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Sobre o livro 'The Aristocracy of Talent' (Adrian Wooldridge), e a ascensão e declínio da meritocracia para explicar o mundo pouco inclusivo que temos e o populismo como escape ao problema



O livro A Aristocracia do Talento - Como a meritocracia criou o mundo moderno [tradução não oficial do título em inglês, pois o livro não está traduzido para português], da autoria de Adrian Wooldridge, é um compêndio não escolar sobre o papel da meritocracia na história da humanidade até aos dias do agora. Está escrito com dedicada elaboração, evidenciada por uma vasta citação de início ao fim, mas, sobretudo, pela atenção ao detalhe. Dos discursos políticos às figuras marginais na história mas centrais para ganhos de causa no tema da meritocracia. O autor é ainda generoso no reconhecimento de outras vozes e livros, concorrentes à sua e ao seu livro, procurando reunir pela sua escrita o melhor e o mais completo que se pode destacar no percurso temporal do mérito nas diferentes sociedades, especialmente a norte‑americana e a britânica.

Tendo eu referenciado este livro pelo interesse pessoal sobre o tema do mérito e da meritocracia, não antecipei duas coisas que aqui partilho. O assunto é eminentemente histórico, e portanto falar dele é falar de marcos como a queda das dinastias e linhagens de sangue enquanto privilégios de classe sucessórios; o dealbar do reconhecimento de que quem é excecional não gera forçosamente descendência privilegiada cognitivamente; o reconhecimento do talento versus barreiras do preconceito ou limitação étnica; os direitos das mulheres ao mérito; e, ainda, a história da afirmação do sistema académico centrado em critérios objetivos de elegibilidade, em tenra idade ou em admissão universitária.

Menos interessante para mim no que almejava com esta leitura é o tema do controverso QI e em como o esforço civilizacional de traduzir inteligência em métricas quantitativas colide com um mar de limitações metodológicas, desde logo o efeito de vantagem ou desvantagem na qualidade do desempenho medido aportável pelo meio e recursos contextuais do indivíduo.

Por fim, o livro surpreende ao interligar o Brexit e o surgimento de populismo inclusive nos EUA pela autopreservação dos vencedores da meritocracia no cume da pirâmide da mobilidade social, por motivos como o de casarem entre si e com isso internalizarem mais vantagens sociais, mas também pela tentação de usar poder económico para comprar vantagem para que os seus descendentes acedam naturalmente às instituições de ensino mais credíveis e abridoras de possibilidades profissionais. A tese do autor é que esse descontentamento silencioso mas crescente culminou na pressão para o aparecimento de figuras políticas altamente contestatárias do estado das coisas, contra as elites que já não têm um sentido de dever público, que ignoram as desigualdades estruturais que bloqueiam o elevador social aos descapitalizados, e que vivem a trabalhar no seu interesse próprio, inclusive as próprias elites políticas.

Por tudo isto, considero uma leitura importante e pertinente para compreender que a democracia liberal deve à meritocracia muito, mas também que os vencedores da meritocracia criaram condições para furar as próprias regras que, algures, os levaram ou aos seus brilhantes antepassados, a patamares de privilégio económico-social, e que isso fere de morte a justiça inerente a uma aristocracia do talento que se regenere a cada nova geração em função do que vai sendo a essência do mérito em cada tranche histórica vivida.

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Sobre o livro 'Mau Tempo no Canal' (Vitorino Nemésio) e uma história de amor que é na verdade um quadro sociocultural multifacetado da sociedade açoriana no princípio do século XX

Retired Whaling Captain's Study, Nantucket, circa 1860 - Eugene Kupjack (1983)


O livro Mau Tempo no Canal, do açoriano Vitorino Nemésio, narra uma história insular centrada em Angra do Heroísmo (ilha Terceira), que se inicia tendo como pano de fundo um romance não assumido entre Margarida Dulmo, filha de uma família com origens luso-inglesas da elite local, mas ameaçada de cair em desgraça por acumulação de dívidas decorrentes da quebra da atividade baleeira, e João Garcia, filho do contabilista da família de Margarida, que, por vários motivos aventados ao longo da história, não pode senão abortar os planos de desposar Margarida.

É redutor imaginar que se trata de um Amor de Perdição à moda dos Açores, apesar de os elementos de isolacionismo e de ditames socioculturais se imporem às relações de amor puro e livre, até porque a história evolui esquecendo, por longos momentos, João Garcia e o seu amor algo obsessivo por Margarida, em detrimento desta última e de uma variedade de personagens, incluindo alguns com grau de parentesco com os dois protagonistas, e tantos outros que, de figurantes ou inexistentes em algumas passagens, passam a personagens quase principais nas seguintes. É o caso do tio Roberto, do empregado Manuel Bana, ou ainda de Caetano, o Barão da Urzelina. Vem ao de cima o tabuleiro das relações sociais e dos circuitos de convivência, onde proprietários não se misturam com empregados, e onde Margarida fura essas regras com uma naturalidade e exceção assinaláveis.

Costumo ser crítico de livros demasiado longos, pois não raro concluo que o leitor poderia ter sido poupado a páginas desnecessárias, mas não é o caso com Mau Tempo no Canal. A história ganha nova forma e fôlego quando o tio Roberto aparece na ilha após décadas em Inglaterra; quando a caça à baleia em barco a remos é subitamente retomada; e quando, já perto do fim, ocorre uma cena de tourada tradicional, com tudo o que de cultural e simbólico lhe está associada. As diversas passagens avolumam os ricos elementos culturais insulares — vida piscatória e de relação umbilical com o mar, agricultura e pecuária nas ilhas, relação com a capital Lisboa, influência/ascendência inglesa e belga nas ilhas, emigração para os EUA, vivência das festas populares — que Nemésio plasma em texto com uma linguagem de exceção e com um entrelaçamento narrativo de superlativo conseguimento.

Talvez Mau Tempo no Canal só não consiga igualar a importância de um livro de Eça de Queirós por lhe ser posterior (e a posição já estar tomada), ou ainda porque a história se passa num ponto remoto e muito específico (ilhéu) da portugalidade, não representativo da capital ou da localidade portuguesa de meios pequenos. Fora isso, e ressalvando o recurso a uma maior interioridade psicológica em detrimento da exterioridade descritiva, este livro é um diamante do bem narrar e do bem compreender — e fundar — uma história num espaço-tempo menos conhecido literariamente, e naturalmente ignorado por aqueles alheios à história arquipelágica portuguesa.

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Sobre a releitura do livro 'A Viagem do Elefante' (José Saramago), uma divertida fábula histórica luso-austríaca, e a necessidade de desfrutar do agora e de confiar na chegada a bom destino


Tourists Lounge Poolside, Sri Lanka - Steve McCurry (1995)


A releitura de um livro tido como favorito conduz invariavelmente à reequação se o mesmo continua merecedor de figurar nesse plano restrito dos que se perfilam em grau máximo de afeição. Foi precisamente o que me sucedeu ao reler A Viagem do Elefante, do incontornável José Saramago, livro que se apresenta como um conto que ficciona com grandes doses de bom humor e inventividade o episódio histórico verdadeiro da ofertação pela corte portuguesa de D. João III à corte austríaca de Maximiliano III de um elefante goês sito em Lisboa, a qual obriga a uma longa e extenuante viagem pedonal e fluvial pela Europa fora, até que Salomão (o elefante, mais tarde renomeado Solimão) e o seu cornaca (Subhro, mais tarde renomeado Fritz), juntamente com uma caravana composta por militares a cavalo, por bois e boieiros, por artesãos vários, e pelo próprio arquiduque e sua esposa, finalmente possam chegar ao destino, a cidade de Viena.

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Sobre a releitura do livro 'Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde' (Mário de Carvalho) e uma magnífica história sobre um homem e a sua consciência, no tempo dos romanos

Glory - Megan Gabrielle Harris (2025)

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Não costumo deixar passar muito tempo desde o término da leitura de um livro até produzir um texto avaliativo dos méritos e defeitos desse livro. Neste caso essa demora ocorreu, mas ressalve-se que me prestei a avaliar uma releitura, o que para mim é situação inédita, pois tenho sido um leitor que não reincide nos livros, apenas nos autores. Algo que resolvi ser hora de inverter.

Pois bem, o livro 'Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde', do português Mário de Carvalho, é uma recriação ficcionada de uma cidade romana localizada na Lusitânia no segundo século do nosso calendário, assolada em simultâneo por dois males sociais: a ocupação ibérica pelos mouros a partir do sul; e a ascensão interna e disruptiva do cristianismo no seio da romanidade.

A história é francamente bela, pela fruição de uma escrita de qualidade, pelo contacto com a estética da própria civilização romana, e pela centralidade de uma personagem moralmente nobre: Lúco Quíncio, um magistrado local, declaradamente fã do imperador filósofo Marco Aurélio, e que parece ser o último bastião (ainda assim falível) na defesa dos mais altos interesses do bem comum. É de resto sobre o entendimento, cuidado e preservação do bem comum que mais versa a história, incluindo dilemas éticos, não sendo despiciendo ligar este tema ao facto do autor do livro ser licenciado em direito e portanto de muito interesse e referência lhe poder afigurar-se a herança romana em matéria de sistema de justiça.

Aquando da sua releitura o livro figurava já como um dos meus favoritos, e saiu reforçado desse estatuto. É um livro que merece mais ampla divulgação e discussão nacional, e parece-me muito útil como ferramenta para a formação em cidadania dos jovens, pois explora a importância de se ter consciência e empatia, bem como de adotar processos de autocrítica e autocontrolo, sejam pela sustentação em consciência de posições impopulares, seja pela necessidade de domar ímpetos emocionais enviesantes. A somar aos vários méritos do livro surge ainda o seu valor histórico, materializado por uma caracterização cuidada e pedagógica do império romano e da herança ibérica que fabricou.

Por sentir tudo isto sobre o livro vejo-me obrigado a recomendar a leitura e releitura desta magnífica história sobre um homem e a sua consciência, no tempo dos romanos.
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Sobre o livro 'Auto dos Danados' (António Lobo Antunes), e uma brilhante sangria de imoralidades e fealdade no Alentejo senhorial do período revolucionário dos anos 70

Washing off the ugly - Walker Antonio (2024)

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O livro Auto dos Danados é um romance de António Lobo Antunes publicado em 1985. O tempo e o espaço são, respetivamente, o período revolucionário português dos anos 70, e o Alentejo tradicional desse tempo materializado em Reguengos de Monsaraz, na sua disposição face ao rio guadiana e de proximidade fronteiriça com território espanhol.

A ação é contada a múltiplas vozes, cada qual membro de uma mesma família latifundiária às portas do falecimento do grande patriarca por altura da festa da terra, e o roubo da herança é o grande motor da história. Pelo meio vão-se conhecendo as muitas imoralidades e contingências sociais desta família problemática ainda assim altamente privilegiada e por isso artificialmente sustentada.

Ressalta desta obra uma caracterização dura e desconcertante do abuso de poder que o estatuto social conferia no Alentejo profundo àqueles bafejados por terras e posição social, e plasmado por Lobo Antunes na forma de traições, machismo, argumentos de autoridade, uso justiceiro de arma, ocultação pública de escândalos, adiamentos de falência económica iminente.

Muito mais teria de ser dito para ousar esgotar os méritos de Auto dos Danados, mas concluiria sublinhando que é um livro áspero porque está repleto de fealdade, obstaculizando do leitor o processo empático que sempre se estabelece para que este se apaixone intensamente pela história que lê. Neste sentido é um livro para leitores adultos, e é nessa condição que deve ser apreciado, mostrando-se aí brilhante e ímpar na conjugação da forma e conteúdo.

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Sobre o livro 'Autópsia de um Mar de Ruínas' (João de Melo) e uma magistral, empática, e traumatizante explicitude literária sobre a guerra colonial portuguesa em Angola

The Last Soldier - Mehdi Ghadyanloo (2020)


O livro 'Autópsia de um Mar de Ruínas', da autoria de João de Melo, publicado originalmente em 1984, é uma magistral obra de ficção tangível de realismo centrada no tema da Guerra Colonial Portuguesa. A ação passa-se no norte de Angola e a personagem principal é um furriel enfermeiro que em muito personifica o próprio escritor na sua experiência em primeira pessoa da Guerra Colonial Portuguesa em território angolano. Este furriel encontra-se a braços com um conflito bélico de que é alheio, e vê-se em permanente dissenção ética com a visão de que o povo local - os nativos - são inimigos sem qualquer exceção, e merecem ser injustiçados, mal tratados e aniquilados impiedosamente.

Faço esta leitura após ter lido 'A Costa dos Murmúrios', mas encontrei neste livro uma perfeição superior ao que já era um nível extremamente apurado do livro de Lídia Jorge. Aqui, João de Melo não só retrata a guerra pelo seu interior, com retratos vívidos e pormenores terríficos do caos e fealdade dos combates; como também recria os dois lados da barricada, sequenciando os capítulos com narração alternada entre o contexto e psicologia do invasor, e o contexto e psicologia do invadido. Esta mescla é evidenciada não só pela linguagem adotada como também pela estrutura de pensamento de duas culturas no entendimento diverso de uma realidade a que estão unidas. Há uma abundância, dureza, e explicitude de episódios pelo livro, tanto de ambiente militar em cenário e manobras de combate, como  de socorro médico a feridos e mortos em combate, como também ainda de injustiças (sexuais, por exemplo) da subjugação das comunidades locais ao jugo branco. Esta diversidade apimenta a narração a ponto de a fazer transpor o já de si importante plano da memória descritiva ficcionada, para cristalizar denúncias indeléveis para a posteridade (apenas veladas pelo plano ficcional da obra) sobre o que fomos capazes de fazer a outros seres humanos há muito poucas décadas atrás.

Com o passar dos anos, deixar-se-á de escrever mais e mais sobre a Guerra Colonial Portuguesa, mormente a partir de vivências de causa própria, e por isso me parece que este glorioso livro não terá jamais rival no estilo e no conteúdo. João de Melo mostra a humanidade possível no meio da desumanidade que é a guerra, a ignorância, a pobreza e o racismo.
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Sobre o livro 'A Costa dos Murmúrios' (Lídia Jorge), e uma pungente memória ficcional da Guerra Colonial Portuguesa centrada nas mulheres dos oficiais que nela combateram


Hiatus - Laura J. Padgett (2019)

 O livro A Costa dos Murmúrios é um importante contributo de ficção autorado pela escritora Lídia Jorge sobre a memória Guerra Colonial Portuguesa. Escrito numa toada onírica, de quem recorda já sobre fortes camadas de recalmento e retoque, o leitor é convidado a entender e reentender a trama como produto de clarificações e acrescentos ao longo das páginas, e do confronto entre a honestidade factual e o truncamento narrativo para autodefesa ou autoexplicação. Lídia Jorge escreve sobre alguém que reescreve retrospectivamente uma história pessoal, e com isso desvenda o tumulto, ansiedade e desgosto do tempo da ação, contraposto à tranquilidade do desprendimento emocional e consolidação explicativa permitidos pela distância temporal aos eventos narrados.

A história orbita na personagem de Evita, que é mulher de um alferes. A história dicotomiza fortemente a visão do homem militar que sonha com heroísmos medalháveis em cenário e tempos de guerra; e o lado das esposas destes, enquanto figuras reprimidas e remetidas ao papel machista de mães, esposas, donas de casa ociosas, com um querer próprio e liberdade tíbios, e onde o único horizonte existencial é sonhar com o fim da guerra e/ou, pecaminosamente, com o fim dos companheiros a quem não mais reconhecem chama amorosa e empatia. Relações interpessoais desfiguradas, valores pessoais amolgados e relativizados.

A ação decorre em Cabo Delgado, Moçambique, e a beleza natural que é amplamente narrada revela-se um bâlsamo insuficiente para subverter a escuridão da revolta interior de se estar contrariado num território e numa guerra que não se deseja; de se defender e comportar sob entendimentos supremacistas impeditivos da paz e da concórdia; e do desvirtuamento dos valores e da identidade em militares engolidos pela experiência de guerra.

Lídia Jorge é sublime no mostrar que mais do que uma vitória ou derrota territorial, a Guerra Colonial fez perder vidas, e fez danificar vidas aos seus sobreviventes. Esse impacto indelével condicionou a felicidade e o destino de muitos militares e de muitas famílias de militares portugueses. O livro não explora a contrapartida do lado africano, mas adivinha-se, em espelho e por empatia humanista, idênticos dramas e prejuízos nos combatentes contrários.

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Sobre o livro 'A Queda de um Anjo' (Camilo Castelo Branco), e a tragédia resultante de arrumarmos o mundo exterior em datadas prateleiras mentais

Revelation - Jim Rennert (2022)


Demorei um pouco a plasmar em palavras a impressão que me deixou o livro "A Queda de um Anjo", do incontornável Camilo Castelo Branco. Esta leitura aguardava oportunidade para ser feita, e o que a antecipava muito apelativa era a ideia (confirmada) da história ser original: um fidalgo do interior é desterrado para a capital para exercer o seu cargo de deputado e cai em desgraça devido aos vícios ali encontrados.

A história é essa, mas não com os contornos que lhe imaginara, pelo menos no que se entende por vícios. Calisto Elói - o personagem principal - é sobretudo um homem regido por relações geneológicas, daqueles que estuda e apregoa a pureza do seu sangue e que fiscaliza a (im)pureza da linhagem dos outros, usando-a como critério de aceitação das pessoas que o entornam. Esta é, de resto, a força diretriz dos factos narrados na história, não só porque explica um casamento precoce e por conveniência de Calisto com uma prima local que nunca amou; como também porque preside à decisão de se amantizar na capital por uma vistosa senhora vinda do Brasil de quem ao início se descobre ser parente de boa linhagem, e da qual mais tarde se faz novo marido. 

Como o culto ao bom nome genealógico é um exercício que coloca ênfase total no passado, Calisto  Elói revela no parlamento uma oratória que surpreende pelas referências e imagens anciãs que cita, pelo estilo com que articula e argumenta; e pelas ideias conservadoras e ultra tradicionalistas com que mede e calibra as discussões parlamentares e os perfis oratórios dos colegas no hemiciclo.

Tudo isto acaba por ruir com estrondo, e ainda bem, porque a expansão da cosmovisão e o viver no presente nunca fizeram mal a ninguém e são uma estrada sem retorno. A haver queda (do anjo) essa é a que resulta da tomada de consciência de que o mundo é sempre mais plural do que somos capazes de antever, sobretudo quando cultivamos redomas de segurança que ingenuamente o catalogam em datadas prateleiras mentais.

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Sobre o livro 'O Deus das Pequenas Coisas' (Arundhati Roy), e uma história de amor trágica que intersecta variados pontos sensíveis daquilo que se entende como "a" Índia

Curtain: Mojilal Manilal - Bhupen Khakhar (1992)


O livro O Deus das Pequenas Coisas, da escritora indiana Arundhati Roy, compreende uma trama de base simples mas riquíssima e criativa nos paralelos e contrastes que a adornam. Sem revelar demasiado, o livro conta uma história de amor entre duas pessoas de castas diferentes, e o desmoronar de uma família já de si disfuncional devido à convulsão criada pela consumação de um vínculo afetivo tido como proibido pela sociedade e famílias.

O que é diferenciado e valioso nesta história em particular, sobretudo para um leitor ocidental, é que toda a ação se passa no estado indiano de Kerala e abarca de forma mais do que generosa o caleidoscópio cultural, étnico, ideológico de que a Índia é feita. Basta ver que Roy congrega e confronta na história cristão sírios e hindus; o patronato e o operariado industrial; os movimentos político pró-marxistas (naxalitas); o legado britânico e formas de lidar com ele (valorizando-o ou desprezando-o); o racismo pela cor da pele entre concidadãos indianos; o sexismo masculino e a tolerância para com o assédio sexual na Índia. A lista poderia continuar com bastantes mais exemplos.

Para quem tenha curiosidade pela Índia e seu funcionamento O Deus das Pequenas Coisas é um inesperado manual de cariz ficcional, que vai desvendando uma história trágica de amor página após página, complementando-a progressivamente com elementos de contexto que servem diretamente como especiarias para o enredo (e qualidade do livro); e indiretamente como denúncia e crítica social. Sendo Roy arquiteta de formação, estamos perante uma obra de autor, de tremenda traça estética, e plena de intencionalidade nos pormenores.

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Sobre o livro 'Debaixo de Algum Céu', (Nuno Camarneiro), e uma boa história de baralhar e redistribuir as vidas dos seus personagens, encontrando-lhes soluções para problemas anteriormente vividos


Apartment House - Gerd Arntz (1927)


Quando me decidi à leitura de 'Debaixo de Algum Céu', do português Nuno Camarneiro, dei por mim desconfiado de algum equívoco, pois nem sempre os prémios (literários) refletem meritocracia.  Porém, esta desconfiança mesclada de preconceito - até porque conhecia alguma coisa da vida deste escritor - começou a ser quebrada logo quando li os aclamados nomes que formaram o painel decisor do prémio. Ainda sem ler o livro, custava-me a crer que um livro possa enganar nomes tão versados na matéria.

O livro, como concluí mais tarde, não precisa do prémio para justificar a sua existência, vale pela convincente e lúcida proposta de diálogo com o leitor, narrando vidas normais dos habitantes de um prédio à beira-mar plantado, junto a um farol, durante um período de poucos dias entre o período de Natal e a passagem do ano.

Pela abundância e variedade dos personagens colecionados na história, Camarneiro consegue fazer a narrativa saltitar entre núcleos familiares ou pessoas a existir sozinhas sob a memória deles, e permeia esse jogo com capítulos onde um personagem ou o narrador sublinham e se demoram com a sua perspetiva individual sobre ocorrências narradas, estados psíquicos vividos em associação à ação da história, ou como eixos caracterizadores das pessoas que são.

'Debaixo de Algum Céu' poderia muito bem ter-se chamado "Na Orla de Algum Mar", pois o mar é, mais do que o céu, o meio que liga várias das imagens e vidas dos personagens da história. Por ser sobejamente variegado apesar do seu sucinto tamanho, a leitura deste livro é ágil, e a impressão final é a de que também o leitor pertence ao prédio onde tudo acontece, e que também o leitor se inscreve nas efemérides por lá vividas. Sem ser dotado de uma moral protuberante a coroar toda a história, o mérito de Camarneiro é baralhar e redistribuir as vidas dos seus personagens, encontrando-lhes soluções para problemas anteriormente vividos, soluções essas que assentam como uma nova maré no momento temporal do ano novo, onde por norma nos deixamos fazer brotar novas resoluções que alterem ou deem cumprimento ao que de menos bom ou desejável se reconhece do ciclo temporal anterior.

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Sobre o livro 'A Mente Justa ' (Jonathan Haidt), e uma teoria de tudo centrada no conceito de papilas gustativas 'morais' que presidem à matriz moral de cada ser humano

According to Our Righteousness - Joseph Muzondo (2017)


O livro A Mente Justa afigura-se como uma obra candidata a livro referência em matéria de educação moral. Sou de uma geração que fará a travessia de uma cosmovisão em que a moral dos homens é sinónimo da moral preconizada pelo Deus cristão, para um mundo em que a educação moral se sustenta pela ciência. É com este mote que passo ao que me traz aqui: o elogio e aplauso sem limites da obra a mente justa e dos méritos do seu sábio e estudioso autor: Jonathan Haidt.

Se nas ciências físicas se procura uma teoria de tudo, Haidt apresenta e explica neste livro a sua teoria de tudo no que toca à moral dos homens. Explica porque não estamos reféns dos genes, mas também porque também dependemos deles para reagir e compreender o tabuleiro do mundo. Explica porque não somos capaz de cingir a existência ao juízo racional.

Haidt é propoente de uma teoria, a teoria dos fundamentos morais, que propõe um sistema de papilas gustativas morais, assentes nos seguintes eixos "de sabor" :
  • Cuidados/Agressões
  • Justiça / Fraude
  • Lealdade/Traição
  • Autoridade/Subversão
  • Santidade/Degradação
  • Liberdade/Opressão
Cada pessoa desenvolve uma matriz moral que depende inicialmente de um cocktail evolutivo a priori inerente à sua genética, e que é passível de agravamento ou modificação através da experiência empírica, nomeadamente social. Com isto, Haidt fornece uma nova bíblia científica, sem dogmas, para a educação moral de cidadãos que se queiram livres do jugo interesseiro das religiões no toca a domar o homem e sua conduta por imposições de índole pseudodivinas, e sobretudo antiquadas e fantasistas.

Sublinho ainda dois méritos suplementares deste livro: faz o enquadramento e reconhecimento do valor da investigação do português António Damásio (já aqui elogiado); e faz a demonstração como uma obra clássica tida como pilar e seminal - A República, de Platão - pode estar redonda e insuspeitamente errada na ideias que veicula sobre a mecânica da moralidade dos homens.
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Sobre o livro 'Cândido, ou o Optimismo' (Voltaire), e um parque temático satírico, mordaz e filosófico na forma de literatura de ficção

 The Encounter (Bonjour, M. Courbet) - Gustave Courbet (1854)


 

A leitura de Cândido, ou o Optimismo marcou a minha estreia a ler Voltaire. A experiência revelou-se prazerosa, e o travo que me ficou foi doce e divertido. A escrita é simples, o conteúdo enciclopédico, e o efeito satírico e mordaz. A impressão global é mesclada de pontos de contacto com outros autores e livros que li anteriormente, lembrando-me Júlio Verne e Machado de Assis apesar destes serem posteriores àquele em pelo menos um século.

O eco de Júlio Verne advém do facto de que Cândido é uma grande viagem à volta da terra (mas não ao centro da terra). E fá-lo idêntico espírito de aventura e de fusão entre a técnica e a natureza que se encontra naquele autor também francês. A relação com o brasileiro Machado de Assis sustenta-se pela esrutura do livro, com capítulos curtos em com títulos de capítulo sugestivos, como julgo ter encontrado em Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas também pelo sentido de humor e balanço cuidado entre a erudição subjacente e a preservação de simplicidade na história. Sem paralelo com experiências pessoais anteriores é a ideia de ficcionar um sistema filósifico (Leibniz) e de provocar discussão com sistemas alternativos no decorrer da história, que se queria de amor mas é tudo menos que isso.

Para complementar, Cândido, ou o Optimismo fica-me na retina como um parque temático na forma de livro, uma espécie de liga das nações onde as diferentes nacionalidades e geografias do mundo se vão mostrando pelas suas características identitárias e efemérides históricas. Uma viagem que nutre e não cansa pelo culto à variedade e à congregação num mesmo plano narrativo de improváveis locais, pessoas e formas de viver. 

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Sobre o livro 'Eurico, O Presbítero' (Alexandre Herculano), e um raro e magistral exemplo da língua portuguesa a ficcionar primórdios da sua história, num épico de cavalaria ibérico

Together As One - Beau Simmons (2023)

A imagética que serve de substrato à literatura de ficção não cobre irmãmente os tempos históricos ao dispor. Há períodos sobre os quais os intentos literários são praticamente inexistentes, e facilmente nestes poder-se-ia referenciar os séculos que antecedem a fundação da nação portuguesa. É precisamente sob essa zona de razia de criação literária que se insere a história de 'Eurico, o Presbítero' a qual narra uma península ibérica fragmentada territorialmente, cristã, sob um conturbado comando visigodo.

Se desse tempo há naturalmente para descrever múltiplas efemérides bélicas e políticas decorrentes das pelejas para fazer vingar a soberania dos povos ibéricos, marcadas tanto por dissenções internas como pela grande ameaça muçulmana, a mestria de Herculano faz emergir a personagem polivalente de Eurico um guerreiro (gardingo) convertido a padre (presbítero) e resgatado a temível cavaleiro (cavaleiro negro) por força de circunstâncias de vida ou morte do seu Deus, do seu povo, e da sua amada.

A personagem de Eurico e os contextos que a acompanham conferem uma polissemia interessante à obra que permite entendê-la para lá do âmbito histórico óbvio em que decorre; reflete-se também na organização social (classes), na psicologia humana  (paixões), e ainda na dimensão moral (a vivência da fé cristã) pelos visigodos.

Para quem, como eu, não valoriza enquanto tema a guerra e a violência, ressalvo desta obra a ousada sediação a tempos tão pouco familiares de dilemas tão atuais como a frustação do amor por motivos de estatuto social ou económico; e a lógica do celibato como fator de castidade e pureza divina em líderes espirituais.

Sendo a história de Portugal tão pródiga em dinastias monárquicas, tão vasta no espaço temporal que abarca, e tão coroada pela expansão marítima pelo mundo, Alexandre Herculano assinala com esta obra um ponto de honra a todos os que defenderam a Península Ibérica e a quiseram consolidar como território uno.

Cabe a cada um definir o que considera ter de estar reunido para que uma obra seja considerada magistral e para que um escritor possa ascender ao púlpito restrito dos predestinados, mas creio que Alexandre Herculano, com Eurico, exponencia uma qualidade criativa, um estilo de escrito, e um domínio linguístico superlativos digno dos melhores maestros literários em português.

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Sobre o livro 'O jogador' (Fiódor Dostoieksi), e o vício do jogo como um pecado capital que aliena o ser humano do melhor de si mesmo


Gambling Skull - Jacky Tsai (2018)
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Naquela que foi a minha estreia a ler Fiódor Dostoievski, o livro 'O Jogador' revelou-se um valioso investimento de tempo. Não só a escrita é fluida e o ritmo não quebra, como o tema do jogo a dinheiro - centrado na roleta - é aflorado de modo exímio. Também a cultura russa do século XIX é caricaturada, no modo como uma atistocracia militar forçada se dispõe a relacionar com alemães, ingleses e franceses abastados, assegurando a sua posição social à custa de dinheiros de família e relacionamentos interesseiros.

A história é a de um grupo de pessoas interligadas por questões de dinheiro e/ou paixões, onde se joga para fazer fortuna que pague dívidas, uma subsistência faustosa, ou que convença caras-metade interesseiras a casar, e onde uma herança de avó que tarda em chegar vai protelando e agravando a paciência de todos.

A moral da história é que se a sede por dinheiro fácil superar tudo o resto, a vida perde o sentido porque desaparecem princípios, convicções, seriedade, emoções genuínas, motivação para ser boa pessoa, e o alienamento é inexorável. Num tempo em que o jogo dinheiro abunda em variadas formas, ler 'O Jogador' é pedagógico e um tónico preventivo até. O livro explora também o modo como o jogo faz sobressair instintos e traços personalísticos odiáveis, como o ódio, a compulsão, a ganância e a incoerência.
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Sobre o livro 'Casos do Beco das Sardinheiras' (Mário de Carvalho), e contos sobre personagens credivelmente reais envoltas na sua idiossincrasia de bairro e cultural

Back Alley - Jeff Bellerose (2018)


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O livro Casos do Beco das Sardinheiras reune várias características capazes de lhe auspiciar uma má crítica ou até um esquecimento indiferente: é um livro de contos, é um livro pequeno, é um livro com um algum grau de fantasia, é um livro repleto de comicidade, e é um livro sobre pessoas mundanas em vicissitudes mundanas. Ainda assim, é um notável livro, desde logo porque o seu autor, Mário de Carvalho, soube polvilhá-lo com personagens credivelmente reais que se envolvem em situações implausíveis, revelando nestas toda a sua idiossincrasia de bairro e cultural, sobre a qual o livro cumpre o seu busílis.

As pessoas mais simples encontram soluções onde a sua ignorância deveria causar bloqueio, e encontram problemas que mais não são do que manifestações do imaginário que lhes trabalhe na psique. Mário de Carvalho tem o mérito de somar neste livro, tal qual Torga soma em Contos da Montanha, um manancial de personalidades que são fruto do próprio local e nicho cultural que habitam. Só que fá-lo conciliando um clima divertido com uma erudição inesperada em casos tão corriqueiros. Talvez seja neste equilíbrio que more um dos méritos maiores do livro.

Depois há o efeito de conjunto, o conseguir operacionalizar nas diferentes história a ideia de um bairro com pessoas que, falando com termos característicos ou formas personalísticas caricaturais, oscilam entre papel principal e papel secundário em função daquilo que é o viver os dias, onde o azar ora bate à minha porta ora bate à tua, sendo que cá estaremos em ambos os casos para apreciar e resolver coletivamente o que cada novo dia traz a cada membro seu. Esse sentido de comunidade citadina evidenciado pelos vários vizinhos do Beco das Sardinheiras exorciza os confins do cidadão cosmopolita inimputável ao que acontece em seu redor, tão característicos das grande metrópoles. 

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Sobre o livro 'Numa casca de noz' (Ian McEwan), e a tremenda originalidade de narrar uma história de crime na perspetiva de um feto consciente

Large Nutshell #1 - John-Paul Philippe (2021)

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Numa Casca de Noz, do britânico Ian McEwan é um livro singular assenta na ideia criativa e poderosa que é narrar uma história na perspetiva de um feto que se encontra consciente na barriga da sua mãe. Este feto é dotado de cognição como se de um adulto se tratasse e este detalhe é crucial para permitir ao narrador (o feto) tecer considerações sofisticadas, deduzir coisas que ouve mas não vê, e especular outras combinando informações que vai colecionando.

Muitas coisas mudam de figura pelo facto de o narrador ter uma ligação umbilical - literalmente- da qual depende a sua vida, desde logo porque exibe uma parcialidade e redobrada benevolência nas análises que faz ao comportamento e decisões da mãe, sobretudo nas suas falhas. Como depende dela, evita colidir e criticá-la nas suas análises.

Depois o pai, que nesta história é vítima de um crime premeditado. O pai é decifrado com mais dificuldade, porque o pai está fora da influência umbilical permanente, e portanto escapa sobre muito mais informação. O feto não testemunha toda s vivência do pai.

Tendo sido sido a minha leitura de estreia com este autor, fica água na boca para provar mais da sua torrente criativa, pois esta história é manifestamente apelativa porque de singular elaboração.
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Sobre o livro 'Confissão' (Leo Tolstoi) e o absurdo de se escrever um livro em desespero metafísico de causa

 It's not getting worse its a loop - Geoff Mcfetridge (2018

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"Confissão", do russo Leo Tolstoi, foi a minha estreia com o autor, e não posso dizer que tenha sido satisfatória e apaziguada. O livro não é de ficção, sendo antes um ancoradouro de pensamentos, perspetivas e aprendizagens que o escritor narra em torno do mistério do sentido da vida. Após ter experimentado o sucesso profissional e uma vida pessoal de privilégio, Tolstoi desespera por uma resposta convicente que o tranquilize e permita viver sem ter de ponderar o suicídio como inevitável.

De um livro espero sempre alguns requisitos base, e um deles é a organização. Quem escreve tem por antecipação todo o tempo do mundo para resolver conflitos e dúvidas que manchem a grande ideia que justifica a publicação do livro. Tolstoi escreveu "Confissão" sob angústia, desnorte, e vertigem de desistência. Procura aclarar os mistérios da vida agarrando-se inutilmente ao que sobrevive ao seu crivo racional, desde logo a fé e a vida assente no dogma, mas nem essas.

É possível que o mérito de um livro seja a problematização e uma enchurrada de arrasos a vários caminhos de falsa partida para processos de resposta. Porém, creio que Tolstoi deveria ter abortado a publicação deste livro, porque não chegou a lado algum com ele, e roubar o tempo de leitores para chafurdar no seu ziguezague emocional e anímico, é deveras espúrio. O voyerismo está longe de ser um farol para respostas de índole metafísica, mas é único prémio veiculado ao leitor nesta experiência de leitura.

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Sobre o livro 'Ao Farol' (Virginia Woolf), e um manual de psicologia em formato literário centrado no lado implícito de cada pessoa



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Ao farol - da inglesa Virginia Woolf - é um livro de ficção que poderia muito bem ser um manual de psicologia. Centrada na casa de férias (junto a um farol) da família Ramsay, toda a história é um périplo pela perspectiva mental e opinião de cada personagem face aos demais, sejam eles da família Ramsay ou do núcleo de amigos que com ela priva na casa de férias.

O patriarca e a matriarca assumem os papéis principais, ele pela subtracção recorrente das cenas em prol da sua intelectualidade e jornadas de retiro mental para raciocínio, ela pelo calor humano e tacto com que gere o marido, os oito filhos e os convidados, cuidando que todos se sintam atendidos.

Woolf tem o mérito de enfatizar como as pessoas não são só o que explicitam, desde logo porque tudo o que está implícito em cada pessoa - sejam traços de personalidade, sentimentos, egos, ou  ideologias - condiciona silenciosamente as situações sociais (diálogos, decisões, iniciativas, preconceitos, hesitações) a ponto de poderem ter tanto ou mais interesse (literário) do que a descrição da ação e efemérides que as suscitam. A imagem de um farol, que tudo perscruta e ilumina, casa bem com a ideia-chave do livro.
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Sobre o livro 'Food of the gods' (Terence McKena) e uma intrigante e controversa teoria evolutiva e visão para a sociedade assente no consumo de substâncias alucinogénicas

Mushroom - Hiroyuki Aoyama (2018)

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Food of the Gods é porventura dos livros mais intrigantes que já li.  Sugere uma teoria evolutiva incrível assente na ideia de que o cérebro humano tal como o conhecemos hoje tenha sido produto do consumo da substância alucinogénica psilocibina presente numa espécie de fungo que surgia naturalmente nos excrementos de gado bovino há nove mil anos atrás sob determinadas condições ambientais, a ponto do recorrente culto encontrado ao gado em gravuras rupestres (por exemplo em Tassili n’Ajjer, na atual Argélia) possa querer aludir à viagem mística por ele proporcionada.

O autor do livro - Terence McKena, investigador de etnobotânica - é muito hábil e eloquente na forma de expor e fundamentar como a consideração da hipótese evolutiva dos alucinogénicos encaixa nos vários registos que nos chegam de vários pontos do mundo com referências visuais aos cogumelos e ao modo como as práticas religiosas ancestrais estiveram associadas ao contacto com o divino pelo consumo de substâncias indutoras desse contacto. A narração faz uma cabal ponte evolutiva até aos dias de hoje mostrando como substâncias de substituição (canábis, ópio, açúcar, cafeína, cacau, álcool, cocaína, heroína, etc) foram aparecendo devido à ausência de condições necessárias à ocorrência natural da substância psilocibina ou sucedâneos. Esta resenha desagua no contemporâneo problema norte-americano com as drogas, levantando conspirações sobre o papel âmbiguo do governo na gestão do problema.

E é a partir deste ponto que me afasto e refuto a tese final do livro, pois não subscrevo que seja o regresso a uma prática xamânica nem o repúdio da ciência aquilo que precisamos para melhorar os destinos da humanidade, inclusive em matéria de dependências. Se McKena tem todo o mérito ao mostrar que o ser humano tem sido um ser vivo repleto de dependências químicas e hábitos sob alçada de oscilantes critérios culturais e morais, isso não quer dizer tudo o que tenha resultado da sociedade de ego dominante, de motor científico e tecnológico, deva ser posto em causa, a troco da liberalização do consumo de alucinogénicos. Não obstante esta forte divergência com o final do livro, a sua leitura é preciosa e urgente, pois mostra o poder de nos confrontarmos com novas hipóteses sobre a identidade do homem e o seu papel na natureza. 

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Sobre o livro 'a máquina de fazer espanhóis' (Valter Hugo Mãe), e a ideia de que aproximação ao fim de linha pessoal pode ser um terreno fértil para a amizade sincera e solidária

Holding hands to grow old - Chen Cheng Hsiung(2020)

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'a máquina de fazer espanhóis' (do português Valter Hugo Mãe) é um livro sobre a viuvez, velhice e morte de um senhor de nome Silva como interno do lar de idosos Feliz Idade. Para o meu gosto, o livro é demasiado morno na história, pois não consegue ter grandes e entusiasmantes ápices ou volte-faces, mas não quero com isso sugerir que seja de leitura supérflua. Hugo Mãe cativa pela escrita sempre fluida e desregrada face aos cânones de estilo, pela criatividade de associações, e pelo capricho de dotar cada capítulo de um título de uma frase ou expressão que a leitura do capítulo faz emergir em momentos e sentidos imprevisíveis (nisto assemelha-se a Machado de Assis).

Estou em crer que o título não reflete a ideia-chave do livro, que mais do que ser a propensão portuguesa para piscar o olho à nacionalidade espanhola (como forma de anular as máculas da portugalidade), aquilo que quanto mim esta obra muito bem sublinha e reforça são duas coisas. Primeiro, os perigos inerentes ao depósito tácito de idosos em lares, e a aura de morte e negócio em torno desta que pode perfidamente instalar-se nessas instituições. Segundo, a ideia de que aproximação ao fim de linha pessoal pode ser um terreno fértil para a amizade sincera e solidária, a ponto de substituir o marasmo motivacional e social que a perda do cônjuge pode suscitar na vida do idoso. Um título mais afim com estas mensagens faria mais jus ao mérito do livro.

Por último, referir que é muito fácil de perceber o cunho pessoal da escrita de Hugo Mãe no que toca ao estilo, mas o mesmo não se pode dizer no que diz respeito à trama. O narrador da história é o próprio senhor Silva, e nada nele denuncia a opinião ou vinculação do escritor, exceto num ponto: a frescura mental, ausência de circularidade de ideias, e boa memória são mais plausíveis para o escritor do que para a personagem principal que alimenta a narração. Neste particular contraste com 'Para Sempre' (de Virgílio Ferreira), que também versa sobre a velhice e aproximação ao óbito, mas num personagem com muito menos vigor mental.

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