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Sobre a manipulação dos outros

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Tal como canta João Pedro Pais numa de suas músicas, “ninguém é de ninguém, mesmo quando se ama alguém”. Faço deste o ponto de partida para um texto que procura desvendar as dinâmicas de sedução e indução dos outros mediante aquilo que é a nossa vontade ou desejo.

Quando estamos manifestamente investidos de boas intenções, é desconfortável e porventura horripilante utilizar o termo manipulação como descrição do efeito da nossa vontade sobre os outros. Todavia, é importante ter a coragem de verificar até que ponto a nossa própria vontade de ajudar ou de complementar o trabalho, ideias, esforço ou dedicação de alguém não conduzem a uma influência de tal magnitude que a pessoa visada dê consigo a ser empurrada para algo que não quer.

Quando se gosta de alguém, é normal que surja um sentimento de protecção relativamente ao outro, sentimento este que pode conduzir a que tentemos evitar que essa pessoa escorregue ou se precipite para situações dispensáveis e desagradáveis.

Contudo, é crucial ter atenção para o facto de os outros terem direito ao seu próprio espaço e à sua própria liberdade para fazerem as coisas do modo como lhes parece ser certo ou adequado, em suma, o seu modo.

Vistas bem as coisas, que serventia tem evitar a todo custo uma qualquer vicissitude desagradável que a pessoa em causa poderia não estar a ver, para depois, devido à manipulação usada, se criarem problemas internos entre os elementos envolvidos?

Ao chamar manipulação dos outros, incluem-se coisas como jogos psicológicos, chantagens, ataques morais, mentiras oportunas, ou seja, agregam-se diferentes formas de influenciar radicalmente os outros.

Termino relembrando a frase com que principiei esta reflexão: por muita vontade de ajudar e fazer bem, que o amor por alguém possa provocar, o outro será sempre alguém com direitos e alguém a quem se deve respeitar o direito à própria identidade.

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Sobre as coincidências

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Sendo o homem um animal que, entre outras coisas, se especializou na detecção de padrões e cujo futuro passará cada vez mais pela interpretação de dados aparentemente desconexos e extrair deles pacotes de informação unidos por lógicas obscuras, as coincidências surgem como um produto desse modus operandi.

No livro O Pêndulo de Foucalt, de Umberto Eco, é explorada a forma como se podem criar conexões entre factos mediante a busca desenfreada e despropositada de ideias que tenham algum elo comum, ainda que todo ele possa ser um exercício forçado.

Os signos do zodíaco, que persistem em preencher um cantinho em qualquer publicação jornalística, perseguem as coincidências de forma descarada.

Numa perspectiva céptica, talvez seja possível entender as coincidências não como a compilação ou descoberta de factos que se ligam por um fio condutor bastante específico, mas antes como a invenção ou descoberta de um fio condutor que agrega diferentes factos de entre uma infinidade deles, e que subtilmente inverte a posição do exercício, levando a um subtil permutar de perspectiva e a um verificar que, afinal, são os factos que se encaixam na ideia e não o contrário.

Os milagres e todos os actos de fé relacionados com ligação de factos têm a sua propulsão no seio das coincidências que podem acidentalmente resultar da associação da crença religiosa a vicissitudes da vida.

Serve portanto este texto notar que investir demasiada atenção e energia na detecção à lupa de coincidências que visem fundamentar qualquer tese que possamos pretender defender, constitui uma actividade de alto risco, na medida em que a probabilidade de a contaminarmos com imparcialidade na pesquisa dos factos é tremenda.

Cabala é o nome dado a concidências que resultam de compilações de factos maléficos ou negativos sobre alguém. Álibi é o facto que nos permite contestar objectivamente a validade de uma coincidência, a bóia de salvação contra a imparcialidade.

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Sobre a vivência da morte*

* Gabriela Duarte escreveu um texto na qualidade de Amiga do 3vial e é a quinta participante desta iniciativa:

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A natureza da vida pressupõe um ciclo individual que termina com a morte; deste modo, a morte não se limita a um derradeiro acontecimento, mas engloba toda a vida, condicionando as atitudes do Homem – VIDA e MORTE identificam-se. Mas a questão da morte pessoal, da minha morte, envolve uma situação enigmática (“Sei o que deixo, mas desconheço experimentalmente o que me espera.”), cuja solução ficará na penumbra porque ninguém a experimentou e porque no exacto momento em que ocorre já não é possível conhecer.

Contudo, o pensamento sobre o sentido da morte pode ajudar a viver a vida temporal com um sentido ético, coerente, sério e com fundada esperança, que estimula o esforço no sentido de nos tornarmos livres, conscientes e responsáveis pela limitada vida disponível; ou seja, é importante ir assumindo a vida e a morte. A coragem de enfrentar pacificamente a morte iminente assinala o ponto mais elevado da liberdade pessoal. O indivíduo crescerá em termos de tranquilidade e de força moral caso a sua luta pela vida o encontre preparado para “ir de encontro à morte”, em vez de lutar desesperadamente contra ela.

Deste modo, atender à morte é atender à vida; aprender a morrer é aprender a viver e é na dimensão ética da morte que esta adquire também sentido na vida dos homens. Como diria John Donne:

No man is an island, entire of itself…any man's death diminishes me, because I am involved in mankind and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee.

(“Nenhum homem é uma ilha, inteira em si…a morte de qualquer homem diminui-me um pouco, pois estou envolvido em toda a humanidade e, portanto, não mandes perguntar por quem os sinos tocam, eles tocam por ti.”)

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Sobre as apresentações em público

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As apresentações em público permitem estudar a personalidade das pessoas de uma forma bastante particular e interessante.

É curioso reparar como existem pessoas que se modificam completamente quando têm de fazer uma exposição em público, tal como a apresentação de um trabalho. Se é verdade que existem certos pormenores cuja modificação pode parecer de certa forma óbvia, como a forma de vestir ou o uso de linguagem mais cuidada, também o é o facto de certas pessoas levarem a cabo alterações invulgares no contexto da sua natural forma de ser, ou ainda de não levarem a cabo assim tantas modificações como isso.

O ponto central de uma apresentação é que aquele que apresenta sabe que necessita de trabalhar em função do público que tem, de transmitir as mensagens de forma a que sejam percebidas por todos e, como tal, é normal criar-se uma postura de genuína vontade e transparência que visa maximizar o desiderato da apresentação ser um sucesso.

Pessoas há que se preocupam muitíssimo com as reacções dos outros no decorrer das apresentações, o que pode ter duplo efeito porque pode ajudar a tranquilizar como pode perturbar e enervar mais. Outros apresentam fixando-se numa ou duas caras conhecidas ou de segurança, e aí ficam tentando ganhar conforto explicando a esses e esperando que os demais entendam.

Pode-se falar num certo altruísmo provocado, quando se pensa nas apresentações, uma vez que o apresentador pode ter tendência a dar ao público o que este quer e com isto ir lendo exactamente o rosto da plateia para ir captando as reacções que permitem identificar aquilo que o público anseia.

As apresentações permitem exteriorizar a forma como nos vemos, já que a nossa postura e forma de apresentar funcionam como sinais dessa auto-avaliação, pelo que todas as manifestações, quer sejam de seriedade, de humor ou de stress, constituem evidências do que sentimos, e, no limite, porque não, daquilo que achamos que somos para a nossa plateia.

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Sobre a facilidade em desistir*

* Ivo Pais escreveu um texto na qualidade de Amigo do 3vial e é o quarto participante desta iniciativa:

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Cada vez se torna mais simples deixar de parte algo que não nos agrada, qualquer que seja o motivo deste descontentamento. O extremo facilitismo em gerar estas opiniões, em assumir estas decisões faz com que a negação seja algo fútil, despreocupado e demasiadamente regular.

Por haver assuntos que merecem mais a nossa atenção, os mesmos não devem ser acatados levianamente sem serem tratados com o devido cuidado. Mas hoje em dia, a posição que se toma é a de ‘deixar andar’ e ‘ver aonde leva a situação’, o que implica que os assuntos não sejam tratados com a importância que merecem. Isto é: quando algo é muito importante, não se ‘deixa andar’ o assunto e cuida-se dele atentamente; mas se essa questão nem sequer faz sentido, então é natural que se descarte a mesma sem delongas e sem condições.

A maneira mais simples de resolver as situações é realmente desistir quando algo se torna chato ou cansativo ou até quando existe acomodação. Mas além de ser o modo mais simples, é também o menos custoso e o que envolve menos racionalismo. Sendo nós seres pensantes, seria natural que a nossa tendência fosse aproveitar essas situações para melhorar e incrementar o nosso pensamento, as nossas vivências. Mas o que acontece é que os momentos difíceis não aparecem para melhorar a nossa demanda como seres racionais, mas sim para desculpar algo que se deseja e que não se tem coragem de assumir. A desistência é uma forma de sabedoria. A desistência no momento certo vale mais do que a continuação em qualquer altura. Desistir na altura apropriada traz-nos menos prejuízos do que querer sempre ver o que vai acontecer e deixar chegar até ao último instante para tomar a mesma decisão que, saberíamos à partida, seria aquela que iríamos tomar.

É certo que esta clarificação sobre a melhor altura para desistir não vem incorporada em nós à nascença, mas ganha-se, como qualquer outra característica que temos. Por isso, é natural que mais tarde ou mais cedo saibamos como ter este controlo. Desistir pode parecer um acto pouco egoísta, mas no final, a conclusão é que saber quando parar será sempre melhor para nós do que para os outros. O que não quer dizer que não se pense quando se trata do nosso bem-estar. Implica, sim, que teremos de saber conciliar o nosso bem-estar com o dos outros.

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Sobre as necessidades africanas e a caridade

                 

Imagem: On the Line 1 - Haroon Gunn-Salie (2016)

* * *

No rescaldo de um périplo pascal pelo continente africano, encontrei novos temas e assuntos para tratar. Todos temos consciência das necessidades e carências de África. Fiquei particularmente sensibilizado por uma criança moçambicana que correu para a margem da estrada térrea por onde passei e repetiu duas ou três vezes uma palavra imperceptível para mim. Um jovem local que nos acompanhava fez o favor de traduzir para português, revelando que a criança clamara por lápis aquando da nossa passagem por ela.

Surge então uma questão que para mim é pertinente para que se atinja a dimensão da cena que descrevi: que crianças em Portugal acorrem aos visitantes pedindo bens tão simples como material básico de escrita?

Só constatando sensorialmente é que nos apercebemos do que representa a caridade para estas crianças e pessoas, que de outro modo poderão nunca chegar a ter os bens que precisam. Foi igualmente positivo verificar que há gestos universais, que provavelmente funcionam bem com quaisquer crianças de quaisquer países do mundo. Um deles é o de oferecer uma guloseima. Funciona como um gesto diplomático e de carinho em simultâneo.

Completamente diferente disto, foi um incidente pessoal, cujo resultado directo foi ter ficado sem um par de sapatilhas por me haver esquecido delas involuntariamente um rochedo. Independentemente do valor simbólico ou comercial do calçado que me foi subtraído, fiquei reconfortado por imaginar que num continente cuja realidade não concebe o esbanjar ou desperdício de recursos, muito provavelmente aquelas sapatilhas foram encontradas por alguém que precisava delas, alguém cujo rosto não preciso de conhecer para acreditar que as pode estar a usar neste preciso momento e para quem poderão ter um sentido que não tinham para mim, visto que eram simplesmente mais umas de um conjunto de opções que é costume, fora de África, qualquer pessoa poder ter.

Publicação original: 12-04-2009
Revisão: 05-12-2016
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