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Sobre o conceito de código genético cultural, e a pessoa que somos à luz dos conteúdos a que nos ligamos



Décalcomanie (Decalcomania) -  René Magritte (2010)

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A descoberta do código genético foi um marco histórico no entendimento que a humanidade faz da mecânica que preside à hereditariedade, à evolução, entre outras. Depois da descodificação, o desafio passou a ser, sobretudo, o de perceber como operar sobe este código com vista à melhoria da saúde humana. Embora do ponto de vista técnico a genética seja um assunto restrito a profissionais altamente especializados, para a sociedade e cidadão comum aparenta ser um dado adquirido, um conceito amplamente aceite e interiorizado.

De modo simbólico, a rede social StumbleUpon adotou o conceito de DNA para mapear os conteúdos culturais que os seus utilizadores promovem e movimentam no universo digital. Com isto, é possível perceber, numa base percentual, a natureza dos conteúdos preferidos, sejam eles do foro do desporto, da literatura, da história, da tecnologia, dos jogos, etc. Trata-se, portanto, de uma forma pertinente de sistematizar que pessoa somos em termos de consumo de conteúdos.

A grande vantagem de podermos consultar um código genético cultural, na forma proposta pela StumbleUpon ou noutra, é a oportunidade de nos vermos retratatos em termos de preferências, mas também a inevitabilidade de sermos diagnosticados pela falta de ecletismo, fontes de influência, ou tipo de imagens mentais que nos apoiam a entender a complexidade ou simplicidade das realidades que nos confrontamos. Quanto mais não seja, serve para estarmos cientes de que também somos aquilo que consumimos e promovemos, e que esse é um código tão real e manifesto como o das características biológicas.
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Sobre o sentido de partir um mesmo copo duas vezes e a capacidade de examinar a vida que sucede, ao som de 'Roman Two' (Krzysztof Komeda)


Le Vase 1 - Fernand Leger (1927)

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Esta semana ocorreu-me o insólito caso de partir um mesmo copo duas vezes. A cultura popular diz-nos para nunca voltar a um sítio onde já se foi feliz. Mas o que postula ela sobre regressar a um local/situação onde já se foi infeliz (há escassos minutos atrás)? As coincidências estão sempre à mercê das expectativas humanas, que com elas adoram brindar aos misteriosos caminhos do divino.

Vou um pouco mais longe: certamente qualquer um concede que é menos provável partir o mesmo copo duas vezes do que parti-lo apenas uma vez. Em todo o caso, um copo partido tem um valor útil vertiginosamente inferior a um copo inteiro, completo, pleno. Pelo que urge perguntar: pode a emoção de partir um copo que já estava partido ser mais forte do que a de o partir pela primeira vez? Porquê? (A repetição de um fenómeno tem um efeito psicológico de desgaste, e leva-nos a percecionar mais ou menos intensamente aquilo que efetivamente aconteceu e esteve em causa.)

Para concluir, recupero uma ideia de Sócrates, que afirmou que uma vida examinada não vale a pena ser vivida. É que os eventos sucedem-se, mas a nossa capacidade/disponibilidade para os examinar nem sempre se sucede. Por vezes só sentimos, e deixamos de examinar. Ou então distraímo-nos com a examinação que outros fazem, e que tomamos como nossa (ou repudiamos em abstrato). Mas e a  nossa qual é, afinal? A capacidade de parar e ser nutrido pelos episódios da vida é hoje uma subtil competência que poucos ousam e aparentam praticar, seja na forma escrita, oral, ou meditativa. É só sentir, e vambora que se faz tarde. Tarde para quê, mesmo?

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Sobre fazer ao invés de falar, ficar quando fugir se recomenda, e ser outlier, ao som de 'Rebellion' (Oso Leone)



Outlier - Martin Holmes (2016)

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"Don't speak
You'd better act

They want you to know
Nothing

Not use your common sense

They want you to play
Emptiness

An idiocy
Its what they grow

You'd better run the way
But I won't"

Rebellion - Oson Leone


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Sobre o filme 'Loving Vincent', a pintura ao dispôr do cinema, e a biografia de um vencedor tardio que morreu cedo




Loving Vincent (ou 'A Paixão de Van Gogh') é um filme biográfico (direção de Dorota Kobiela e Hugh Welchman) sobre a vida do artista holandês Vincent van Gogh, que teve uma morte prematura e envolta em algum mistério. Mais que isso, trata-se de uma produção cinematográfica original, porventura inédita para a maioria dos espectadores que a assistam. A película, de colaborativa produção britânica e polaca, contou com a participação de pelo menos 100 artistas, cujo contributo permitiu a pintura (no estilo de característico de Van Gogh) de todas as cenas que se desenrolam.

Do ponto de vista da forma, considero este filme uma magistral e dinâmica obra de arte, que abre a porta da pintura para a sétima arte, e que vem mostrar que o auge atual da técnica não tem de residir exclusiva e puramente em valências digitais, e que a mão humana tem lugar próprio nesse domínio. Em verdade não concordo com a inclusão deste filme na categoria de animação pois talvez merecesse uma categoria própria, bem como mais apostas cinematográficas neste formato, que é tão belo, elegante, e mágico. A simplicidade é a maior sofisticação, e penso que Loving Vicent é um grande embaixador dessa máxima.

Já sobre o conteúdo, o filme é peremptório no assinalar à sociedade as especiais vicissitudes da vida e morte de Van Gogh, que numa década pintou mais de 800 quadros; que só arrancou para a pintura (tardiamente) aos 28 anos; que até essa idade deambulou depressivo pela sociedade sem conseguir singrar em nada ; e que teve no irmão a grande fonte de confiança de que deveria seguir o rumo que o seu talento pedia. Trata-se de uma figura que tomou como esposa a Natureza (que tanto prezou observar e estarrecer-se), e que deixou como filhos a sua arte, hoje apreciada e influenciadora de tantos. 


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Sobre a culpa não poder morrer solteira nos vícios e falhas detetados na esfera governativa


Red and Black Castle - David Nash

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No espaço de meses, um duplo caso incêndios florestais mortais como nunca visto, acompanhado pelo colapso da rede da proteção civil nacional, e, quase em simultâneo, a formalização da acusação a um ex-primeiro-ministro num total de mais de 30 crimes relacionados com corrupção, branqueamento de capitais e outros que tal. No caso dos incêndios, há mil e uma desculpas a circular para ilibar responsabilidades humanas tangíveis e diretas, e no segundo há mil e uma desculpas a circular para mostrar como toda a investigação é ela própria corrupta e mentirosa.

Para quem leu A República, e contactou com o modo como, idealmente, deve funcionar uma cidade (ou país), bem como como tipo de cidadãos que nela podem habitar (e as consequências que daí advêm) estamos claramente a viver uma fase em que o que é notícia no presente tem relação direta com a qualidade das elites que se chegaram à frente para liderar os destinos do país em anos recentes. Nestes casos, a culpa não pode morrer solteira: a corrupção, o branqueamento de capitais, e a incompetência levam,  direta ou indiretamente à morte e prejuízo de muitas pessoas. É que há tantas formas de ferir de morte uma pessoa...

O Estado, tal como qualquer empresa, não pode refugiar-se na ideia de que é uma pessoa/entidade coletiva, sem cérebro próprio e como tal moralmente inimputável. Os líderes são o seu cérebro e a sua imputabilidade, e o poder, cargo ou salário que estes líderes auferem/detêm é proporcional às responsabilidade que forçosamente terão de assumir quando as coisas correm mal. Por isso, farei figas para que aqueles cuja incompetência, imoralidade, inação, ilegalidade se demonstre (direta ou indiretamente) nestes dois casos , possam cair e ser purgados com estrondo da esfera pública. Com estrondo para se poder restituir a confiança dos cidadãos no sistema público, e com estrondo para poder inibir novos potenciais vilões deste tipo de vícios e deturpação.

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Sobre o eu enquanto janela através da qual o mundo olha o mundo (Italo Calvino), ao som de 'Paradise Waiting Room' (Kisses)


You and I - Eleanor Swordy (2016)

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"(...) dado que há mundo do lado de cá e mundo do lado de lá da janela talvez o eu não seja mais do que a janela através do qual o mundo olha o mundo. Para se olhar a si próprio o mundo tem necessidade dos olhos (e dos óculos) do senhor Palomar.

(...) Da muda extensão das coisas deve partir um sinal, um apelo, uma piscadela de olho: uma coisa sobressai por entre outras com a intenção de significar alguma coisa... que coisa? Ela mesma; uma coisa está contente por ser olhada pelas outras coisas apenas quando está convencida de que se significa a si própria e a nada mais, no meio das coisas que se significam a si próprias e nada mais.

As ocasiões deste género não serão certamente frequentes, mas mais tarde ou mais cedo deverão com certeza apresentar-se: basta esperar que se verifique uma daquelas felizes coincidências em que o mundo quer olhar e ser olhado no mesmíssimo instante e o senhor Palomar se envontrar a passar ali por perto. Ou seja, o senhor Palomar não deve sequer esperar, porque estas coisas acontecem apenas quando menos se espera. "

Palomar - Italo Calvino

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Sobre a arte de transitar da parte ao todo e do todo para a parte, e a dificuldade humana em dominá-la


Speedcubing - Julien Grudzinski (2012)

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A fragmentação tende a gerar mais oportunidades, e a unidade menos. Mas a fragmentação enfraquece e desloca a atenção para nichos, enquanto que a unidade fortalece e permite um alcance mais universal (holístico). Não é possível dizer, em abstrato, que é preferível unir do que fragmentar. Nem o contrário, sequer. Dependerá sempre daquilo a que seja aplicado, o que significa que para umas coisas será bom uma destas, e para outras ficaremos melhor servidos com o oposto.

Pense-se agora na união ou fragmentação das pessoas, dos países, dos pensamentos, da saúde, das classes profissionais, da cultura, das crenças, das ações, das emoções, das famílias, do conhecimento, da política, da ciência, etc. Nuns casos é bom esmiuçar e trabalhar com a farinha resultante, noutros é simplesmente útil fazê-lo para fins de eficiência (ou eficácia) na identificação de problemas e na preparação das respostas aos mesmos. Mas será que não há casos também em que é preferível privilegiar o todo e mantê-lo inteiro acima de qualquer tentação?

Aquilo que não foi dado ao homem, para a sua experiência terrena, é um manual inequívoco que lhe permita perceber em que situações e até que ponto é interessante investigar pela fragmentação os assuntos, as posições e as disposições, e em que outras situações (e até que ponto) é primordial privilegiar uma visão integrada, global, una sobre assuntos, as posições e as disposições. Soubéssemos nós dominar a arte da transitar da parte ao todo e do todo à parte e o mundo seria um lugar bastante melhor, tal como cada pessoa que o habita seria mais feliz.

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Sobre a melhoria das sociedades e das paisagens naturais, pela mão de quem convictamente semeia as mudanças que quer encontrar ao seu redor



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Em tempos contatei com o livro O Homem que Plantava Árvores (por Jean Giono), e achei brilhante imaginar alguém que anos a fio dedica os seus dias à seleção das melhores sementes e à colocação ordenada das mesmas em terrenos desérticos. Décadas depois era possível encontrar floresta e hidratação onde antes só havia aridez e secura. Tal imagem é adorável pelo valor facial, isto é, pela sua mensagem ecológica e naturalista, mas é também um excelente convite à analogia: será que semelhante mecanismo de sementeira poderá aplicar-se à cultura, à educação, à cidadania?

É por acreditar que sim que este texto existe. Um exemplo muito pertinente de quem esteja a "semear" há 20 anos a educação junto dos mais pobres, e que começa a poder vislumbrar a floresta social em locais onde, se nada se fizesse, continuaria a haver "aridez" e "secura" a nível de desenvolvimento humano. Falo da organização sem fins lucrativos Shanti Bhavan, que se propõem pegar em crianças dos meios mais desfavorecidos da Índia (casta dos párias ou intocáveis) e semear neles o ensino escolar, as competências de liderança e valores globais (integridade, generosidade, compaixão).

Nenhuma floresta ou sementeira é perfeita. Nenhum projeto educacional, cultural ou societal o será. Mas uma floresta não se mede pelo sucesso ou insucesso de uma parte, mas sim pela harmonia que o todo consegue conquistar, nomeadamente pela capacidade sincronizada de mobilizar um ecossistema para a sua transformação. O resto vem por acréscimo ou consequência.

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