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Sobre o vício da novidade

Em tempos onde a produção escasseava, onde não havia essa coisa das prateleiras cheias de produtos para venda, nenhuma outra opção se impunha que não a de resignação perante a ausência de novidades ou uma derivação da busca por novidades para outros campos que não os da comercialização de produtos.
Nos dias de hoje, bem como de forma ascensora no futuro, a busca pelas novidades, facilitada pelos pólos e galerias comerciais que conjugam diversidade com quantidade e até com preço reduzido, permitem ao ser humano desfrutar da sensação de saciedade e preenchimento com uma frequência elevada.
As crianças recebem e querem cordilheiras de brinquedos quer pela curiosidade quer pela alegria de posse, de ter propriedade sobre mais um objecto.
As pessoas ouvem músicas que não têm problemas em repetir-se, diferindo quase nada às vezes, partilhando o tema de acção, retratando coisas idênticas com variações mínimas, como se o importante fosse o ouvir sempre o novo, aquilo que apesar de já existir, é lançado novamente no mercado.
Os filmes nem sempre têm dignos motivos para ser lançados, pois acrescentam nada, mas ainda sim são visionados, o mesmo acontecendo com as novelas, que esgotam enredos por serem tantas, e que são literalmente devoradas pelas pessoas.
As livrarias estão repletas de autores que descobrem uma fórmula (ou será forma?) mágica de produzir obras em série, repetindo ganhos nessa busca desenfreada das pessoas por um novidade que só o é no acto de comprar o que é lançado no momento, mas que pouco ou nada tem de criativo para ser considerado novo a esse nível.
A monotonia do dia-a-dia cresce na mesma proporção em que se perde o pudor de chamar novo ao que é uma repetição, ao que só é novo por não ter estreado, mas que não resulta de inspiração superior àquela necessária para copiar ou que tem um grau de complexidade perfeitamente acessível a qualquer pessoa com tempo.
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Sobre a carência de natalidade

A queda de natalidade em alguns países europeus, de que Portugal é exemplo, tem vindo a preocupar e estimular os governos, para o incentivo da reprodução humana.
A meu ver, existe um evento que intercepta este problema da redução da natalidade, que tem ver com o incremento de cultura nos povos, ou seja, com a educação e absorção de conhecimento, de sabedoria.
Para suportar tal ideia, julgo ser necessário estabelecer um relação entre a reprodução e o amor dos casais. Outrora, a mostra de amor entre os cônjuges provavelmente passaria pelo surgir de filhos, que seriam sinal de presença do sentimento de união entre dois seres. Com o advento da instrução, as pessoas passaram a ser independentes no adquirir mais cultura, no fazerem-se cultas sem necessitar de sermões dominicais obrigatoriamente, recorrendo ao conhecimento nos os meios de intercâmbio de informação disponíveis. Houve então a evolução dessa prova de amor de um patamar menos selvagem, para uma vertente mais platónica, onde a prova do amor se diversifica e transcende até o mundo material. Temos hoje a capacidade de amar e mostrar amor com maior pendor intelectual, sem ter de recorrer tão obtusamente ao inevitável acto sexual, apesar de por muitos lados surgirem histórias que contrariam o cerne do que aqui digo.
Perante um mundo de tal forma aliciante e diverso, o cenário que se apresenta às pessoas não é mais o de ter filhos para amar, mas o de amar ter filhos, pois o cansaço de um mundo cada vez mais estimulante e desgastante provoca alguma inércia, pactuada pelos adornos tecnológicos que procuram dar ocupação às mentes enquanto estão nos lares, onde deveriam pender para o objecto família.
Absortos para a reprodução, nem o amor parece fazer grande sentido, daí vivermos em relações pouco duradouras, onde não há projecto comum que segure duas pessoas tempo suficiente para reflectirem sobre os paradigmas da sociedade.
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Sobre a selecção dos cursos superiores

Existe algo que me desalenta um pouco, sempre que é tema de debate, e que agora partilho, dando visibilidade aos pontos mais prementes.
No processo da formação a nível de ensino superior, criou-se a moda das saídas profissionais, como barómetro de selecção de cursos. Ora, nessa linhagem, acontece-me por vezes de ser interpelado quanto ao meu curso, no sentido de informar sobre as ditas saídas. Respondo sempre com uma indefinição, dado que não reconheço um fim único para a formação que estou a receber. Torna-se um pouco impossível contornar a especulação e este tipo de perguntas, porém, elas mostram-me o enorme pendor pragmático e utilitarista com que se seleccionam os cursos superiores em Portugal, do qual Medicina e Arquitectura são exemplos vivos.
Sendo manifestamente suspeito, nesta discussão, agasta-me toda este mecanismo de utilitariedade na formação, porque retira o valor formativo aos cursos, as valências próprias, como se assistíssemos à superioridade do fim em relação à definição, ou mesmo à aniquilação do fim face a uma indefinição, como é o caso do meu curso.
A demanda de portadores de conhecimento aos mais variados níveis é a razão da existência dos cursos todos, a escolha do curso deve, pois, ser trazido para o campo da opção em liberdade, livre de fantasmas ou utilitarismos inúteis, pois não consta que as oportunidades, quando surgem, sejam previsíveis e voltadas para essas tendências do mercado de empregabilidade.
Parece-me que aquilo que se quer fazer valer, e aqui sou um pouco radicalista, é que mais vale escolher um curso cuja formação conduz a uma empregabilidade certa, o que também significa que é irrelevante a qualidade intrínseca a cada formando, pois todos arranjam emprego, do que andar a receber formação numa área específica, mais desfavorecida, onde não haja medo da concorrência por um lugar que seja.
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Sobre o racismo implícito


Photo by Jens Johnsson

* * * 

Hoje em dia, qualquer português que queira parecer moderno e elegante, condena o racismo e não se faz de rogado para anunciar, sempre que o pode, publicamente, a sua perfeita harmonia com as mais diversas etnias ou ascendências do mundo.

O maior problema de toda a temática do racismo é que basta ser assunto para ele próprio existir, porque não se pode falar de racismo sem ter um povo alvo, alguém que detectemos como susceptível de sofrer atitudes racistas. Mesmo quando se recorre a exemplos, o referenciar uma pessoa como alvo de exemplo, dizendo dela ser respeitadora e não criar problemas a ninguém, tem como consequência uma dúvida inicial, imbuída em racismo, que era saber qual o comportamento daquele ser, indagação que não se levanta para todos, pois a dúvida não faria sentido.

Vive-se na negação do racismo explícito, na promoção de um sentimento de igualdade e insuspeição que visa apaziguar o discernimento ético de cada um, mas que é um analgésico da realidade.

Quando, depois, assisto a atos de interesse por um alemão surgido do nada, sendo que ao lado, está um africano que acompanha as mesmas pessoas há mais de um ano, sem que se tenha manifestado o mesmo entusiasmo por conhecê-lo, eu vejo, à minha frente, a total caricatura do que é a forma de lidar com o racismo: somos racionais nas palavras mas tropeçamos nos atos, com a mesma ingenuidade de sempre, ela própria uma caricatura da nossa pequenez intelectual.

E tropeçamos sempre, mais cedo ou mais tarde, pois haverá sempre um momento em que ao ter de viver, de reagir com naturalidade, mostramos o implícito, aquilo que nos governa independentemente da vontade.

Concluo dizendo apenas que em vez de se negar o racismo, deveríamos banaliza-lo, pois assim deixaria de ser tema de assunto e assim evitar-se-ia perder tempo a contradizer aquilo que os nossos actos não querem comprovar.
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