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Sobre a idade de ouro ser anterior à descoberta do ouro (Padre António Vieira), ornado com 'Les Bijoux Indiscrets' (René Magritte)



Les Bijoux Indiscrets - René Magritte (1963)

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"Enquanto no mundo não houve oiro, então foi a idade de oiro; depois que apareceu o oiro no mundo, então foi a Idade de Ferro. O que era necessário e útil para a vida e conservação dos homens, notou Séneca, Demócrito, e ainda o mesmo Epicuro, que o pôs a natureza muito perto de nós e muito descoberto e patente, como são as plantas, os frutos e os animais; pelo contrário, o que não era útil, mas pernicioso, pô-lo muito longe de nós, oculto e escondido, onde o não víssemos: e este é o oiro e a prata."

Sermão Sobre as Verdadeiras e as Falsas Riquezas - Padre António Vieira  

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Sobre as múltiplas versões de nós mesmos segundo a lógica das versões informáticas, ao som de 'So Far So Good' (Beady Belle)


The Sculptor - Eleanor Swordy (2017)


Dada a inolvidável importância da informática no modo de viver a vida em pleno século XXI, vale a pena comparar e contrastar a vida humana à luz dos desenvolvimentos informáticos. Tipicamente, um desenvolvimento destes começa por ser apresentar-se como versão beta, coisa sem compromisso de  identidade e repleta de potencial por desvendar e materializar. Ninguém espera que uma vez saído do estado beta, uma criação informática a ele regresse, tal como nenhum adulto consegue verdadeiramente regressar à candura e potencialidade da infância.

Depois, é igualmente pertinente verificar que tal como o tempo anda invariavelmente para a frente, e com ele acarreta mudanças 'temporárias' e 'temporais', só o presente nos é dado viver. No mundo dos desenvolvimentos informáticos, é raro o caso de quem fique retido numa versão anterior quando a nova está disponível, ou que se prive de usar a atual e se deixe em espera pela versão futura, ainda por lançar. Porque assim é? Porque a versão mais recente é, assim se espera, a melhor que está ao dispor, uma criação otimizadas, uma versão com melhores, maiores e/ou mais funcionalidades. Nas pessoas, não existem versões oficiais em processo lançamento oficial, com exceção dos aniversários e/ou dos novos anos civis, que ousam querer forçar o aparecimento de novas versões das pessoas.

É discutível se o andamento do tempo consegue tornar a fazer de cada pessoa uma versão melhorada de si mesma. Afinal de contas, a cada instante há novos conflitos que surgem em função da própria  complexidade da pessoa, mas também da envolvência dessa pessoa, ou ainda em virtude de obstáculos inesperados e de dificultada previsão. Em todo o caso, arriscaria dizer que existe uma expectativa que cada ser humano, com a idade (e a experiência) possa consolidar seu o projeto existencial (supra-informático), e que se torne progressivamente mais user friendly para consigo, seus utilizadores e a sua envolvência, que é como quem diz: que se torne mais harmonizado com a natureza, e apaziguado consigo mesmo e com os seus pares. 

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Sobre o excelente filme brasileiro Nise, e o papel da arte na vida de qualquer ser humano




O visionamento do filme Nise (direção Roberto Berliner) foi uma excelente surpresa. Por ser brasileiro e passar-se num Brasil de 1940 tão pouco divulgado, por ser baseado numa história real, por ter uma trama assente num dilema científico, mas sobretudo porque consegue salientar algo de importante aos que o assistirem: que a arte é um meio ambiente universal, um canal existencial comum a todas as pessoas, inclusive àquelas a quem as faculdade intelectuais estejam  truncadas ou diminuídas.

Em abstrato, poder-se-á pensar que a arte é para os artistas, e a afirmação está correta. O que porventura não tanto estará é que artista não é só quem decidiu por vocação e carreira seguir e aprimorar o caminho da Arte. Artista é também aquele que tão só se deixa ligar ao canal da arte, se faz seu veículo, e que a deixa em si, por si, manisfestar-se. É desta nuance que o filme constrói a sua história, pela mão da Dra. Nise da Silveira (interpretada por Glória Pires) que encontra nos pacientes do Hospital Pedro II, seres altamente propensos (e carentes) a abraçar a arte e expressar-se com ela.

Numa segunda linha de análise, Nise assinala também que a Arte não nos deixa iguais. A experiência e vivência do processo criativo, artístico, faz com que os seres humanos se observem, se problematizem, se pensem, se revelem nas suas idiossincrasias, traumas, expectativas. É precisamente por este motivo que, através da terapia ocupacional, Nise da Silveira foi capaz de fazer o que no estado da "arte" médica parecia estar consignado aos choques elétricos e outros métodos de muito duvidosa ética e eficácia.
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Sobre a irreparável perda que é a interrupção da propagação oral direta de alguns tipos de saber (Italo Calvino)



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"O senhor Palomar não consegue chegar a uma classificação menos genérica: não é uma daquelas pessoas que ao ouvir um canto sabem reconhecer a que pássaro pertence. Vive esta sua ignorância como se fora uma culpa. O novo saber que o género humano vai adquirindo não compensa o saber que se propaga apenas pela transmissão oral direta, o qual, uma vez perdido, nunca mais se pode readquirir e retransmitir: nenhum livro pode ensinar aquilo que apenas se pode aprender na infância, se se entrega o ouvido e o olho atentos ao canto e ao voo dos pássaros e se se encontra então alguém que pontualmente  lhes saiba dar um nome."

Palomar - Italo Calvino
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Sobre a viralidade ao serviço da justiça e proteção de vítimas (#MeToo), ao som de 'Inflections' (Ben Westbeech)


Untitled - Rui Calçada Bastos (2013)

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Embora o fenómeno da viralidade digital dê à costa, recorrentemente, o melhor e o pior da estupidez, da comédia e do escândalo gratuito (despegado de qualquer ilação ou inferência moral), o ano de 2017 foi marcado pelo movimento #meToo, que inaugurou de modo global (ainda que nem todos os países tenham aderido) a chance de que as vítimas de um dado problema (neste caso molestamento sexual) se possam unir e fazer uma delação conjunta em cascata. 

A viralidade funciona aqui com a força do poder da matilha ou colmeia, poupando o esforço individual de sustentar uma acusação à custa de um aglomerado de acusações que desloca as atenções do público para cada novo caso que surge, e que faz o peso do mediatismo pender para os visados dos crimes, que passam, antes de chegar aos tribunais, a ter de dizer de sua justiça à sociedade.

Embora encerre perigos, nomeadamente o do falso testemunho, este fenómeno vem repor alguma justiça no progresso positivo que as tecnologias de informação permitiram à humanidade. E porquê? Porque conseguem sublimar o silêncio de quem se acha só, e cambiar a culpa e vergonha do denunciante, pela culpa e vergonha do denunciado. A normalizar-se, constituirá um passo representativo para tornar o mundo um local mais justo, e um local onde cada crime, mais do que um ato isolado, representa uma prova incriminatória de uma grande e silenciosa quadrilha (possivelmente entre si desconhecida) unida pelo mesmo tipo de vilania.

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"Sometimes in this life, you may find this too late,
 And you'd give up everything to change your mistakes, 
Be careful what you do and consider moves you make 
As one door closes, another one you take"


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Sobre a importância emocional da celebração do novo ano, e o porquê de assim ser



Horizonte III  - Jesús Curiá (2016)

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Os anos são longos o suficiente para não conseguirem ser anos estritamente de derrota ou de vitória. Encerrar o ano com balanço positivo ou negativo tem menos a ver com as efemérides que se passaram efetivamente do que com a gestão de expectativas que elegemos para legendar o ocorrido. 

A verdade é que, em menor ou maior medida, somos reféns/senhores das expectativas que temos, e há anos que nos marcam mais em aspetos que consideramos cruciais para a felicidade e alegria, e outros que passam pelos pingos da chuva e parecem ser de normalidade, de continuidade ou de espera.

A passagem para o novo ano representa uma mudança formal de acto, na qual a acção pode manter-se ou mudar. É uma convocatória para dar continuidade ou descontinuidade ao ponto de situação, perseguir reforçadamente os objetivos estabelecidos ou firmar novos. Por isso, a celebração do novo ano é feita com enorme carga emocional, porque se conjuga num só e mesmo momento a intensidade (esperada) de um final com a intensidade (esperada) de um reinício.
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Sobre os modelos enquanto estudos da realidade, e a cultura enquanto manancial de explicações


Steigerungsphanomen - Jurgen Klauke (1990-1992)

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Em engenharia trabalha-se muito com modelos. Quem os idealiza, procura retratar um fenómeno com vista a descrevê-lo, podendo com isso abrir caminho a melhorá-lo, piorá-lo, prevê-lo, antecipá-lo, escalá-lo, e ainda introduzi-lo noutros modelos com vista a cruzá-lo com outros fenómenos. Esta é uma realidade virtual, porque o modelo não é a realidade, mas quando se produz um bom modelo a realidade passa a ser praticamente mapeada e, com relativo sucesso, controlada e entendida.

Para além do variável sucesso com que descrevem um fenómeno, nem todos os modelos são iguais. Há modelos puramente empíricos que funcionam muito bem, mas estes pecam pela ausência de uma garantia de explicação causa-efeito podendo apenas correlacionar-se com o fenómeno por algum motivo alheio. Outros há, mais valiosos, que se categorizam como fenomenológicos, porque pretendem interpretar a realidade com base numa conjunto de ideias explicativas, sobre as quais se testa a aderência à realidade.

Vem isto a propósito de vir refletindo no modo como os jogos de computador, os argumentos de filme, novela ou teatro, ou ainda toda a literatura de ficção (sobretudo de teor não fantasista) ou mesmo a música, procuram estabelecer-se como ferramentas de descrição de realidades, quais modelos empíricos ou fenomenológicos. Tipicamente a qualidade de um modelo é aferida em relação ao desvio à realidade. Mas a questão é: que realidade? Fica ao critério de um de nós percecionar os modelos de explicação da realidade que a cultura produz, e aderir àqueles que nos façam mais sentido ou nos pareçam, pelo menos, fazer.
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Sobre o custo da informação (George Stigler), e como entender a desinformação numa era de aparente rápido e fácil acesso às coisas


Cow going abstract - Roy Lichtenstein (1982)

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"George Stigler, também vencedor de um Prémio Nobel de Economia e fundador da influente Chicago School of Economics, apontou que a informação tem seu preço: o "custo" de buscá-la, seja ele contabilizado na forma de tempo, esforço ou esforço cognitivo. Como Stigler observa, "a assimilação da informação não é uma tarefa fácil e agradável para a maioria das pessoas". De sua perspetiva, os dados mais desejados são "baratos", de forma amigável."





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Sobre o filme 'O farol das Orcas' (Gerardo Olivares), e a bela e comovente entreajuda que a vida permite aos que nela se aventuram com vista à felicidade





O filme que dá pelo título «O farol das Orcas» (direção de Gerardo Olivares) é uma muito agradável obra de cinema que justamente merece gáudio e recomendação. Reza a sua sinopse o seguinte: "Uma mãe viaja até à Patagónia com o seu filho autista na esperança de que um guarda-florestal e um grupo de orcas selvagens possam ajudar o rapaz emocionalmente". Acresce a isto uma orla de realidade, porque o enredo é verídico, o que o torna ainda mais dramático, belo e inspirador.

Salientaria, no particular, a curiosa efeméride de encontrarmos nesta história e filme múltiplas quebras de clichés. Senão vejamos: um tipo de de animais apelidados de 'assassinos' (orcas), que afinal não o é para humanos mostrando-se inclusive empáticas (quais golfinhos); uma criança autista que vê no encontro com orcas motivos para se curar, e que no processo vai curar o próprio guarda-florestal do seu passado trágico; uma mãe que racionaliza as circunstâncias da sua vida e que materializa o seu amor no empenho da procura de uma atenuação plausível para as contingências que a psique do seu filho impõe; finalmente, uma forma de gravar um documentário sobre a particular expressão da Natureza na região da Patagónia, sem que para isso inexista o enredo que a presença de humanos sempre acarreta ao nível do sentido e importância da passagem do tempo.

Longe de ser um filme aclamado pelo grande público anglo-saxónico, acredito que o possa ser, a prazo, para os latinos que com ele contactem, pelo menos se estiveram ainda permeáveis à emoção e sensibilidade que a natureza humana e não-humana é capaz de suscitar na sua forma selvagem ou refinada. 
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Sobre o conceito de código genético cultural, e a pessoa que somos à luz dos conteúdos a que nos ligamos



Décalcomanie (Decalcomania) -  René Magritte (2010)

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A descoberta do código genético foi um marco histórico no entendimento que a humanidade faz da mecânica que preside à hereditariedade, à evolução, entre outras. Depois da descodificação, o desafio passou a ser, sobretudo, o de perceber como operar sobe este código com vista à melhoria da saúde humana. Embora do ponto de vista técnico a genética seja um assunto restrito a profissionais altamente especializados, para a sociedade e cidadão comum aparenta ser um dado adquirido, um conceito amplamente aceite e interiorizado.

De modo simbólico, a rede social StumbleUpon adotou o conceito de DNA para mapear os conteúdos culturais que os seus utilizadores promovem e movimentam no universo digital. Com isto, é possível perceber, numa base percentual, a natureza dos conteúdos preferidos, sejam eles do foro do desporto, da literatura, da história, da tecnologia, dos jogos, etc. Trata-se, portanto, de uma forma pertinente de sistematizar que pessoa somos em termos de consumo de conteúdos.

A grande vantagem de podermos consultar um código genético cultural, na forma proposta pela StumbleUpon ou noutra, é a oportunidade de nos vermos retratatos em termos de preferências, mas também a inevitabilidade de sermos diagnosticados pela falta de ecletismo, fontes de influência, ou tipo de imagens mentais que nos apoiam a entender a complexidade ou simplicidade das realidades que nos confrontamos. Quanto mais não seja, serve para estarmos cientes de que também somos aquilo que consumimos e promovemos, e que esse é um código tão real e manifesto como o das características biológicas.
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