiva de GPS pelos motoristas, entre outros, torna obsoleta a sua especialidade nos percursos rodoviários.

Esta é a sina involuntária das profissões mais tradicionais. A falta de soluções para os que são despojados das suas profissões de toda uma vida, constitui um mote para a defesa do conservadorismo, embora todos saibamos que o progresso é imparável.

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