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Sobre o eu enquanto janela através da qual o mundo olha o mundo (Italo Calvino), ao som de 'Paradise Waiting Room' (Kisses)


You and I - Eleanor Swordy (2016)

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"(...) dado que há mundo do lado de cá e mundo do lado de lá da janela talvez o eu não seja mais do que a janela através do qual o mundo olha o mundo. Para se olhar a si próprio o mundo tem necessidade dos olhos (e dos óculos) do senhor Palomar.

(...) Da muda extensão das coisas deve partir um sinal, um apelo, uma piscadela de olho: uma coisa sobressai por entre outras com a intenção de significar alguma coisa... que coisa? Ela mesma; uma coisa está contente por ser olhada pelas outras coisas apenas quando está convencida de que se significa a si própria e a nada mais, no meio das coisas que se significam a si próprias e nada mais.

As ocasiões deste género não serão certamente frequentes, mas mais tarde ou mais cedo deverão com certeza apresentar-se: basta esperar que se verifique uma daquelas felizes coincidências em que o mundo quer olhar e ser olhado no mesmíssimo instante e o senhor Palomar se envontrar a passar ali por perto. Ou seja, o senhor Palomar não deve sequer esperar, porque estas coisas acontecem apenas quando menos se espera. "

Palomar - Italo Calvino

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Sobre a arte de transitar da parte ao todo e do todo para a parte, e a dificuldade humana em dominá-la


Speedcubing - Julien Grudzinski (2012)

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A fragmentação tende a gerar mais oportunidades, e a unidade menos. Mas a fragmentação enfraquece e desloca a atenção para nichos, enquanto que a unidade fortalece e permite um alcance mais universal (holístico). Não é possível dizer, em abstrato, que é preferível unir do que fragmentar. Nem o contrário, sequer. Dependerá sempre daquilo a que seja aplicado, o que significa que para umas coisas será bom uma destas, e para outras ficaremos melhor servidos com o oposto.

Pense-se agora na união ou fragmentação das pessoas, dos países, dos pensamentos, da saúde, das classes profissionais, da cultura, das crenças, das ações, das emoções, das famílias, do conhecimento, da política, da ciência, etc. Nuns casos é bom esmiuçar e trabalhar com a farinha resultante, noutros é simplesmente útil fazê-lo para fins de eficiência (ou eficácia) na identificação de problemas e na preparação das respostas aos mesmos. Mas será que não há casos também em que é preferível privilegiar o todo e mantê-lo inteiro acima de qualquer tentação?

Aquilo que não foi dado ao homem, para a sua experiência terrena, é um manual inequívoco que lhe permita perceber em que situações e até que ponto é interessante investigar pela fragmentação os assuntos, as posições e as disposições, e em que outras situações (e até que ponto) é primordial privilegiar uma visão integrada, global, una sobre assuntos, as posições e as disposições. Soubéssemos nós dominar a arte da transitar da parte ao todo e do todo à parte e o mundo seria um lugar bastante melhor, tal como cada pessoa que o habita seria mais feliz.

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Sobre a melhoria das sociedades e das paisagens naturais, pela mão de quem convictamente semeia as mudanças que quer encontrar ao seu redor



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Em tempos contatei com o livro O Homem que Plantava Árvores (por Jean Giono), e achei brilhante imaginar alguém que anos a fio dedica os seus dias à seleção das melhores sementes e à colocação ordenada das mesmas em terrenos desérticos. Décadas depois era possível encontrar floresta e hidratação onde antes só havia aridez e secura. Tal imagem é adorável pelo valor facial, isto é, pela sua mensagem ecológica e naturalista, mas é também um excelente convite à analogia: será que semelhante mecanismo de sementeira poderá aplicar-se à cultura, à educação, à cidadania?

É por acreditar que sim que este texto existe. Um exemplo muito pertinente de quem esteja a "semear" há 20 anos a educação junto dos mais pobres, e que começa a poder vislumbrar a floresta social em locais onde, se nada se fizesse, continuaria a haver "aridez" e "secura" a nível de desenvolvimento humano. Falo da organização sem fins lucrativos Shanti Bhavan, que se propõem pegar em crianças dos meios mais desfavorecidos da Índia (casta dos párias ou intocáveis) e semear neles o ensino escolar, as competências de liderança e valores globais (integridade, generosidade, compaixão).

Nenhuma floresta ou sementeira é perfeita. Nenhum projeto educacional, cultural ou societal o será. Mas uma floresta não se mede pelo sucesso ou insucesso de uma parte, mas sim pela harmonia que o todo consegue conquistar, nomeadamente pela capacidade sincronizada de mobilizar um ecossistema para a sua transformação. O resto vem por acréscimo ou consequência.

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Sobre as portagens que se tem de pagar para conseguir levar a água ao seu moinho, incluindo em atividades de lazer e/ou não lucrativas


Untitled - Alexander Calder (1975)

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A competição está por todo o lado, sendo até cada vez mais fácil detetá-la nas atividades dos tempos livres como jogar ou realizar publicações ociosas e não lucrativas de que esta é exemplo. Disputamos hoje a visibilidade e a oportunidade de aparecer ou evidenciar. Quem escreve, quem joga, quem fotografa, quem grava, sabe hoje que só muito custosamente sai daquilo que outrora se celebrizou como "a cepa torta", e adquire prestígio ou reputação só com base no seu talento e entrega à causa.

O mundo está repleto de agentes de intermediação e, portanto, para se singrar ou se abre os cordões à bolsa e se injetam fundos que abrirão as portas (pagar para passar à frente), ou se tem de refrear as expetativas e aceitar que mesmo quem é bom (já para não falar de quem é mau ou mediano) poderá estar condenado a ser invisível e inconsequente no alcance que granjeia. Uma alternativa a este mecanismo é o escândalo, daí que muitos optem pela explicitação agressiva do que é baixo e imoral, inclusive pela mentira descarada na forma de notícia ou boato. Tudo caminhos para passar à frente e conquistar território mediático.

Isto acontece porque, se hoje há meios materiais e competências técnicas/artísticas com fartura, há também um manifesto excesso de oferta que leva ao negócio assente no controlo dos ecossistemas (noticiosos, culturais, tecnológicos, etc). Se queres ganhar num qualquer jogo ao teu amigo ou concidadão, gastas dinheiro e compras uma dada vantagem proporcional ao que estás disposto a pagar. Se queres ter mais visibilidade no que fazes ou queres comunicar, gastas dinheiro e compras o alcance que satisfaz o teu ego. Já não chega ter talento e trabalhar de modo gratuito e consistente: há portagens por todo o lado, e só quem as paga (ou arranja quem lhas pague) é que existe nas auto-estradas para onde todos estão a olhar e frequentam (à procura novidade, por exemplo), incluindo nos tempos livres e a respeito de coisas como cultura, educação ou lazer.
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Sobre as emoções enquanto meteorologia da mente, e o que fazer com elas


Sinking Sun - Roy Lichtenstein (1964)

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Talvez seja útil encarar as emoções humanas como condições meteorológicas, desde logo porque é muito difícil prever como nos vamos estar a sentir dentro de três, cinco ou quinze dias. Não só por isso. Tal como na meteorologia, nas emoções ora está chuva ou sol, podendo mesmo ocorrer aguaceiros ou abertas nos períodos da manhã ou da tarde. Depois, pode haver trovoada, granizo, geada, neve, ou simplesmente estar um céu azul que sugere uma eternidade feliz.

Por muito que façamos o trabalho de casa na vertente racional, a experiência mostra ser avisado consultar o estado do tempo e adequar os planos ao que se prevê acontecer, basta para isso ir à janela e sentir o tempo em primeira pessoa. As emoções são capazes de perturbar ou potenciar os planos racionais que temos, e portanto, é imperioso que atentemos nelas e tomemos as medidas necessárias para harmonizar a situação. Poderemos ter de adiar os planos ou então antecipá-los: talvez nenhuma atividade humana como a agricultura tenha aprendido a harmoninar-se com as condições meteorológicas. Uma má gestão e lá se vai a safra deste ano.

Seria um absurdo que alguém acredite que pode ignorar por completo a meteorologia nas suas atividades diárias. Algum ajuste é sempre necessário. E então, porque aceitamos não gerir as emoções e deixar que a existência diária seja uma roleta russa que ora acerta ou ora falha, muitas vezes numa total deriva? Não quer dizer que seja fácil, mas antes que é necessário. Não chega cuidar das ideias, é preciso cuidar das emoções. Sem chuva a sementeira não funciona, e sem sol os frutos não amadurecem.

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Sobre o preconceito intelectual em usar checklists e o grande desafio que é ser-se disciplinado (Atul Gawande)



Modern Head #4 - Roy Lichtenstein (1970)

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"O receio que as pessoas têm da ideia de seguir protocolos é o da rigidez. Imaginam autómatos acéfalos, com as cabeças debruçadas sobre uma checklist, incapazes de olharem para fora dos seus pára-brisas e lidar com o mundo real que está à sua frente. Mas o que acontece quando uma checklist é bem feita é exatamente o oposto. A checklist expurga as coisas supérfluas, as rotinas com que os nossos cérebros não deveriam preocupar-se (...) e deixa-o livre para concentrar nas coisas complicadas."

(...)
"A disciplina é difícil - mais difícil do que a lealdade e a competência e talvez mais ainda que o altruísmo. Por natureza somos criaturas imperfeitas e inconstantes. Nem sequer conseguimos deixar de petiscar entre as refeições. Não fomos feitos para a disciplina. Fomos feitos para a novidade e para o prazer, não para uma atenção cuidada aos pormenores. A disciplina é algo pelo qual temos de trabalhar."

O efeito checklist - Atul Gawande

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Sobre educação e instrução enquanto projetos de vida, e a busca por mais afirmação de carácter e menos de personalidade



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Não só instrução não significa necessariamente educação, como não é verdade que quem mais se instrói forçosamente será alguém mais educado. Porém, a instrução escolar e universitária, e outras de índole institucional, acarretam um código ético que por si só fomenta princípios e ideais que se espera ver espelhados nos atos e ideias das pessoas educadas. Se bem gizada, a instrução é um caminho para a educação, porque abre possibilidades, confronta posições, expõe incoerências.

Por outro lado, a educação e a instrução são projetos de vida que ultrapassam a fase da escolaridade obrigatória. A liberdade individual preconizada pela democracia, somada às distrações crónicas de um estilo de vida assente na insaciável satisfação de prazeres individuais (plenos de relatividade), dão asilo à preguiça em trabalharmos para sermos pessoas mais correctas coletivamente, porque menos imperfeitas individualmente. Mais do que personalidades disformes que projetam os seus defeitos como qualidades honoráveis, precisamos de ser adultos com carácter que se autodisciplinam e autorecriminam sem precisar de multas, denúncias, conflitos, etc., isto é, sem precisar que outros adultos nos ponham na ordem.

A desistência ou negligência em ser-se mais instruído e/ou em ser-se mais educado do que se é,representa um risco de inflexão no nível de consciência, entendimento e controlo, se quisermos, da realidade. Com menos educação e menos instrução, o mundo parecerá menos harmonioso e integrado, e ao mesmo tempo mais caótico e fora da lei. No limite, torna-se menos justo e belo, degradando a qualidade dos ecossistemos naturais e sociais que habitamos.
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Sobre a manha necessária para o comércio digital e necessidade de uma carta de direitos humanos para essa dimensão

Take a number - Andrew Ohanesian (2017)

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O capitalismo digitalizado, que opera à velocidade das telecomunicações (e não das consciências dos que nele participam), oferece hoje às pessoas o sonho de vidas facilitadas em que as ações formais se banalizam no mesmo passo em que lhes permitem progredir com menos paragens ou perdas de tempo. Esquivarmo-nos às perdas de tempo é brutalmente aliciante, seja numa fila, na obrigatoriedade de ler um contrato, numa reunião, mas está longe de ser um desígnio desligado de consequências nos próprios processos em que é posto em prática.

O mundo do digital, onde se compra e gerem coisas tão variadas como um viagem de avião, um aluguer de carro, um medicamento ou cosmético, e até uma paixão, é terreno fértil para a manifestação de faltas de princípios, de carácter, e de humanidade, validados pelo desfasamento físico ou temporal entre o cliente e o interlocutor, e entre o primeiro e o produto/serviço. Um desfasamento físico porque o preço do conforto é nunca chegarmos a estar em contato com quem de direito num forma socialmente não-artificial; e temporal porque os momentos em que se compra/requisita/paga e os momentos em que se recebe/analiza/valida não coincidem. Ao retardador há mecanismos de controlo, porque as pessoas sentem vontade de avaliar as boas e más experiências, mas também isso demora o seu tempo. No comércio tradicional há uma tradição de bem ou mal servir, no digital há uma mutável construção de tradição. Vicissitudes.

No meio de tudo isto, sou levado a concluir que muito do comércio/serviços atualmente ancorado no digital, obriga o potential cliente a deter uma manha própria sobre como proceder com vista a minimizar as chances de ser aldrabado ou de modo a sair incólume dos contratos, das cauções, e do jogo da macaca que são os termos e condições. Se tudo isto reflete uma qualidade da modernidade que é a rapidez (e eficiência), há um subliminar aridez de princípios, ética, imputabilidade, que falsifica as experiências comerciais no sentido de uma humanidade impessoal. Mais do que uma moral religiosa que interligue a terra e o céu (tema não consensual), faz hoje falta uma moral para o digital, e uma carta dos direitos humanos para essa dimensão existencial.
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