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Sobre o acesso à tecnologia

Muito mal seria eliminado do mundo se o acesso à tecnologia não ocorresse de uma forma deliberada e nada restritiva.
Tanto no Portugal como no mundo de hoje não raro acontece de se constatar que alguma tecnologia tende a ir parar a mãos de pessoas que não fazem respectivos usos da forma mais desejável.
Ao me servi deste modo para retratar o fenómeno, recordo-me logo das situações mais berrantes, que são aquelas em que tecnologias bélicas chegam às mãos de quem não tem ferramentas intelectuais e morais suficientemente amplas e sólidas para saber ponderar com respeito a recorrência à sua utilização. Estes são casos mais graves, que têm colocado enormes reticências na busca da paz mundial.
Contudo, acho que o exemplo mais corriqueiro passa pelos telemóveis e internet. Se nos telemóveis se assiste a uma competição pelo estatuto social que supera o reconhecimento da sua utilidade e quase a substitui; já a Internet tem sido usada de forma prevaricadora por todos os que prezam mais consumir uma música (não só música, filmes, jogos, etc.) do que respeitar o trabalho de quem a criou, recorrendo à pirataria descarada.
Parece-me, portanto, óbvio, que antes do acesso à tecnologia está o acesso à educação necessária para tornar a mente receptiva às novidades tecnológicas de maneira a que um indivíduo saiba servir-se da tecnologia para resolver problemas ou melhorar a sua condiçção, mas nunca para ameaçar os outros, criar conflitos ou alicerçar ganas de cariz anárquico que sublevem aquilo que precisa de existir no código moral e ético de um humano moderno.
Perante tais acontecimentos não preciso de muito para concluir que enquanto não se tentar partilhar a educação pelas gentes com a mesma facilidade com que se divulga a tecnologia, corremos o risco de poder viver melhor sem contudo o fazermos.
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Sobre a parábola do condutor

Coube-me, num trajecto matutino recente, dar conta de um paralelo retratável entre aqueles que dedicam o seu labor à condução de veículos, ditos públicos, e todos os que vêm a sua actividade ligada à docência de conhecimentos.
O travo inicial da inesperada ideia deu lugar à excitação proveniente da constatação de que a ideia era potencialmente poderosa.
Soube então destapar o seguinte facto que, para ser devidamente avaliado, pede uma contínua presença da noção da actividade de um condutor de autocarros: se considerarmos que um professor é também ele um condutor, na medida em que traça uma linha de conhecimentos (um âmbito), que procura que seja aproveitada por quem busca o seu serviço, entusiasmante é perceber que também ele não tem o controlo total da viagem que cada estudante (passageiro) venha a fazer. Desconhece a paragem de saída de cada um, tal como lamenta que nem todos tenham entrado logo no início.
Ora um passageiro o que precisa é que o condutor trabalhe, para que passageiro o primeiro possa continuar a ser, mesmo que a viagem seja feita a dormir, em alheamento.
Porque não aproveitar esta epopeia rodoviária, para lembrar que o passageiro, mesmo que reivindique, sabe ser necessário ter de pagar pela viagem, quer a aproveite ou não. E que problemas têm dado esta questão dos preços a alguns níveis de transporte: diz-se que com tamanha tarifa a viagem assume-se elitista.
Enquanto esta discussão segue, os motoristas reparam que os passageiros tendem a entrar na viagem demasiadas vezes em certas épocas do ano, abusando das senhas em detrimento dos passes, facto que traz consigo custos acrescidos e chega a fazer gastar mais tempo a repetir as viagens por não ter viajado o que era preciso.
Soube por fim entender que, para o motorista, é lamentável não transportar muitos e sempre, mas que ele não deixa de viajar de cada vez que conduz e que por isso não se aborrece, já que cada viagem é uma, tal como cada investida no conhecimento.
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Sobre as escalas posicionantes

Com um pouco de abstracção, mas sem necessitar de muita vontade, é possível constatar que vivemos rodeados de escalas de uma tal forma que me pergunto se seríamos, de facto, humanos se as subtraíssemos das nossas vidas.
Quando nos propomos pensar uma coisa, a diferença entre o conseguirmos fazer e o fracasso na sua execução está na existência ou não de uma escala em nós que possibilite posicionar essa coisa num dado intervalo de antípodas. Só assim classificamos.
A exactidão da escala é um aspecto importante pois é tanto mais atingida quanto mais abrangente for o conhecimento sobre a diversidade da questão e amplitude de antípodas.
A questão-chave que coloco é então esta: serão as escalas quantitativas ou qualitativas? Se são apenas quantitativas, são imparciais e mostram os factos de maneira explícita. Se são qualitativas padecem do mal (humano) da linguagem, ou seja, são tanto mais exactas quanto mais cultas forem as pessoas que se sirvam da língua falada ou escrita para traduzirem o posicionamento.
É nesta definição que residem as maiores lacunas dos rankings ( leia-se escalas, mas entenda-se o porquê da utilizam desse termo ao invés do outro) que as sociedades elaboram para se posicionarem umas às outras (e assim se hierarquizarem) ou para posicionarem parâmetros internos como educação, saúde ou ambiente.
O problema está no ter de comentar. Para quê aumentar a inexactidão das escalas pelo seu rapto para planos linguísticos? Afinal de contas uma pedra de dois centímetros não é menos pedra do que uma pedra de sete. Porquê anexar palavras à imparcialidade dos números e contaminar, por assim dizer, o seu propósito de informar, longe da dubiedade das palavras?
As escalas não vivem da opinião dos homens e suas vontades para as corromper.
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Sobre o Deus vendido

Oponho-me ao conceito de Deus de acordo com as parábolas ou histórias efabuladas que se pregam nas igrejas por um único motivo: pelo facto de a igreja potenciar um conceito de Deus redundante feito a uma escala retrógrada e limitante.
Ninguém tem o direito de se apropriar de um conceito abstracto e de lhe atribuir um significado inquestionável, mesmo que esse alguém seja uma instituição que promova o bem no mundo.
Quando se associa a Deus palavras como “Criador” ou “Pai” está-se a humanizar o conceito a enforma-lo em nós como algo humano e que portanto se deve poder ver. Porque não considerar Deus a Natureza, em vez de a considerar consequência de Deus? Porque não entender Deus mais como uma força ou energia do que como um Homem? Porque não entender Deus como um elemento matemático que estabelece normas gerais que se vão intersectando e que levam à criação de tudo o resto? Porque não entender Deus apenas como uma base de dados, repleta de probabilidades de acontecimentos, onde a ocorrência de cada fenómeno, individualmente, não seja acto intencional mas apenas consequência de uma probabilidade de suceder?
Se cresci no seio de pressupostos religiosos pouco abertos ao debate, há muito que me posicionei e que me fiz crente da minha própria religião, uma em que não há fronteiras ou dogmas, onde busco argumentos para existir.
Os povos perdem por serem fiéis a crenças tão pouco arrojadas e tão curtas de sentido, deviam antes fazer de questões difíceis como essas motores de desenvolvimento de consciência crítica e capacidade argumentativa que condigam com os desafios que o mundo nos apresenta todos os dias, para os quais não temos resposta quase sempre, mas dos quais fugimos, por preferirmos a comodidade do não saber ao desafio de lutar por um sentido, tarefa bem mais árdua.
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