Procurar:

Sobre o equilíbrio da natureza e a projeção de catástrofes sobre todas as coisas, ao som de "Lullaby to a bird" (Yoav Illan)


Sky and water I (bool 306) - Maurits Cornelis Escher (1938)


* * *

"Tranquilizadora visão, a passagem dos  pássaros migradores, associada na nossa memória ancestral ao harmonioso suceder das estações; e no entanto o senhor Palomar experiencia como que um sentimento de apreensão. Será porque este céu apinhado nos lembra que o equilíbrio da natureza está perdido? Ou será porque o nosso sentimento de insegurança projecta ameaças de catástrofes sobre todas as coisas?"

Palomar - Italo Calvino

* * *


Ler mais...

Sobre o povo Himba, e pistas sobre como os conceitos ocidentais de bem-estar, riqueza e felicidade podem estar enviesados


 Himba Girls - David Yarrow (c.a. 2015)


Contactei recentemente com dois muito interessantes documentários sobre o povo Himba, o qual habita uma região de Angola que faz fronteira com a Namíbia. Para além das curiosidades culturais (aparência visual, hábitos quotidianos, mundividência), sabê-los bem, enquanto povo, fez-me pensar na questionabilidade dos nossos conceitos de bem-estar, riqueza, e no modo como os projetamos sobre nós e sobre os outros de forma  quase dogmática.

Os Himba devem constar das estatísticas mundiais como sendo pessoas que vivem abaixo do limiar da pobreza, mas o que quer isso dizer? Eles vivem de facto abaixo desse limiar, mas não precisam sequer de dinheiro. Munem-se de poucos bens materiais, e rodeiam-se do que realmente precisam. para lhe resolver problemas e facilitar a vida.  Quando falamos de pobreza e de África, pensamos facilmente em subnutrição, higiene precária, poluição, ausência de educação. De igual modo, quando pensamos em tribos ou povos indígenas, imaginamos seres precários, parados no tempo, vulneráveis, cheios de passado mas sem futuro.

Os Himba não são uma coisa nem outra: são, ao invés, a demonstração de que existe em África quem seja indígena, pobre, sem estudos formais, e ainda assim viva com higiene, dignidade, autosuficiência, e sob um regime de regras sociais que permite a vida em comunidade, de modo sustentável. Neste contexto, os Himba são a prova viva de que os problemas que se vivem em África e noutras regiões do mundo, e que correlacionamos com pobreza material ou ausência de educação formal, são na realidade reflexo de inexistência de uma cultura suficiente forte para se saber jogar com o jogo da vida dentro das especificidades regionais e conjunturais. Quem o sabe fazer, domina a arte de ser feliz,e depara-se com um profundo e inequívoco significado na oportunidade de estar vivo aqui e agora.
Ler mais...

Sobre a lei de Pareto e os 20% de factores que explicam 80% dos efeitos/fenómenos observados

Latent Composition - Kishio Suga (2016)

* * *

Ao longo do meu percurso profissional tornei-me amigo (se é que se pode ser) de uma regra empírica que ficou conhecida como Lei de Pareto, a qual diz que é habitual 20% dos factores provocarem 80% dos efeitos/resultados observados. Se no universo da engenharia e da ciência é bastante útil conhecer que factores por detrás de um dado efeito, não menos o é noutros quadrantes da vida, tais como aqueles que envolvem as efemérides que nos acontecem aqui e acolá.

O que as causou em última instância? O que as favoreceu? O que as alimentou? O que é parecia importar mas foi na verdade irrelevante? Em que magnitudes cada fator se tornou importante ou desprezável? Qual a melhor estratégia para corrigir as falhas nesses fatores? Como evitar o pior? Como cultivar o melhor? Que implicações tem mudar? E não mudar? 

Acertar com esta problematização é resolver o desafio da compreensão e atuação na vida. No dia-a-dia não se fazem experiências com o rigor e capacidade de repetição que o laboratório ou o computador permitem, pelo que sobra, para além da regra, muita margem para discorrer sobre os 20% de factores que são capazes de justificar 80% das mudanças no mundo, e nas vidas de cada um de nós. Quem não for rigoroso e hábil a testar hipóteses e a descartar os falsos positivos ou negativos, tenderá a fazer dos 20% autênticos actos de fé, desperdiçando a oportunidade de perceber minimamente o que se passa ao seu redor ou consigo mesmo.

Ler mais...

Sobre o livro 'Tipping Point' (Malcolm Gladwell) e o tentar perceber de que é feita a viralidade



'Tipping point' é um interessante livro que versa sobre o tema da criação de modas e tendências. É um best-seller com um estilo de escrita ligeiro e amplamento descritivo. O livro procura difundir uma tese e socorre-se de exemplos particulares que são apresentados como caso de estudo para as generalizações que são veiculadas. Por este motivo o livro é interessante mas não pode ser tomado como rigoroso e factual, pelo menos na tese veiculada em cima da compilação de informação que faz.

Não obstante, a narrativa é pertinente no modo como realça o processo de constituição daquilo que hoje designamos por viralidade, e que no fundo são fenómenos epidémicos envolvendo objetos, ideias, comportamentos, etc. Fala-nos de um "factor pegajoso" que pode ser trabalhado para conseguir captar a atenção e vontade humana, mas também das categorias de intervenientes que ajudam a implementar coletivamente as tendências: as pessoas do tipo conector, as do tipo guia informado, e os comerciais.

Em todo o caso, parece-me que o livro é grande demais para o que se propõe comunicar, tendo partes que parecem excessivamente desenvolvidas e deslocadas (como a parte da Rua Sésamo e das Pistas de Blue). Por outro lado o livro passa a ideia de que é possível controlar e manipular este fenómeno, o que porventura induz em erro: não é por se perceber como algo funciona que se consegue controlar o funcionamento desse algo.
Ler mais...

Sobre o dilema moral da delação premiada, e considerações sobre o que está em causa nesta discussão, em Portugal


Language object espalier - Gerhard Marx (2015)

* * * 

Dilemas morais não são, por norma, questões de resolução óbvia. Vem isto a propósito de Portugal acordar - a meu ver em boa hora - para a questão da delação premiada, a qual em linhas gerais, faz com que um criminoso possa ver a sua pena atenuada se aceitar colaborar com a Justiça e revelar os seus cúmplices bem como informações decisivas para a expedita e completa resolução dos crimes em que se vê investigado.

Do que me apercebi haverá neste momento quatro tipos de objectores/lesados a esta possibilidade: os que a vêem como um revivalismo da PIDE; os que têm enormes telhados de vidro e sabem poder vir a sofrer com ela; os que a vêm como uma desqualificação moral que pode perverter a presunção de inocência (entre outros danos possíveis); e ainda as classes profissionais que por algum motivo se prejudiquem com uma justiça mais célere, simples e funcional.

Furtando-me a uma análise especializada - a qual está fora das minhas competências - diria que vivemos num mundo altamente mediatizado, e amplamente carente de credibilidade nas suas instituições. A Justiça credibiliza-se se tiver rapidez, eficiência (boa gestão dos recursos) e eficácia (bons e consequentes resultados). Apurar a verdade dos factos não só é uma questão de fundos, podendo beneficiar imenso com melhorias no processo de aquisição e confrontação da informação apurada. Parece-me ser exatamente aqui que a delação premiada pode contribuir fortemente para credibilizar a Justiça.

No meu entender, mais vale 10 culpados a cumprir penas, com 2 ou 3 deles (os delatores) a cumprir menos 25% do que deveriam; do que ter apenas 3 culpados a cumprir pena integral ao mesmo tempo que 7 ficam soltos, na rua, sem qualquer pena ou julgamento.
Ler mais...

Sobre a inevitabilidade de cada adulto encontrar uma estratégia eficaz para a sua vida


 No Winner, No Loser - Pedro Valdez Cardoso (2006)

* * *

A vida adulta deve ser acompanhada de uma estratégia eficaz. Há múltiplas frentes para gerir, caminhos e opções muitas vezes inconciliáveis, e temporizações complexas que tanto podem depender de vários fatores, como de nada ao certo depender. A estratégia pode ir mudando, ser mais idílica ou mais utópica, mais pessimista ou  mais pragmática, mais centrada num papel ativo ou num passivo, mas tem de existir.

Neste processo, a educação recebida de casa, a educação ministrada pela escola, e a educação professada por fonte religiosa ou espiritual, servem de infraestrutura básica ao indivíduo, e de ponto de partida segundo o qual tenta decifrar a sua vida. Soma-se ainda o próprio alimento que o indivíduo escolhe ter como fonte de influência: um livro, um amigo, uma estrela da tv, cinema ou desporto, etc. Sobre estes chovem então solicitações diárias em torno de desafios, necessidades e opções de curto, médio ou longo prazo. Estas acabam por ditar em larga medida a pessoa em que nos vamos tornar e o que nos aconteceu desde esse ponto inicial, um dia, em que virámos adultos.

Na sua vertente mais óbvia, a dita estratégia contempla o que se entende fazer ou esperar da família que herdámos, da família que queremos fundar, do trabalho e do estilo de vida geral. Certo é que é difícil estar sempre bem em tudo, ganhar sempre, ou não ter dias menos bons. É em particular nestas ocasiões que uma visita ou esclarecimento interior quanto à dita estratégia servirá de alento ou de fonte de inovação, catapultando-nos, se bem usada, para a superação em degrau dos desafios, e para um valioso acumular de experiências que ajudam a ainda melhor decifrar o desafio de saber viver.

Ler mais...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...