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Sobre a permeabilidade aos outros

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A permeabilidade individua l aos assuntos , opiniões e ideias avançadas pelos outros depende não apenas das hipotéticas convicções que transportemos connosco, como também do locutor que as introduz e envolvência associada.

Um indivíduo sem créditos conhecidos sobre uma dada matéria corre o risco de ser indevidamente levado a sério, independentemente da pertinência e verdade de duas palavras ou ideias.

Temos uma apetência natural para abrir o flanco a locutores que respeitemos, reconheçamos notoriedade e sapiência, isto é, mais facilmente neutralizamos o filtro interno, às exposições externas, pelo respeito devotado ao orador.

Muitos comentadores da televisão dizem disparates sem que o público deixe de ser permeável e sem que se abalem as convicções para o fazer, do público que escuta. Existem, pois, evidências claras da existência de naturais argumentos de autoridade.

Há ainda outro prisma sobre o qual considerara a aceitação das considerações dos outros, este mais narcisista, no qual é legítimo pensar que a permeabilidade é concedida mediante a sintonia de personalidade, ideologias ou relacionamento, entre o locutor e o receptor. O narcisismo reside na eventual permeabilidade a pessoas que de alguma forma contenham traços personalísticos, ideológicos concordante com as nossas, ou com quem tenhamos um relacionamento privilegiando, levando por consequência a uma promoção dessas qualidades partilhadas, a qual no limite desemboca na auto-promoção.

Por gostar de escrever, quando escuto ou leio um colega que partilhe este interesse, poderei estar mais permeável ao que diz, podendo concordar com ele mais facilidade até, porque indirectamente estarei a promover alguém que contém elementos que me valorizam a mim, e como tal, alguém que me permite tirar proveitos pela confirmação do meu gosto, situação que extravasa o valor intrínseco de suas palavras e ideias.

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Sobre a pornografia literária


A estrondosa e avassaladora oferta que hoje se encontra no mercado livreiro, impõe um natural respeito, porque a comercialização de um livro estende-se muito para além do valor intrínseco da obra. Hoje há massificação de temas e há que ter bem presente que uma mesma coisa escrita por outro autor vale menos do que uma outra coisa escrita pelo mesmo autor.
O fenómeno literário que se vive hoje, perdoem-me por usar as palavras que vou usar, pode ser enquadrado numa certa forma de pornografia literária, que difunde a banalização do valor das produções, pela adulteração do sentido de singularidade, ou seja, pela forma como se desrespeita o que é conceber e delinear um livro, em detrimento de um sobrepovoamento de publicações nas prateleiras.
Como consequência dessa pornografia literária temos a explícita comercialização das obras como vector a considerar e até principal para a viabilidade de edição das mesmas. Aliás, diversos autores atingem uma profissionalização fácil devido a incorrerem na escrita mediática, totalmente voltada para o populismo e para o alcance da escala comercial.
A minha ambição de poder vir a escrever um livro, choca com estes conceitos, porque pego num livro para ler e penso no quão difícil possa ser chegar a um produto final, fechado, pronto. Imaginar a escrita de um livro como sendo algo não tão díspar quanto isso de um pegar num moldes e fazer réplicas sucessivas, não se me desmotiva como me aborrece e entristece. Há um esoterismo muito próprio que identifico no processo de conclusão de um livro, o qual não gostaria de ver perdido nem de ver chacinado da forma como as garras comerciais têm andado a fazer.
Hoje os nóbeis e notáveis do ponto de vista da matriz da Literatura, aqueles que serão estudados como cânones do nosso tempo, perdem espaço para pornógrafos literários que escrevem com cifrões e se refugiam neles para se afirmar como autores.
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Sobre as oportunidades de diferenciação

Passamos pelas oportunidades de marcar e mudar radicalmente a nossa vida todos os dias. Temos ao nosso dispor esse poder de decidir em que tipo de coisas investir, se naquelas que já conhecemos e nos conferem tranquilidade, se nas que nos são estranhas e podem diferenciar o rumo, conteúdo e signiicado da nossa vida.
Consegui introduzir uma forte diferenciação da minha vida este fim-de-semana, integrando uma equipa de formandos e formadores que condensou em três dias uma actividade colectiva notável, um esforço conjunto de superação notável.
Mudei radicalmente a minha vida ao integrar espontaneamente e conscientemente este grupo, basta pensar quantos não foram os que tiveram apenas mais um fim-de-semana e que ganharam em tranquilidade aquilo que consegui obter em diferenciação.
Discutia muito recentemente isto num círculo de colegas, o facto de a juventude crescer em demasia assente no conceito de estabilidade do que no conceito de diferenciação. É lógico que o medo de investir e optar por algo que nos é novo e suscita dúvidas existe. Mas a existir existe para todos. Os meus colegas não podem esperar que as suas vidas se resolvam favoravelmente por si, sem que sejam donos dos seus destinos.
Pela mesma mesa onde parei, me informei e esclareci minhas dúvidas, muitos outros passaram sem prestar qualquer atenção ou mesmo reparar que poderiam marcar e mudar radicalmente suas vidas caso respondessem à oportunidade que aquela mesa representava para o futuro do que poderão ser enquanto pessoas e profissionais.
A vida faz-se de constantes oportunidades e inoportunidades, cabendo-nos passar por elas e mergulhar nas que nos suscitem compatibilidade com os nossos objectivos.
Não podemos garantir à partida o local de chegada a que cada oportunidade nos levará, mas podemos apontar genericamente para um caminho e esperar e que a oportunidade faça a sua parte. Num mundo tão repleto de gente interligada só pela diferenciação nos fazemos notar, mas para isso, à segurança da tranquilidade temos de dizer “até já”. 
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Sobre os produtos biológicos

Nos últimos anos temos assistido a uma avalanche do uso e abuso da palavra “biológico”, ou mesmo do prefixo bio.
Motivados possivelmente pela realidade da poluição, os produtos naturais criados sem recurso a técnicas explorativas que recorrem aos adubos e químicos preventivos de pragas, viram o adjectivo “naturais” perder força, e o surgimento do seu substituto, o termo “biológico”, esse sim temperador do sentido desse tipo de produção agrícola.
Ora parece-me que esta questão dos produtos serem designados biológicos no lugar de serem simplesmente naturais, termo este que contrapõe à possibilidade se serem artificiais, é uma questão do foro das marcas e da gestão das imagens de marca.
Os produtos que são alvo de químicos, de tratamentos, e que como tal crescem de forma produtiva e rentável, não deixando de ser produtos naturais, levaram a que fosse necessário conceber um termo para destacar de entre esses produtos naturais, aqueles que crescem de modo mais selvagem e descontrolado.
Só que o termo biológico, levado à letra, acrescenta muito pouco a esta discussão e diferenciação dos produtos. Ao fim e ao cabo, assim como os produtos naturais são aqueles que levando químicos ou não, dependem da natureza para se desenvolver, os produtos biológicos, devem ser aqueles que provêm da biologia, que são espécies da natureza. Tal dístico é ainda pior na promulgação da diferença que se pretende realçar, na medida em que direccionar a questão para ser espécie da natureza ou não, acaba não só por cair na questão de ser natural ou artificial, como acaba por subtrair à selecção aquele que parece ser o argumento principal em toda esta trapalhada: o recurso a produtos artificiais para optimizar o desenvolvimento natural.
No meu entender, usar e abusar do termo biológico, não só retira realidade ao tratamento dos produtos, como exige à pessoa um poder de abstracção sobre possível sentido da nomenclatura usada, tão à moda do senso comum.  
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Sobre a ostracização em sociedade

Um pouco por todo o lado, mergulhados nesse grande universo de pessoas que constitui a sociedade civil, constata-se a presença de um  grupo de pessoas ostracizadas, que se destaca pela sua fraca alegria, pelo seu timbre de sofrimento, pelo seu ar de meter dó.
Tais pessoas parecem arrastar-se pelos lugares públicos como sendo portadores de uma desmotivação para a vida, de uma passividade que consegue torná-las notoriamente desfasadas da normalidade, pela negativa.
Julgá-las tende a ser imediato, mas dificilmente se chega a perguntar, com a mesma avidez com que se julga, que realidade familiar poderá condizer com tais pessoas.
A nossa forma de pensar e sentir o mundo, não só reflecte bem o tipo e quantidade de problemas pessoais com que somos confrontados, como limita as outras formas de entendimento. Um eventual positivismo pode ser suficientemente avassalador para impedir que se compreenda e respeite que haja estados de alma diferentes deste.
Geralmente, as condições de menor fulgor anímico, pródigas quase a tempo inteiro em muitas pessoas deprimidas, têm como consequência o distanciamento ainda maior, porque aqueles que estejam mais activos e se sintam bem tenderão a aproximar-se de mais indivíduos nas mesmas condições e a evitar prender-se com gente que contraria os seus estados.
Ora é um problema sério este, o da ostracização, visível em muitas crianças com problemas de integração e motivação, mas também detectável em adolescentes e jovens adultos, que depois são como que canalizados pela sociedade para condições de exclusão, e percursos menos comuns, como os cultos e seitas que os transportam para condições de ainda pior reversibilidade.
Mesmo nos adultos mais seniores, é possível encontrar quem que se feche numa concha e viva seus dias numa incapacidade para o optimismo tremenda, certamente insalubre. 
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Sobre o álcool enquanto droga

Sinto-me de alguma forma intolerante quando abordo a questão do álcool, roçando o fundamentalista, podendo até não ser consistente com o que venha a fazer no futuro.
O álcool encerra em si um trabalho de ancestral de aceitação social, sob a forma das bebidas às quais o Homem se foi acostumando ao longo da História. Trata-se de uma droga, que alguns gostam de chamar leve, mas que leva à dependência e ruína de forma semelhante a outras, com a agravante de não ser alarmante devido disseminação. Deturpar esta ideia é querer contornar a questão e aliviar os efeitos psicológicos que surgem ao consumir bebidas alcoólicas pensando deste modo.
Bom, e o que dizer dos jovens deste mundo que se fazem ao álcool como se a um copo de leite, que seria muitas vezes o desejável face à sua imaturidade?
É bom que se tenha a noção agravada do poder e consequências do álcool, para que se possa respeitá-lo da forma como sempre se respeita aquilo que se teme. Julgo que a falta de medo actual, que tende a surgir na juventude cada vez mais cedo, contribui ainda mais para aliviar a sensação de perigo que o álcool deveria incutir.
Porque motivo terá o homem desenvolvido esta necessidade de beber algo destilado ou fermentado? Gostaria de o saber. Agora, o simples facto de restringirmos o álcool a determinadas idades clarifica bem como somos capazes de viver num misto de tolerância/intolerância que conduz à indefinição da sua aceitação como droga ou não.
Por um lado é droga e só os adultos é que podem consumir, por outro não é, pois esses mesmos adultos sonegam que seja droga e que seja pesada, para que consumam livremente e sem remorsos. Quantas famílias não vivem com elementos completamente dependentes do álcool? Mais, quantos homens deste país serão alcoólicos não assumidos, por acharem que aquilo que bebem se enquadra nas doses diárias?
Como digo, falta aqui respeito pelo álcool. Só assim poderemos combater juventudes sedentas de alienação por álcool, acidentes de viação, violência familiar, agressividade
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Sobre a polícia e sua actividade

No seio dos lares crescem hoje crianças que, a menos que resgatadas do destino natural por alguma maternidade ou paternidade à altura do problema, crescerão alheias para os valores do respeito pela autoridade e cumprimento de deveres cívicos.
A polícia, sendo um vector da ordem pública, deve ser vista e ensinada aos mais novos como fonte de segurança, nunca fonte de problemas.
Apercebermo-nos da forma descarada com que muitos cidadãos deste país, jovens e graúdos, rebaixam e menosprezam a autoridade policial conduz a um clima favorável à adulteração da ordem pública.
O fomento, inclusive, dessa desconfiança relativamente ao corpo policial, conduz a que se censure, verbalmente e não só, a legitimidade para a polícia actuar.
É sabido que muitos agentes não reúnem os requisitos recomendáveis para o exercício da profissão, mas uma vez investidos da farda e distintivo, qualquer um tem de ser respeitado pelo cidadão, como condição para que possa viver em sociedade.
Perante cenários de total indisciplina de cidadãos criminosos, que geram ondas de criminalidade empoladas ou não pela comunicação social, acho um tremendo erro centrar a discussão da actuação policial, na sua legitimidade para intervir recorrendo à força, ou ao uso de armas de fogo.
Sabendo que a origem do problema nasce de quem não acata a autoridade policial ou seus deveres legais, as consequências inerentes ao incumprimentos desses deveres de respeito à autoridade ou à legislação, não podem ser o principal assunto a dissecar.
O uso da força, por parte da polícia, pode ser mais ou menos do agrado dos cidadãos em geral, mas acredito ser inevitável. O nosso humanismo não pode consentir que pessoas com falta dele, usem e abusem indevidamente da sociedade e outras pessoas. Por muito que queiramos a não violência, a polícia deve responder a abusos nem que pela via violenta, sob pena de desvirtuarmos o sentido de reposição da ordem.
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Sobre o espirro em sociedade




Sneeze - Poul Lange

* * *

No contexto social, a boa educação ensina que se adotem posturas e condutas específicas a cada evento, tornando-se tanto mais apuradas quanto mais formais forem as situações a que sejam postas em prática.

Se o riso, o bocejo, o arroto, o tom da voz, o léxico a usar ou o comportamento à mesa são tudo variáveis de relevo que interessa dominar para que a coerência seja mantida, existe uma variável que não citei, que acaba por ser muitas vezes de difícil controlo: o espirro.

Pela sua vertente espontânea, o espirro surge alheio ao contexto social e concretiza-se quase sempre da mesma forma, quer o cenário seja formal ou informal. Claro está que existem também maneiras de procurar contornar os efeitos de um espirro agressivo, como seja tapando a boca com um lenço, mas é difícil saber quando se vai espirrar e nem sempre há tempo para salvaguardar a situação desconfortável que lhe pode suceder.

O espirro traz consigo duas consequências passíveis de gerar intranquilidade: a saliva e ranho que pode ser expelido, sujando o rosto, mãos e roupa, e o odor que provoca talvez por constituir uma forte expulsão de ar pulmonar, ou mesmo devido aos fluidos que o acompanham. À saliva e ranho que os espirros potenciam para o exterior, deve somar-se eventuais resíduos alimentares que possam estar na boca ou início do esófago, agravando ainda mais os efeitos devastadores dos espirros no panorama social.

Para todos os que são clientes de placas dentárias, certamente uma fração mais idosa da população, os espirros são também uma ameaça para a estabilidade das suas dentaduras postiças, na medida em que pela sua força e energia, atentam contra a manutenção das mesmas no local correto da boca.

Pessoas muito educadas, muito corretas são por vezes vítimas do espirro, que em questão de segundos lhes criam situações dispensáveis mas para as quais a única solução é estar precavido. A única solução, de facto, é garantir sempre um lenço, o qual embora não elimine o problema consegue minimizá-lo.
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Sobre os direitos de imagem

O negócio da venda da imagem para fins publicitários é tortuoso. Vincular um rosto a uma marca ou produto, tornado realidade pela assinatura de contractos para o efeito, é um pacto que embora possa parecer negativo para ambas as partes caso algum problema surja, joga preferencialmente a favor do produto ou marca e nunca da personalidade.
Agora recentemente um aparente escândalo com um futebolista brasileiro, levou a que a empresa com quem celebrara um contracto de direitos de imagem o cessasse, justificando-se com a negatividade que o escândalo proporcionara.
Para mim, elemento alheio e externo a tudo, a primeira impressão com que fiquei foi a de que estas empresas lucram quando associam os seus produtos ao crédito e reputação de celebridades, pagando-lhes loucamente por isso, mas igualmente lucram quando algo de mal sucede ou é apontado à mesma celebridade que aí perde o contracto publicitário sem nada receber, enquanto que a empresa lucra por se demarcar. Ao se demarcar, o produto valoriza-se na mesma, porque se distingue, porque afirma perante a sociedade que não pactua com situações negativas, e como tal é notícia a desvinculação.
Pergunto-me, pois, se quando se celebram contractos desta natureza, aquele dinheiro recebido não seja o preço de associar uma face a um produto ou marca quando a primeira estiver na mó de cima, e seja também o preço da desassociação da face quando nada acrescenta ou quiçá prejudica a imagem do produto ou marca na sociedade.
Os trilhos da realidade publicitária e desta regras que regem o mercado, que fazem com que um dia se sonhe ser como o tal futebolista que aparece em todas as revistas, que faz caridade e se junta a tudo o que quer ter prestígio, traduzem-se mais tarde numa irresponsabildiade de lavar as mãos e tornar notícia isso mesmo, o encostar para um canto do mesmo rosto, por já não prestar para nada, ter sido sugado enquanto peça no xadrez do marketing, e como tal render uns pontinhos finais quando se conclui a sua vinculação. Uma vez mais é a tal terciarização que por não ter sentimentos nem culpa, trata mal pessoas e não sente nada.
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Sobre a desburocratização do divórcio

A desburocratização do divórcio tem estado na ordem do dia. O tema perturba, levando a reacções potenciadas por emoções, que garantem raciocínios menos ponderados.
Não estou por dentro das medidas do projecto-lei mas tentarei uma breve abordagem.
A meu ver, o Estado não tem de governar as relações que cada cidadão da nação venha a encetar. Vendo bem as coisas, há quem viva casado sem que conste formalmente tal casamento. Devem inclusive já ter morrido inúmeros cidadãos que constituem de casos de casamentos informais que duraram até à morte. Não se pode confundir o que é de facto o casamento, para que não se confunda o que é o seu rompimento.
O casamento é fruto de uma vontade individual que nada tem que ver com o Estado. O Estado entra depois na forma como colecta impostos, garante serviços e trata desses cidadãos e família que venham a constituir. Agora, casamento não é casamento apenas porque consta no registo civil formalmente, casamento é casamento porque as duas partes assim o sentem e entendem. Como tal, não vejo porque motivo o divórcio deva depender tanto do estado, acho, antes, que as pessoas não se devem refugiar nas dificuldades do processo de divórcio para não recorrerem a ele se assim o entenderem, como adultos que são.
A facilitação do divórcio é uma medida altamente democrática, pois transporta para o seio dos casais a liberdade e sobretudo a responsabilidade das decisões, que deixarão assim de estar presas pela lentidão do Estado e pelos custos económicos associados ao lograr um divórcio.
Além do mais, relação alguma se pode esconder por trás do casamento como garante de um meio de familiar. Em muitos a realidade familiar não se aplica, havendo hostilidades de parte a parte e valores estranhos aos desejáveis para o casamento. A liberdade não é só poder votar, a liberdade é poder decidir a vida sem cair no absurdo de julgar ter vida apenas porque algures num arquivo morto de um qualquer departamento diz que se é vivo. O divórcio resolve-se preferencialmente a dois, mas deve depender apenas de um para acontecer, nunca de 3. Entre marido e o mulher, nem o estado mete a colher, nem o elo que não quer, a pode tirar.
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Sobre o cotio da sinceridade

A sinceridade tem tanto de virtude como de defeito. No domínio das relações humanas nem sempre se ganha ao revelar tudo o que pensa ou sente, tal como nem sempre se perde menos ao guardar aquilo que por dentro tem vontade de sair.
Não é possível garantir o que é melhor, mas é possível prever em que situações a alternativa de ser sincero ou não deve ser accionada.
Em tudo o que envolva diplomacia, não no contexto político, mas aplicado ao nível das relações sociais habituais, a ocultação da sinceridade tende a ser um mecanismo de manutenção de uma paz tranquilizante, que afasta percalços pontuais que sempre se criam quando se discorda peremptoriamente ou se secundariza o que se sente em prol do que outrem gostasse que se sentisse.
É provável que a sinceridade possa ser interpretada nos moldes de um texto que escrevi em Fevreiro, chamado About radicalism, sobretudo porque acaba por se tratar de um radicalismo em si, um extremar de posição na comunicação.
Existem depois conjuntos de situações cuja aplicação da sinceridade prendem-se mais com barreiras como medo ou vergonha, do que propriamente com retaliação ou inferiorização.
Agradecer, mostrar apreço, elogiar, premiar, honrar, citar ou gabar, são tudo sinceridades que a serem espontânea só enobrecem a qualidade humana, sobretudo quando a comunicação que serve de veículo está no patamar da honestidade com que o revelamos.
Eu sou adepto da sinceridade, embora nem sempre seja exemplar executante, mas confesso que por vezes conduz a um enveredar por discussões e acesas trocas de argumentos. Já sobre o segundo tipo, certamente não serei exemplar praticante, mas tento guardar para quando realmente julgo aplicável essas manifestações de sinceridade pura, pois só assim se evita a hipocrisia. Não pretendo ser daquele tipo de gente que faz da sinceridade um hábito semelhante a consultar as horas no telemóvel constantemente, pois isso conduz à insinceridade pelo descomedimento das vezes em que se exteriorizam sinceridades vãs.
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Sobre os jornais gratuitos

A invasiva ofensiva dos jornais gratuitos no nosso país constitui um marco controverso nos compêndios da história da comunicação social.
Eu julgo que se já não havia grande espaço para tantos jornais e publicações periódicas nas bancas nacionais, a chegada dos jornais gratuitos só vem agravar tal crise de território. Num primeiro momento vejo toda a utilidade de se poder fazer jornalismo gratuito para o consumidor, removendo barreiras económicas, mas logo de seguida sou levado a crer que a remoção de barreiras económicas tem um preço: o preço de não ser importunado na rua, já para não falar na compreensível simplificação dos artigos publicados, embora nem sempre seja má tal ocorrência.
Não vejo grandes problemas no jornalismo gratuito desde que não retire qualidade de vida ao cidadão a que se destina. Como estou longe de sentir que tal condição é garantida acho o jornalismo gratuito um problema para a sociedade, sobretudo porque encerra em si mesmo um paradoxo, que é acabar por não ser gratuito, e como tal não crer que o preço a pagar seja justo.
Nas ruas, nas faculdades, nas filas de trânsito, e em outros locais possíveis, pessoas distribuem jornais a qualquer transeunte ou condutor que calhe de se encontrar com estes, num espectáculo que é tanto engraçado quanto menos repetitivo for.
Há também outra coisa, que é embuste que se publicita relativo ao número de leitores, já que nestes jornais gratuitos é costume constar o número de leitores. Desconfio fortemente destes dados porque se nos jornais vendíveis os leitores que o compram poderão ser mais facilmente garantidamente leitores, já com os jornais gratuitos o despacho de exemplares indiferentemente à vontade de leitura das pessoas e oportunismo da situação, está longe de garantir uma correspondência, sendo muitos daqueles supostos leitores, gente que simplesmente virou a esquina e os deitou fora.
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About radicalism

Every time I watch religious radicals on television, my upset grows in the same way my incomprehension does.
If we keep those images in our minds it is very probable that rather than trying to understand we will be conducted to a situation of combating violently such evil.
I believe that radicalism is far from being just a religious or political problem. Each person has a disposition to be radical in a specific type of questions. We can find it in football, in justice, in food preferences or in musical preferences, for example.
I don’t feel prepared to discuss the fundaments of radicalism, but my guess is that radicalism origins in one out of two possibilities. Firstly it can be a consequence of having no possibility to known different perspectives, like trying to think as if in the head of the opposite side. Secondly it is possible to justify radicalism as a consequence of being lazy in terms of searching and become instructed about the things in a more neutral way, what can be easily done if the search for knowledge centres in the opposite perspective of the same question. This second possibility is independent of interest, in that it resides uniquely in the will of subjecting the perspective defended to some contradictory discussion.
It is important to refer once again that we tend to see radicalism as a distant thing, only present in people seen on television. In fact, that is a result of having little sense about our own radicalisms. They are born small but can become a monster and destroy even the question that was in the base of its purpose, inasmuch it becomes an uncontrolled walk into somewhere sometimes worse than the initial problem.
Finally I want to say something about radicalism according to its effect on personality. Despite its badness, radicalisms define easily a person as a proper individual and not as a vulgar one in many, than the constant neutral behaviour.
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Sobre a televisão: compromissos comerciais

A diáspora do capitalismo agressivo apoderou-se da televisão para mal de todos os que acumulam em si o direito a servir-se dela, consumindo-a. Acredito que larga culpa da desvirtuação da televisão enquanto ferramenta adequada ao progresso, passa pela necessidade de gerar lucros, mais-valias económicas que assegurem futuro.

Repudio e condeno veemente a forma irresponsável como convivemos com cadeias de televisão que prezam a subjugação dos seus espectadores às peripécias de manipulação de audiência para fins de proveitos publicitários. Divulgações de horários incorrectas, em que à hora indicada apenas há publicidade (muito comum nas transmissões desportivas), ou aliciamento de audiências com dinheiro supostamente fácil, cuja efectiva entrega é prolongada com exaustão, de que são exemplo os múltiplos programas vespertinos transmitidos diariamente.

É evidente que as cadeias de televisão vivem acorrentadas às audiências, pois estas são o meio para gerarem o lucro, mas a partir do momento em que são abandonados princípios básicos que honrem as reais capacidades que uma cadeia de televisão pode ter em sociedade moderna, julgo entrarmos no tortuoso caminho da superflueidade dos meios televisivos.

Que se clarifique a ideia de quem manda na televisão! O consumidor precisa da televisão, mas ela precisa cada vez mais dele. O consumidor tem cada vez mais alternativas a ela, pelo que é altura de verdadeiramente reivindicar a si os plenos poderes de se achar activo no panorama televisivo. A maioria de nós, espectadores, julga-se escravo das grelhas televisivas, mas nada mais errado. Que tal proporem-se umas televisões desligadas por uns tempos? Há que prezar respeito e responsabilidade acima de viabilidade económica, pois se querem fazer dinheiro, que trabalhem para tal dentro das regras da civilidade e do dever assumido.
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Sobre a religião: o ateísmo


Sirvo-me deste texto final para dar protagonismo ao ateísmo, como decisão de quem não se sente confortável com o leque de paradoxos e contra censos que é capaz de detectar nas premissas da religião e que portanto se vê na obrigação de se emancipar voluntariamente.


Julgo que nem sempre se tornam claros os motivos factuais que levam alguém a ser ateu, tal como nem sempre claras são as respostas às indagações dos outros sobre os motivos de tal assunção, por se tratarem questões de fundo, incomportáveis com respostas breves de conversa rápida. 

A pessoa que adere ao ateísmo tem, em relação à que não o faz, uma vantagem, que é pela decisão tomada comprovar que já reflectiu sobre o assunto da religião. O grupo dos crentes, não inclui unicamente aqueles cujo resultado de semelhante reflexão conduziu à crença (ou não ateísmo), mas também o conjunto de pessoas que nunca se questionou ou preocupou em reflectir com isso, mas que se deixou levar no inquestionável roteiro cultural da religião, que se embarca logo à nascença e que vai fazendo parte do contexto diário, sem grande esforço para o conseguir.

Não é função deste texto vender o ateísmo aos outros, dado ser o produto de uma conjunção de factores demasiado específica para que se deva querer generalizar.O ateísmo surge neste texto na tentativa simbólica de espevitar a atenção dos que o lerem para a necessidade de terem opinião sobre os assuntos pertinentes, de que a religião está longe de se excluir. Os textos que precederam a este, sobre o mesmo assunto, estão impregnados de uma perspectiva ateísta e mesmo acusatória da forma como vejo a religião, sobretudo os seus pontos negros. Há muito que ambicionava gastar algum tempo a esclarecer-me e expor a todos, com a clareza que só a escrita permite. Cesso deste modo este tema, escolhendo o ateísmo no fim, simbolizando o comum traço de nascer religioso e poder derivar para a descrença.
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Sobre a inutilidade das contas de e-mail

Embora surgidas com oportunismo e potencialidades notáveis, a verdade é que as contas de e-mail pessoais, longe de facilitar e ampliar o recurso à escrita que outrora passou pelas agora praticamente obsoletas cartas redigidas à mão, caíram num beco que as tem mutado para fins longínquos ao salutar exercício da escrita.
As mesmas, são hoje muito mais um bilhete de identidade virtual, cheio de limitações de segurança para o poder ser habilitadamente, do que uma ferramenta de real e popular utilidade no processo de comunicação escrita.
Excluo do âmbito desta intervenção, os exemplos de caixas de correio virtuais do tipo profissional ou que não dependam do livre arbítrio das vidas pessoais, pois aí a utilização atribuída é imaculada, não fossem as regras e práticas adoptadas.
Voltando àquelas do tipo pessoal, são hoje um reservatório de tudo o que não queremos, palhaçada em excesso, melodramas em excesso ou um sem fim de trafulhices em excesso. Qualquer um sabe dizer quase sem pestanejar quantas mensagens personalizadas recebeu no espaço de meses. A facilidade com que se mandam mensagens a grupos quase extinguiu a existência de remetentes singulares, dando lugar ao desrespeito pela individualidade de cada ser humano .
A partir do momento em que deixa de haver mensagens, devidamente habilitadas a tal designação, a circular, não faz sentido chamar correio à conta de e-mail, porque não funciona como tal, passa a ser qual montra virtual, no caso dos fins publicitários ou poltrona virtual, no caso dos assuntos recreativos mais diversos e maçadores.
Esta é talvez a maior das incoerências da Internet. Não havendo como rejeitar a conta pessoal e requisitar um alternativa mais decente, obrigam-nos a conviver com tamanho colosso da inutilidade para garantir todas as vertentes da net.
A todos os que me mandam mensagens com inutilidades eu peço que parem e que entendam que só estão a contribuir para uma vontade cada vez maior de vos ignorar.
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Sobre a desprofissionalização dos políticos

Nenhum ramo de actividade é mais sacrificado pelo povo do que a carreira de político. Os próprios conhecem e reconhecem esses estigmas, devendo até concordar, nos seus íntimos, com algumas das alegações costumais.
A parte penalizadora que não abrange as questões do foro da honestidade, passa de alguma forma pela não inclusão dessa classe no âmbito da lista de profissões do povo. Tal exclusão prende-se com a ideia do trabalho braçal ser fisicamente desgastante e de a classe política viver o seu dia-a-dia no seio de certas regalias que contra balanceiam, na perspectiva do povo, eventual esforço que dispendam.
Cabe-me a mim, perguntar também se é de facto interessante que a Política seja profissão. Julgo que um sim extingue diametralmente a visão da política como dever público ou actividade de intervenção social aberta ao cidadão comum. Uma política como profissão envolve rivalidade e criação dos subterrâneos jogos de poder que controlam peças num tabuleiro de relações e dinheiro. A necessidade de vingar num meio tão perverso como é o dos ideais, das argumentações ou dos convencimentos, motiva todo um esquecer das premissas e enquadramentos da política como entidade vital à existências de sociedades e nações. Daí surge a inoperacionalidade apontada aos políticos, bem como à sua repetição de hábitos e vícios.
O povo poderá ter a sua razão ao não aclamar nem identificar os políticos como operários, pois instintivamente assume uma posição que a lógica consegue suportar. A descrença e o vinco de descredibilização progressiva dos políticos, por parte do povo, em nada abona as necessidades de ambos. Privados de povo, os políticos recorrem a sensacionalismos e demagogias para fazer chegar e se fazerem ouvir e respeitar. O povo, privado de políticos, trabalha intervalando a labuta com desdém dos políticos, que, apesar de tudo, continuam sem aceitação como profissionais mas mantêm-se no recebimento mensal pelos seus préstimos. A pergunta é : de quem?
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Sobre os milagres numa sociedade que por um lado quer rigor e transparência na ciência e por outro esbanja opacidade e clausura intelectual

Miracle - Milan Kunc (1994)

Os milagres constituem para os crentes o culminar da prova de existência de um elo supremo, constituindo por isso um auge da fé pessoal, capaz de catapultar os espírito para altos índices de confiança, motivação, obediência ou êxtase.
Numa perspectiva talvez mais arrojada, pergunto-me até que ponto não é lícito pensar que alternativamente à resposta profética vislumbrada num qualquer evento tido como milagre, aquilo a que se chame milagre tenha mais a ver com o humano que o proclama do que com o próprio Deus em quem o mesmo atribui os louros do evento. 

O milagre pode ser mundano como as demais coisas e ser resumido essencialmente à falta de capacidade de acreditar de um ser, sobrepondo-se à fábula da intervenção divina. Quem falar num milagre poderá estar a discursar sobre si próprio e sua limitação emocional para expectar resultados probabilisticamente raros e menos prováveis.

Claro está que afirmar tal cenário é combater um colossal trunfo do campo religioso, pelo que dificilmente seria pacífica a consensualização geral de tal ideia. Não é conveniente para a indústria da fé, se é que me permitem abordar a questão nestes termos, deixar ganhar ânimo novos entendimentos ou, mais precisamente, esta questão dos milagres, por razões óbvias que também contemplam o facto de ser pouco encorajador acreditar num Deus que não se dá a intervenções terrenas para causas supostamente à sua altura.

Agora o existir, até de uma burocracia para permitir a beatificação de pessoas que inclui a existência de um milagre é, no seu todo, transformar os milagres no componente monetário necessário a tal ascensão e como tal, para mim, é enovelar a verdade dos milagres com outras motivações. Julgo que não é comportável com o nível científico de hoje viver numa sociedade que por um lado quer rigor e transparência na ciência e por outro esbanja opacidade e clausura intelectual.


Publicação original: 07/2007
Revisão: 09/2023
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Sobre os recintos prisionais

Uma larga maioria das pessoas vive as suas vidas sem se aperceber da realidade das prisões e do seu efeito na adequação da conduta humana.
Longe de ser um perito na matéria, proponho-me unicamente investigar pela forma de reflexão o recurso à prisão como mecanismo de correcção ou penalização.
Desde cedo se soube entender que a privação de liberdade de movimento, constitui uma forma de estorvo para o ser humano. Qualquer um sabe bem o quão crucial é dispersar em determinadas alturas da vida. Ora as prisões aparentam ser essencialmente privações de movimento, que conjugam ainda outras privações humanas. Tenho para mim a ideia de que as prisões cumprem o seu objectivo de penalização recorrendo a um tipo de artifícios diferente daqueles que se esperaria. Os reclusos, em geral, e tanto quanto sei, saem da prisão de alguma maneira corrigidos mais por força do medo e aversão a retornar àquele espaço do que por haverem criado uma introspecção no sentido do entendimento da orla de questões que medeiam um crime. Refiro-me com isto ao uso de um fantasma, criado numa cidade de grades, que visa suster futuros ímpetos criminosos pelo temor, prática que é lamentável.
Podemos falar, então, numa dupla prisão: aquela para onde são mandados os réus e aquela criada na mente dos mesmo, quando saem desses estabelecimentos. Ninguém acredita no poder renovador de uma prisão, dado todos sabermos que não deveras trabalho psicológico construtivo nesse espaço, pelo que se procura evitar o mal criando um mal (-estar) mental.
Todos os cidadãos que contactam com os que retornam à vida normalizada, por força da descrença interior no poder educacional dos recintos prisionais, se tornam também presidiários em si, já que vivem também atemorizados pelas eventuais lacunas do processo de correcção (supostamente) levado a cabo nas prisões.
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Sobre os graffiti

Alguma tendências urbanas são avidamente criticadas e desvalorizadas por todos os que se afirmam emancipados das práticas adoptadas pelas gerações mais modernas que as suas.
Os graffiti, pinturas urbanas que transmitem todo um pensamento e filosofia de algumas gerações modernas, são um dos alvos mais apetecíveis desses críticos, pelo impacto que causam no panorama visual dos ambientes públicos.
Ainda que não me identifique de todo com essa libertinagem maioritariamente irresponsável, julgo-a altamente potencial de valorização caso seja domesticada àquilo a que designamos por ordem pública e deveres cívicos.
Gostaria no entanto de introduzir o motivo principal deste texto. Cabe a cada um apelidar de graffiti o que bem entender, pelo que a sua crítica em muito dependerá da análise efectuada. A vertente menos louvável desta prática, tende a ser o motor de toda a definição do termo, abrindo, a meu ver portas, para a amplificação da abrangência do termo.
Posto isto, dificilmente me demoverão da conclusão de que todas as pinturas recentemente espalhadas por alguns espaços públicos (como nas redondezas do Hospital de São João, no Porto) informando e quiçá apelando à greve no dia 30 de Maio, são formas de manifestação tão ou mais condenáveis como o graffiti. Ainda hoje se podem ver nas fechadas e pisos estas pinturas, dado que ninguém apareceu para a impedir o seu entendimento como lixo e irresponsabilidade.
Como poderão, pois, querer barrar e impor-se contra os graffitis todos os autarcas que fecham os olhos a pinturas como a da greve? Trata-se de um alibi para os que persistem na criação da pintura urbana. Não é crível que se adoptem certos actos equivalentes aos menos desejados, segundo normas e sentimentos vários, e que se assuma uma moral, póstuma do pensamento, para minimizar o que quer que seja.
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