É muito apetecível lançar observações generalistas sobre a sociedade, procurando estabelecer padrões e modas, mas chegará sempre o dia em que um aspecto mais arredado da norma nos convoque para reflectir sobre a justiça da generalização.
E dizendo isto passo a revelar que no ponto de modernização e evolução tecnológica em que nos encontramos face aos séculos anteriores mais recentes, parece-me sobremaneira antiquada a forma como a nossa sociedade trata os mortos.
Estou precavido para a ideia de que a dedicação ao tema da morte e dos mortos pode patrocinar os qualificativos de mórbido ou torpe, mas isso não invalidade que semelhante temática deva ser conversada e discutida.
Sincera e inofensivamente falando, custa-me a aceitar que os mortos continuem a ser enterrados no solo e que tenhamos de esperar a degradação do seus corpos para que se dê por consumada o término da sua passagem e influência no mundo dos vivos.
Casos há em que a biologia e a química impedem a deseja digestão por parte do solo, cuja ocorrência é crucial para que o ciclo funerário possa ser completado com a celeridade almejada por todos.
Tanto progresso tecnológico e inventivo em tantas vertentes da vida e da sociedade, para que me dê conta da completa estagnação e artesanalidade no tratamento dos mortos. Não me cabe a mim enumerar as alternativas às práticas actuais, apenas me espanta que os vértices da sociedade possam ir do muito sofisticado e dinâmico para o muito medieval e estático.
A própria profissão de coveiro condensa em si todo um esquecimento por esta matéria. Como enquadrar e encarar a existência de um posto de trabalho exclusivamente dedicado a cavar braçalmente covas para que os mortos possam ser depositados? Não salta a vista o arcaísmo destas práticas, tão pouco consentâneas com esta era informatizada e industrializada? Os mortos merecem melhor.
