Procurar:

Sobre o livro 'Tipping Point' (Malcolm Gladwell) e o tentar perceber de que é feita a viralidade



'Tipping point' é um interessante livro que versa sobre o tema da criação de modas e tendências. É um best-seller com um estilo de escrita ligeiro e amplamento descritivo. O livro procura difundir uma tese e socorre-se de exemplos particulares que são apresentados como caso de estudo para as generalizações que são veiculadas. Por este motivo o livro é interessante mas não pode ser tomado como rigoroso e factual, pelo menos na tese veiculada em cima da compilação de informação que faz.

Não obstante, a narrativa é pertinente no modo como realça o processo de constituição daquilo que hoje designamos por viralidade, e que no fundo são fenómenos epidémicos envolvendo objetos, ideias, comportamentos, etc. Fala-nos de um "factor pegajoso" que pode ser trabalhado para conseguir captar a atenção e vontade humana, mas também das categorias de intervenientes que ajudam a implementar coletivamente as tendências: as pessoas do tipo conector, as do tipo guia informado, e os comerciais.

Em todo o caso, parece-me que o livro é grande demais para o que se propõe comunicar, tendo partes que parecem excessivamente desenvolvidas e deslocadas (como a parte da Rua Sésamo e das Pistas de Blue). Por outro lado o livro passa a ideia de que é possível controlar e manipular este fenómeno, o que porventura induz em erro: não é por se perceber como algo funciona que se consegue controlar o funcionamento desse algo.
Ler mais...

Sobre o dilema moral da delação premiada, e considerações sobre o que está em causa nesta discussão, em Portugal


Language object espalier - Gerhard Marx (2015)

* * * 

Dilemas morais não são, por norma, questões de resolução óbvia. Vem isto a propósito de Portugal acordar - a meu ver em boa hora - para a questão da delação premiada, a qual em linhas gerais, faz com que um criminoso possa ver a sua pena atenuada se aceitar colaborar com a Justiça e revelar os seus cúmplices bem como informações decisivas para a expedita e completa resolução dos crimes em que se vê investigado.

Do que me apercebi haverá neste momento quatro tipos de objectores/lesados a esta possibilidade: os que a vêem como um revivalismo da PIDE; os que têm enormes telhados de vidro e sabem poder vir a sofrer com ela; os que a vêm como uma desqualificação moral que pode perverter a presunção de inocência (entre outros danos possíveis); e ainda as classes profissionais que por algum motivo se prejudiquem com uma justiça mais célere, simples e funcional.

Furtando-me a uma análise especializada - a qual está fora das minhas competências - diria que vivemos num mundo altamente mediatizado, e amplamente carente de credibilidade nas suas instituições. A Justiça credibiliza-se se tiver rapidez, eficiência (boa gestão dos recursos) e eficácia (bons e consequentes resultados). Apurar a verdade dos factos não só é uma questão de fundos, podendo beneficiar imenso com melhorias no processo de aquisição e confrontação da informação apurada. Parece-me ser exatamente aqui que a delação premiada pode contribuir fortemente para credibilizar a Justiça.

No meu entender, mais vale 10 culpados a cumprir penas, com 2 ou 3 deles (os delatores) a cumprir menos 25% do que deveriam; do que ter apenas 3 culpados a cumprir pena integral ao mesmo tempo que 7 ficam soltos, na rua, sem qualquer pena ou julgamento.
Ler mais...

Sobre a inevitabilidade de cada adulto encontrar uma estratégia eficaz para a sua vida


 No Winner, No Loser - Pedro Valdez Cardoso (2006)

* * *

A vida adulta deve ser acompanhada de uma estratégia eficaz. Há múltiplas frentes para gerir, caminhos e opções muitas vezes inconciliáveis, e temporizações complexas que tanto podem depender de vários fatores, como de nada ao certo depender. A estratégia pode ir mudando, ser mais idílica ou mais utópica, mais pessimista ou  mais pragmática, mais centrada num papel ativo ou num passivo, mas tem de existir.

Neste processo, a educação recebida de casa, a educação ministrada pela escola, e a educação professada por fonte religiosa ou espiritual, servem de infraestrutura básica ao indivíduo, e de ponto de partida segundo o qual tenta decifrar a sua vida. Soma-se ainda o próprio alimento que o indivíduo escolhe ter como fonte de influência: um livro, um amigo, uma estrela da tv, cinema ou desporto, etc. Sobre estes chovem então solicitações diárias em torno de desafios, necessidades e opções de curto, médio ou longo prazo. Estas acabam por ditar em larga medida a pessoa em que nos vamos tornar e o que nos aconteceu desde esse ponto inicial, um dia, em que virámos adultos.

Na sua vertente mais óbvia, a dita estratégia contempla o que se entende fazer ou esperar da família que herdámos, da família que queremos fundar, do trabalho e do estilo de vida geral. Certo é que é difícil estar sempre bem em tudo, ganhar sempre, ou não ter dias menos bons. É em particular nestas ocasiões que uma visita ou esclarecimento interior quanto à dita estratégia servirá de alento ou de fonte de inovação, catapultando-nos, se bem usada, para a superação em degrau dos desafios, e para um valioso acumular de experiências que ajudam a ainda melhor decifrar o desafio de saber viver.

Ler mais...

Sobre os nacionalmente derrotados mas europeiamente vencedores irmãos Sobral, e o poder da naturalidade e perseverança para singrar na vida


Path to the stars series (7) - Juan Carlos Rivero Cintra (2017)


* * * 

A histórica vitória portuguesa num festival da Eurovisão, materializada por um jovem cantor português, embalado por uma jovem compositora sua irmã, e por anónimos mas bem audíveis (e aprazíveis) arranjos musicais de um outro jovem português, levaram ao êxtase um povo resignadamente habituado a ficar na cave das pontuações deste  experimentado concurso transnacional, que deve a sua existência ao nobre mote de integrar e cultivar as diferentes culturas e línguas do bloco continental europeu.

As boas oportunidades são em si mesmas inesperadas, e a tríade composta pelos irmãos Sobral e pelo músico Luís Figueiredo, acabou por triunfar bombasticamente com uma naturalidade que que desmonta a teoria de que perante estrangeiros e nacionalidades supostamente mais desenvolvidas, um português tem de se superar e desunhar para conseguir ombrear com tais colossos, ou adamastores, se preferirem.

Finalmente, não posso terminar sem bradar o modo como os irmãos Sobral, ex-perdedores em concursos televisivos nacionais de interpretação musical, surgiram pela televisão pública a dentro e de lá saíram como vencedores europeus. Nem sempre Portugal sabe premiar os seus melhores.  E nada impõe que os perdedores de ontem sejam os perdedores de hoje, só os caprichos da nossa auto-estima e os preconceitos da nossa má-lingua. Também nisto os irmãos Sobral fincaram a sua bandeira, mostrando que a perseverança torna possível triunfar em mares já outras vezes navegados mas nunca dantes vencidos.

* * * 



Ler mais...

Sobre o livro Galveias, de José Luís Peixoto




Estreiei-me na prosa de José Luís Peixoto com Galveias, e em boa hora assim aconteceu, desde logo porque não é comum ler um livro concebido e realizado em torno das vicissitudes de uma freguesia portuguesa no período comunicante com a revolução de Abril 1974, e cuja história que rejeita centrar-se na figura de uma ou mais personagens principais, sobre qual toda a ação orbite. Os personagens humanos e animais são todos secundários, podendo pensar-se que a pedra sulfurosa que embate contra a vila no início da história possa representar o personagem principal que norteia e contextualiza aqui e acolá a ação dos habitantes locais.

Depois, a mestria narrativa com que se giza uma história dinâmica, em permanente mutação de ação e personagens, e que promove uma coleção de mosaicos ricos em especificidades culturais, personalísticas, ideológicas de um povo, de onde emana não um cheiro a enxofre generalizado (como o meteorito) mas um perfume progressivo e sintomático do que pode ser a vida rural, no limite rústica, do alto Alentejo. De objetos como as motorizadas, a atividades como a extração de cortiça, passando também pelas profissões prestigiantes como a do médico ou a da professora.

Para quem leu Levantado do Chão, de José Saramago, Galveias é uma obra de continuidade desse legado literário sobre o Alentejo, já sem a carga comunista e predominantemente agrária que aquele livro privilegia, mas com a evolução dessa realidade para a de uma democracia que não apagou traços culturais alentejanos relacionados com formas de ser e reagir, nem as debilidades que a região exibe ao nível da escolaridade e da maior precariedade do interior português em alguns domínios face às grandes metrópoles do país.
Ler mais...

Sobre bastar um moderador e boa vontade coletiva para se alcançarem feitos dignificantes e regozijo generalizado


untitled (plate 61 from series 156) - Pablo Picasso

* * * 

De modo simplista, associamos a ação dos que se destacam no cumprimento de uma dada atividade à figura e mérito de um líder ou chefe, com tudo o que isso pode representar termos de invejas, ódios, paixões, etc. Porém, e sem prejuízo do sucesso dos objetivos que os movem, tais figuras podem assumir tão somente a forma de moderadores, funcionando menos como centros de autoridade vertical e mais como elos de uma cadeia colaborativa especialmente vocacionados para a coordenação e bom curso de uma dada atividade.

As atividades humanas mais valiosas e bem sucedidas são aquelas que congregam pessoas a participarem de modo voluntário em prol de um bem comum que apenas é tangível mediante a soma de cada participação individual. Isto vale para empresas, para universidades, para famílias ou para projetos sociais. O sucesso dessas atividade depende muito do florescimento natural da boa vontade para colaborar, resumida na máxima da pedagogia que ensina que "mais do que ganhar ou perder, o que importa é participar". Esse desprendimento do lucro pessoal requer cidadãos antenados para o que realmente importa nesta vida: sermos felizes sem para isso termos de fazer os outros infelizes.

Assim, sempre que se consegue juntar um bom moderador (aquele que sabe coordenar sem exceder o seu poder) a um estado de espírito colectivo assente na boa vontade, o resultado só pode ser louvável e dignificante, enchendo de regozijo aqueles que o integraram, e fazendo emergir no íntimo de cada um o ideal da fraternidade que coloca cada concidadão como um irmão a quem se quer bem. O que , enquanto sociedades, empresas, grupos, famílias temos de perseguir e aprimorar é esse alinhamento que permite encher de alma e sentido cada empreendimento material e imaterial, justificando pela Terra o motivo e valor da nossa presença.
Ler mais...

Sobre 'Taurus Man' (3vial Art), ao som e letra de "The Ins and Outs (Marble Sounds)



Taurus Man - 3vial Art (2017)

* * * 

"Changes on the horizon
Moving me to find them
So I…

I'll make it
The moment is defining
The strategy's decided"



Ler mais...

Sobre o lugar dos objetivos a longo prazo num mundo dinâmico, livre e incerto


To see it - Liliana Porter  (2015)

* * *

Vivemos tempos em que a liberdade com que as pessoas e ideias circulam faz com que, de modo dinâmico, se criem ondulações que ora avançam e irrigam, ora refreiam e desamparam. Mais do que a liberdade propriamente dita, é o dinamismo que decorre da liberdade o que faz com que haja tamanha incerteza sobre o que irá acontecer, e tantas dúvidas sobre as coisas que acabam por ir acontecendo.

Esse mesmo dinamismo, que cavalga sobre todas as descobertas tecnológicas, não pára de acelerar o mundo, impondo nas pessoas um carpe diem (viver o presente) forçado, que desloca os seus planos, preocupações ou sonhos para horizontes mais imediatos.Não obstante, nunca como hoje foi necessário aprimorar uma inteligência dita 'temporal', na exata medida em que é preciso perceber que tempo se tem realmente para o quê, que tempo se quer e/ou deve ter para isso, e quando é que é tempo de mudar ou não mudar determinada realidade, forma de estar ou convicção.

Se o mundo ganhou dinamismo e o carpe diem se vem impondo acoplado àquele, não caiamos no erro de pensar que já não há objetivos de longo prazo que valham a pena perseguir. Pode ser mais turbulento vislumbrar, e poderão interpor-se muitas incertezas e dúvivas,  mas as metas de longo prazo continuam a existir e continuam a fazer a sentido, do mesmo modo que uma maior atenção de um condutor no troço da estrada que lhe caiba a cada dia conduzir não lhe anula o sentido maior para qual dirige a sua vi(d)atura, isto, o destino final para onde se dirige.
Ler mais...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...