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Sobre o léxico da moda

O léxico da moda flui por entre os usuários de um língua a ritmos tais que basta pouco tempo para que um termo que suscite curiosidade, vontade de rir ou qualquer outra coisa estimulante, cruze o país e se disperse pelas incursões linguísticas de quase todos.

Se o acesso às palavras e à riqueza de vocabulário depende da vontade de aprender novas palavras e de contactar com estas quer seja pela leitura ou por outros meios possíveis, a verdade é que aqueles cuja actividade profissional é de visibilidade acrescida têm uma oportunidade - que de tão boa quase roça o dever – de contribuir para a sociedade através da introdução de termos menos corriqueiros.

Para abordar esta ideia de forma pragmática, convido qualquer pessoa a dar uma vista de olhos ao que aconteceu às pesquisas online da palavra “esmiuçar” num site que tem um dicionário online que costumo consultar.

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Não haja dúvidas que este “esmiuçar” que saltou de umas poucas centenas de pesquisas por semana para quase quatro mil, é explicável por um programa de comédia que estreou no terceiro canal televisão portuguesa aberta.

Logo que encontrei esta representação, pensei não só na mais-valia que este tipo de tratamento de dados pode proporcionar aos cidadãos que os descubram. A estatística só vem ajudar a mostrar como somos susceptíveis daquilo que consumimos nas televisões, rádios, internet, em particular daquilo que está na moda e que se assume temporariamente como padrão.

E porque a qualidade da nossa expressão depende em último caso desta descoberta de novas palavras que nos capacitem de melhor destreza descritiva, explicativa ou expositiva, julgo ser de acrescida importância cultivar o bom uso da nossa língua, como por exemplo se faz nos desenhos animados em que por vezes os personagens primam por uma boa dicção e por palavras desafiantes para crianças. Assim precisam os adultos.

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Sobre o projecto Amália Hoje

Amália Hoje

Este texto pretende ser um rasgado elogio ao projecto Amália Hoje.

Pegando no que escrevi em “Sobre o elogio e a crítica” e juntando a isso o meu posicionamento “Sobre o que é nacional”, eis que apresento neste espaço um invulgar registo particular, que se contrapõe à minha habitual fuga de abordar os assuntos em termos de exemplos objectivos e casos particulares.

É verdade que falar bem dos Amália Hoje quando seu sucesso é inequivocamente reconhecido, pode ser entendido como um texto fácil. Ainda assim, confesso que sou movido por uma enorme e genuína vontade de salientar a excelência e genialidade do que transcende os aspectos musicais desta iniciativa, já que sobre estes me rendi, extasiei e emocionei completamente no Coliseu do Porto.

A malta dos Hoje soube pegar no colosso simbólico que é Amália para a nossa cultura e identidade nacional, e construir sobre o seu espólio musical e cultural material que a dignifica, que dignifica a nossa música, que dignifica o nosso país.

Depois, uma segunda mais-valia deste projecto está no congregar músicos de estilos músicas distintos, em particular ao conseguir que alguém do Heavy-Metal se junte a músicos da Pop-Rock num projecto que presta homenagem a alguém fado. Conseguir sair do reino em que por vezes cada estilo música se isola, cativando por vezes públicos musicalmente incomunicantes entre si, constitui motivo de reflexão sobre as barreiras entre músicos e estilos musicais, em particular sobre a mesclagem destes.

Finalmente, os Amália Hoje vêm ao encontro de uma lacuna que eu também eu identificara para mim mesmo, e que se resume a trazer o fado para junto das camadas jovens, fazer com que os jovens se interessem por ele e o preservem como ícone do que é ser português.

Por tudo isto, e por outras coisas que guardo para mim, gostava de registar publicamente o meu apreço por este projecto e pelo o que de bom criou no nosso panorama musical.

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Sobre a crítica e o bom humor

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A propiciação de condições para as que pessoas se sintam livres de falar sobre o que não gostam ou as desagrada nos outros é fundamental para evitar que as zangas ou os aborrecimentos sejam gerados periódica e recorrentemente.

Algum humor na forma como se tecem e como se recebem as crítica poderia ajudar a evitar que as estas sejam algo duro, frio, invasivo, afrontador. É claro que poder-se-ia cair no cúmulo de gozar desavergonhadamente o outro, o que em si já pode ser uma tremenda falta de respeito caso do outro lado não notemos haver aceitação para semelhante postura por parte de quem critica.

Com a devida moderação, o humor pode ser um excelente tempero para a crítica, impedindo que se digam coisas provavelmente falsas, como muitas vezes se diz, apenas para sustentar e aprofundar uma tese, fruto do exagero e generalização abusiva.

Confesso que ao escrever sobre a existência destas condições ou formatos, foco-me mais para os casos de pessoas que se conhecem bem, que têm confiança umas com as outras, e a quem interessa, mais do que a quaisquer outras, desenvolver estratégias de comunicação que não firam o interlocutor nem a relação que se tem com ele, a qual provavelmente extravasa o mero contexto da crítica.

É que se já não é fácil ser-se avaliado pelas ideias que se tem, se são soberbas ou parvas, inteligentes ou medíocres, a coisa complica-se bem mais quando o que está em causa é a forma de ser de cada um, entenda-se o feitio, o carácter, a personalidade.

De qualquer modo, com ou sem humor, as críticas são feitas em contextos sensíveis a perturbações, algumas delas com acutilância suficiente para provocar o descarrilamento do objectivo que as fizera existir.

Na amizades, no trabalho, no amor, a crítica é uma complexa ferramenta cuja utilização exige destreza e sensibilidade, salvo se o objectivo for unicamente ferir, atacar, agredir.

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Sobre as vindimas como enriquecimento cultural

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Nas grandes cidades portuguesas, à imagem do que acontece com as grande metrópoles do mundo, multiplicam-se as pessoas com fracas ou mesmo nenhumas ligações com o mundo rural.

Talvez porque o nosso país se manteve anos a fio subjugado à realidade rural e isso simbolize a forma como o país era pobre ou atrasado face a congéneres europeus, a agricultura adquiriu um estatuto de desprezo e total esquecimento por parte da sociedade. A renovação das gerações caminha cada vez mais para o corte de relações com o mundo rural, fruto do definhar da nossa agricultura, mas também da ausência de interesse por matérias que não estão, assuma-se isso, na moda.

Nos tempos de hoje fala-se bastante de enriquecimento curricular como forma de melhorar a formação e ser-se especificamente instruído, daí me haver lembrado que uma possível invenção do termo enriquecimento cultural, seguindo uma lógica idêntica, talvez capacitasse e dotasse muita gente de uma formação prática e objectiva sobre pequenas coisas importantes que o mundo rural preserva num estado puro.

Uma dessas sessões poderia perfeitamente resumir-se à participação integral numa vindima, com tudo o que isso representa em termos de esforço físico, convívio, envolvimento social, perpetuação da tradição, obtenção do espírito e entrega colectiva num objectivo comum.

Uma vindima pode ser uma reflexão sobre a vida antiga mas também sobre a vida de hoje. Só sentindo as dores musculares das limitações da força humana se consegue perceber o inegável valor das máquinas. Só participando nas diversas brincadeiras e conversas que circulam pelos vindimadores e os distraem de um trabalho repetitivo e cansativo, se consegue perceber o que é motivação de grupos. Em última instância, só participando se poderá perceber no que foi ser português e a nossa história recente.

O citadino que nunca for rural, terá uma lacuna de enriquecimento cultural insonegável

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