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Sobre as mulheres ao volante*

*Nuno Cardoso escreveu um texto na qualidade de Amigo do 3vial e é o terceiro participante desta iniciativa:

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Desde que tirei a carta de condução e comecei a conduzir com frequência, passei a reparar mais no comportamento dos outros condutores e nas infracções que cometem. Isto levou-me a pensar quem é mais inseguro ao volante, se os homens ou as mulheres.

Na minha opinião e com base no que tenho visto e ouvido, concluo que são as mulheres. Noto que, talvez por distracção ou insegurança, as mulheres tendem a fazer manobras perigosas, como muitas mudanças de faixa porque se enganam, conduzir ao telemóvel enquanto estacionam, contornam rotundas, ou vão a ultrapassar, etc. Duvido que nunca ninguém tenha falado ao telemóvel enquanto conduzia, mas parece-me que as condutoras ficam mais alheadas da estrada do que os homens. Mesmo sem o telemóvel, tenho verificado o desrespeito, por distracção, de várias normas de trânsito e outros condutores, tal como parar o carro em qualquer local obstruindo o trânsito, abrir a porta sem ver se vão a passar automóveis e chegou-me aos ouvidos até que uma senhora fez marcha atrás numa rotunda, porque tinha passado a saída dela.

Os homens cometem erros na condução geralmente por excesso de confiança ou exibicionismo, mas parece-me que são erros menos graves, no entanto, também é preciso ter cuidado, existem sempre casos extremos.

Não quero com isto dizer que todas as mulheres são inseguras ao volante, aliás, tem-se verificado que cada vez mais mulheres condutoras de transportes públicos e um caso de sucesso na condução feminina, a Elisabete Jacinto.

Concluindo, não podemos facilitar na condução, e fica o meu apelo a que toda a gente cumpra as normas de trânsito, eu próprio estou a tentar mudar o meu comportamento na estrada.

Como o meu avô dizia, “O carro é como uma arma”.

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Sobre o crescimento ao viajar

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A expectativa associada a uma viagem evolui na mesma proporção em que existe a consciência de que se vai contactar com estímulos diferentes, fruto de paisagens diferentes, de sociedades diferentes, no fundo de uma perspectiva completamente nova sobre a forma de ver o mundo e de o viver.

Embora hoje se possa registar com minúcia todos detalhes de uma jornada turística e ainda produzir mil e uma perspectivas fotográficas sobre os sítios no quais somos turistas, a verdade é que não há como passar para esses depósitos de imagens e videos, o espírito e o espaço mental que se descobre aquando da visita de um novo local, de um novo povo.

O homem tem uma enorme facilidade de aprender tendo como intermediários os sentidos, e nada melhor para aproveitar esses recursos biológicos do que nos permitirmos conhecer um sítio novo, quiçá um país novo, e abrir os poros dos sentidos para uma completa exposição ao que desse lugar novo emanar.

Talvez assim possamos regressar ao que chamamos casa enriquecidos, ainda que previsivelmente com os bolsos mais leves. Viajar é como ler um livro cujas páginas estão longe de estar impressas, requerendo ao leitor que as procure para que se revelem e para possam ser lidas. Viajar é, então, um convite à leitura espontânea dos outros e dos lugares em que vivem, uma construção mental que se estrutura em função da curiosidade, interesses e motivação dos que partem em busca de saber mais.

Todos os dados que fluem para a nossa mente quando nos confrontamos com gente de regiões até então desconhecidas, são somados à estrutura mental e fazem de nós pessoas mais ricas, com uma visão muito mais abrangente e transversal.

A cultura individual cresce com o alargamento das perspectivas, qualquer perspectiva que considere múltiplas realidades diferentes será sempre mais valiosa, pelo que cabe a cada um dé nós aproveitar as oportunidades, como a de viajar, para crescer mais.

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Sobre os pensamentos infundados*

*Sónia Batista escreveu um texto na qualidade de Amiga do 3vial e é a segunda participante desta iniciativa:

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Muitas vezes caímos no erro de comentar certas atitudes, posições ou maneiras de pensar e de estar de algumas pessoas. Sendo nós seres racionais e inteligentes é nos quase impossível observar alguém ou alguma situação e não pensarmos sobre tal. É no entanto, errado fazê-lo despropositadamente, pois nós não conseguimos adivinhar o que vai na cabeça daquela pessoa para fazer tal coisa ou situações por que essa pessoa já passou que a levam a tomar certas atitudes e posições. Nós não temos o direito de julgar ninguém pelos seus actos. Cada um é como é e faz o que faz pela sua experiência de vida, as suas vivências, os ensinamentos que teve, entre outros. Não podemos criticar alguém sem conhecer toda a sua história.

Assim, é errado pensar que aquele está a agir mal, está a ser incorrecto, vingativo, egoísta… Não sabemos! Para ele tudo pode fazer sentido no modo como está a agir. No caso das pessoas que nos são mais próximas, penso que deveria haver uma análise profunda sobre as suas histórias e forma de pensar para as podermos compreender realmente. Só teria vantagens conhecermo-nos uns aos outros, só assim poderíamos ser úteis a níveis inatingíveis a estranhos.

Não podemos dizer à priori “não curto aquele gajo” sem o conhecer previamente, e estou certa que já vos aconteceu ter uma primeira impressão de uma pessoa que quando foram a conhecer melhor se aperceberam que era errada.

Todos somos diferentes exactamente por isso. Todos tivemos experiências, vivências, contratempos, situações, ensinamentos diferentes uns dos outros. Assim, não podemos criticar alguém porque sim, a menos que tenhamos uma boa justificação, ao invés estaremos a ser bastante injustos, infundados e imaturos.

Ninguém pode perceber totalmente alguém. Só nós sabemos o que somos, o que sentimos, o que pensamos e o que vivemos… Só nós!...

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Sobre a distinção de sentimentos

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Em tempos julguei ser possível distinguir diferentes sentimentos que se podem nutrir por uma pessoa, tratando-os como conceitos distintos, semelhantes a gavetas perfeitamente definidas e independentes. Fi-lo por acreditar que era possível dissecar a imagem que uma pessoa suscita na nossa mente. Hoje, contudo, não estou em condições de pensar o mesmo, porque dei conta de como é complicado, a ponto de ser inviável, entender cada como a soma de conceitos escolhidos a dedo. Não. Quanto mim, aquilo que uma pessoa é, representa mais do que a soma dessas partes, porque quando pensamos nela, a nossa mente é visitada por um pacote singular que contém tudo o que a ela diz respeito, um pacote que faz com que se sinta uma única coisa num dado momento.

Cada pessoa que conheço, surge-me na mente como o produto do seu feitio, do seu impacto em mim, das experiências conjuntas e seu contexto, do seu sexo e da sua idade, entre outros. Não as consigo ver como o somatório de coisas diferentes que nada tenham a ver entre si, isso não é certamente uma pessoa.

É inegável que é mais simples dizer que se gosta ou não se gosta de alguém, sem avançar com a adjectivação que sustente tais afirmações, mas talvez para além de simples, seja mais sensato fazê-lo deste modo. A complexificação do que representa cada pessoa para cada um nós, através da introdução de conceitos cuja definição está longe de estar convencionada, é um exercício de total subjectivação que pode conduzir a erróneas conclusões. Basta pensar que um ser humano pouco erudito, poderá saber expressar o seu amor ou paixão através de um simples “gosto de ti”, mas que um outro, mais intruído, tente substituir essa frase simples por uma construção mais elaborada, mas que ainda assim não acrescente mais genuinidade ou objectividade à comunicação que está a ser feita.

Quando se sabe mais, há tendência para querer revelar tudo o que sabe, mas acoplada à sapiência, vem o desafio da coerência, pelo que se recomenda prudência àqueles que arriscam categorizar e dissecar o produto de alguém em nós.

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Sobre a frontalidade e seus tipos

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A frontalidade é uma modalidade que me diz muito, mas que tem o estranho de dom de ser confundida com muita outra coisa, geralmente dentro de um leque de qualidades negativas.

Aproveito desde já para bifurcar o texto, dando azo ao aparecimento de dois conceitos distintos, o de frontalidade explícita e o de frontalidade implícita. Vejo-me obrigado a fazê-lo na medida em que me apercebo que as pessoas podem defender frontalidades diferentes, conduzindo estas a resultados perfeitamente distintos.

Quando falo de frontalidade explícita, refiro-me a palavras duras, quer para quem ouve ou lê, que ganham em pragmatismo aquilo que perdem em diplomacia. Este é o tipo de frontalidade que pode desencadear vias de facto, que deve ser controlada para que seja usada apenas em casos pontuais, já que é susceptível de conduzir à perda de controlo da situação, a um incendiar de conversas, discussões.

O outro modo, dito implícito, é mais apurado, porque consegue transmitir a mesma mensagem dura, mas por efeito dedutivo, fazendo com que a outra pessoa tenha de discorrer para perceber a gravidade do que se está a dizer. Geralmente, este modo, manifesta-se na pessoa que ouve, através do lançamento de uma questão para o ar, visando confirmar aquilo que ela própria deduziu.

Eu posso dizer que alguém é um idiota, com as letras todas, causando embaraço e exponenciando o risco de perder o controlo da situação, ou então servir-me da frontalidade implícita e dizer à pessoa que quem faz isto ou aquilo (deixando em aberto que ela o fez), é um patife. É a diferença entre a frontalidade elegante e a frontalidade bruta.

Julgo ser importante que todos aqueles que se dizem frontais ou que ambicionam ser, tenham a noção de que a frontalidade não é bruteza, é apenas um pragmatismo e uma sinceridade de pensamento que merece ser tratado de forma elegante, para evitar deslocar a resolução dos problemas para um plano físico, ou que não intelectual.

Antes de encerrar, uma nota de alerta: as bocas costumam ser mais íntimas da frontalidade do que os ouvidos, pelo que toda e qualquer pessoa terá de trabalhar a sua capacidade de ouvir mensagens frontais.

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Sobre a padronização do amor

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Sou um crítico acérrimo do romantismo disseminado pelas criações ficcionais mediáticas, não pela sua essência, mas pelo que representam para a vida social dos seres humanos. E o que representam tais criações?

No meu entender, tudo o que restrinja o entendimento humano de forma injustificada, constitui uma perversão da visão global e diversificada que deve ser cultivada em muitos assuntos relativos ao homem.

É para mim inquestionável a evolução da sociedade num sentido que perverte o amor enquanto expressão multifacetada do género humano. As pessoas, ao consumirem criações ficcionais que vendem conceitos de amor perfeitamente surreais e intangíveis, viciam-se emocionalmente nesses materiais ao ponto de os elevarem ao posto de ampolas sentimentais, mas pior mesmo é o que advém disso: uma padronização extensa do conceito de amor que restringe inapelavelmente a sua amplitude.

Não me é muito difícil associar a crescente dificuldade que dois seres humanos têm em se tolerarem prolongadamente, ao produto das criações ficcionais que vende uma ideia de perfeição que assenta no conceito de para sempre, mas que peca por não definir o para sempre como a soma dos “agoras”. As pessoas podem amar-se para sempre, mas não se amarem mais hoje, porque o agora e o para sempre parecem inserir-se em universos paralelos.

Dentro do padrão de amor instituído por esses vectores de comunicação a massas, é fácil e até simulável a demonstração de amor: todos sabemos identificar o sentido e o romantismo de um ramo de flores, uma ida ao cinema ou um passeio na praia. Não o identificamos porque assim o entendemos no próprio momento, antes porque nos habituámos a que essas sejam as formas convencionais de expressar o amor.

Ora é nesta prisão conceptual que a sociedade se está a prejudicar, porque as pessoas crescem a viver o amor padronizado, e raramente se permitem conceber e aceitar como igualmente válidas formas distintas de demonstrar amor aos outros.

A diferenciação é o que nos faz falta para que não sejamos engolidos pela sensação de normalidade que nos transforma em seres banais, e no que toca ao amor, temos vindo a investir exactamente no conceito de banalização, pela via da padronização.

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Sobre o ciclo da juventude e velhice

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As relações entre os jovens e os menos jovens segue uma dinâmica perfeitamente desenvolvida, que tem vindo, nos últimos tempos, a ser aldrabada, como resultado das condições da vida moderna, da falta de consciência e de algum manifesto egoísmo.

Um adulto que pegue num bebé recém-nascido da sua família, dar-lhe-á certamente carinho, amor, enfim, preencherá um espaço reservado ao afecto familiar, que visa guarnecer a vida do petiz com tudo aquilo que precisa para se desenvolver de modo saudável a nível social e emocional.

É involuntário pensar que esse mesmo bebé poderá um dia ter a seu cargo a função de cuidar ou acompanhar estes familiares seus que outrora colo lhe deram, fechando um ciclo, natural, no qual os jovens de hoje crescem com ajuda dos velhos de amanhã, os quais por sua vez dependerão desses jovens de hoje, que na altura já serão adultos, para viverem as respectivas velhices.

Assim como quando nasci sei ter sido acarinhado e estimulado por adultos que me queriam bem, a mesma noção existe quando penso no meu papel presente e futuro, que será acarinhar e estimular aqueles que um dia de mim cuidaram, contribuindo para o fechamento desse ciclo natural que referi.

Debruçando-me um pouco mais sobre esse ciclo, diria que as coisas, na nossa sociedade, têm corrido bem quando a etapa em causa é a de acarinhar os novos, de os estimular, mas que tendem a falhar tragicamente relativamente ao carinho e estímulo dos velhos. Muitos novos andam a crescer e negligenciar o seu papel activo no ciclo, ou seja, andam a falhar no cumprimento do seu papel para com os velhos.

É verdade que a velhice não se reveste tão facilmente da alegria e entusiasmo que a infância, mas julgo que não é necessária mais motivação para acarinhar e estimular os mais velhos, do que pensar que foram eles quem outrora contribuiu para o que hoje somos, tendo-nos igualmente acarinhado e estimulado noutra fase de nossas vidas.

É crucial reflectir sobre estas questões da dinâmica familiar, porque há muito que surgem indícios deste ciclo estar a ser violado, muito por culpa de limitações temporais, mas também por egoísmo e leviandade.

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Sobre o ser lido por gente conhecida

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Qualquer pessoa age de uma forma completamente díspar quando se sente observada ou sabe estar a sê-lo, do que agiria caso sozinha se encontrasse. Penso que não há grande novidade nisto, não fosse eu acreditar que este é bom ponto de partida para abordar aquilo que se passa com a escrita.

Como o acto da escrita constitui uma actividade tipicamente solitária, pelo menos atendendo a que o criador do texto se concentra no texto a ponto de se estar absorto para o resto, a sua escrita naturalmente reflecte um estado natural, a menos que a noção de observação também se faça sentir.

Nos textos, ao contrário do que acontece noutras actividades, a noção de observação é bastante focalizada nas pessoas que se conhecem, porque um texto para além do significado literal mais facilmente tangível, pode conter um conjunto de conexões implícitas, ainda que inconscientes ao autor ou mesmo ilegítimas de todo, cujo efeito pode condicionar a vida e a própria pessoa que escreve.

Se eu sair à rua e tentar mostrar muito do que sou, talvez me venha a envergonhar e intimidar pelos olhares indiscretos de gente anónima que se cruze comigo. Na escrita, porém, as leituras de anónimos não afectam tanto a intimidação no autor, como a leitura de conhecidos.

É sabido que alguém que escreve num universo e espaço público como a internet, não tem como garantir que escreva só para conhecidos, mas a verdade é poderá depender tremendamente deles a forma como escreve, assim como aquilo que revela ou oculta em cada texto.

Recorrendo a alguma experiência pessoal que posso avançar, diria que é um completo quebra-cabeças estar motivado para escrever um texto e ser confrontado, no decorrer do exercício de criação, com preocupações laterais ao processo criativo, cujo surgimento pode conduzir à perda de lateralidade e à completa subjugação ao receio que ela encerra.

Embora seja louvável que o ser humano possua uma dose considerável de tento na mente, para não arranjar excessivas confusões, a verdade é que penso ser absolutamente discutível censurar alguém porque se exprime expeditamente por uma via como a escrita, apontando-lhe perigos de o fazer.

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Sobre a nostalgia e o materialismo

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Incontornavelmente, a nostalgia faz parte do leque dos sentimentos humanos, visto que é versátil o suficiente para se adequar a praticamente qualquer tipo de ideia relacionada com o homem.

Aquilo com que dei comigo a pensar, é que a saudade existe quase sempre numa perspectiva material. Quando se sente a falta de alguém, geralmente desloca-se imediatamente o sentimento para os locais ou actividades em que essa falta se faz sentir, numa clara investida pelo cenário sensitivo. Poder-se-ia dizer que se sente falta da pessoa por haver sido um ser humano bondoso ou pelas ideias que tinha, mas é bastante mais fácil enquadrar a saudade nalgum retrato material que não deixe dúvidas sobre a objectividade do sentimento.

Nesta linha de pensamento, o consumismo é claramente um instigador de nostalgia, visto que pela preterição de uns produtos relativamente a outros, se vai trocando a malha quotidiana e, no mesmo passo, facilitando o sentimento de saudade. Aquele que troca de carro mais vezes, poderá sentir mais saudade, porque poderá sentir-se nostálgico relativamente às viaturas que deixou para trás e que o poderão ter marcado. Pela condição materialista, a nostalgia pode ter uma existência subjugada ao grau de consumismo humano.

Por outro lado, uma consequência desta reflexão seria aceitar que hoje se está mais saudosista do que antes, visto que nunca como agora o consumismo se encontra desenvolvido e generalizado em níveis agressivamente altos. Não estou em condições de asseverar a comparação dos índices de saudosismo actuais face aos antecedentes, visto que a tecnologia tem vindo a preencher eficazmente o campo da recordação, com múltiplos dispositivos que facilitam a memória e que podem colmatar o sentimento de sentir falta que no fundo é a saudade.

Acima de tudo, penso que o mais relevante é mesmo a ideia de que o cérebro se agarra ao material como que para comprovar a saudade, não se ficando numa dimensão subjectiva e de difícil definição. Nunca ouvi dizer que se sente falta de ter 12 anos, ficando-se por aí. Acrescenta-se sempre alguma relação com o materialismo, quer seja por nessa altura se ter uma revolucionária consola de jogos, ou por jogar futebol na rua aos domingos à tarde.

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