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Sobre a intemporal e omnipresente moral da ascensão e queda de Ícaro, e o desafio da ambição e do equilíbrio nos dias que correm



Icarus flying high - 3vial Art (2018)

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A icónica história mitológica de Ícaro fala-nos de um homem que ambicionou algo e que mobilizou esforços para o conseguir: idealizou voar com as asas com que lhe foram concedidas, mas não obedeceu à regra básica (proferida pela experiência de vida) de não se aproximar demasiado do sol. Assim aconteceu a Ícaro: teve o céu para si e a liberdade de voar, e no entanto despenhou-se pela consequência da sua ambição desmedida e do seu descontrolo durante o processo de vôo.

Esta história muito merece figurar no plano formativo de qualquer jovem pessoa e de ser inclusive recordada no decorrer da vida adulta, porque a vida proporciona oportunidades que são ao mesmo tempo (e praticamente sempre) armadilhas "solares". Vivemos com uma ambição de conquistar mais, de conseguir mais, de ambicionar mais, sob o mote de que isso nos faz saudavelmente esticar o nosso limite físico e psicológico, bem como romper para novos paradigmas e patamares de realização. Mas o "mais" pode facilmente desembocar num "demais", e ser esse o preciso ponto em que as asas de Ícaro chegam à proximidade fatídica do sol em que a cera que as consolida e aguenta começará a derreter e colapsar.

O derretimento das asas de Ícaro é o produto do dizer português de que tudo o que é "demais é exagero", mas o desafio real é que em pleno voo nem sempre é discernível quando é que estamos no risco de cair nesse exagero. Só com bom senso (um elixir natural) e com o salutar cultivo do equilíbrio e das (virtudes) é que os exageros podem ser detetados a tempo de corrigir a distância ao sol, ou seja, a ponto de evitar que as asas dramaticamente derretam e vivamos um subsequente período de queda a pique rumo ao duro solo lá em baixo.
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Sobre as 'rotundas' e os 'semáforos' na gestão e regulação da coisa pública, ornado por 'A proportion calculator' (Alyson Souza)


A proportion calculator - Alyson Souza (2018)

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Hoje, enquanto conduzia, vislumbrei de repente que a forma mais inteligente (enquanto engenheiro) de tornar a coisa pública mais eficiente e justa, é dotá-la de mais "rotundas", em detrimento de "semáforos". Isto porque um semáforo é projetado num determinado conjunto de premissas obtidas através de um estudo de projeto (tipologia do cruzamento, nº de carros em cada sentido, etc ) e o seu sucesso depende diretamente deste estar ajustado às premissas iniciais e à não modificação das mesmas ao longo do tempo.

Ora uma rotunda cumpre o mesmo propósito regulatório e utilitário de um semáforo, mas fá-lo de modo menos pré-definido e deslocado do que pode suceder ou mudar em tempo real. Ela respeita na mesma as possibilidades do cruzamento bem como os fluxos previstos para cada sentido (e como bónus permite sempre a inversão de marcha). Porém, não tenta sequestrar a realidade, com todas as suas nuances (por exemplo, à sexta e ao sábado a realidade pode ser diferente), nem regular sobre coisas quando estas não se aplicam (por exemplo, na ausência de carros). Mais, mesmo que algo mais estrutural falhe (por exemplo a tecnologia), esta solução permite ainda assim o cumprimento do fim  último para o qual foi concebida e implementada. É, nesta perspectiva, um conceito mais robusto.

Com isto, o vislumbre rodoviário reforçou em mim a convicção de que o Estado precisa de inovar honrando bem os seus compromissos logo à primeira, e isso poderá significar idealizar mais "rotundas" para as diferentes atividades que tem de regular e gerir. Soluções equivalentes a "semáforos" obrigarão a retoques e revisão constantes, que dificilmente libertam os políticos e autoridades, como tampouco libertam os cidadãos para um mais livre e responsável exercício dos seus deveres e direitos.
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Sobre amar como estado de audácia (Agustina Bessa-Luís), ornado por 'Untitled' (Nino Cais)


Untitled - Nino Cais (2017)

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"O medo provém de um certo cultivo da imaginação, da consideração extrema pela vida, que é coisa distinta do amor por ela; considera-se aquilo que se teme perder, mas amar é sempre um estado de audácia, de êxtase, situação de jogador que lança os seus dados e arrisca."

A Sibila - Agustina Bessa-Luís

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Sobre o perceber se temos de acelerar ou travar a personalidade enquanto método simplista para um posicionamento saudável

Beastie - Alexander Calder (1974)

Simplificar coisas é sempre um risco, mas manter as coisas complexas não deixa de igualmente o ser. Por isso, fica ao critério e à sensibilidade de cada um enveredar pela riqueza da complexidade e/ou pelo pragmatismo da simplicidade. Optando por esta última via, um eixo simplista mas indicativo dos desafio pessoais associados à natureza individual de cada um de nós, é pensar se, em média, somos pessoas mais aceleradas ou mais calmas que a média das outras pessoas que conhecemos.  Obviamente que tudo depende da amostra externa que escolhemos para estabelecer as comparações, e aqui há que dizer que quanto mais nos restringirmos em núcleos pequenos (famílias de poucos elementos, grupos de amigos ou trabalho mais reduzidos, etc) mais a análise sofrerá desvios à verdade.

Não obstante, é proveitoso tentarmos perceber se somos pessoas que carecem mais de ser acalmadas do que de ser aceleradas, ou vice-versa. Por ser simples, a métrica permite mais rapidez: ou vamos sentir que é preciso fazer alguma coisa, ou que não é de todo necessário mexer nesta variável. A ter de mexer, saberemos também em que sentido urge mais fazê-lo. E assim se desagua numa proposta de intervenção (ou numa declaração de satisfação pessoal).

O último passo é materializar a percepção de que é preciso fazer algo em decisões que possam personificar a mudança necessária. Aqui, a experiência diz-me que só atuando na rotina se consegue alcançar resultados consequentes a prazo, e só estabelecendo novas (ou mais refinadas) rotinas que substituam as anteriores é que alguém conseguirá trabalhar-se para ser alguém menos ou mais acelerado do que é. As mesmas pernas que nos podem acelerar, são as que nos podem ajudar a travar. Não é uma questão de fôlego, é uma questão de posicionamento saudável face aos recursos de que se dispõe.
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Sobre a clarificação do estatuto da espécie humana em relação aos animais, segundo Renato Epifânio



"Mais do que discutir esta questão [direito dos animais frequentarem restaurantes junto dos donos], que em si mesma pode parecer um tanto anedótica, parece-me importante questionar, e é para isso que eu aqui estou hoje, uma certa agenda dos partidos animalistas, chamemos-lhe assim, que de facto é assumidamente antiespecista (...) ou seja, entenda-se, questiona o estatuto da espécie humana, na sua diferença qualitativa, relativamente aos animais. 

Ora eu questiono profundamente e radicalmente essa tendência, não parece nada que isso seja civilizacional. Pelo contrário, penso que isso é uma degradação do conceito de humanidade. Eu bem sei que vivemos tempos difíceis, vivemos tempos de crise do conceito de humanidade, do próprio humanismo (também tenho escrito sobre isso), em prol de um neohumanismo, de uma requalificação do humano, mas também por isso os partidos políticos devem puxar para cima, não puxar para baixo. Devem apresentar-nos paradigmas de facto da requalificação do humano e não dissolver o conceito de humanismo, de humanidade, nessa massa informa da animalidade.

Portanto a minha posição é sobretudo em cada ponto estabelecer e salvaguardar essa diferença irredutível e qualitativa entre humanos e animais."

Renato Epifânio - professor universitário, pensador e escritor.
Programa Prós & Contras - RTP - 05/03/2018

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Em 2008, pronunciei-me neste mesmo espaço sobre esta temática, pelo que vale a pena revisitar esse texto, à data intitulado: "Sobre os animações de estimação".
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Sobre o teste conhecido como "fazer o quatro", sua utilidade para uma vida examinada, ornado por "Mr. Sober" (3vial Art)



Mr. Sober - 3vial Art (2018)


"Fazer o quatro" é o nome com que popularmente se celebrizou um teste empírico a que se sujeita um suspeito de embriaguez, como tira-teima para a sua hipotética alcoolemia através da demonstração de capacidade para manter o equilíbrio físico. Porém, nesta vida, o álcool está longe de ser o único agente que nos retira equilíbrio, pelo que talvez se devesse expandir o âmbito de aplicação deste teste a outras dimensões da existência humana em que nos falta, no dia a dia, um modo igualmente prático e conclusivo de aferir o ponto de situação.

É que as tensões desiquilibrantes são constantes e controversas, variam consoante a idade e com a altitude que se ocupa na construção piramidal proposta por Maslow. Pergunto-me, na minha descomprometida curiosidade, se por acaso essa famosa pirâmide não encerrará um tipo de fraude também ela piramidal, caracterizada pelas carências da base suportarem as realizações do topo, sem que se possa garantir a sustentabilidade do processo para todos os que ambicionam à respetiva ascenção vertical. A ser assim, o desequilíbrio mora na vertigem destas diferenças de altitude.

Em todo o caso, verifico um cíclica necessidade de "fazer o quatro" e testar o meu equilíbrio, e projeto-a, enquanto necessidade humana, nos outros, que acabam por fazer em consultório, em oração, ou em encontros fugazes com a verdade. Sabermo-nos em desequilíbrio é meio caminho andado para poder atuar no sentido de compensar forças. Daí que se compreenda perfeitamente Sócrates quando defendeu que uma vida não examinada não valeria a pena ser vivida. Quem não "faz o quatro" poderá andar bêbedo e não saber, e com isso vir a tombar e "ficar de quatro" ao mais insuspeito obstáculo ou brisa.

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Sobre a idade de ouro ser anterior à descoberta do ouro (Padre António Vieira), ornado com 'Les Bijoux Indiscrets' (René Magritte)



Les Bijoux Indiscrets - René Magritte (1963)

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"Enquanto no mundo não houve oiro, então foi a idade de oiro; depois que apareceu o oiro no mundo, então foi a Idade de Ferro. O que era necessário e útil para a vida e conservação dos homens, notou Séneca, Demócrito, e ainda o mesmo Epicuro, que o pôs a natureza muito perto de nós e muito descoberto e patente, como são as plantas, os frutos e os animais; pelo contrário, o que não era útil, mas pernicioso, pô-lo muito longe de nós, oculto e escondido, onde o não víssemos: e este é o oiro e a prata."

Sermão Sobre as Verdadeiras e as Falsas Riquezas - Padre António Vieira  

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Sobre as múltiplas versões de nós mesmos segundo a lógica das versões informáticas, ao som de 'So Far So Good' (Beady Belle)


The Sculptor - Eleanor Swordy (2017)


Dada a inolvidável importância da informática no modo de viver a vida em pleno século XXI, vale a pena comparar e contrastar a vida humana à luz dos desenvolvimentos informáticos. Tipicamente, um desenvolvimento destes começa por ser apresentar-se como versão beta, coisa sem compromisso de  identidade e repleta de potencial por desvendar e materializar. Ninguém espera que uma vez saído do estado beta, uma criação informática a ele regresse, tal como nenhum adulto consegue verdadeiramente regressar à candura e potencialidade da infância.

Depois, é igualmente pertinente verificar que tal como o tempo anda invariavelmente para a frente, e com ele acarreta mudanças 'temporárias' e 'temporais', só o presente nos é dado viver. No mundo dos desenvolvimentos informáticos, é raro o caso de quem fique retido numa versão anterior quando a nova está disponível, ou que se prive de usar a atual e se deixe em espera pela versão futura, ainda por lançar. Porque assim é? Porque a versão mais recente é, assim se espera, a melhor que está ao dispor, uma criação otimizadas, uma versão com melhores, maiores e/ou mais funcionalidades. Nas pessoas, não existem versões oficiais em processo lançamento oficial, com exceção dos aniversários e/ou dos novos anos civis, que ousam querer forçar o aparecimento de novas versões das pessoas.

É discutível se o andamento do tempo consegue tornar a fazer de cada pessoa uma versão melhorada de si mesma. Afinal de contas, a cada instante há novos conflitos que surgem em função da própria  complexidade da pessoa, mas também da envolvência dessa pessoa, ou ainda em virtude de obstáculos inesperados e de dificultada previsão. Em todo o caso, arriscaria dizer que existe uma expectativa que cada ser humano, com a idade (e a experiência) possa consolidar seu o projeto existencial (supra-informático), e que se torne progressivamente mais user friendly para consigo, seus utilizadores e a sua envolvência, que é como quem diz: que se torne mais harmonizado com a natureza, e apaziguado consigo mesmo e com os seus pares. 

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Sobre o excelente filme brasileiro Nise, e o papel da arte na vida de qualquer ser humano




O visionamento do filme Nise (direção Roberto Berliner) foi uma excelente surpresa. Por ser brasileiro e passar-se num Brasil de 1940 tão pouco divulgado, por ser baseado numa história real, por ter uma trama assente num dilema científico, mas sobretudo porque consegue salientar algo de importante aos que o assistirem: que a arte é um meio ambiente universal, um canal existencial comum a todas as pessoas, inclusive àquelas a quem as faculdade intelectuais estejam  truncadas ou diminuídas.

Em abstrato, poder-se-á pensar que a arte é para os artistas, e a afirmação está correta. O que porventura não tanto estará é que artista não é só quem decidiu por vocação e carreira seguir e aprimorar o caminho da Arte. Artista é também aquele que tão só se deixa ligar ao canal da arte, se faz seu veículo, e que a deixa em si, por si, manisfestar-se. É desta nuance que o filme constrói a sua história, pela mão da Dra. Nise da Silveira (interpretada por Glória Pires) que encontra nos pacientes do Hospital Pedro II, seres altamente propensos (e carentes) a abraçar a arte e expressar-se com ela.

Numa segunda linha de análise, Nise assinala também que a Arte não nos deixa iguais. A experiência e vivência do processo criativo, artístico, faz com que os seres humanos se observem, se problematizem, se pensem, se revelem nas suas idiossincrasias, traumas, expectativas. É precisamente por este motivo que, através da terapia ocupacional, Nise da Silveira foi capaz de fazer o que no estado da "arte" médica parecia estar consignado aos choques elétricos e outros métodos de muito duvidosa ética e eficácia.
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Sobre a irreparável perda que é a interrupção da propagação oral direta de alguns tipos de saber (Italo Calvino)



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"O senhor Palomar não consegue chegar a uma classificação menos genérica: não é uma daquelas pessoas que ao ouvir um canto sabem reconhecer a que pássaro pertence. Vive esta sua ignorância como se fora uma culpa. O novo saber que o género humano vai adquirindo não compensa o saber que se propaga apenas pela transmissão oral direta, o qual, uma vez perdido, nunca mais se pode readquirir e retransmitir: nenhum livro pode ensinar aquilo que apenas se pode aprender na infância, se se entrega o ouvido e o olho atentos ao canto e ao voo dos pássaros e se se encontra então alguém que pontualmente  lhes saiba dar um nome."

Palomar - Italo Calvino
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