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Sobre o desnorte metereológico

2154833_944e_625x1000 A época do ano em que o Inverno ainda está presente mas existem já uns tiques primaveris na temperatura do ar, espalha pelo país um estranho fenómeno de confusão indumentária que semeia algum desnorte nas pessoas.

Um agasalho é uma peça de vestuário tipicamente do Inverno, que visa proteger contra o frio, funcionando como um isolante do calor gerado pelo nosso corpo.

Quando não está um frio moderado mas chove, as pessoas usam agasalhos como se estivesse muito frio. Fazem-no porque sabem a chuva é água e a água molha e o molhar arrefece, provocando arrepios de frio. Portanto vestem casacos e kispos para além de camisolas de manga comprida.

Nesta lógica, como o frio que justifica o uso de casacos e kispos provém do contacto do molhar-se, se a pessoa não se molhar dificilmente o casaco ou kispo serão dispensáveis porque a temperatura assim não o exige.

Pelo contrário, sair à rua sem casaco ou kispo num dia de chuva parece ser um tonteria e uma irresponsabilidade. As pessoas sabem que não andar com protecção no vestuário aumentará a chance de se molharem e de virem a ter frio.

Deste modo, cria-se então um problema sem resolução aparente, que lança, como disse, desnorte nas pessoas, que é a impossibilidade de se ter conforto num dia de chuva e sem muito frio.

Pergunto-me há quantas gerações as pessoas convivem com este problema sem que aparentemente tenham havido desenvolvimentos no sentido da identificação do fenómeno. Poder-se-á dizer que isto são pseudoquestões irrelevantes e provenientes de quem tem tempos livres para ocupar. Pois bem, permitam-me que especule quantas pessoas ficaram já doentes à conta deste fenómeno. Só isso bastaria que houvesse quem se dedicasse a isso e pudesse ao menos prevenir as pessoas para o facto de o tempo não ser o único culpado do desconforto que sentem.

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Sobre a luta pelo poder em democracia

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Temos assistido nas últimas semanas a uma titânica luta à volta do poder, semelhante à que vemos em muitas manadas de felinos por essa África selvagem fora.

No meio do celeuma e da poeira gerada pelo motim em praça pública, torna-se impossível para o cidadão comum perceber quem tem razão, quem mente, quem está a provocar e quem está a defender-se. A desordem entre os felinos não é perfeitamente compreensível porque há investidas ocultas pela poeira e pelo ruído criado, mas também porque existe um núcleo da manada que batalha em privado, isto é, nem todos os golpes são desferidos à vista desarmada, para perplexidade do árbitro, o povo.

Nesta guerra, quatro são as estirpes oficiais de felinos que aparentemente batalham pela sua fracção poder: os felinos económicos, cuja arma é a riqueza; os felinos políticos, cuja arma são os cargos políticos e os partidos políticos; os felinos jornalísticos, cuja arma é a comunicação social; e finalmente os felinos judiciais, cuja arma é a lei e os tribunais.

Aparentemente, esta ordenação de felinos pressuporia que estes se organizassem em função da sua estirpe e batalhassem lado a lado no cumprimento leal e digno das suas funções como garantia unívoca do poder que naturalmente é devido às suas estirpes.

Pois bem, eis que o tempo, a ganância e a matreirice conduziram à miscigenação das estirpes de felinos e à consequente criação de grupos de interesse organizados, que transcendem a disposição por estirpes e que com isso ganham mimetismo face àqueles que ainda se mantêm fiéis à disposição por estirpes.

Com isto, a disputa ganha em complexidade o que perde em visibilidade e compreensão: 1) o poderio económico procura garantir o poderio jornalístico e assim o poderio político e judicial; 2) o poderio político, procura colar-se ao poderio económico e controlar o poderio jornalístico e judicial; 3) o poderio jornalístico sobrepõe-se ao poderio judicial e procura influenciar e manipular o poderio económico e político. 4) o poderio judicial funde-se com o poderio político e controla o poderio económico e jornalístico. Eis o meu o meu retrato do que sucede neste país democrático.

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Sobre os lares da 3ª idade

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Num texto publicado em Setembro do ano transacto, chamei a atenção para o risco das crianças de hoje crescerem acreditando que a ida para um lar de 3ª idade faz parte do processo natural do envelhecimento, facto que deve a sua razão de ser à controvérsia que os lares da 3ª idade representam para a consciência de muitos adultos.

Revisito agora esta discussão, para partilhar a convicção que em crescendo tem vindo a consolidar-se no meu entendimento, a qual contraria a perspectiva dos que vêem como perigosa a instauração de uma moda no que toca aos lares da 3ª idade.

Pessoalmente sou favorável aos lares porque vejo neles um acréscimo de qualidade de vida para os idosos. Acho falacioso muito do que se prega em desfavor dos lares, já que estou em crer que a malevolência ou demérito dos lares para os idosos não está tanto no lar em si, antes na forma como a tranquilidade que estes conferem aos elementos familiares propicia o esquecimento dos idosos nessa local.

Os lares têm condições específicas pensadas para os idosos, permites-lhe interagirem com gente da sua geração, garantem que a alimentação, a higiene e as questões da saúdes são devidamente acauteladas. E se há, nos lares, velhos que amargurados e contrariados com a solidão e abandono, permitam-me que deduza que também os há em muitos apartamentos e moradias em que estes passam os dias sozinhos fruto da rotina profissional e escolar do agregado familiar. Aqueles que preconizam desfavoravelmente à inscrição dos idosos nos lares, poderão estar desfasados da realidade de inúmeras famílias. Parece-me também, e aqui revisito verdadeiramente a menção inicial, que os lares se irão inscrever no modo de vida moderno como parte da lógica da sociedade, querendo com isto dizer que há medida que gerações como a minha forem envelhecendo, cada vez mais será diminuta a polémica sobre a ida ou não dos idosos para lares, porque esta não mais será uma questão nova, e cada novo velho saberá entendê-la saudavelmente à luz do que experienciou ao longo da sua vida.

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Sobre a argúcia como património pessoal

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Muitas são as ocasiões em que me pergunto porque motivo as pessoas não se dão conta do quão importante é desenvolver competências discursivas enquanto fim em si mesmo, e não como meio para o sucesso profissional ou escolar.

Acima de tudo, saber falar, entendendo por isso a competência na discussão de temas pela crítica ou pela defesa de ideias, mas também a devida apresentação das mesmas através de objectividade semântica e lexical, é uma actividade crucial para todos os aspectos da vida, não apenas para aquelas onde somos formalmente avaliados, confrontados, premiados e que possam apresentar-se como ganha-pão.

No campo da vida privada, com ênfase nas relações familiares ou amorosas, escassas serão as questões em que pouco ou nada haja a dizer para defesa ou acusação pessoal devido à irrefutabilidade das provas apresentadas. A grande maioria dos casos não são imediatamente resolúveis por confrontação com provas factuais, pelo que se resumem à prática do universo da argumentação, na forma do método dialéctico, por não existir força na fundamentação da prova que permita à defesa ou ataque que se sobreponham uma à outra, dependo do caso, a ponto de provocar a desistência do lado mais enfraquecido.

Ora a dialéctica, definida como a resolução racional de desentendimentos, não só é uma arte como também uma arte necessária ao indivíduo. Aqueles que não sabem argumentar, ou que remetem a competência oratória para planos meramente profissionais, talvez conheçam bem o que é ser vulnerável a ataques injustos, conheçam bem o que é ficar pelo caminho por não conseguir levar as ideias e convicções próprias a bom porto. Mais, não esqueçamos também que não saber falar é meio caminho andado para sovar e ser-se sovado, com tudo o que de animalesco isso acarreta. Há que cultivar entre os mais novos o dom de saber falar, para que quando necessário cada ser humano possa ter como património a sua argúcia.

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Sobre o peso da sobriedade

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Tenho dias de ambicionar aferir o peso da sobriedade, essa força que empurra o homem para o escrutínio do mundo sem convocação de estados mentais inacessíveis ao mesmo sem consumo ou utilização de estímulos e estimulantes externos.

Será o peso da sobriedade igual ao peso do que se perde por não experimentar estados psíquicos induzidos?

Aquilo de que vou apercebendo é que a sobriedade custa a manter-se, porque ela despoleta a lucidez e a lucidez é nada mais nada menos que um fiscal em início de carreira que nada de errado pretende deixar passar em claro. Como justificar a sobriedade quando a lucidez que dela resulta nos faz olhar o mundo com limpidez e causalidade doentia? Como justificar não ter justificações para não proceder correctamente? Como é fácil provocar quimicamente a perda de sobriedade, socialmente ou nem por isso, e depois decidir-se a um temporada de sobriedade por se dar conta do quão mau é não estar sóbrio.

Quando se tem tempo livre, estar sóbrio é dolorosamente saudável. Ter tempo para olhar pela janela e perder tempo com detalhes triviais, poder caminhar na rua e observar os outros sem qualquer tipo de condicionamento mental, ou mesmo deambular por casa e ir dando conta de como a falta de rotinas nos põe tontos.

A sobriedade é analítica, faz parte de uma família de conceitos menos valorizados pela arte, que sempre vai preferindo gente cujo curso mental transborda e galga as margens do óbvio e do lógico. Na música, como na arquitectura, como na poesia, é fácil ser-se ultrapassado e remetido para o caixote da mediocridade por gente que não sente o peso da sobriedade, gente que escrutina o mundo através de perspectivas desumanas, que lhes possibilitam conclusões inéditas e estéticas originais nas formas de expressão convencionais. O sóbrio assumido sabe não ceder a conspurcar-se com a perda de sobriedade, mas vive idolatrando os não sóbrios porque é deles o estrelato.

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Sobre a inadequação dos funerais

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É muito apetecível lançar observações generalistas sobre a sociedade, procurando estabelecer padrões e modas, mas chegará sempre o dia em que um aspecto mais arredado da norma nos convoque para reflectir sobre a justiça da generalização.

E dizendo isto passo a revelar que no ponto de modernização e evolução tecnológica em que nos encontramos face aos séculos anteriores mais recentes, parece-me sobremaneira antiquada a forma como a nossa sociedade trata os mortos.

Estou precavido para a ideia de que a dedicação ao tema da morte e dos mortos pode patrocinar os qualificativos de mórbido ou torpe, mas isso não invalidade que semelhante temática deva ser conversada e discutida.

Sincera e inofensivamente falando, custa-me a aceitar que os mortos continuem a ser enterrados no solo e que tenhamos de esperar a degradação do seus corpos para que se dê por consumada o término da sua passagem e influência no mundo dos vivos.

Casos há em que a biologia e a química impedem a deseja digestão por parte do solo, cuja ocorrência é crucial para que o ciclo funerário possa ser completado com a celeridade almejada por todos.

Tanto progresso tecnológico e inventivo em tantas vertentes da vida e da sociedade, para que me dê conta da completa estagnação e artesanalidade no tratamento dos mortos. Não me cabe a mim enumerar as alternativas às práticas actuais, apenas me espanta que os vértices da sociedade possam ir do muito sofisticado e dinâmico para o muito medieval e estático.

A própria profissão de coveiro condensa em si todo um esquecimento por esta matéria. Como enquadrar e encarar a existência de um posto de trabalho exclusivamente dedicado a cavar braçalmente covas para que os mortos possam ser depositados? Não salta a vista o arcaísmo destas práticas, tão pouco consentâneas com esta era informatizada e industrializada? Os mortos merecem melhor.

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