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Sobre as relações, a gestão de tempo, e a tecnologia


 Larga Distancia (Long Distance) - Gabriel Sanchez (2022)


                  
As relações de hoje constroem-se em cima de recursos tecnológicos outrora impensáveis. Hoje a tendência é não aguardar pelas pessoas, antes contactá-las no instante imediatamente seguinte ao termos sentido vontade de lhes falar.

Talvez porque vamos desenvolvendo progressivamente esta tendência de usar a tecnologia para tornar imediatas todas e quaisquer distâncias ou distancionamentos que possam afigurar-se obstáculos às relações, estamos a perder paciência e também tolerância para com as ausências ou distâncias.

Se outrora as viagens e o tempo dispendido com elas eram entraves que levavam a que se demorasse imenso tempo em percursos, a ponto das pessoas poderem desesperar devido a tudo o que lhes ocorria pensar enquanto resignadamente aguardavam, a verdade é que o mundo já não é esse. Na era em que vivemos, os entraves não estão tanto nas distâncias absolutas, que parecem cada vez mais encurtar, mas na quantidade de (pequenas) distâncias que somamos, situação que pode conduzir a um homólogo período de espera, difícil de ultrapassar.

Há sempre tanto para fazer, devido ao pressionante aproveitamento temporal que ousamos dar às nossas agendas e rotinas, que se acaba por sofrer do mesmo mal de outros tempos. As pessoas têm relações pessoais e são vítimas da escassez de tempo, ficam presas a compromissos paralelos ao das relações, sejam eles de que cariz forem, e não há tecnologia que acuda para resolver esse problema, a tecnologia quando muito minimiza o estrago.

Acontece também que nem sempre ter a facilidade de contactar é uma vantagem, pois de que vale um telefone se não se sabe o que dizer, de que vale um teclado se não se sabe o que escrever. 

Iria inclusive mais longe, a ponto de dizer que em momentos críticos como são os da ansiedade de ter de esperar ou de se saber esperado, a facilidade do contacto pode prejudicar, recordando que o que é demais é exagero, e os descontrolos emocionais são muito dados a isso.
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Sobre as conversas acerca de arte

                    
Untitled - George Condo (2010)

* * * 

As discussões sobre a arte passam-me ao lado, facto que não é de agora.

Faz-me imensa confusão o novelo conceptual no qual se transformam essas aventuras pelo tema da arte, com questões como qual a sua órbita, o que a move, o que a distingue da não arte, e onde entra ou qual o papel do artista no espectro artístico.

E porque a arte desagua em charcos abstractos, quanto mais se investe em terminologias e construções ocas que parecem querer dizer tudo mas que significam nada, mais a arte converge para um universo que não existe, um plano teórico que dissocia doentiamente as peças ditas de arte das conversas que se dizem sobre arte.

Nunca percebi bem por que motivo as intelectualidades procuram criar uma aura de intangível na caracterização da essência da arte. Parecem querer evitar ardentemente que a arte se esgote num qualquer estereótipo que se crie, e como tal preferem que vagueie no meio de multifacetadas concepções nas quais nunca se encaixa de modo perene. Compreendo que a liberdade artística possa ser acariciada se o conceito de arte for indomável, mas a verdade é que o ser humano precisa de organizar as suas ideias em coisas conhecidas, em estruturas coerentes, em gavetas perfeitamente delineadas. Conceder que a arte consiga o que qualquer outro conceito não consegue, como seja autogovernar o sentido da sua própria essência, não é de todo sustentável.

É por isso que oiço sempre com descrédito as pessoas que sempre aparecem, dizendo-se artistas, e que começam a bombardear os outros com ideias que se sobrepõem, se contradizem, se rebatem, tudo sobre a arte. E ainda mais descrédito merecem quando notamos pela sua expressão que falam desses novelos conceptuais com grande ênfase e motivação, como se se conseguissem realizar perante a confusão e desnorte que estão a criar. Misturam parvoíce e ideias boas, e criam assim o caldo mágico com que querem depois temperar as suas vidas. Abstenho-me de falar sobre arte, porque só de escutar o que se diz por aí, sobram-me tonturas para oferecer, com lacinho e tudo.

Texto Original:  05/2009
Revisão: 03/2019
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Sobre os temas de debate aborrecidos

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Devido a um manifesto gosto pelo debate e exploração de assuntos de onde possam ser extraídas essências que perfumem o conhecimento humano de algum modo à partida pouco visível, sou um promotor de discussões e debates.

Nem sempre, porém, com alguma pena minha, existe receptividade da parte dos interlocutores para entrar nas conversas com motivação, pelo menos dando o benefício da dúvida quanto ao valor de se conversar sobre um dado assunto. Ainda há pessoas que acreditam que os temas é que são desmotivantes ou aborrecidos. Eu cá comungo de outra perspectiva: quem faz dos temas bons, maus, motivantes ou maçadores é cada um dos interlocutores. Estes têm, aliás, um poder tremendo na incapacitação do progresso de alguns debates ou discussões, visto que basta uma voz dissonante que critique a legitimidade ou pertinência de se abordar determinado assunto, para que os demais se sintam perturbados na sua vontade de alimentar o tema com mais argumentos e passem a estar fatalmente constrangidos.

Há também algo bastante curioso relativamente à aceitação dos temas para discussão, que passa pela existência de uma tendência para preterir temas exageradamente complexos ou abordá-los de modo excessivamente simplificado, à qual se soma a exclusão de temas que parecem óbvios e corriqueiros, como se de um tema aparentemente simples e óbvio não pudessem ser lançadas novas questões, porventura estruturais, de bem mais complexo tratamento e ambição.

Não posso deixar de manifestar algum pesar e uma pontual frustração por notar que nem todos conseguem descobrir o prazer de conversar, de se surpreender com um debate e de compreender que os assuntos dependem mais da nossa capacidade de os explorar do que deles próprios e explosividade que possam desencadear.

Todavia, entendo que nem todo momento é o momento certo para debater e que nem sempre o estado anímico é propício ao desafio de concentração que é um debate.

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