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Sobre a pornografia literária


A estrondosa e avassaladora oferta que hoje se encontra no mercado livreiro, impõe um natural respeito, porque a comercialização de um livro estende-se muito para além do valor intrínseco da obra. Hoje há massificação de temas e há que ter bem presente que uma mesma coisa escrita por outro autor vale menos do que uma outra coisa escrita pelo mesmo autor.
O fenómeno literário que se vive hoje, perdoem-me por usar as palavras que vou usar, pode ser enquadrado numa certa forma de pornografia literária, que difunde a banalização do valor das produções, pela adulteração do sentido de singularidade, ou seja, pela forma como se desrespeita o que é conceber e delinear um livro, em detrimento de um sobrepovoamento de publicações nas prateleiras.
Como consequência dessa pornografia literária temos a explícita comercialização das obras como vector a considerar e até principal para a viabilidade de edição das mesmas. Aliás, diversos autores atingem uma profissionalização fácil devido a incorrerem na escrita mediática, totalmente voltada para o populismo e para o alcance da escala comercial.
A minha ambição de poder vir a escrever um livro, choca com estes conceitos, porque pego num livro para ler e penso no quão difícil possa ser chegar a um produto final, fechado, pronto. Imaginar a escrita de um livro como sendo algo não tão díspar quanto isso de um pegar num moldes e fazer réplicas sucessivas, não se me desmotiva como me aborrece e entristece. Há um esoterismo muito próprio que identifico no processo de conclusão de um livro, o qual não gostaria de ver perdido nem de ver chacinado da forma como as garras comerciais têm andado a fazer.
Hoje os nóbeis e notáveis do ponto de vista da matriz da Literatura, aqueles que serão estudados como cânones do nosso tempo, perdem espaço para pornógrafos literários que escrevem com cifrões e se refugiam neles para se afirmar como autores.
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Sobre a excepcionalidade

Hoje em dia existe uma grande sede na sociedade de pessoas brilhantes numa dada área de intervenção, gente que possa apresentar-se e criar impacto publicamente como excepcional.
O critério pelo qual se fixa o que se entende por excepcionalidade dos seres humanos deve ser devidamente debatido, sob pena de vivermos num mundo demasiado pré-formatado para um modelo único de selecção de talentos.
Custa-me bastante ver a forma como se desperdiça muitas vezes capital humano apenas porque se denota de difícil enquadramento no perfil de atributos criado colectivamente em sociedade como forma de distinguir as pessoas ditas notáveis.
A competitividade conduz a uma agudização do valor dos notáveis, pois leva a que se crie a noção de que o sucesso é para os melhores e que os demais sentirão certamente dificuldades porque não terão hipóteses.
Acontece que, como ouvi há relativamente pouco tempo, o mundo tem de estar preparado para todos os que não são notáveis, pelo menos no sentido aceite em sociedade, e como tal devem haver soluções para estes que não as de papel coadjuvante de fraca reputação.
As pessoas podem revelar-se notáveis de várias maneiras sem ter de valer em exclusivo pelos seus dotes naturais. O empenho, a motivação, a capacidade de trabalhar em equipa ou a facilidade de se colocar na posição de outrem para daí equacionar os problemas, são também algumas valências que certamente não constam no actual cânone da excepcionalidade, mas que acrescentam valor aos que as detêm.
O maior paradoxo disto tudo é que quando se passa da colectividade para a singularidade, qualquer sujeito é capaz de concordar ou mesmo sofrer com os efeitos do cultivo de um conceito de valor humano pouco real, dado que não tem em conta a pluralidade e diversidade das pessoas. Os excepcionais não são os que estão mais bem adaptados, são simplesmente aqueles a quem o modelo vigente, com as suas falhas e préstimos, confere uma notoriedade que chega a roçar o estatuto e peca por ser falseado pelo poder da imagem.
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Sobre a colectividade

A terciarização inerente às actividades colectivas, leva a que a responsabilidade individual dê origem a um código ético que se propõe a gerir toda a colectividade dos actos, decisões, comportamentos, ocorrências.
Fui despertado para o conceito num documentário onde se falava na forma como as empresas, devido a serem pessoas colectivas, como se designam, acabam por contornar muita coisa devido ao seu anonimato ou corporativismos.
Na altura o exemplo dado foi o de uma empresa do ramo petrolífero, cujo presidente foi alvo de manifestações ecologistas à porta da sua residência, devido a recentes decisões da empresa. O presidente convidou os activistas a tomarem um chá e começaram a conversar, do qual resultou o reconhecimento de que o presidente, enquanto pessoa singular, era contra a o prejuízo da natureza por parte da empresa a que presidida, mas que ele, enquanto presidente, não tinha como sentir-se mal por atentar contra esta, dado estar a caminhar no sentido do sucesso da empresa.
Ora, recorri a esta imagem que comigo retive, para chamar a atenção da quantidade de pessoas colectivas, quer sejam empresas, instituições, comunidades ou associações, que existem no mundo e que por força dessa colectividade, se consegue desprover as pessoas do seu sentido crítico e dos seus valores pessoais, unicamente porque se fantasia a passagem para o colectivo, uma existência desumanizada. Tal máquina serve os propósitos individuais de quem a gere, mas garante que os crimes não sejam cometidos por pessoas, além de ser um artifício psicológico para que se façam asneiras e não haja sentimento de culpa.
Não quero carimbar este texto como uma mensagem anti-empresarial ou anti-sociedade, gostava sim de trazê-la para um domínio mais largo, no qual também se verifica. Todos fazemos parte de comunidades, que embora não o sejam formalmente, acabam por ser pessoas colectivas, no qual se depositam as esperanças e as culpas, a meu ver com uma utopia desmedida. A culpa e o sucesso, é de homens e mulheres, a eles o mérito, a eles a responsabilidade, a eles a pena.
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Sobre o comentário nos meios de comunicação social

Revistas, semanários, diários, gazetas, folhas, telejornais, colunas, blogues, as erupções do comentário ombreiam com a própria informação, criando espaço nos meios de comunicação para uma etapa póstuma à da informação, que é a digestão, maturação, ampliação e clarificação das notícias e coberturas que vão surgindo.
Geralmente são chamados a comentar senhores e senhoras que reúnam proveitos experienciais vários oriundo de formações curriculares ímpares ou cargos de notoriedade. Esta é a principal razão pela qual se dá tanta atenção às pessoas que comentam. Em seguida vem o que dizem, mas só depois, para então nos dar-mos à absorção daquilo que tais pessoas dizem ou escrevem. Muito se aprende, diga-se, com a comunhão das considerações que gente instruída e experiente possa apresentar às comunidades, mas julgo começar a escassear espaço para tanta gente a comentar, sobretudo porque a certa altura são tantos os comentadores que os factos passam a ser escassos, e como tal satura-se a paciência para ler tanto do mesmo em comentadores tão diferentes, podendo até dar-se a efeméride de se assistir ao comentar dos comentários uns dos outros.
Mais do que retratar este panorama, o que me faz escrever sobre este assunto é que no meio de tanta acumulação de comentadores, extensível até a gente anónima nos tantos fóruns de discussão públicos, os frequentadores vorazes desses meios acabam por se tornar numa comunidade que é daltónica para a sua passividade e que acaba por ser altamente condenável por isso. Por muito boas que as ideias dos comentadores possam ser, nunca substituirão a actividade a que se referem, e como tal nunca perderão o seu cariz passivo de observação. Mais, por muito crispado ou indignado que possa ser o tom de quem comenta, só essa cegueira de satisfazer a vontade de comentar é que impede o comentador de ver que quem tem tanto interesse, tanto a dizer, a elogiar, a contestar, a problematizar deveria estar na linha da frente para contribuir para as situações abordadas com tudo aquilo que teria a dizer no comentário. O engarrafamento de comentadores pode ser um vício, parte dos problemas até.
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Sobre a celeridade das férias

Chega o Verão, as escolas encerram, os escritórios esvaziam, tudo se esvai de moldura humana excepto os destinos turísticos ou afectos ao lazer. As férias são o momento alto, geralmente, de cada ano, podendo figurar como vingança de um rol de inglórias ou apresentar-se como o coroar de um conjunto de vitórias, sendo mais natural, contudo, situar-se algures no meio destes cenários.
Independente da duração das férias, no cômputo geral identifica-se um sentimento generalizado de celeridade nas férias, como se houvesse uma inconsciência do passar do tempo para depois se acordar perto do retomar de actividades e haver lugar a lamentos e lamúrias.
Entre a juventude, a febre do nada fazer, que em suma resume muitas ocorrências, como o ir à praia, o assistir a séries, filmes e novelas na televisão, ou o jogar nos computadores e consolas, presta um grande contributo para essa fugacidade sentida no decorrer das férias. Esta parte, aliás, da clássica noção de que para se poder apreciar é necessários reparar.
Já os adultos preenchem a tradicional quinzena espalmados por aí, queimando-se como torradas, portando um leque de parafernálias ditas indispensáveis, caminhando para lá e para cá a ritmos preguiçosos, dormindo e dormitando um pouco por todo o lado. Todos nos subtraímos à noção de que aqueles são de facto os escassos dias do ano em que não há dependências intrusas vindas de fora da família, devendo por isso dar azo a algo mais do que as previsíveis actividades.
Se nos queixamos da rapidez com que percorremos as férias, talvez em muito se deva a um assumir, típico no resto do ano, de rotinas aparentemente distintas daquelas levadas no restante ano, mas que na sua polpa mantêm as contra-indicações das outras. As férias são a prova do quão forte é a política da mecanização e da absorção da consciência, de que tanto nos queixamos ao longo do ano.
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Sobre a pedagogia do vendedor

As características desejáveis num vendedor devem superar as de um mero intermediário entre o cliente e a mercadoria.
Nem sempre a presença do cliente simboliza a certeza daquilo que pretende, podendo apenas manifestar um impulso base sobre o qual se concretiza ou não uma compra. Cabe ao vendedor saber clarificar no cliente o seu desejo, abrindo também alas à projecção da sua arte e técnica de venda.
Calha de acontecer que o cliente faz-se presente num estabelecimento apostando as suas incertezas na experiência que assume existir naquele que a atende, tendo pois ambições de que este por conselhos, sugestões ou recomendações, faça a sua pedagogia de vendedor, crucial para que o cliente crie confiança no produto que julga querer adquirir.
Aconteceu-me já, porém, chegar a um balcão e dar com um vendedor tão ou mais ignorante que o próprio cliente, não se imiscuindo do auxílio ao cliente, ficando expectante a uma decisão por parte deste, comprometendo o à vontade deste na matéria. Tais pessoas não reúnem condições para liderar o atendimento a clientes, devendo ser, caso persistam nessa filosofia, afastados desses palcos do comércio a que chamamos balcões.
Um não entendimento da necessidade de participar no processo de aquisição, por parte do vendedor, é uma pista para o seu não entendimento de que, salvo casos de obstinação do cliente ao acercar-se do vendedor, qualquer processo de compra exige do vendedor uma atitude de comprador simultânea aos seus deveres de promotor das vendas. Justiça seja feita aos que pecam por defeito, pois também já contactei com vendedores que apostam no exagero do seu papel de cliente, ultrapassando a meta de clarificação do cliente e dando a sensação de genuínos impostores, teatralizando as vendas e abrindo vagas ao sensacionalismo. Vender não é o simétrico de comprar, é tão só o comprar a confiança com a venda de ideias.
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Sobre a febre dos currículos

Os currículos de hoje estão repletos de certificados e comprovativos de formação, entre outros diplomas e atestados, funcionando os mesmos como comprovativos de formação e de qualidade, ainda que aqui seja preciso um dose de calma.
Apesar de ser obrigado a ressalvar a serventia de tais documentos, pois a época actual não é dada a palavras de honra, julgo que há uma mentalidade para a busca e sobrevalorização incessante destes documentos. A sua sobrevalorização acarreta muitas vezes um esforço desmedido no sentido de obter, por meios lícitos ou não, classificações honrosas, o que, quando não controlado, deixa de ser salutar e de ser manifestamente compatível com os propósitos de qualquer curso: a aprendizagem.
Quando não se aproveitam os cursos com naturalidade, trabalhando o melhor possível dentro das regras do jogo, qualquer resultado final injusto e desequilibrado.
A concorrência é a grande matriarca dos caçadores de certificados, pois age como repelente mental da normalidade, criando estados de tensão que desencadeiam respostas de natureza atípica e anormal. Claro está que na busca de um emprego, por muito que não se deseje, o currículo constitui peça fundamental de análise, mas a questão, do ponto de vista de quem pretende empregar-se, deve ser lançada de outro miradouro. Falei algumas vezes a amigos, e passo a partilhar: não será preferível levar uma vida correcta e normal, obtendo resultados justos face às capacidades, os quais podem nem sempre chegar a excelentes, mas correr o risco de ser admitido e superar as expectativas? Assim evitar-se-ia o tombo sofrido por muitos pajens dos certificados, que são integrados nas empresas como autênticos supra-sumos da sabedoria técnica, e que depois fraquejam porque não reúnem valias ao nível da presença relacional entre os colegas ou se retraem quando são chamados a momentos da verdade. É preciso aprender a conviver com as limitações sem frustrações e aproveitar as devidas ocasiões para contraria-las, nunca o contrário.
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Sobre a coerência personalística



* * * 

Por mais que alguém pretenda ou se esforce para adquirir a manutenção de uma uniformidade de decisão, pensamento e comportamento, é particularmente hercúlea a tarefa de conseguir sair-se bem em qualquer momento, entendendo-se por sair bem o resultado de haver conseguido manter a coerência  numa dada situação. Há todo um trabalho contínuo diário que deve ser posto em prática no sentido de evitar a exposição a nu de contrariedades naturais num espírito destreinado para o rigor que se deve imprimir à personalidade.

Muito do mal dizer que espontaneamente surge relativamente à pessoa de cada um parte de reconhecimentos pontuais de falta de consistência, de momentos particularmente ricos numa qualquer antítese personalística. Por vezes, a diferença entre o nada ter a apontar e o ter situa-se unicamente à distância da memória ou não desses momentos onde, mesmo que inconscientemente, se criam dubiedades e contradições que em nada abonam à consistência individual transmitida socialmente. O ter consciência dessas lacunas nos outros deve constituir uma prova da possibilidade de haver o efeito reverso: o de cada um nós poder gerar e transmitir, analogamente, sinais de defeituosa uniformidade susceptíveis de reconhecimento externo.

Urge então a necessidade de recordar com precisão que decisões, pensamentos e comportamentos tidos em momentos passados passíveis de ser considerados similares a uma situação presente, e de assumir a responsabilidade de cumprir ao máximo com os padrões previamente definidos nesses momentos antigos, para bem da reputação social e da valorização presente da pessoa que assim procede.

Tal actividade é a meu ver complicada o suficiente para não ser possível constringir a margem de erro a níveis baixos. Este facto constituiu certamente um motivo de satisfação para a classe dos advogados, que assim podem esquecer a questão da verdade do crime para discutir a coerência da personalidade, fazendo usufruto deliberado desta fraqueza humana.


Publicação original: 06/2007
Reedição: 11/2020
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Sobre as relações de conceitos

Dificilmente somos confrontados com a ideia de que é necessário saber ligar conhecimentos para se chegar algum dia à sabedoria absoluta.
Um homem que conhecesse todos os aspectos do mundo em que vive, nunca poderia ser um homem absolutamente sábio na medida em que apenas constituía uma base de dados suficiente para ressuscitar, através de exercícios de memória, informações avulsas. Existe algo superior à catalogação de conhecimentos, que é a relação dos conhecimentos. Um relacionamento do total de conhecimentos passíveis de catalogação traria um rol infinito de novos conhecimentos, que, por sua vez, poderiam ser outra vez sujeitos a novo cruzamento por relações, de forma ciclicamente infinita.
A falta de entendimento da veracidade deste processo mostra de forma clara a nosso distanciamento da sabedoria absoluta. Tendemos a relacionar corriqueiramente de forma viciada, culminando cedo de mais em conclusões a que ousamos chamar de conhecimento. Se o mundo se resumisse ao peixe, ao tomate e às batatas ninguém seria sábio absoluto apenas por conhecer estes 3 dados base: faltaria pelo menos a noção de caldeirada.
Temos então sabedoria como um processo duplamente árduo, de catalogar as premissas do mundo, passo pelo qual ficamos quase sempre, e a etapa de relacionamento total para a obtenção do verdadeiro conhecimento racional, o único que faz a diferença, pelo potencial criativo e inovador.
Fico tentado, posto isto, a atestar que tendo, cada vez mais, a apreciar aqueles que são capazes de fazer asserções espontâneas de conceitos de menos óbvia conexão; em detrimentos dos que se revelam autênticas enciclopédias ambulantes. Farto do estereótipo de sabedoria actual, começo a procurar ser eficiente no relacionamento aleatório de conceitos, pois aí reside o verdadeiro desafio da natureza humana.
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Sobre a ética na ciência

Os grande projectos científicos, englobam, no seio dos investimentos que representam, estudos e pareceres legais e éticos sobre os assuntos em que se inserem, buscando estabelecer raios de intervenção cerceadores.
Seria um desgoverno completo avançar progressivamente para aprimoramentos do conhecimento sem que se fizesse sentir ou impor o freio resultante de reflexões racionais sobre os proveitos directos de cada pedaço de conhecimento face aos riscos a ele associados ou ao despoletar de focos potenciais de risco.
A psicologia alerta, porém, para um fenómeno muito comum nas actividades humanas, cuja descrição se identifica pela tendência humana para a projecção de expectativas em situações onde se exige neutralidade e ausência de emotividade.
Ainda que leigo na matéria, preocupa-me essa simultaneidade e dependência entre quem quer retirar proveitos das investigações que sustentam os projectos e quem tem de emitir um parecer ético e meramente racional sobre a mesma investigação.
Torna-se claro que a extrema complexidade e requisitos, que são e exigem, respectivamente, a ciência actual, conduzem a cenários onde o parecer ético mais consistente deveria chegar por parte do próprio cientista que investiga, pois só ele, por dedicar todo o seu tempo e atenção, conhece os meandros reais do seu trabalho. Este, porém, carrega em si a vontade de saber mais, o desafio de chegar mais longe, e como tal balanceia a ética do seu estudo com a vontade de que é portador, correndo o risco de eclipsar o propósito maior da ética, que é impedir o alcance de paradigmas que ameacem a natureza e o sentido de humanidade.
Dada a conjuntura em que nos encontramos, fértil na crise de valores, o maior desafio de quem faz ciência, a meu ver, é conciliar a obtenção de mérito científico com o reconhecimento da insustentabilidade de certas opções, pois não há mérito maior do que evitar o mal pela abdicação da descoberta da maldade.
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Sobre o uso da mente


O enorme esforço que o ser humano tem de despender para conferir elasticidade e profundidade à actividade do seu cérebro leva-me a perguntar se não será a actividade mental uma mais valia evolutiva cuja consolidação ainda inexiste.


A preguiça que se ergue quando é necessário estudar, aprender ou explorar mais, motiva esta hipótese que aqui levanto. Ela ganha, aliás, alguma força, se for tido em de linha de conta o facto de que o esforço intelectual paga-se melhor, em termos profissionais, do que as exigências físicas. Isto frequentemente não é muito bem compreendido por quem não conhece a problemática de ter de pensar obrigatoriamente todos os dias, no lugar de cumprir tarefas árduas do ponto de vista físico.

As empresas sabem que dependem de ideias para inovar, para ambicionar ou para projectar, daí se rodearem de peritos que nem sempre são bons profissionais, mas que surpreendem de quando em vez com construções teóricas que, após modeladas, permitem lançar trunfos no mercado e criar riqueza.

Se pensar não fosse um esforço ou desgaste, talvez não houvesse grande vantagem em estudar mais uns anos, em acumular graduações e formações, pois não haveria, em termos de mercado de trabalho, qualquer tipo de vantagem ou aliciante profissional que motivasse essa exigência adicional. Todavia, sobre a hipótese de ser uma vantagem evolutiva não consolidada, isso detém-se exactamente no obstáculo que é pensar. Uma espécie consolidada do ponto de vista intelectual não seria tão reticente em aproveitar o recurso que lhe confere superioridade evolutiva.

Um dos sinais de que todos temos em nós esse respeito pelo esforço de pensar está no reconhecer enorme utilidade a todas as ferramentas tecnológicas que se servem de cômputos, o que não deixa de ser sintomático de que poderemos andar ambicionar superar a não consolidação da mente pela via da tecnologia.
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Sobre a carência de natalidade

A queda de natalidade em alguns países europeus, de que Portugal é exemplo, tem vindo a preocupar e estimular os governos, para o incentivo da reprodução humana.
A meu ver, existe um evento que intercepta este problema da redução da natalidade, que tem ver com o incremento de cultura nos povos, ou seja, com a educação e absorção de conhecimento, de sabedoria.
Para suportar tal ideia, julgo ser necessário estabelecer um relação entre a reprodução e o amor dos casais. Outrora, a mostra de amor entre os cônjuges provavelmente passaria pelo surgir de filhos, que seriam sinal de presença do sentimento de união entre dois seres. Com o advento da instrução, as pessoas passaram a ser independentes no adquirir mais cultura, no fazerem-se cultas sem necessitar de sermões dominicais obrigatoriamente, recorrendo ao conhecimento nos os meios de intercâmbio de informação disponíveis. Houve então a evolução dessa prova de amor de um patamar menos selvagem, para uma vertente mais platónica, onde a prova do amor se diversifica e transcende até o mundo material. Temos hoje a capacidade de amar e mostrar amor com maior pendor intelectual, sem ter de recorrer tão obtusamente ao inevitável acto sexual, apesar de por muitos lados surgirem histórias que contrariam o cerne do que aqui digo.
Perante um mundo de tal forma aliciante e diverso, o cenário que se apresenta às pessoas não é mais o de ter filhos para amar, mas o de amar ter filhos, pois o cansaço de um mundo cada vez mais estimulante e desgastante provoca alguma inércia, pactuada pelos adornos tecnológicos que procuram dar ocupação às mentes enquanto estão nos lares, onde deveriam pender para o objecto família.
Absortos para a reprodução, nem o amor parece fazer grande sentido, daí vivermos em relações pouco duradouras, onde não há projecto comum que segure duas pessoas tempo suficiente para reflectirem sobre os paradigmas da sociedade.
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Sobre a selecção dos cursos superiores

Existe algo que me desalenta um pouco, sempre que é tema de debate, e que agora partilho, dando visibilidade aos pontos mais prementes.
No processo da formação a nível de ensino superior, criou-se a moda das saídas profissionais, como barómetro de selecção de cursos. Ora, nessa linhagem, acontece-me por vezes de ser interpelado quanto ao meu curso, no sentido de informar sobre as ditas saídas. Respondo sempre com uma indefinição, dado que não reconheço um fim único para a formação que estou a receber. Torna-se um pouco impossível contornar a especulação e este tipo de perguntas, porém, elas mostram-me o enorme pendor pragmático e utilitarista com que se seleccionam os cursos superiores em Portugal, do qual Medicina e Arquitectura são exemplos vivos.
Sendo manifestamente suspeito, nesta discussão, agasta-me toda este mecanismo de utilitariedade na formação, porque retira o valor formativo aos cursos, as valências próprias, como se assistíssemos à superioridade do fim em relação à definição, ou mesmo à aniquilação do fim face a uma indefinição, como é o caso do meu curso.
A demanda de portadores de conhecimento aos mais variados níveis é a razão da existência dos cursos todos, a escolha do curso deve, pois, ser trazido para o campo da opção em liberdade, livre de fantasmas ou utilitarismos inúteis, pois não consta que as oportunidades, quando surgem, sejam previsíveis e voltadas para essas tendências do mercado de empregabilidade.
Parece-me que aquilo que se quer fazer valer, e aqui sou um pouco radicalista, é que mais vale escolher um curso cuja formação conduz a uma empregabilidade certa, o que também significa que é irrelevante a qualidade intrínseca a cada formando, pois todos arranjam emprego, do que andar a receber formação numa área específica, mais desfavorecida, onde não haja medo da concorrência por um lugar que seja.
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