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Sobre o adaptar a uma realidade diferente*

* Ilídio Pina escreveu um texto na qualidade de Amigo do 3vial e é o sexto participante desta iniciativa:

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A vida oferece-nos oportunidades únicas de cruzar conhecimentos, cultura, costumes, etc. Claro que isso é bom, mas nem sempre o que se ganha é suficiente para compensar o que se perde por estar tanto tempo fora de casa, neste caso não há um balanço fechado (o que entra é igual o que sai). Foi bom ter saído de “baxu saia de mamá e pé de calças de papá”, isso fez de mim a pessoa que sou hoje, capaz de decidir por mim, onde fraquejar é uma coisa rara.

Quatro anos fora de casa. Já tenho uma história para contar. Apesar das semelhanças entre os dois países (Cabo Verde e Portugal) no início foi muito difícil. Só tinha a voz de uma amiga a dar-me força. Para complicar mais a situação, no terceiro dia na terra de Camões tive o azar de encontrar a pessoa mais imbecil que alguma vez falou para mim, se este pudesse mandava-me embora para ÁFRICA, só por causa da cor da minha pele. Para superar isso e seguir em frente encontrei na praxe aquilo que precisava, ali descobri que as pessoas que descriminam os outros por serem fisicamente diferentes seriam uma minoria, não suficiente para me fazer desistir dum sonho que tinha começado a realizar-se.

À medida que passava o tempo conheci pessoas fantásticas, que me aceitaram no seio de um grupo e com estes construi um sentimento de amizade, isso reflecte-se hoje no meu percurso académico, no que sou como pessoa, etc… Mas como sempre, quando se ganha por um lado perde-se por outro. Tive que Pagar um preço, fechei as portas a algo que parecia ter pouca importância e mais tarde vim descobrir que tinha a sua importância, mas para mim já era complicado correr atrás. A partir daí foi tudo mais fácil, passado pouco tempo sentia-me quase em casa. Como amizade é capaz de mudar uma história, levar a um final diferente daquele que os Deuses escreveram no livro do destino. À chegada o que tinha a perder já tinha ficado para trás, na hora da partida vou deixar quase tudo que ganhei durante este tempo. Por isso, se o começar foi difícil, o adeus será pior ainda. Provavelmente daqui a um ano vou voltar para meu Cabo Verde, quando penso uma alegria enorme toma conta de mim, mas ao mesmo tempo sinto que estarei a deixar aqueles que foram até agora os melhores colegas de turma que já tive, e em particular pessoas muito importantes vão ficar para trás. Aqueles que foram, são e vão continuar a ser grandes amigos meus.

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Sobre as cunhas

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Quem não conhece o factor cunha essa popular instituição que tão bons serviços tem prestado à facilitação da obtenção de emprego ou ao benefício de pessoas singulares num vasto campo de aplicações?

Toda a gente tem a noção de que um contacto é um bem valioso, mais valioso até do que um currículo, pois se o segundo é um toque na campainha da porta de entrada, a verdade é que o primeiro é muitas vezes o escancarar dessa mesma porta.

As relações entre as pessoas assentam muito no conceito de favores e favorecimentos, de tal forma que não é preciso muito para que cada um faça valer os seus contactos para obter benefício de qualquer forma, contornando muitas vezes a via natural a seguir.

Na ausência do devido elo relacional que fundamenta e sustenta o accionamento das cunhas, a cunha passa a ser um estorvo e um tremendo um abuso de confiança. Em tempos ditos de crise, em que as oportunidades são mais disputadas e como tal mais pessoas obrigatoriamente ficam de fora, a cunha é muitas vezes a milagrosa tábua de salvação a que muitos se agarram, em actos quase de desespero.

É imoral criticar quem está desesperado e procura todas as formas possíveis de resolver o seu problema, mas convenhamos que se torna patético andar a esmiuçar o leque de contactos que se vai fazendo na vida, com vista a encontrar eventuais alvos sobre os quais incidir o factor cunha e assim resolver um problema de empregabilidade.

A maior parte das pessoas que procuram obter pela cunha o que não conseguem pela via convencional e desejável, ou seja, pela concorrência justa com outros candidatos, acaba por se tratar de gente exploradora, que normalmente se lembra das relações quando precisa de um favor, normalmente quando pretende accionar o dito factor cunha. É difícil dizer dessa água não beberei, pois nem sempre a cunha é voluntária ou perniciosa, mas a verdade é que esta é uma tradição que moralmente repugna e indubitavelmente anti-democrática. A crise só a veio acicatar.

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Sobre o descontrolo na alimentação

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O abaixamento dos preços dos produtos alimentares devido às grandes superfícies e às vantagens da escala no valor do preço de venda, faz com que hoje em dia por uma pequena quantia seja possível comprar muita quantidade de alimentos.

A alimentação, no meio desta avalanche de produtos apetecíveis, torna-se muitas vezes uma perversão daquilo que são as regras nutricionais amplamente conhecidas. Espantar-me-ia se encontrasse muitas pessoas a desconhecerem que se devem comer legumes e fruta com fartura, e que se deve evitar produtos gordos e açucarados.

O problema é que se outrora o preço e a escassez de oferta poderiam reprimir ou mesmo impedir a compra de géneros alimentares perigosos para a saúde alimentar, hoje a maioria das pessoas depende apenas da sua vontade. O resultado directo destas facilidades todas é a criação de um perfil alimentar problemático, que se pode definir como sendo baseado na gulodice e que se cinge meramente no maior prazer que certos produtos dão relativamente a outros. A comida dita de plástico surge neste perfil problemático como sendo o símbolo do prazer alimentar aplicado às refeições. As pizzas e hambúrgueres são hoje os dois eixos da comida de plástico, mas num ápice poderemos pensar nos gelados, nos crepes, nas francesinhas, nas pipocas e nas gomas, tudo produtos que podemos encontrar num qualquer centro comercial que se preze desse nome.

A tensão e a excessiva ocupação mental têm também culpas no cartório, pois muitas vezes falta tempo para saber o que comer ou então a comida é uma vingança que procura compensar lacunas ou estados sentimentais.

Os puritanos que acreditam que tudo o que dá prazer faz mal, devem andar altamente descontentes com o rumo da alimentação nos tempos de hoje, visto que as pessoas estão cada vez mais favoráveis a esta alimentação barata e apelativa e parece que nem os constantes alertas dos nutricionistas, dos médicos, demovem as pessoas deste tipo de alimentação.

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Sobre o comparar Portugal com o mundo

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Tive a sorte de já ter viajado para fora do país e uma sorte ainda maior por ter vivido fora de Portugal. Para os que cá estão e que nunca tiveram a oportunidade de sair acredito que se torne complexo encontrar um termo de comparação minimamente fundado para situar Portugal e ser português com e no o resto do mundo.

Em verdade, poucos têm essa oportunidade de se tornarem conhecedores do que é o nosso país e a nossa cultura pela via da comparação. Só quem sai e mergulha substancialmente numa nação diferente da nossa, por um período razoável, consegue vislumbrar os nossos pontos fortes e fracos de forma transversal e mais realista.

Problemas que identifiquemos na nossa sociedade podem afinal de contas ser problemas de toda uma Europa, de todo um mundo ocidental, de todo um mundo moderno, e nós, uma vez subtraídos da capacidade de nos sabermos situar face à vizinhança, podemos cometer o erro de acreditar que só Portugal padece do problema.

Viver fora confere ao bafejado por essa sorte a peculiar oportunidade de construir uma imagem comparativa de Portugal relativamente a outro país, como um todo, o que é certamente melhor do que receber informações parcelares em muitos relatórios de diferentes organismos, que posicionam Portugal em questões pontuais e não permitem que se obtenha uma visão generalizada do país e do estado das coisas.

No meu entender, perde-se muito tempo a ouvir pessoas que cá estão a falar sobre o que é nacional. Talvez houvesse mais interesse em confrontar as perspectivas dos portugueses que estão dispersos pelo mundo com aquelas dos que estão por cá, para assim se aferir em que aspectos as visões estão desfasadas e, no limite, em que medida estamos erroneamente iludidos ou desiludidos com o nosso país.

Não haja dúvidas que o mundo é grande demais para que nos sintamos satisfeitos pelo que conhecemos via televisão ou internet. Importa chamar os portugueses que estão fora para se perceber o que de facto são os “nossos” problemas.

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Sobre a comparação anual dos fenómenos

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A prática jornalística comum recorre inúmero vezes à comparação de alguns factos noticiáveis com o ano civil imediatamente anterior, mais precisamente com o período homólogo do ano transacto.
Vemos isto na análise dos dados económicos, mas também nos acidentes rodoviários e mortes na estrada, ou ainda relativamente aos incêndios, secas ou inundações.

A comparação é sempre uma estratégia de se poder dar profundidade à notícia e concede também a possibilidade de discutir os eventuais motivos que possam justificar a diferença ou semelhança entre os valores atuais e os de anos anteriores.

Qualquer pessoa que estude Engenharia, sabe que uma linha tendência que procure explicar um fenómeno temporal, requer o máximo número possível de pontos do tipo "fenómeno vs. tempo" para que seja credível e para que se aproxime o suficiente da realidade. É inútil procurar explicar um fenómeno que demora 3 anos com dados relativos a 2 meses ou 1 ano.

Voltemos então ao jornalismo, e verifiquemos que muitas vezes a prática jornalística é curta e leva a conclusões e deduções erradas. Sendo tão fácil, nos dias que correm, armazenar informação, seria desejável que os meios noticiosos pudessem recorrer mais à estatística para avaliar verdadeiramente as tendêncidas dos fenómenos que vão anunciando.

Qualquer pessoa que olhe para um gráfico em que se representam os dados dos incêndios, das cheias, da seca, da economia, num período temporal de 5-10 anos, poderá perceber por si o que tem acontecido, como também poderá dar-se conta da existência de um comportamento padronizado que só é detectável se a representação gráfica contemplar uma gama temporal alargada.

Penso que tal medida contribuiria para um jornalismo mais eficiente, visto que embora as pessoas possam ter memória curta, isso não legitima a prática jornalística a reportar-se constantemente ao ano anterior, para mal dos ciclos bianuais, trianuais e por aí fora.
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