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Sobre 'Taurus Man' (3vial Art), ao som e letra de "The Ins and Outs (Marble Sounds)



Taurus Man - 3vial Art (2017)

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"Changes on the horizon
Moving me to find them
So I…

I'll make it
The moment is defining
The strategy's decided"



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Sobre o lugar dos objetivos a longo prazo num mundo dinâmico, livre e incerto


To see it - Liliana Porter  (2015)

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Vivemos tempos em que a liberdade com que as pessoas e ideias circulam faz com que, de modo dinâmico, se criem ondulações que ora avançam e irrigam, ora refreiam e desamparam. Mais do que a liberdade propriamente dita, é o dinamismo que decorre da liberdade o que faz com que haja tamanha incerteza sobre o que irá acontecer, e tantas dúvidas sobre as coisas que acabam por ir acontecendo.

Esse mesmo dinamismo, que cavalga sobre todas as descobertas tecnológicas, não pára de acelerar o mundo, impondo nas pessoas um carpe diem (viver o presente) forçado, que desloca os seus planos, preocupações ou sonhos para horizontes mais imediatos.Não obstante, nunca como hoje foi necessário aprimorar uma inteligência dita 'temporal', na exata medida em que é preciso perceber que tempo se tem realmente para o quê, que tempo se quer e/ou deve ter para isso, e quando é que é tempo de mudar ou não mudar determinada realidade, forma de estar ou convicção.

Se o mundo ganhou dinamismo e o carpe diem se vem impondo acoplado àquele, não caiamos no erro de pensar que já não há objetivos de longo prazo que valham a pena perseguir. Pode ser mais turbulento vislumbrar, e poderão interpor-se muitas incertezas e dúvivas,  mas as metas de longo prazo continuam a existir e continuam a fazer a sentido, do mesmo modo que uma maior atenção de um condutor no troço da estrada que lhe caiba a cada dia conduzir não lhe anula o sentido maior para qual dirige a sua vi(d)atura, isto, o destino final para onde se dirige.
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Sobre o filme Médico de Província, e o papel agregador da Medicina no séc. XXI, quer na ruralidade como nas cidades



Fora das grandes metrópoles, mais precisamente nos meios ditos rurais, a vida e a saúde humana podem adquirir contornos sociais e funcionais muito próprios e singulares. A aparente maior escassez de recursos, tais como médicos e transportes, associada às maiores distâncias entre cada coisa e pessoa, e ainda ao envelhecimento das populações na Europa, faz com que a figura de um Médico de Província possa emergir como um promotor basilar de coesão social, um membro da grande família que é uma comunidade rural, e ainda um consultor de aspetos da vida dos pacientes que facilmente excedem as fronteiras da medicina.

Assim, Médico de Província (direção Thomas Lilti) conta a história do médico sénior Jean-Pierre Werner (pelo ator François Cluzet) e da médica encarregue de o substituir (atriz Marianne Denicourt) devido aos problemas de saúde vividos por aquele. Nesse contexto, a curva de aprendizagem que a doutora Delezia experiencia vai colocando a nu não só as especificidades protocolares do médico ir a casa dos pacientes, como também a necessidade da medicina se fazer acompanhar simultaneamente de uma humanidade inequívoca para com o próximo, na forma de uma tremenda entrega à causa humana.

Com personagens realistas, que privilegiam a naturalidade à estética de ecrã, Médico de Província é um convite pertinente e divertido à reflexão sobre as particularidade da vida na ruralidade, sobre o rumo e a prática da Medicina, e sobre o trabalhar por missão e não por dinheiro. Cinema deste quilate merece ser visto e falado, para bem da sociedade como um todo.
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Sobres as atuais tendências da sexualidade humana no Ocidente, e a necessidade de inventar de novo o amor (Vinícius de Moraes & Toquinho)


Reclining Nude - Roy Lichtenstein (1980)


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Para aqueles interessados em inteirar-se do respetivo ponto de situação, não faltam na internet e televisão documentários tão informativos como perturbadores sobre as tendências atuais da sexualidade humana. Aparentemente, migrámos no Ocidente de sociedades onde o sexo se atinha dogmaticamente a preceitos religiosos, para uma acelerada democratização e laicização moral da mesma, a qual abriu caminho a uma liberdade que enche de vazio e desnorte a vida de muitos, criando-lhes vícios comportamentais e desvios doentios, com o alto patrocínio das tecnologias de informação.

Algures no processo de afirmação da liberdade sexual ocorreu o surgimento e afirmação da pornografia, primeiro como mascote da curiosidade e do cliché, e agora como grande acervo da volúpia humana nas suas mais rocambolescas formas. Com a sua expansão e banalização, a pornografia eclipsou a arte nobre do erotismo (fotográfica, cinematográfica, etc) e remeteu-a para um nicho invisível das massas. Substituiu-se a plasmação artística do desejo sexual pela compulsão da satisfação desse desejo, e abriu-se assim a porta a que os humanos dispensem a presença física de outros humanos para terem uma vida sexual ativa e satisfatória.

O que, nos ditos documentários mais inquieta, é perceber que a onda de liberdade que a democratização e laicização moral da sexualidade deu azo a uma mudança estrutural: a sexualidade não mais responde perante o amor/afeto. Ela ou vive apartada destes sentimentos, ou é usada como porta de entrada para estes. Despida de sentimento e digitalizada, o mundo Ocidental experiencia um deserto existencial, sexual, moral, onde aparentemente perdeu o controlo de algo natural e necessário, mas também social e complementar na vida humana. Arriscaria dizer que se assiste a uma morbidez silenciosa na sexualidade, com os contornos excessivos e anti-estéticos que tão bem reconhecemos numa obesidade alimentar.

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"É, meu amigo, só resta uma certeza,
é preciso acabar com essa tristeza
É preciso inventar de novo o amor"


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Sobre o sorriso sincero e benevolente, e a necessidade de privilegiar o melhor dos outros, ao som de 'If I didn't care' (Mose Allison)


Take out containers no. 1 - Thomas Jackson

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"He smiled understandingly - much more than understandingly. It was one of those rare smiles with a quality of eternal reassurance in it, that you may come across four or five times in life. It faced - or seemed to face - the whole external world for an instant, and then concentrated on you with an irresistible prejudice in your favor. It understood, believed, and assured you that it had precisely the impression of you that, at your best, you hoped to convey."

The Great Gatsby - F. Scott Fitzgerald 

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Sobre a inspiração primaveril (3vial Art) ao som de 'Green & Gold' (Lianne La Havas)



Spring Inspiration - 3vial Art (2017)

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"I'm looking at a life unfold
Dreaming of the green and gold
Just like the ancient stone
Every sunrise I know 
Those eyes you gave to me 
That let me see 
Where I come from


Green and Gold - Lianne La Havas
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Sobre a desarmonia das girafas e os impulsos não coordenados da mente humana (Italo Calvino), ao som de "Carnival of the animals' (C. Saint-Saëns)


Giraffe Neck - Adonna Khare (2015)

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"A girafa parece ser um mecanismo construído através da união de grandes pedaços provenientes de máquinas heterogéneas mas que apesar disso funciona perfeitamente. O senhor Palomar continuando a observar as girafas na sua corrida, apercebe-se de que existe uma complicada harmonia que comanda aquela pateada desarmónica, que há uma proporção interna que liga entre si as mais vistosas desproporções anatómicas, que uma graça natural acaba por sobressair daqueles movimentos desajeitados

(...) Nesta altura a filha do senhor Palomar, que já há bastante se cansou de observar girafas, arrasta-o em direção à gruta dos pinguins. O senhor Palomar, a quem os pinguins provocam angústia, segue-se de má vontade, perguntando-se a si mesmo o porquê do seu interesse pelas girafas.

Talvez porque o mundo que existe à sua volta se move de uma forma desarmónia e ele continua a esperar descobrir nele um desígnio, uma constante. Talvez porque ele próprio sente que avança levado por impulsos não coordenados da mente, que parecem não ter nada que ver uns com os outros e que são cada vez mais difíceis de fazer enquadrar num qualquer modelo de harmonia interior."

Palomar - Italo Calvino

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Sobre o pensamento mágico e a sua importância para se ser pessoa inteira, segundo Manuela Correia, ao som de 'Lighthouse' (Patrick Watson)


Extended Space - Kishio Suga (2016)

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"Quando fazemos interpretações de livros antigos (e podemos dar como exemplo a bíblia, mas não só),  temos tendendência a interpretá-lo com um pensamento hipotético-dedutivo, portanto cognitivo, e eles são pensamento mágico. Isso é a poesia, e isso é que os transforma em universais, possíveis de serem interpretados de quantas maneiras quantas pessoas existem ao cima da terra. Depois, claro que há orientadores, que guiam de alguma forma, já dentro da própria religião, ou das variantes das religião (catolicista, protestantismo, calvinismo, metodistas, etc), mas a matriz é o pensamento mágico.



E o pensamento mágico, hoje em dia, no presente, está muito afastado das nossas vidas. Está praticamente reduzido a coisas de superstição, jogar na lotaria. Eu estou em crer que o pensamento mágico, que é um pensamento que radica essencialmente na infância, é importantíssimo, e que nós podemos transportá-lo ao longo nosso ciclo de vida.



A minha experiência pessoal (e cada um terá a sua) de estar em contacto com ele, é estar ligado à Natureza. (...) É essa ligação com o todo que me permite manter, como se diz vulgarmente, a criança que há em mim. É através de um nunca me desligar do meu pensamento mágico. Porque eu quero compreender as coisas. Eu sou médica, e portanto baseio-me no método científico, mas eu sei que ele não é a única grelha para ler a realidade. É uma grelha que é importante para mim, para sociedade em que eu vivo, é importante na forma aplicativa para eu ajudar as pessoas que estão em sofrimento, mas não chega para eu ser pessoa. Eu preciso do pensamento mágico para ser pessoa inteira."



Manuela Correia (Psiquiatra) 
Curso de Cultura Geral - Episódio 8 - 26/02/2017, RTP

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Sobre 'The Woodpecker' (3vial Art), e as bicadas que se dá na vida, ao som de 'Norwegian Wood' (European Jazz Trio)



The Woodpecker - 3vial Art (2017)
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Nenhum pássaro como o pica-pau depende das bicadas para singrar na vida. Usa o bico para tudo o que os outros congéneres igualmente usam, e ainda para esculpir a envolvência com vista a construirem o seu ninho. Obviamente que para isto criam bastante ruído, levando a que todos, na sua envolvência, dêem conta da sua presença. Ainda assim, é um animal discreto, preferindo os locais mais elevados e calmos das árvores para estabelecer o seu lar.

Para o homem, as fugas de informação de matérias sigilosas são como o ruído do pica-pau, e resultam da ação de homens e mulheres que estão cientes ruído que isso cria. Com que propósito? Sinalizar problemas, fazer justiça, informar? Ou lucrar, minar, agredir? Os pica-paus humanos também tentam procuram fazer o ninho a partir das suas bicadas, e do ruído que criam. Cada caso será um caso, tal como cada árvore é uma árvore.

Já a madeira sofre sempre com o impacto, mas é a intenção que marca a diferença entre dar bicadas naturalmente enquanto desígnio natural, ou dar bicadas enquanto desporto e vício pessoal, refletindo com isso má formação e ausência de escrúpulos. Homens e pica-paus têm mais em comum do que parece.

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Sobre 'Harakiri' (3vial Art), e a diferença entre honra e a vergonha, ao som de 'A Way of Life' (Hans Zimmer)


Harakiri - 3vial Art (2014)

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O Harakiri foi uma prática característica da cultura/nação em que o papel da honra mais significou (e significa) para a sociedade: a japonesa. À luz das sensibilidades atuais, pode parecer extremista, maluco, irracional, a ideia de acabar com a própria vida por motivos de desonra. Habituámo-nos a ter de sobreviver às desonras que nos fazem sofrer, e também a ser tolerantes face às desonras que outros cometem pontual ou repetidamente.

De há uns séculos para cá, e doravante ainda mais, temos vivido em sociedades em que a honra (e a desonra) fazem parte de um remoto ou inexistente léxico, qualquer coisa que se sabe que existe mas que não tem ascendente para regular por si só o que quer que seja. Substituímos o binómio honra/desonra pelo da vergonha/falta dela, e com isso acabamos muitas vezes clamando por vergonha na cara, ou reclamando que alguém se retracte e que peça desculpa. Um mero jogo emocional de egos.

Estou em crer que, em si mesma, a vergonha é uma consequência da falta ou perca de alguma coisa mais superior, e que como tal não substuí verdadeiramente a honra. A honra é um património humano, uma credibilidade do homem não pertante os outros mas perante si próprio, e como tal não é manipulável. E é muito possivelmente por ser um tesouro invidual e por implicar esta sinceridade absoluta entre o homem e a sua consciênci, que a desonra conduzia ao Harakiri no antigo Japão imperial. Hoje já nem é certo que conduza à demissão, ao retiro, ao sincero e frontal pedido de desculpas.

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