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Sobre os actuais locais de instrospecção

Atendendo à irrefutável carência de tempo que já se pode considerar uma característica da era em que vivemos, a introspecção tem vindo a perder o seu carácter de rotina estabelecida na vida das pessoas, para se espremer e encaixar algures num momento em que seja menos desconfortável e inoportuna.
Os locais de culto estão tornar-se inadequados porque as pessoas não têm tempo para ir a um desses sítios pensar na vida e no mundo que as rodeia.
Ao invés, nota-se cada vez mais que os grandes locais de culto das pessoas surgem pura e simplesmente aonde tenham de parar ou quedar-se por algum tempo. O trânsito é o principal responsável pela introspecção diária que se vai fazendo. Julgo que as pessoas, aprisionadas em filas perturbantes de veículos sem ter para onde ir, acabam por se ver reféns daquele embaraço logístico e como tal são obrigadas a fazer uma coisa que começa a ser contranatura: parar. Uma vez paradas, podem então fazer as suas introspecções. Os meios de transporte são, portanto, o principal local de culto dos tempos de hoje. Em verdade, uma larga fatia dos textos deste blogue corresponde a ideias que foram desencadeadas por introspecções nos transportes públicos.
As viagens são o grande aliado das pessoas para que consigam ter alguma apetência para se pensarem e se reflectirem cabalmente.
É que a chegada a casa é sinónimo de um rol de estímulos e tarefas a executar que levam ao adiamento por tempo indeterminado da introspecção caseira, e o que dizer da introspecção em locais de culto.
Permanece no entanto uma dúvida, que é a de se esclarecer se as pessoas estão tão introspectivas como dantes, quando tinham na sua rotina a ida aos locais de culto.
Talvez agora se assista a uma introspecção mais auto-didacta e menos orientada para determinados caminhos, o que é um voto de confiança na autonomia individual, mas que consiste num enorme desafio de coerência, imparcialidade e persistência. 
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Sobre a desburocratização do divórcio

A desburocratização do divórcio tem estado na ordem do dia. O tema perturba, levando a reacções potenciadas por emoções, que garantem raciocínios menos ponderados.
Não estou por dentro das medidas do projecto-lei mas tentarei uma breve abordagem.
A meu ver, o Estado não tem de governar as relações que cada cidadão da nação venha a encetar. Vendo bem as coisas, há quem viva casado sem que conste formalmente tal casamento. Devem inclusive já ter morrido inúmeros cidadãos que constituem de casos de casamentos informais que duraram até à morte. Não se pode confundir o que é de facto o casamento, para que não se confunda o que é o seu rompimento.
O casamento é fruto de uma vontade individual que nada tem que ver com o Estado. O Estado entra depois na forma como colecta impostos, garante serviços e trata desses cidadãos e família que venham a constituir. Agora, casamento não é casamento apenas porque consta no registo civil formalmente, casamento é casamento porque as duas partes assim o sentem e entendem. Como tal, não vejo porque motivo o divórcio deva depender tanto do estado, acho, antes, que as pessoas não se devem refugiar nas dificuldades do processo de divórcio para não recorrerem a ele se assim o entenderem, como adultos que são.
A facilitação do divórcio é uma medida altamente democrática, pois transporta para o seio dos casais a liberdade e sobretudo a responsabilidade das decisões, que deixarão assim de estar presas pela lentidão do Estado e pelos custos económicos associados ao lograr um divórcio.
Além do mais, relação alguma se pode esconder por trás do casamento como garante de um meio de familiar. Em muitos a realidade familiar não se aplica, havendo hostilidades de parte a parte e valores estranhos aos desejáveis para o casamento. A liberdade não é só poder votar, a liberdade é poder decidir a vida sem cair no absurdo de julgar ter vida apenas porque algures num arquivo morto de um qualquer departamento diz que se é vivo. O divórcio resolve-se preferencialmente a dois, mas deve depender apenas de um para acontecer, nunca de 3. Entre marido e o mulher, nem o estado mete a colher, nem o elo que não quer, a pode tirar.
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Sobre a religião: o ateísmo


Sirvo-me deste texto final para dar protagonismo ao ateísmo, como decisão de quem não se sente confortável com o leque de paradoxos e contra censos que é capaz de detectar nas premissas da religião e que portanto se vê na obrigação de se emancipar voluntariamente.


Julgo que nem sempre se tornam claros os motivos factuais que levam alguém a ser ateu, tal como nem sempre claras são as respostas às indagações dos outros sobre os motivos de tal assunção, por se tratarem questões de fundo, incomportáveis com respostas breves de conversa rápida. 

A pessoa que adere ao ateísmo tem, em relação à que não o faz, uma vantagem, que é pela decisão tomada comprovar que já reflectiu sobre o assunto da religião. O grupo dos crentes, não inclui unicamente aqueles cujo resultado de semelhante reflexão conduziu à crença (ou não ateísmo), mas também o conjunto de pessoas que nunca se questionou ou preocupou em reflectir com isso, mas que se deixou levar no inquestionável roteiro cultural da religião, que se embarca logo à nascença e que vai fazendo parte do contexto diário, sem grande esforço para o conseguir.

Não é função deste texto vender o ateísmo aos outros, dado ser o produto de uma conjunção de factores demasiado específica para que se deva querer generalizar.O ateísmo surge neste texto na tentativa simbólica de espevitar a atenção dos que o lerem para a necessidade de terem opinião sobre os assuntos pertinentes, de que a religião está longe de se excluir. Os textos que precederam a este, sobre o mesmo assunto, estão impregnados de uma perspectiva ateísta e mesmo acusatória da forma como vejo a religião, sobretudo os seus pontos negros. Há muito que ambicionava gastar algum tempo a esclarecer-me e expor a todos, com a clareza que só a escrita permite. Cesso deste modo este tema, escolhendo o ateísmo no fim, simbolizando o comum traço de nascer religioso e poder derivar para a descrença.
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Sobre a religião: o culto a deus


O culto assumido a Deus constitui a mais direta forma de abraçar a religiosidade, sendo para mim um campo em que posso, como venho fazendo, explorar os motivos que presidem à minha admitida areligiosidade.

Os fiéis, ao longo da história, encontraram maneiras variadas de cultuar deus, bem como todas as demais personagens religiosas alvo de referência e louvor. Não contesto o sentimento de serviço e de beatitude com que o fizeram, nem o que pode fundamentar tal prática (medo, gratidão, etc), mas dou comigo, hoje, a perguntar-me, porque continuamos a prestar culto a deus. Julgo que esta ideia do culto está presa por arames ao conceito de um deus humano que tantos têm para consigo. Por muito esforço despendido, só um deus caracteristicamente humano pode perceber o valor da materialidade, o sentido de sacrificar uma vida, ou dar uma esmola. Hoje em dia, acho inclusivamente que se presta mais tributo a santos e beatos do que a deus, gente, em suma, que se subiu na hierarquia religiosa foi por força de outros homens, mais do que por ingerência divina.

Porque quereria deus um culto? De que forma sacrificar um animal pode agradar a deus, se estamos no fundo a destruir o que ele criou? Porque terá deus a necessidade de culto? Terá ambição de poder, como nós? Não poderá deus ser uma mera força, a derradeira Força ou Energia, para lá da consciência humana, alheia sentimentalmente ao que produziu ou tornou consequência? Como poderemos prestar culto ao que desconhecemos quando nem sequer podemos tornar claro a lógica (as vias, os mecanismos) desse culto? Porque não celebrar a vida, ao invés, louvando-a pelo maravilhoso bem que é?

No fundo, por que não ver na naturalidade das coisas a melhor forma de cultuar deus? Não será o livre arbítrio uma forma pródiga de beleza e oportunismo para prestar culto à liberdade de todos e do universo natural em que vivemos, como produto desse deus? De que forma questionar a existência de deus, não será, também, um culto válido, honrado e amoroso?
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Sobre a religião: a comercialização da fé

Os grandes propósitos espirituais das religiões, esbarram na impossibilidade de sobreviverem alheias ao mercado capital que confere poder de compra como via para a aquisição dos produtos pretendidos.
O obstáculo da dimensão material que a religião tem, pela via humana, faz com que esta tenha de se submeter à necessidade de gerar fundos de sustento do edifício religioso, e como tal, cria uma aura comercial em torno da religião.
No nosso país, acaba de ser inaugurado o novo santuário de Fátima, obra colossal, em grandeza e custo, constituindo a 4ª maior igreja do mundo. Saber que uma Igreja pregadora da pobreza decide pelos seus líderes edificar monumentos de culto de alto valor comercial e motivo de propaganda da fé, e que esta manobra é conseguida usando os fundos caritários dos crentes que no fundo ficaram, esses sim mais pobres para enriquecer a sua religião, só abona a favor desse paradoxo existente entre a crença e a realidade.
Toda a riqueza da Igreja poderia ser dispensada ao próximo, como de facto prega a sua doutrina. Necessitamos de um Vaticano, de um santuário ou de uma capela para que haja fé. Quem quiser trabalhar para a pureza da religião, pois que trate de descobrir formas de libertação material do dinheiro e dos bens imóveis sem sacrificar o  credo a esses elementos. A comercialização da religião só confere comodismo aos seus servos, porque elimina a necessidade de mostrarem como se pode praticar a religião da maneira mais perfeita: pela via da virtude. Quem não achar um escândalo, que visite então Santiago de Compostela, na Galiza, e repare como até já existe um aparelho para se ouvirem orações, mediante a introdução de uma moeda. Tudo isto dentro da igreja, supostamente local de culto e respeito pela fé nas escrituras. Que gente é esta, que aceita ver os pregadores em desrespeito ao que pregam e ainda assim se firma na sua crença de que tudo está bem e faz sentido de tal forma?
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Sobre a religião: o laicismo do estado

Sabendo da separação do organismo estado, da instituição religião, concretizada algures num passado recente da nossa história, não me conformo com a forma expedita com que se apregoa um estado português laico, quando ao alcance de qualquer observador estão provas de como é fantasia assumir esse laicismo.
Num primeiro momento, devo dizer que constitui um problema maior, discernir sobre quanto o que é que pertence à história do país daquilo que à história da religião diz respeito. Um exemplo disso é a chamada Cruz de Cristo, emblema que embora de cariz religioso, sedimentou-se como símbolo da nossa nação lusa. A única forma de não cair nesse paradoxo de sem querer ser, sê-lo, passa por não promover este tipo casos dúbios, de que o exemplo é esclarecedor. Por isso, quando dou comigo a olhar para uma moeda de Euros, do nosso país, que se dá ao esplendor de aproveitar-se da letra “t” da palavra Portugal, para cunhar um símbolo semelhante à Cruz de Cristo, não tenho motivos para acreditar no laicismo do nosso estado. Podem parecer insignificantes aos olhos de muitos, mas são estas pequenas provas que derrubam uma tese. Não querendo ficar por aqui, remeto também para a gestão pública, mais precisamente para os cemitérios, os quais sendo por tradição locais de forte prática e intensidade religiosa, embora não haja obrigatoriedade, são locais ao cargo das autarquias. Acabo não perceber a fronteira de se ser sepultado num cemitério, mediante todas as práticas religiosas, para depois ficar ao cargo das autarquias, as campas, as inumações e a gestão global dos cemitérios. Servem estes dois casos comprovar uma certa dubiedade estado-igreja, que aparentemente desprovida de intenção, acaba por confundir e sugar a linha de separação que pode certificar o laicismo do estado. A própria aversão a mudanças desta natureza, sinalizada pela inércia de desenvolvimentos nesta matéria tem como único propósito mostrar que pela força cultural que a Igreja sabe cultivar, o laicismo real é miragem nacional.
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Sobre a religião: a impregnação da cultura

Vivendo hoje num mundo particularmente avesso a fixações culturais, fértil antes no confluir de perspectivas, práticas e tradições de que a globalização tratou de disseminar por todo o lado, questiono veemente o aprisionamento cultural ainda vivido em Portugal, onde a cultura está tão impregnada de religião, que é impossível não tropeçar nela.
Causa-me particular afrontamento a forma como é árdua a fuga a resquícios da religião. Gente que vive à margem da religião, efectivamente, parece ter de recorrer a ela para concretizar certas formalidades da vida, como o casamento ou sepultamento. De facto, embora existam formas alternativas de se fazerem as coisas, é absolutamente raro o caso de autonomia, sendo essa aparente dependência um obstáculo sintomático da forma como Portugal ainda é um estado aprisionado a uma Igreja. Esta situação é aliás previsível, se tivermos em conta que este país, comparado a outros, ainda é um paraíso monocultural, alheio às outras gentes do mundo, e como tal perspectivas diferentes.
Muitos poderão dizer que realmente só segue as práticas quem quer, mas a verdade é que noto vivermos num meio muito tradicionalista, muito adepto do arcaico, que se vê amarrado e servo de uma concepção única da vida, e da forma de estar do mundo.
Não há condições aliciantes à diversidade, há antes, uma cultura que marginaliza práticas alternativas. Ora religião e cultura não sendo sinónimos à partida, tocam-se exageradamente no contexto português, caindo numa esquizofrenia preocupante, quanto mais não seja pelo formato que páscoa e natal adquiriram em termos de sentido meramente económico e lúdico, conservando, contudo, as designações religiosas, ou pela maneira como os cidadãos menos ariscos a se assumirem, vão vivendo as vidas pincelando o seu percurso com momentos de fraca ou nenhuma prática religiosa e outros de conveniente recorrência à mesma.
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Sobre a religião: as falhas da católica apostólica romana

Quanto mais leio sobre aspectos da religião Cristã, mais desemboco no reconhecimento da sua desprovenção de lógica e sentido.
Começando pela severidade com que pautam o mundo, sempre desalegrados perante tudo, parecendo em constante agastamento, sem esboçar alegria ou sorrisos, coisa que o Dalai Lama faz, para grande gáudio meu, dado que a felicidade está dentro de nós, na capacidade de ver o positivo de tudo, e não no mundo em si.
Depois, abarcando toda a obstinação com que tomam decisões e estabelecem fundamentos, é de uma presunção assustadora tendo em conta que aqueles líderes são apenas homens que decidiram dedicar-se a explorar a religião em que acreditam. A igreja não admite erros e esse é um pecado capital. Admito que o deus não os cometa, mas os que se chamam deus na terra, pela sua condição de homens, erram e devem assumir. Como pode viver uma instituição religiosa a pregar o que não pratica? O passo inicial para qualquer perdão sério, é o reconhecimento do erro, logo quando este não sucede, tudo não passa de fantasia.
Finalmente, por mais que tente, acho injustificável a existência de um estado religioso, o Vaticano. É tortuoso o trilho que divide a igreja do estado, quanto mais aquele que permite justificar uma igreja como estado. Acho que ao definir residência oficial, cria-se um rol de complicações no que toca à ambição de espiritualidade. Quanto mais se premir a tecla do crescimento material, pela condição de propriedade de bens, mais se torna contraditória a crença na pobreza, tão bonita e simbólica da história do famoso Jesus. Não se entende a luxúria do culto, a ostentação das jóias, arte, vestes ou edifícios. Peço que não afirmem que é para exaltar deus, porque sou avesso a falácias. Finalmente, peço que me expliquem que formato é este o de os crentes serem alheios à selecção de líderes, cabendo aos próprios elegerem-se entre si e viverem, portanto, em circuito fechado.
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Sobre a religião: necessária ou supérflua?

Quando falamos em religião, é comum surgir o Bem e o Mal algures no decorrer da conversação. Acontece que julgo residir nessa dualidade a grande chave das religiões, na medida em que é a ponte para transitar da ordem do divino para a o nível terreno e daí começar a reinar. A religião surge pela necessidade de dar sentido à existência, mas de repente damos com ela a pronunciar-se sobre os capítulos vividos na terra. De facto, aquilo que se processa é que a religião, pelas escrituras a que se socorre para difundir-se geograficamente, inventou um código de conduta supostamente a preceito do criador, no qual se pronuncia sobre as decisões e comportamentos humanos. Pelas escrituras a religião abandona o divino e parte à descoberta de um controlo de massas dissimulado pela crença de que é o divino que assim o pretende e que é ele quem institui as normas do bem e do mal.
Basicamente pode-se considerar que a religião passa a ser supérflua a partir do momento em que abandona o divino e passa a olhar para os povos, em vez de para os deuses. Admito que seja necessária pela impossibilidade de todos a dispensarem das suas vidas, mas julgo que quando se apodera dos códigos morais passa a dispersar a sua utilidade. Não precisamos da religião para perceber que matar é mau, que roubar é mau ou que ajudar é bom. A prática do pensamento confere um alcance fácil a essas considerações, como claramente mostram os tratados de ética publicados ao longo da história da filosofia. Esta é a ideia essencial que gostaria de vincar neste texto, porque no meu observar, dou conta que existe uma noção de que precisamos da Igreja para distinguir o bem e o mal, canalizando a distinção em termos de pecado ou não. Ora quando assim é, vejamos como é perigoso acreditar no pecado em vez de no bem ou mal da ética humana: nos muçulmanos o matar é pecado, mas o matar em nome de Deus deixa de o ser, sendo motivo de regozijo. Agora pensemos só se a morte não é de facto a mesma e portanto igualmente condenável?
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Sobre a religião: uma questão de saúde?

Em virtude de uma racionalidade que emancipa os humanos dos demais seres terrestres, os pensantes estão fadados a conceber o mundo numa perspectiva causalista, a qual se perde ante a imensidão do universo e a vastidão lógica desvendada e ainda por fazer.
Milénios de bulício não nos capacitaram de respostas objectivas para inquietações intelectuais naturais como o sentido da existência, da vida e funcionamento do mundo. É neste contexto que a religião surge, como uma resposta consequente à necessidade de explicações, servindo-se da capacidade criativa e imaginativa da mente para construir sustento espiritual à civilização.
Num primeiro momento, parece-me que a religião é uma inevitabilidade face à urgência de significado da criação e manutenção da vida, podendo afirmar-se, sem reservas, que se trata de uma questão de saúde, sim.
A minha discórdia para com as religiões, tendo como muleta a Católica com a qual convivo de perto, não se centra tanto nos primórdios da sua génese, persegue antes a estagnação das premissas assumidas e a obstinação com que se nega à evolução e superação. Os fiéis vivem e cultivam as suas fés com graus de entendimento, esforço ou provação distintos. Pactuam não obstante na certeza de que ao assumirem a sua crença, comungam de uma paz colectiva muito dada a vergar o medo do vazio da existência. À parte, agora, da perspectiva beneficente, ouse-se problematizar uma existência sustentada por crenças valorativas. Temos religião, temos a saúde necessária a viver cada dia, mas seremos tão débeis ao ponto de remeter permanentemente para planos secundários assuntos tão cruciais? A dinâmica cívica e organizacional ao longo de séculos tem vivido apartada de novas perspectivas e caminhos, impregnada de frivolidades por força desse apaziguamento provocado pela religião, cuja presença aproxima-se da imposição e contradiz-se.
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Sobre os milagres numa sociedade que por um lado quer rigor e transparência na ciência e por outro esbanja opacidade e clausura intelectual

Miracle - Milan Kunc (1994)

Os milagres constituem para os crentes o culminar da prova de existência de um elo supremo, constituindo por isso um auge da fé pessoal, capaz de catapultar os espírito para altos índices de confiança, motivação, obediência ou êxtase.
Numa perspectiva talvez mais arrojada, pergunto-me até que ponto não é lícito pensar que alternativamente à resposta profética vislumbrada num qualquer evento tido como milagre, aquilo a que se chame milagre tenha mais a ver com o humano que o proclama do que com o próprio Deus em quem o mesmo atribui os louros do evento. 

O milagre pode ser mundano como as demais coisas e ser resumido essencialmente à falta de capacidade de acreditar de um ser, sobrepondo-se à fábula da intervenção divina. Quem falar num milagre poderá estar a discursar sobre si próprio e sua limitação emocional para expectar resultados probabilisticamente raros e menos prováveis.

Claro está que afirmar tal cenário é combater um colossal trunfo do campo religioso, pelo que dificilmente seria pacífica a consensualização geral de tal ideia. Não é conveniente para a indústria da fé, se é que me permitem abordar a questão nestes termos, deixar ganhar ânimo novos entendimentos ou, mais precisamente, esta questão dos milagres, por razões óbvias que também contemplam o facto de ser pouco encorajador acreditar num Deus que não se dá a intervenções terrenas para causas supostamente à sua altura.

Agora o existir, até de uma burocracia para permitir a beatificação de pessoas que inclui a existência de um milagre é, no seu todo, transformar os milagres no componente monetário necessário a tal ascensão e como tal, para mim, é enovelar a verdade dos milagres com outras motivações. Julgo que não é comportável com o nível científico de hoje viver numa sociedade que por um lado quer rigor e transparência na ciência e por outro esbanja opacidade e clausura intelectual.


Publicação original: 07/2007
Revisão: 09/2023
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Sobre o adiamento da felicidade

Num mundo cada vez mais fértil em oportunidades e opções, progressivamente se revela maior a problemática da procura e encontro do estado de felicidade.
A chegada de um novo dia, como sequência do dia anterior tem quase sempre como significado continuar algo previamente principiado e raramente é visto como um dia único, singular e irrepetível.
Acontece pois o aparecimento de uma sensação de adiamento da felicidade, quase como uma utopia de fé, criada para iludir a aspereza do presente, como um elixir que impele a vontade à chegada do futuro.
Vê-se então o ser humano a formular ideais, em que ingenuamente se convence que depois disto que está a fazer, ou daquilo que só a partir de xis cessará, é que a felicidade genuína lhe baterá à porta.
E como erra o ser humano ao ludibriar-se recorrendo a esta malha de lógica viciada.
Este mecanismo de estancar o terror do presente, com vista num marco futuro incerto, está para o ser humano, como a imagem de animal que puxa uma carroça iludido por uma cenoura que, suspensa à altura dos seus olhos, o faz querer alcança-la a todo custo, mesmo que tendo de puxar uma carroça.
A felicidade, ao contrário do que possamos sentir, depende mais da nossa exigência e atributos intelectuais do que do cruzamento de factos do mundo.
Ninguém deve viver no adiamento da felicidade, porque ela, tal como o tempo, a juventude, a saúde ou a vida, não são fenómenos estáticos ou consolidados, são estados dinâmicos, ausentes de concretização finita.
Termino com uma consideração final: perante o imbróglio de variáveis a que o mundo moderno se debate, a missão do homem no campo da felicidade, é saber extrair do seu presente, sempre pela via do pensamento, a felicidade que alimente a sua alma, ao invés de a adulterar com o vício de um futuro onírico, de chegada inexistente.

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Sobre o Deus vendido

Oponho-me ao conceito de Deus de acordo com as parábolas ou histórias efabuladas que se pregam nas igrejas por um único motivo: pelo facto de a igreja potenciar um conceito de Deus redundante feito a uma escala retrógrada e limitante.
Ninguém tem o direito de se apropriar de um conceito abstracto e de lhe atribuir um significado inquestionável, mesmo que esse alguém seja uma instituição que promova o bem no mundo.
Quando se associa a Deus palavras como “Criador” ou “Pai” está-se a humanizar o conceito a enforma-lo em nós como algo humano e que portanto se deve poder ver. Porque não considerar Deus a Natureza, em vez de a considerar consequência de Deus? Porque não entender Deus mais como uma força ou energia do que como um Homem? Porque não entender Deus como um elemento matemático que estabelece normas gerais que se vão intersectando e que levam à criação de tudo o resto? Porque não entender Deus apenas como uma base de dados, repleta de probabilidades de acontecimentos, onde a ocorrência de cada fenómeno, individualmente, não seja acto intencional mas apenas consequência de uma probabilidade de suceder?
Se cresci no seio de pressupostos religiosos pouco abertos ao debate, há muito que me posicionei e que me fiz crente da minha própria religião, uma em que não há fronteiras ou dogmas, onde busco argumentos para existir.
Os povos perdem por serem fiéis a crenças tão pouco arrojadas e tão curtas de sentido, deviam antes fazer de questões difíceis como essas motores de desenvolvimento de consciência crítica e capacidade argumentativa que condigam com os desafios que o mundo nos apresenta todos os dias, para os quais não temos resposta quase sempre, mas dos quais fugimos, por preferirmos a comodidade do não saber ao desafio de lutar por um sentido, tarefa bem mais árdua.
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