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Sobre o arranjar companhia e o deixar de estar só

Arranjar companhia, do ponto de vista ideológico, é uma filosofia distinta daquela encontrada naqueles que querem é deixar de estar sós.
Aquele que está só e quer inverter a situação, parte para o mundo com uma motivação muito mais pragmática do que o indivíduo que sinta precisar arranjar uma companhia.
As relações humanas são matéria de tamanha sensibilidade que nos detalhes é que se resolvem e definem as coisas.
No meu entender, quem procura arranjar companhia sabe o que tem no momento e sabe o que quer e o quer passar a ter. Quem quer abandonar o estado de solidão sabe o que tem no momento, também, mas não sabe o que o quer, nem o que quer passar a ter, porque centra a sua mente na anulação da sua condição de só.
No dia em que escrevo, o mundo acordou com tantas possibilidades e tantas alternativas, que arranjar companhia é processo deixado para planos menores. Tanta ocupação, tanto assunto em que gastar o tempo, tantas metas por que correr, que arranjar companhia não é mais algo óbvio como o foi décadas atrás.
Aos poucos somos mais facilmente acometidos a deixar de estar sós do que a arranjar companhia. Queremos poder responder aos estímulos do mundo, às metas e desafios, mas chegar a casa ou ao telefone e ter um alguém que oiça, ampare, se ria do que se diga. Não mais falamos em arranhar companhia, porque essa é uma batalha adiada anteriormente que derivou para a batalha de não estar só.
Podemos deixar de estar sós encontrando alguém. Podemos trocar de alguém com maior ou menor frequência e assim nos sentirmos sempre com companhia, nem que diferente a cada vez. Outras vias têm de surgir para a consumação do arranjo de companhia, porque mais do que precisar de alguém que rompa com a solidão, aquele que quer companhia, procura por quem lutar, por quem surpreender, numa postura activa e genuína de interesse, talvez vagarosa, mas selectiva sem dúvida alguma. 
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Sobre o querer e a satisfação

Comparar aquilo que vislumbro como possível de ser feito quando estou ocupado e aquilo que efectivamente considero fazer quando tenho tempo livre, é um exercício vital para se justificar muito do comportamento humano.
Mais que uma vez tive este conversa para comigo: se o dinheiro é o que move e motiva as pessoas a não se confortarem com o que têm e ambicionarem mais, porque motivo estes milionários da vida não se mudam para um local remoto e paradisíaco e vivem suas vidas na plena das tranquilidades, longe dos problemas e desgastes?
Na busca de uma resposta para isto, consigo chegar a algumas pistas. Então se eu não consigo fazer aquilo que pretendo fazer, sobretudo quando não posso, porque no momento em que posso parece que pretendo fazer é outras coisas, talvez assim seja com essas pessoas e com todos nós, aliás.
Pergunto-me se, de facto, alguém se mudasse para um desses locais remotos, quanto tempo demoraria a mudar a sua forma de pensar, a dizer: mas afinal é esta a minha contribuição para o mundo?
Só tendo noção de que precisamos de um sentido que nos faça justificar a nossa acção ou falta dela, é que podemos apreciar a vida que temos e os esforços que se nos levantam. Eu posso chegar a casa e decidir que vou passar quanto tempo quiser sentado numa poltrona a sentir o tempo passar, olhando para as paredes e pensando no rumo da minha vida. Mas se o fizer, se facto conseguir chegar a este ponto, que, diga-se, seria uma superação, mais minuto menos minuto, a mente processaria ideias de forma diferente e aquilo que antes fazia sentido, o sentar-me na poltrona, como disse, passa a não fazer. O ser humano é inconstante no seu querer. Quero isto mas quando tenho isto, isto não me chega, quero novamente aquilo que tinha antes disto, ou então algo novo. E isto já nada tem que ver com o dinheiro, isto é a natureza humana a predominar, o vício da constante mudança e da constante insatisfação. 
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Sobre a ostracização em sociedade

Um pouco por todo o lado, mergulhados nesse grande universo de pessoas que constitui a sociedade civil, constata-se a presença de um  grupo de pessoas ostracizadas, que se destaca pela sua fraca alegria, pelo seu timbre de sofrimento, pelo seu ar de meter dó.
Tais pessoas parecem arrastar-se pelos lugares públicos como sendo portadores de uma desmotivação para a vida, de uma passividade que consegue torná-las notoriamente desfasadas da normalidade, pela negativa.
Julgá-las tende a ser imediato, mas dificilmente se chega a perguntar, com a mesma avidez com que se julga, que realidade familiar poderá condizer com tais pessoas.
A nossa forma de pensar e sentir o mundo, não só reflecte bem o tipo e quantidade de problemas pessoais com que somos confrontados, como limita as outras formas de entendimento. Um eventual positivismo pode ser suficientemente avassalador para impedir que se compreenda e respeite que haja estados de alma diferentes deste.
Geralmente, as condições de menor fulgor anímico, pródigas quase a tempo inteiro em muitas pessoas deprimidas, têm como consequência o distanciamento ainda maior, porque aqueles que estejam mais activos e se sintam bem tenderão a aproximar-se de mais indivíduos nas mesmas condições e a evitar prender-se com gente que contraria os seus estados.
Ora é um problema sério este, o da ostracização, visível em muitas crianças com problemas de integração e motivação, mas também detectável em adolescentes e jovens adultos, que depois são como que canalizados pela sociedade para condições de exclusão, e percursos menos comuns, como os cultos e seitas que os transportam para condições de ainda pior reversibilidade.
Mesmo nos adultos mais seniores, é possível encontrar quem que se feche numa concha e viva seus dias numa incapacidade para o optimismo tremenda, certamente insalubre. 
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Sobre o fracasso pelo atraso

O sentimento de chegar atrasado ou tarde de mais a determinado objectivo, situação ou pessoa, nem sempre pode ser contornado pela mentalização de que um atraso para esta oportunidade signifique um adiantamento para a próxima, pela suficiente razão de que pode não haver outra oportunidade seguinte.
Um lugar já ocupado, uma porta já fechada, um autocarro que já partiu, um contacto que já outro descobriu primeiro para os mesmos objectivos, uma meta passada em segundo lugar, uma paixão já ocupada por outrem. Sucedem-se em número e diversidade as frustrações por não se conseguir alcançar de forma pioneira aquilo a que nos proponhamos alcançar.
O mundo desloca-se e desenrola-se independentemente do nosso ritmo, não estando por nada a aguardar a nossa presença para nos entregar as oportunidades de bandeja.
Dominar os nossos fracassos é condição vital para que nos tempos de hoje seja possível manter uma mente saudável. O nosso autocarro já partiu, o nosso lugar ideal no estádio já está ocupado, a nossa oportunidade de promoção esfumou-se, a pessoa que desejávamos conhecer melhor já tem dono, só nos resta de facto saber superar os desaires que se nos impõe à revelia da nossa vontade.
Saudemos este mundo que não nos guarnece com tudo o que queremos, da forma como o queremos, pois é essa luta que dá sabor às conquistas e às decisões arrojadas.
Rendermo-nos ao desaire, achando-nos filhos do infortúnio é erro tão grande como o de escusar reflectir sobre o que correu mal e tentar clarificar até que ponto depende de cada um de nós o sucedido.
Arrisco dizer que a oportunidade seguinte existe na maioria dos casos, ainda que de formas não propriamente iguais em forma, mas idênticas em resultado.
Existirá pois um rumo preciso que converge com a mesma oportunidade que fracassou, perdido no meio do pessimismo ou desistência que dão tudo para nos assomar.
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Sobre a desburocratização do divórcio

A desburocratização do divórcio tem estado na ordem do dia. O tema perturba, levando a reacções potenciadas por emoções, que garantem raciocínios menos ponderados.
Não estou por dentro das medidas do projecto-lei mas tentarei uma breve abordagem.
A meu ver, o Estado não tem de governar as relações que cada cidadão da nação venha a encetar. Vendo bem as coisas, há quem viva casado sem que conste formalmente tal casamento. Devem inclusive já ter morrido inúmeros cidadãos que constituem de casos de casamentos informais que duraram até à morte. Não se pode confundir o que é de facto o casamento, para que não se confunda o que é o seu rompimento.
O casamento é fruto de uma vontade individual que nada tem que ver com o Estado. O Estado entra depois na forma como colecta impostos, garante serviços e trata desses cidadãos e família que venham a constituir. Agora, casamento não é casamento apenas porque consta no registo civil formalmente, casamento é casamento porque as duas partes assim o sentem e entendem. Como tal, não vejo porque motivo o divórcio deva depender tanto do estado, acho, antes, que as pessoas não se devem refugiar nas dificuldades do processo de divórcio para não recorrerem a ele se assim o entenderem, como adultos que são.
A facilitação do divórcio é uma medida altamente democrática, pois transporta para o seio dos casais a liberdade e sobretudo a responsabilidade das decisões, que deixarão assim de estar presas pela lentidão do Estado e pelos custos económicos associados ao lograr um divórcio.
Além do mais, relação alguma se pode esconder por trás do casamento como garante de um meio de familiar. Em muitos a realidade familiar não se aplica, havendo hostilidades de parte a parte e valores estranhos aos desejáveis para o casamento. A liberdade não é só poder votar, a liberdade é poder decidir a vida sem cair no absurdo de julgar ter vida apenas porque algures num arquivo morto de um qualquer departamento diz que se é vivo. O divórcio resolve-se preferencialmente a dois, mas deve depender apenas de um para acontecer, nunca de 3. Entre marido e o mulher, nem o estado mete a colher, nem o elo que não quer, a pode tirar.
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Sobre o cotio da sinceridade

A sinceridade tem tanto de virtude como de defeito. No domínio das relações humanas nem sempre se ganha ao revelar tudo o que pensa ou sente, tal como nem sempre se perde menos ao guardar aquilo que por dentro tem vontade de sair.
Não é possível garantir o que é melhor, mas é possível prever em que situações a alternativa de ser sincero ou não deve ser accionada.
Em tudo o que envolva diplomacia, não no contexto político, mas aplicado ao nível das relações sociais habituais, a ocultação da sinceridade tende a ser um mecanismo de manutenção de uma paz tranquilizante, que afasta percalços pontuais que sempre se criam quando se discorda peremptoriamente ou se secundariza o que se sente em prol do que outrem gostasse que se sentisse.
É provável que a sinceridade possa ser interpretada nos moldes de um texto que escrevi em Fevreiro, chamado About radicalism, sobretudo porque acaba por se tratar de um radicalismo em si, um extremar de posição na comunicação.
Existem depois conjuntos de situações cuja aplicação da sinceridade prendem-se mais com barreiras como medo ou vergonha, do que propriamente com retaliação ou inferiorização.
Agradecer, mostrar apreço, elogiar, premiar, honrar, citar ou gabar, são tudo sinceridades que a serem espontânea só enobrecem a qualidade humana, sobretudo quando a comunicação que serve de veículo está no patamar da honestidade com que o revelamos.
Eu sou adepto da sinceridade, embora nem sempre seja exemplar executante, mas confesso que por vezes conduz a um enveredar por discussões e acesas trocas de argumentos. Já sobre o segundo tipo, certamente não serei exemplar praticante, mas tento guardar para quando realmente julgo aplicável essas manifestações de sinceridade pura, pois só assim se evita a hipocrisia. Não pretendo ser daquele tipo de gente que faz da sinceridade um hábito semelhante a consultar as horas no telemóvel constantemente, pois isso conduz à insinceridade pelo descomedimento das vezes em que se exteriorizam sinceridades vãs.
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About self motivation process

Personal motivation is definitely a key for success and improvement.
Why not start with that classic image of a donkey pulling a cart because of seeing a carrot that a man intentionally tries to catch donkeys attention by using a stick attached to the carrot. This image despite simple and of easy understanding, can be used as a metaphor to our own lives and motivation aspects.
Although in the case of the donkey the animal needs a human to let the work be done with the motivation of a fresh carrot, if we abstract from the connotation of donkey so that comparing is not a problem, I would say that each person can be the donkey and the human of that image on personal life.
To explore that I call some moments of life in which a motivating activity that will occur later acts in the precedent activities as a source of motivation, producing by that a motivation otherwise difficult to get. This is the case of being the donkey and the human, while the carrot is the later activity and the cart the such moment.
A person that has an encounter with friends, a play to watch, or any pleasured activity planned to have or do, will be a case of self motivation based in the principles of the donkey, the human, the cart and the carrot.
Because lives tend to be monotonous during the week as a result of job compromises, people lose quality of living by having no tricks like that to reach higher level of motivation during boring or predictable tasks.
In the same way people plan weekends, I suppose weeks should deserve a certain planning to. Films, plays, dinners, meeting, receiving visits, walks, games, phone calls to family and other things could improve the will of facing a whole week of stress and activity.
It is true the we all survive without interfering in motivation process, but will be a slave of donkey position and the stick with carrot will hardly be in own hands.
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Sobre a religião: a impregnação da cultura

Vivendo hoje num mundo particularmente avesso a fixações culturais, fértil antes no confluir de perspectivas, práticas e tradições de que a globalização tratou de disseminar por todo o lado, questiono veemente o aprisionamento cultural ainda vivido em Portugal, onde a cultura está tão impregnada de religião, que é impossível não tropeçar nela.
Causa-me particular afrontamento a forma como é árdua a fuga a resquícios da religião. Gente que vive à margem da religião, efectivamente, parece ter de recorrer a ela para concretizar certas formalidades da vida, como o casamento ou sepultamento. De facto, embora existam formas alternativas de se fazerem as coisas, é absolutamente raro o caso de autonomia, sendo essa aparente dependência um obstáculo sintomático da forma como Portugal ainda é um estado aprisionado a uma Igreja. Esta situação é aliás previsível, se tivermos em conta que este país, comparado a outros, ainda é um paraíso monocultural, alheio às outras gentes do mundo, e como tal perspectivas diferentes.
Muitos poderão dizer que realmente só segue as práticas quem quer, mas a verdade é que noto vivermos num meio muito tradicionalista, muito adepto do arcaico, que se vê amarrado e servo de uma concepção única da vida, e da forma de estar do mundo.
Não há condições aliciantes à diversidade, há antes, uma cultura que marginaliza práticas alternativas. Ora religião e cultura não sendo sinónimos à partida, tocam-se exageradamente no contexto português, caindo numa esquizofrenia preocupante, quanto mais não seja pelo formato que páscoa e natal adquiriram em termos de sentido meramente económico e lúdico, conservando, contudo, as designações religiosas, ou pela maneira como os cidadãos menos ariscos a se assumirem, vão vivendo as vidas pincelando o seu percurso com momentos de fraca ou nenhuma prática religiosa e outros de conveniente recorrência à mesma.
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Sobre a religião: a obstrução do livre pensamento

Não concordo com as religiões porque elas restringem o entendimento e barram o livre pensar pela imposição de esteios com vista à demarcação de um caminho.
Mais grave que isso, não gosto delas pela forma como se apoderam da verdade, a presunção com que se julgam fadadas a conduzir as vidas das pessoas, pronunciando-se para além dos seus propósitos. Lembro-me dos tempos de infância que o discurso de freiras e catequistas era de uma obstinação tremenda, vagueando por conceitos que quando misturados produziam cápsulas de confusão capazes de circunscrever o entendimento e de aturdir tudo e todos. Milénios de história mostram-nos que a qualidade de vida de hoje se deve mais à exploração de novas ideias e perspectivas, do que ao retraimento de espírito constante. Não são conhecidos os esforços da religião por educar, mas por ministrar as suas crenças e julgá-las alimento suficiente. Reparemos que durante séculos a igreja nunca fez nada para que o povo se instruísse. Se hoje a educação está na agenda da religião, que se diga também que não é subsidiada por ela, mas como forma de negócio, sempre alicerçada pelo condicionamento do pensamento dos discente às suas fés e práticas.
A minha experiência pessoal mostrou-me que a educação ministrada através da religião peca pelo bloqueio de alternativas, pela anulação do espírito curioso e pela mistura da catequese com o mundo real, domesticando a natureza à dubiedade e subjectividade das escrituras.
Como não notar que a religião é um estorvo ao futuro? Ela esforça-se por refrear sempre os ânimos, ela presta-se ao passado e fixa-se à única temporalidade impossível de comprovação intelectual: a que nos precedeu.
Por negar em mim o bloqueio às minhas conclusões, às minhas críticas, às minhas teorias e às minhas dúvidas, repudiei a religião da minha vida. Tenho a porta aberta para ser deus da minha vida, para responder por mim, para acreditar em mim.
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Sobre o elogio e a crítica

No contacto com os outros, levado a cabo dia após dia, assim como sempre que sobre situações externas recai o olhar pessoal, a crítica assume-se como alternativa mais apetecível do que o elogio, por razões diversas.
O hábito de elogiar dá conta de ser mais árduo de garantir, talvez por meras considerações de honra e poder. A pessoa que elogia, comparada à que critica, presta um tributo ao outro, indicando pelo elogio que aprecia o nível e provação afecta ao outro. Nem sempre estamos dispostos a mostrar ao outro a nossa apreciação positiva do seu trabalho, esforço ou resultado, criamos em nós uma teia de vergonha, um rancor mesquinho que nos leva acreditar nos estamos a inferiorizar ao outro, para mal do ego pessoal.
Também é verdade que o elogio é tanto mais efusivo e fácil na ignorância do que na sabedoria, apesar de haverem excepções, sobretudo porque quanto mais sabemos menos certos e seguros estamos do valor e utilidade de algo.
Não encontro na sociedade o hábito de elogiar, encontrando em excesso a mania de criticar tudo e todos. Muitos não se aperceberam, ainda, que um elogio pode temperar e abrir a porta à aceitação de uma crítica, ou pode ser feito depois de um crítica feroz para mostrar que os mesmos olhos que rejeitam são também capazes de apreciar, muito útil em alguns momentos.
Tal dificuldade em elogiar é expressamente notória não só pela frequência com que o fazemos, como pela forma com que o fazemos. Há elogios que surgem apenas para contrapor fraquezas, ou para arremessar críticas simultâneas por sua via.
Derivações à parte, aproveito para apelar ao elogio, para que se cultive o optimismo, mas essencialmente porque não raro eles surgem inesperadamente, tornando risonho algum momento da vida. Porque não juntar o útil ao agradável, engolir o ego, e surpreender o outro com elogios, para bem dum melhor e verdadeiro dia-a-dia?
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Sobre a celeridade das férias

Chega o Verão, as escolas encerram, os escritórios esvaziam, tudo se esvai de moldura humana excepto os destinos turísticos ou afectos ao lazer. As férias são o momento alto, geralmente, de cada ano, podendo figurar como vingança de um rol de inglórias ou apresentar-se como o coroar de um conjunto de vitórias, sendo mais natural, contudo, situar-se algures no meio destes cenários.
Independente da duração das férias, no cômputo geral identifica-se um sentimento generalizado de celeridade nas férias, como se houvesse uma inconsciência do passar do tempo para depois se acordar perto do retomar de actividades e haver lugar a lamentos e lamúrias.
Entre a juventude, a febre do nada fazer, que em suma resume muitas ocorrências, como o ir à praia, o assistir a séries, filmes e novelas na televisão, ou o jogar nos computadores e consolas, presta um grande contributo para essa fugacidade sentida no decorrer das férias. Esta parte, aliás, da clássica noção de que para se poder apreciar é necessários reparar.
Já os adultos preenchem a tradicional quinzena espalmados por aí, queimando-se como torradas, portando um leque de parafernálias ditas indispensáveis, caminhando para lá e para cá a ritmos preguiçosos, dormindo e dormitando um pouco por todo o lado. Todos nos subtraímos à noção de que aqueles são de facto os escassos dias do ano em que não há dependências intrusas vindas de fora da família, devendo por isso dar azo a algo mais do que as previsíveis actividades.
Se nos queixamos da rapidez com que percorremos as férias, talvez em muito se deva a um assumir, típico no resto do ano, de rotinas aparentemente distintas daquelas levadas no restante ano, mas que na sua polpa mantêm as contra-indicações das outras. As férias são a prova do quão forte é a política da mecanização e da absorção da consciência, de que tanto nos queixamos ao longo do ano.
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Sobre os recintos prisionais

Uma larga maioria das pessoas vive as suas vidas sem se aperceber da realidade das prisões e do seu efeito na adequação da conduta humana.
Longe de ser um perito na matéria, proponho-me unicamente investigar pela forma de reflexão o recurso à prisão como mecanismo de correcção ou penalização.
Desde cedo se soube entender que a privação de liberdade de movimento, constitui uma forma de estorvo para o ser humano. Qualquer um sabe bem o quão crucial é dispersar em determinadas alturas da vida. Ora as prisões aparentam ser essencialmente privações de movimento, que conjugam ainda outras privações humanas. Tenho para mim a ideia de que as prisões cumprem o seu objectivo de penalização recorrendo a um tipo de artifícios diferente daqueles que se esperaria. Os reclusos, em geral, e tanto quanto sei, saem da prisão de alguma maneira corrigidos mais por força do medo e aversão a retornar àquele espaço do que por haverem criado uma introspecção no sentido do entendimento da orla de questões que medeiam um crime. Refiro-me com isto ao uso de um fantasma, criado numa cidade de grades, que visa suster futuros ímpetos criminosos pelo temor, prática que é lamentável.
Podemos falar, então, numa dupla prisão: aquela para onde são mandados os réus e aquela criada na mente dos mesmo, quando saem desses estabelecimentos. Ninguém acredita no poder renovador de uma prisão, dado todos sabermos que não deveras trabalho psicológico construtivo nesse espaço, pelo que se procura evitar o mal criando um mal (-estar) mental.
Todos os cidadãos que contactam com os que retornam à vida normalizada, por força da descrença interior no poder educacional dos recintos prisionais, se tornam também presidiários em si, já que vivem também atemorizados pelas eventuais lacunas do processo de correcção (supostamente) levado a cabo nas prisões.
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Sobre o bom humor para a felicidade

A manutenção de um permanente estado de bom humor, de forma exercitada, é vital para a contínua sensação de felicidade.
Reporta a experiência que há uma vantagem enorme em encarar o mundo com olhos de quem quer rir, na empírica medida de que se estabelece, desde logo, a opcionalidade de transitar para o campo da seriedade de forma intencional, criando assim um mecanismo de controlo do sentimento de felicidade.
Ocorre-me relembrar que o sentimento de felicidade, nas condições que referencio, parte do pressuposto de que a seta direccional se posiciona do eu para o mundo e não do mundo para o eu. Quero com isto dizer que está em nós a felicidade e a infelicidade, cabendo-nos, pois, optar por uma delas de acordo com a forma de encarar o mundo. No meu caso, tenho procurado naturalmente a felicidade pela tal gestão do bom humor de que falava.
Sabendo que muita da infelicidade pessoal reside no reconhecimento das limitações pessoais postas a nu pela realidade diária, pela gestão do bom humor procura-se não ocultar as mesmas perturbações, mas sim evitar que o eu se leve demasiado a sério a ponto de se frustrar com a própria lupa com que se observa. Neste exercício, além de se impedir a infelicidade pontual potencialmente existente pode-se chegar a incrementar a própria felicidade, pois o eu torna-se moldável e receptivo à exposição colectiva podendo ser até motivo para divertimento.
Não posso, todavia, cessar esta intervenção sem referir a fragilidade maior de acreditar na manutenção de bom humor. Acontece que a prática extrema destes desígnios é passível de conduzir a pessoa para o campo do absurdo, enraizando uma tendência para a banalização excessiva do eu e para a inexistência de um sentido crítico sério e construtivo que deve sempre existir, como elemento tutelar da racionalidade e do sentido social que o eu deve ter.
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Sobre a pirataria musical

Ouvi na semana passada dizer, e bem, que os portugueses não são sensíveis aos direitos musicais de autor, achando normal a colectivização de produções particulares.
Já me bati diversas ocasiões pelo cessar da pirataria junto dos que me são próximos. Muitas vezes fui confrontado com argumentos diversos, como o excessivo preço cobrado na aquisição de qualquer álbum lançado, ou aquele mais anárquico que assenta da ideia de que: se todos fazem porque serei diferente?
E eu vou respondendo com a chamada de atenção, para o que é do foro particular, do trabalho criativo de cada um, que tem o seu valor e deve ser cobrado. No limite apelo à relação sentimental que o ouvinte tem para com o artista, alegando que é no mínimo uma falta de respeito para com alguém que a pessoa pode até venerar. Não faz sentido ser-se fiel a uma artista mantendo cópias piratas na gaveta das suas colectâneas.
Esta conversa só faz sentido porque há alternativas. Não é preciso gastar dinheiro na compra para ouvir o que se gosta. Basta abdicar do selvagem desejo de posse.
Numa altura em que os computadores tendem cada vez mais para um estado de constante ligação à rede, porque não optar pela execução das faixas desejadas na própria rede, sem haver lugar a uma por vezes problemática ocupação do disco pessoal? O tempo perdido a sacar obras inteiras poderia ser dedicado à pesquisa na rede de sites dispostos a pagar os tais direitos negligenciados por muitos em troca de visitantes famintos de música. Os mesmos sites até se dão ao trabalho de tocar géneros, permitindo descobrir novos artistas de estilo idêntico.
Torna-se esquizofrénico recorrer à pirataria neste cenário.
Deixo-vos 4 sites, dos quais me sirvo recorrentemente com a felicidade de me sentir legal e de bem com aqueles de quem sou fã.

www.1club.fm ; http://www.videocodezone.com/ ; http://www.last.fm/ ; http://www.hotget.com/
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Sobre o vício da novidade

Em tempos onde a produção escasseava, onde não havia essa coisa das prateleiras cheias de produtos para venda, nenhuma outra opção se impunha que não a de resignação perante a ausência de novidades ou uma derivação da busca por novidades para outros campos que não os da comercialização de produtos.
Nos dias de hoje, bem como de forma ascensora no futuro, a busca pelas novidades, facilitada pelos pólos e galerias comerciais que conjugam diversidade com quantidade e até com preço reduzido, permitem ao ser humano desfrutar da sensação de saciedade e preenchimento com uma frequência elevada.
As crianças recebem e querem cordilheiras de brinquedos quer pela curiosidade quer pela alegria de posse, de ter propriedade sobre mais um objecto.
As pessoas ouvem músicas que não têm problemas em repetir-se, diferindo quase nada às vezes, partilhando o tema de acção, retratando coisas idênticas com variações mínimas, como se o importante fosse o ouvir sempre o novo, aquilo que apesar de já existir, é lançado novamente no mercado.
Os filmes nem sempre têm dignos motivos para ser lançados, pois acrescentam nada, mas ainda sim são visionados, o mesmo acontecendo com as novelas, que esgotam enredos por serem tantas, e que são literalmente devoradas pelas pessoas.
As livrarias estão repletas de autores que descobrem uma fórmula (ou será forma?) mágica de produzir obras em série, repetindo ganhos nessa busca desenfreada das pessoas por um novidade que só o é no acto de comprar o que é lançado no momento, mas que pouco ou nada tem de criativo para ser considerado novo a esse nível.
A monotonia do dia-a-dia cresce na mesma proporção em que se perde o pudor de chamar novo ao que é uma repetição, ao que só é novo por não ter estreado, mas que não resulta de inspiração superior àquela necessária para copiar ou que tem um grau de complexidade perfeitamente acessível a qualquer pessoa com tempo.
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Sobre a carência de natalidade

A queda de natalidade em alguns países europeus, de que Portugal é exemplo, tem vindo a preocupar e estimular os governos, para o incentivo da reprodução humana.
A meu ver, existe um evento que intercepta este problema da redução da natalidade, que tem ver com o incremento de cultura nos povos, ou seja, com a educação e absorção de conhecimento, de sabedoria.
Para suportar tal ideia, julgo ser necessário estabelecer um relação entre a reprodução e o amor dos casais. Outrora, a mostra de amor entre os cônjuges provavelmente passaria pelo surgir de filhos, que seriam sinal de presença do sentimento de união entre dois seres. Com o advento da instrução, as pessoas passaram a ser independentes no adquirir mais cultura, no fazerem-se cultas sem necessitar de sermões dominicais obrigatoriamente, recorrendo ao conhecimento nos os meios de intercâmbio de informação disponíveis. Houve então a evolução dessa prova de amor de um patamar menos selvagem, para uma vertente mais platónica, onde a prova do amor se diversifica e transcende até o mundo material. Temos hoje a capacidade de amar e mostrar amor com maior pendor intelectual, sem ter de recorrer tão obtusamente ao inevitável acto sexual, apesar de por muitos lados surgirem histórias que contrariam o cerne do que aqui digo.
Perante um mundo de tal forma aliciante e diverso, o cenário que se apresenta às pessoas não é mais o de ter filhos para amar, mas o de amar ter filhos, pois o cansaço de um mundo cada vez mais estimulante e desgastante provoca alguma inércia, pactuada pelos adornos tecnológicos que procuram dar ocupação às mentes enquanto estão nos lares, onde deveriam pender para o objecto família.
Absortos para a reprodução, nem o amor parece fazer grande sentido, daí vivermos em relações pouco duradouras, onde não há projecto comum que segure duas pessoas tempo suficiente para reflectirem sobre os paradigmas da sociedade.
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Sobre o adiamento da felicidade

Num mundo cada vez mais fértil em oportunidades e opções, progressivamente se revela maior a problemática da procura e encontro do estado de felicidade.
A chegada de um novo dia, como sequência do dia anterior tem quase sempre como significado continuar algo previamente principiado e raramente é visto como um dia único, singular e irrepetível.
Acontece pois o aparecimento de uma sensação de adiamento da felicidade, quase como uma utopia de fé, criada para iludir a aspereza do presente, como um elixir que impele a vontade à chegada do futuro.
Vê-se então o ser humano a formular ideais, em que ingenuamente se convence que depois disto que está a fazer, ou daquilo que só a partir de xis cessará, é que a felicidade genuína lhe baterá à porta.
E como erra o ser humano ao ludibriar-se recorrendo a esta malha de lógica viciada.
Este mecanismo de estancar o terror do presente, com vista num marco futuro incerto, está para o ser humano, como a imagem de animal que puxa uma carroça iludido por uma cenoura que, suspensa à altura dos seus olhos, o faz querer alcança-la a todo custo, mesmo que tendo de puxar uma carroça.
A felicidade, ao contrário do que possamos sentir, depende mais da nossa exigência e atributos intelectuais do que do cruzamento de factos do mundo.
Ninguém deve viver no adiamento da felicidade, porque ela, tal como o tempo, a juventude, a saúde ou a vida, não são fenómenos estáticos ou consolidados, são estados dinâmicos, ausentes de concretização finita.
Termino com uma consideração final: perante o imbróglio de variáveis a que o mundo moderno se debate, a missão do homem no campo da felicidade, é saber extrair do seu presente, sempre pela via do pensamento, a felicidade que alimente a sua alma, ao invés de a adulterar com o vício de um futuro onírico, de chegada inexistente.

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