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Sobre o pensamento mágico e a sua importância para se ser pessoa inteira, segundo Manuela Correia, ao som de 'Lighthouse' (Patrick Watson)


Extended Space - Kishio Suga (2016)

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"Quando fazemos interpretações de livros antigos (e podemos dar como exemplo a bíblia, mas não só),  temos tendendência a interpretá-lo com um pensamento hipotético-dedutivo, portanto cognitivo, e eles são pensamento mágico. Isso é a poesia, e isso é que os transforma em universais, possíveis de serem interpretados de quantas maneiras quantas pessoas existem ao cima da terra. Depois, claro que há orientadores, que guiam de alguma forma, já dentro da própria religião, ou das variantes das religião (catolicista, protestantismo, calvinismo, metodistas, etc), mas a matriz é o pensamento mágico.



E o pensamento mágico, hoje em dia, no presente, está muito afastado das nossas vidas. Está praticamente reduzido a coisas de superstição, jogar na lotaria. Eu estou em crer que o pensamento mágico, que é um pensamento que radica essencialmente na infância, é importantíssimo, e que nós podemos transportá-lo ao longo nosso ciclo de vida.



A minha experiência pessoal (e cada um terá a sua) de estar em contacto com ele, é estar ligado à Natureza. (...) É essa ligação com o todo que me permite manter, como se diz vulgarmente, a criança que há em mim. É através de um nunca me desligar do meu pensamento mágico. Porque eu quero compreender as coisas. Eu sou médica, e portanto baseio-me no método científico, mas eu sei que ele não é a única grelha para ler a realidade. É uma grelha que é importante para mim, para sociedade em que eu vivo, é importante na forma aplicativa para eu ajudar as pessoas que estão em sofrimento, mas não chega para eu ser pessoa. Eu preciso do pensamento mágico para ser pessoa inteira."



Manuela Correia (Psiquiatra) 
Curso de Cultura Geral - Episódio 8 - 26/02/2017, RTP

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Sobre 'The Woodpecker' (3vial Art), e as bicadas que se dá na vida, ao som de 'Norwegian Wood' (European Jazz Trio)



The Woodpecker - 3vial Art (2017)
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Nenhum pássaro como o pica-pau depende das bicadas para singrar na vida. Usa o bico para tudo o que os outros congéneres igualmente usam, e ainda para esculpir a envolvência com vista a construirem o seu ninho. Obviamente que para isto criam bastante ruído, levando a que todos, na sua envolvência, dêem conta da sua presença. Ainda assim, é um animal discreto, preferindo os locais mais elevados e calmos das árvores para estabelecer o seu lar.

Para o homem, as fugas de informação de matérias sigilosas são como o ruído do pica-pau, e resultam da ação de homens e mulheres que estão cientes ruído que isso cria. Com que propósito? Sinalizar problemas, fazer justiça, informar? Ou lucrar, minar, agredir? Os pica-paus humanos também tentam procuram fazer o ninho a partir das suas bicadas, e do ruído que criam. Cada caso será um caso, tal como cada árvore é uma árvore.

Já a madeira sofre sempre com o impacto, mas é a intenção que marca a diferença entre dar bicadas naturalmente enquanto desígnio natural, ou dar bicadas enquanto desporto e vício pessoal, refletindo com isso má formação e ausência de escrúpulos. Homens e pica-paus têm mais em comum do que parece.

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Sobre 'Harakiri' (3vial Art), e a diferença entre honra e a vergonha, ao som de 'A Way of Life' (Hans Zimmer)


Harakiri - 3vial Art (2014)

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O Harakiri foi uma prática característica da cultura/nação em que o papel da honra mais significou (e significa) para a sociedade: a japonesa. À luz das sensibilidades atuais, pode parecer extremista, maluco, irracional, a ideia de acabar com a própria vida por motivos de desonra. Habituámo-nos a ter de sobreviver às desonras que nos fazem sofrer, e também a ser tolerantes face às desonras que outros cometem pontual ou repetidamente.

De há uns séculos para cá, e doravante ainda mais, temos vivido em sociedades em que a honra (e a desonra) fazem parte de um remoto ou inexistente léxico, qualquer coisa que se sabe que existe mas que não tem ascendente para regular por si só o que quer que seja. Substituímos o binómio honra/desonra pelo da vergonha/falta dela, e com isso acabamos muitas vezes clamando por vergonha na cara, ou reclamando que alguém se retracte e que peça desculpa. Um mero jogo emocional de egos.

Estou em crer que, em si mesma, a vergonha é uma consequência da falta ou perca de alguma coisa mais superior, e que como tal não substuí verdadeiramente a honra. A honra é um património humano, uma credibilidade do homem não pertante os outros mas perante si próprio, e como tal não é manipulável. E é muito possivelmente por ser um tesouro invidual e por implicar esta sinceridade absoluta entre o homem e a sua consciênci, que a desonra conduzia ao Harakiri no antigo Japão imperial. Hoje já nem é certo que conduza à demissão, ao retiro, ao sincero e frontal pedido de desculpas.

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Sobre a consciência, o isolamento, a integração, e a autosuficiência das pessoas, ao som de 'Inquietações' (J.P. Simões)

Light From Within - Marty Saccone

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"- A consciência? Mas a consciência para nada serve, meu caro senhor! Como guia, a consciência não pode servir, não pode bastar. Bastaria, talvez, se pudéssemos conceber-nos isoladamente e se ela não fosse, por sua natureza, aberta aos outros. Na consciência, na minha opinião, em suma, existe uma relação essencial... certamente essencial, entre mim, que penso, e os outros que pensam; portanto, não é um absoluto que se baste a si próprio. Explico-me bem?

Quando os sentimentos, as inclinações, e os gostos destes em que eu penso ou em que o senhor pensa não se reflectem em mim ou em si, não podemos encontrar-nos nem satisfeitos, nem tranquilos, nem alegres, e isto é tanto assim que todos nós lutamos para que os nossos sentimentos, ideias e inclinações se reflictam na consciência dos outros.  

Para que lhe serve a sua consciência? Basta-lhe para viver sozinho? para se esterilizar na sombra? Ora vamos! Odeio a retórica, essa fanfarrona mentirosa que imaginou esta pretensiosa frase: «tenho a minha consciência e isso me basta!»."

O falecido Mattia Pascal - Luigi Pirandello

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Sobre o levar uma vida simples e sua vantagem aquando de investigações criminais, ao som de 'Empty Room' (Fabrizio Paterlini)


Friends Friends, Friends - Tony Oursler (2002)

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Levar uma vida o mais simples possível, operando sobre ela através de decisões e reorganizações necessários para tal, é uma meta que muitos dirão ser de ordem metafísica ou espiritual, mas que arriscaria dizer ser também de segurança pessoal e de justiça. A dita simplificação, que assenta na ideia de nos focarmos progressivamente mais no que em nós é superior, decisivo e intemporal (e não no inferior, fútil e passageiro) trás como sinergia positiva uma igualmente menor complexidade na relação com o mundo, mais precisamente com os outros seres humanos.

A este respeito, os tempos atuais têm sido pautados por inéditas (em extensão e complexidade) investigações criminais a altos dirigentes políticos, bancários, empresariais, de vários países da CPLP, causando grande alarde o impacto das dúvidas que tais perícias levantam sobre os visados. Em abstracto, concordo que ter de esperar meses ou anos para conseguir finalmente acusar formalmente alguém é tempo em demasia, mas não posso evitar pensar que se os visados se deixaram enredar em complexidades na referida relação com o mundo (mais precisamente com os outros) então simplesmente estão a colher o que plantaram.

Neste contexto, é reconfortante pensar que quanto mais simples for a vida que levamos, mais fácil é rebater ou esclarecer quaisquer suspeitas que surjam, por exemplo, nas relações interpessoais, profissionais, económicas que nos envolvam. É caso mesmo para pensar que não só o crime não compensa, como a complexidade de forma e conteúdo que lhes a subjaz (com excepções, obviamente) muito menos compensará para os visados, que acabam expostos semana após semana às dúvidas da sociedade, erodindo o seu capital de honra e legado.O processo de simplificação da vida de cada pessoa conduz a sistemas de justiça mais ágeis e eficientes, e a menores probabilidades invididuais de sermos bodes expiatórios ou vítimas de quaisquer mal entendidos.

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Sobre as perguntas verdadeiramente importantes, as crianças, e as fronteiras da nossa existência


Before flight - Obert Bubel (2014)

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"Desde a infância que as mesmas perguntas bailam na cabeça de Tereza. Porque as perguntas verdadeiramente importantes são as que uma criança pode formular - e apenas essas. Só as perguntas mais ingénuas são realmente perguntas importantes. São as interrogações para as quais não há resposta. Uma pergunta para a qual não há resposta é um obstáculo para lá do qual não se pode passar. Ou, por outras palavras: são precisamente as perguntas para as quais não há resposta que marcam os limites das possibilidades humanas e traçam as fronteiras da nossa existência."

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Sobre o livro 'The Beautiful and Damned' (F. Scott Fitzgerald) e o drama pessoal e social de se adiar/sacrificar o presente


Black Tie - Giancarlo Impiglia (1983)

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'The Beautiful and Damned' (F. Scott Fitzgerald) é um livro perturbador, na exata medida em que a enorme tensão gerada por uma má gestão de expectativas por parte do casal (de personagens) Anthony Patch e Gloria Gilbert nos primeiros anos do seu casamento, é passada para o leitor por efeito de contágio psicológico. Gestão de expectativas face à vida é, de resto, o grande tema deste livro, merecendo portanto destaque a nível de análise do valor acrescentado desta obra.

Anthony Patch começa a história como uma espécie de pré-vencedor na vida pelo simples facto de ser neto de um prestigiado senhor, estabelecendo-se na cidade de Nova Iorque no seu período pós-universitário, com vista a estabelecer-se profissionalmente. Acontece que esta afirmação  profissional nunca acontece, e a generosa mesada que o avô lhe concede lança Anthony na confortável conquista e casamento com Gloria, e numa vida de casado exclusivamente assente no ócio.

Uma moral possível desta história entronca no facto de que pode não compensar viver na expectativa de uma herança, e achar que por se ser herdeiro do prestígio e dinheiro de um antepassado ou familiar, cada pessoa não precisa de se afirmar na vida. De nada vale cultivar grande intelecto e formação, se esta não se coloca ao serviço da comunidade, na forma de uma atividade útil. Tal missão nada deve ter que ver com dinheiro, mas a expectativa de dinheiro fácil é nesta história o grande inimigo de Anthony e Gloria, ameaçando-os vertiginosamente de um colapso pessoal e social. De modo mais geral, a grande questão que este livro deixa no ar é a seguinte: será que compensa adiar/sacrificar o presente até à chegada de uma grande benesse, como uma herança familiar? 
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Sobre geografias psico-físicas, ao som de 'Mais Que isso' (Ana Carolina)


Psycho-physical geography - Eliot Walker (2017)

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"Eu não vou gostar de você porque sua cara é bonita
O amor é mais que isso
O amor talvez seja uma música que eu gostei e botei numa fita
Eu não vou gostar de você porque você acredita
O amor é mais que isso
O amor talvez seja uma coisa que até nem sei se precisa ser dita

(...)

Será que é tão difícil aceitar o amor como é
E deixar que ele vá e nos leve pra todo lugar
Como aqui"

Mais Que Isso - Ana Carolina

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Sobre o documentário Happy People: A Year in the Taiga, e a primorosa sabedoria dos caçadores da Sibéria





A vida pode ser muito diferente quando a tentamos decifrar fora da esfera da nossa vivência direta. O documentário Happy People: A Year in the Taiga propõe-se a forçar essa saída do palco sobre o qual nos debruçamos diariamente, abrindo espaço a perceber o que pode significar a vida no contexto específico de um vila Siberiana do norte da Rússia em que as temperaturas atingem -50 graus negativos no pico do Inverno e 20 horas de luz no pico do Verão, e em que o emprego mais empolgante é o de caçar zibelinas na floresta (Taiga), atividade para a qual os caçadores se isolam em cabanas solitárias apenas com um cão. Estas práticas encerram toda uma arte de viver e uma sabedoria na forma estar no mundo, implicando todo um ano de preparação e comunhão com a Natureza.

Os caçadores da Sibéria narrados neste documentário são pessoas que trabalham muito e que se queixam pouco. Vivem a vida pela vida, assumem as necessidades como prioridades, e porventura não fazem ideia do que é ter preguiça. Na remota aldeia de Bakhtia, a agressividade das condições climatéricas parece forçar cada pessoa a concentrar-se na sua função, solitária ou social, e a perceber melhor que para cada pessoa há uma missão. As pessoas não ousam passar a perna à Natureza, e enternecem-se de sentir que fazer parte de um grande plano que esta traça e no qual eles se inscrevem.

Estas simples mas valorosas pessoas não sabem falar de inovação, e no entanto transformam formas primitivas de conhecimento em valor acrescentado para si e para os seus, mas apenas em proporção à sua necessidade, e em respeito por uma Natureza que não tentam dominar e silenciar. Sabem que lucro maior é lucrar na medida do que necessitam a cada ano, sem nunca esquecer que para tudo há um esforço associado. Um dos melhores documentários que já assisti.


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