Procurar:

Sobre o filme “O Sexo e a Cidade

1116160_f4f1_625x1000

Sugestionado pela visualização do filme “O Sexo e a Cidade”, sou levado a especular sobre o sucesso da respectiva série, que conta a história dos relacionamentos de 4 amigas na cidade de Nova Iorque.
Quanto a mim, para lá do óbvio interesse que a temática suscita, o sucesso desta produção está na forma leve e cativante como se expõem as diferenças e semelhanças das relações em geral, bem como a influência do tempo para o surgimento ou não dos problemas ou felicidade, mas sobretudo o papel da sexualidade no rumo das relações.

Não pretendendo discutir detalhes sobre os personagens ou enredo, aquilo que me faz dedicar um texto ao assunto é a perspectiva que a visualização deste filme me deu, no sentido de imaginar o que é a tendência actual em termos de relações nas metrópoles altamente urbanizadas. A quantidade de pessoas que se conhece, com que se interage, que se cruzam connosco, parecem ser variáveis relevantes para o desfecho e durabilidade das relações. O filme implicitamente mostra quais as consequências de se começarem relações com base em pouca informação sobre o outro: as pessoas satisfazem-se a curto prazo mas adiam para data incerta os conflitos decorrentes de se sujeitarem a alguém que desconhecem por completo – neste particular é genuíno.

Depois, o filme presta também um contributo muito interessante para que se possa reflectir como a sexualidade dos casais difere consoante o estilo de vida, instrução ou vida profissional. Parece-me salutar a forma como pelo facto de se estar constantemente a acompanhar as vidas de 4 pessoas totalmente diferentes, não haja tendência para vender um estilo de amor e sexualidade fixos e padronizados, como tantas vezes é apanágio nas comédias românticas.

Por tudo isto, e não pelo que pode ser completamente acessório para o objectivo deste texto como são as especificidades do filme, considero que valeu a pena ver esta produção, o que é de espantar visto que a série me passou (quase completamente) ao lado.
Ler mais...

Sobre a obesidade mental



L'animal introverti - Philippe Brodzki (2016)

* * * 

Numa quadra de indiscutível apelo gastronómico um pouco por todo lado e em especial no nosso país, submeto este texto procurando tirar partido das recentes experiências gustativas que em geral cada pessoa que ler este texto terá tido nos últimos dias.

Quando cada um de nós se olha ao espelho e nele se contempla, como acontece diariamente e com mais intranquilidade após o Natal, é cada vez mais comum verificar um afastamento da forma e peso ideais, um acumular de volume em zonas que se pretendiam muscularmente esculpidas. Acredito que, salvo para aqueles para quem a visão só é perfeita quando auxiliada por utensílios óticos, não há como ignorar ou não perceber qual o estado físico em que nos encontramos quando vamos à procura de o saber confrontando-nos com um espelho.

Todavia e aqui é que surge a ideia principal deste texto, qual deve ser o espelho a que um indivíduo possa recorrer para aferir um equivalente ao seu peso físico, que eu designaria por peso mental? Sou levado a perguntar-me ocasionalmente que, se na nossa sociedade a obesidade física transcende já o problema da fome em número pessoas afetadas, não estaremos também a sofrer de uma problemática coletiva homóloga em termos mentais. Relativamente à afluência de informação e conteúdos, é tentador partilhar a sensação de que poderemos estar a sofrer de uma obesidade desse género, um excesso de volume em determinadas regiões da mente, que nos poderão causar disformidades em tudo semelhante à deformação física.

Sendo este não mais do que um palpite ou desvario imaginativo da minha parte, a clarificação do lastimável ou inestimável valor destas possibilidades está suspensa pela incapacidade de vislumbrar e eleger um espelho intelectual válido que pudesse ser o tira-teima do assunto. Alguém mais atento poderia indicar-me os testes de QI ou cognitivos em geral, como candidatos a espelhos desta teoria, mas ainda assim não me apaziguaria na minha busca. A mente é mais do que isso.


Publicação original: 12/2009
Revisão: 06/2019
Ler mais...

Sobre as pessoas e as listas de reprodução

833974_dbac_625x1000

Deparei-me recentemente com a sensação de que de modo geral a maior parte das pessoas assemelha-se a autênticas listas de reprodução de um qualquer programa de gestão de conteúdos audio.

Esta ideia de comparar as pessoas às playlists dos programas foi catalizada pela minha constatação de que no espectro dos indivíduos que conheço e com que me relaciono, uma larga fatia restringe-se em demasia a alguns assuntos ou tipologia temática das conversas, e como tal torna-se previsível e limitado como as listas de reprodução que sejam reproduzidas múltiplas vezes. Para piorar, muitas dessas pessoas não têm sequer um modo aleatório que permita aos outros ter a sensação de que embora o tema seja recorrente, a conversa aparente ser nova. Não, o seu modus operandi é identificável à distância, tornando-as previsíveis e como tal mais susceptíveis de saturação e de desinteresse por parte dos seus interlocutores.

Não deixa de ser inusitado verificar que face ao bombardeamento de assuntos a que qualquer pessoa actualmente se sujeita por intermédio das tecnologias de informação e comunicação, existam tantas pessoas cuja gama de assuntos é copiosamente restrita.

Para minha infelicidade, confesso que é complicado mostrar a estas pessoas como é frustrante chegar à beira delas e prever, com um grau de confiança bastante razoável, que para manter uma conversa acesa e bidireccional o único caminho é abordar os temas que se inserem nas suas zonas de conforto e predilecção.

E não só é complicado mostrar às pessoas, como o é ter vontade de explodir e dizer que se está farto de tanta repetição de conversa, tanto esgotar de criatividade, tanta gravidade à volta do eterno assunto.

Para finalizar, dizer apenas que esses seres do tipo listas de reprodução, acabam invariavelmente por se confundir com os próprios temas que repetem sem mostra de cansaço, levando os outros a os confundirem com os temas de que tanto gostam.

Ler mais...

Sobre os sanitários e o seu simbolismo em sociedade

1527870_39b0_625x1000

Uma vez, uns amigos meus descobriram que eu sofro de um fenómeno chamado “sanita segura” e que se descreve sucintamente como sendo a recusa e incapacidade de usar sanitários que não aqueles que inspirem familiaridade ou confiança.

Desde então tenho reparado na forma como isso é espontâneo em mim, mas sobretudo no quanto os sanitários contribuem para a existência deste tipo de reacções.

Os sanitários de locais públicos ou lugares frequentados por muita gente, expõem de forma singular como a vida em sociedade só é sustentável se houverem regras e se houver gente destacada para solucionar o não cumprimento dessas regras.

É impossível sentirmo-nos bem num espaço em que é suposto satisfazer necessidades íntimas quando sensorialmente algo nos perturba. A falta de sensibilidade e respeito pelo que é público, na vertente do quanto a nossa irresponsabilidade ou desleixo podem afectar a ordem e equilíbrio públicos, faz com que os sanitários sejam um exemplo simbólico daquilo a que deterioração do espaço público pode chegar.

Em 100 pessoas, basta 1 ou 2 para porem em causa os demais, o que por si é trágico. A não concepção do espaço público como um local de maior exigência do que o nosso próprio espaço privativo lá de casa, e que como tal deve suscitar cuidados redobrados e preocupação com os outros, revela com esplendor a falta de formação cívica de inúmeros elementos da nossa sociedade.

No rol de explicações para a minha inclusão na legião dos “sanita segura” constam estas ideias, que muito me afectam psicologicamente. No mais, lamento que os sanitários pareçam um tema menor apenas pela natureza do se discute e do que está em causa. Acho que as casas-de-banho públicas, mais propriamente o estado em que se encontram para qualquer sujeito que as frequente ou visite, é revelador não só do desleixo na limpeza ou desleixo dos utentes, mas também do estado da nossa educação e da nossa preparação para viver em sociedade.

Ler mais...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...