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Sobre o visionamento de filmes

Hollywood Hills - Richard Combes (2025)

Há pessoas que devoram colectâneas inteiras de filmes, dando lucro a uma indústria cada vez mais enriquecida e preponderante.

Sendo eu um cinéfilo medíocre, facto que não escondo pois não me envergonha, há algo que me descobri em conhecidos meus que fazem da sétima arte o passatempo quase predilecto. É de alguma forma estranho ver que muitos espectadores visionam imensos filmes sem intervalar o fim de um e o principiar de outro, criando assim uma película quase contínua. Mais grave do que isso, porém, é a ausência de posicionamento perante cada obra, ou seja, é o captar o sentido directo e fechar a mão aos temas abordados nos interstícios de cada enredo. Torna-se frustrante notar que a maior parte desses cinéfilos mais evoluídos socorre-se da sua experiência para citar realizadores, actores e actrizes, principalmente, sem que presenteiem os outros com as suas experiências pessoais no campo das temáticas, das políticas, filosofias, psicologias ou éticas associadas às obras.

Não é que seja obrigatório falar destes assuntos ou intervalar um tempo fixo entre cada sessão, apenas me é estranho não permitir à obra penetrar na consciência, pondo a nu argumentos nem sempre perceptíveis e mexendo com alguns pilares do cerne de cada personalidade.

Quem agradece toda esta balbúrdia impensada do consumo são os estúdios, que descobrem fórmulas mágicas de cativar, gravando sem parar aquilo a que se pode chamar um género de petróleo televisivo.

Gostaria de no futuro estar mais atento à indústria cinematográfica e ver mais do que os filmes tidos como indispensáveis, mas ainda assim, muito provavelmente manterei a minha vontade de intercalar cada nova obra com o devido tempo para a digerir. Ver por ver, só para recordar caras e explosões julgo que é perder tempo e fazer parte de um filme do qual não pretendo ser coadjuvante de qualquer natureza.


Publicação original: 29 / 07 / 2007
Modificação: 07 / 01 / 2026

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Sobre a barragem da leitura

Vejo uma enorme diferença entre os estudos sobre os níveis de iliteracia e os níveis efectivos de iliteracia sentidos no dia-a-dia nacional.
No espaço de uma semana foi presenteado com situações várias cujo mote foi sempre alguém a recorrer a instruções verbais quando no seu campo visual estavam as informações necessárias à distância de uma leitura.
Tais ocorrências fizeram-me pensar no ilusório conhecimento apontado por todos esses estudos de massas.
Sugestionado ou não pela repetição de casos, ouso apontar a existência de uma preguiça visual a tal ponto implementada nos subconscientes que já nem permite detectar uma informação importante quando esta se faz necessária.
Eu duvido que tal fenómeno esteja limitado a faixas etárias ou a gerações próprias, mas reconheço que anda por aí expedita na sua acção. Aquilo que me inquieta é notar que semelhante efeito, acoplado a outros que também afectam a prática salutar e básica da leitura, pode ser visto como uma praga à comunicação, dado que a escrita é uma forma mais efectiva na comunicação colectiva, do que a simples repetição sonora da informação, essa sim entediante.
Não posso deixar de acreditar que a rapidez de informação tem também uma culpa a assumir, dado que caminhamos cada vez rumo a a uma velocidade que não é condizente com a temporização exigida pela leitura de modo a que seja uma ferramenta do conhecimento sólido. Mesmo a leitura de livros, apresenta-se para muitos como uma maratona da rapidez, ao longo da qual se vai contando constantemente a massa de papel que ainda falta percorrer, numa clara vontade de passar ao seguinte sem quase terminar o próprio livro que previamente se assumira querer ler. Os ritmos estão a chocar-se, cabendo a cada um viver no meio de tamanha mixórdia de exigências ou limitações e simular o resto para paz de espírito.
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Sobre os graffiti

Alguma tendências urbanas são avidamente criticadas e desvalorizadas por todos os que se afirmam emancipados das práticas adoptadas pelas gerações mais modernas que as suas.
Os graffiti, pinturas urbanas que transmitem todo um pensamento e filosofia de algumas gerações modernas, são um dos alvos mais apetecíveis desses críticos, pelo impacto que causam no panorama visual dos ambientes públicos.
Ainda que não me identifique de todo com essa libertinagem maioritariamente irresponsável, julgo-a altamente potencial de valorização caso seja domesticada àquilo a que designamos por ordem pública e deveres cívicos.
Gostaria no entanto de introduzir o motivo principal deste texto. Cabe a cada um apelidar de graffiti o que bem entender, pelo que a sua crítica em muito dependerá da análise efectuada. A vertente menos louvável desta prática, tende a ser o motor de toda a definição do termo, abrindo, a meu ver portas, para a amplificação da abrangência do termo.
Posto isto, dificilmente me demoverão da conclusão de que todas as pinturas recentemente espalhadas por alguns espaços públicos (como nas redondezas do Hospital de São João, no Porto) informando e quiçá apelando à greve no dia 30 de Maio, são formas de manifestação tão ou mais condenáveis como o graffiti. Ainda hoje se podem ver nas fechadas e pisos estas pinturas, dado que ninguém apareceu para a impedir o seu entendimento como lixo e irresponsabilidade.
Como poderão, pois, querer barrar e impor-se contra os graffitis todos os autarcas que fecham os olhos a pinturas como a da greve? Trata-se de um alibi para os que persistem na criação da pintura urbana. Não é crível que se adoptem certos actos equivalentes aos menos desejados, segundo normas e sentimentos vários, e que se assuma uma moral, póstuma do pensamento, para minimizar o que quer que seja.
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Sobre a virtude na obrigação

Com alguma naturalidade confundimos em sucessivas ocasiões a virtude com outros aspectos que se gostam de camuflar com o seu aspecto e sinais.
A virtude reserva a sua designação para situações de liberdade de decisão, quando a escolha mais louvável é aquela tomada. Daqui há a reter a parte da liberdade de decisão. Não se compreende que descontroladamente clamemos e certifiquemos como virtude resoluções e opções que são meramente do âmbito da inevitabilidade.
Passo desde já a exemplos. Quando nos voltamos para o exemplos dos nórdicos e seus altos índices de educação, torna-se imediato concluir a existência das suas virtudes para a formação do ser. Nunca se nos coloca a questão de saber até que ponto é inevitável para um nórdico ter de estudar. Sendo inevitável, situação deixo para outrem a confirmação, a virtude deixa de estar patente, visto que apenas cumprem aquilo que lhes é consequente.
Outro exemplo. A não ocorrência de um crime, só é uma virtude, se cada potencial assaltante estiver em condições de assaltar e não o fizer. Não se pode colocar a questão da virtude do assaltante, quando o policiamento e o controlo da segurança é apertado, pois aí o assaltante mesmo querendo vê-se no impedimento de assaltar.
Pretendo com isto alertar para esta falácia do senso comum, que não raro coroa de forma irregular. Há uma particular riqueza neste país, e falo deste por não conhecer os outros, para este tipo de análises.
Esta questão pode porventura ser levada até ao campo político, onde se poderá afirmar que um autoritarismo como o que vivemos com Salazar, do qual falo sem experiência pessoal, facilmente conseguiria ter como ideal promover a virtude dessa forma falaciosa que enunciei, através do bloqueio dos opostos ao ideal. Também a história mostrou não residir aí virtude suficiente para merecer perdurar no tempo, sinal de que a virtude procura o seu espaço para romper contra qualquer previsão.
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Sobre a coerência personalística



* * * 

Por mais que alguém pretenda ou se esforce para adquirir a manutenção de uma uniformidade de decisão, pensamento e comportamento, é particularmente hercúlea a tarefa de conseguir sair-se bem em qualquer momento, entendendo-se por sair bem o resultado de haver conseguido manter a coerência  numa dada situação. Há todo um trabalho contínuo diário que deve ser posto em prática no sentido de evitar a exposição a nu de contrariedades naturais num espírito destreinado para o rigor que se deve imprimir à personalidade.

Muito do mal dizer que espontaneamente surge relativamente à pessoa de cada um parte de reconhecimentos pontuais de falta de consistência, de momentos particularmente ricos numa qualquer antítese personalística. Por vezes, a diferença entre o nada ter a apontar e o ter situa-se unicamente à distância da memória ou não desses momentos onde, mesmo que inconscientemente, se criam dubiedades e contradições que em nada abonam à consistência individual transmitida socialmente. O ter consciência dessas lacunas nos outros deve constituir uma prova da possibilidade de haver o efeito reverso: o de cada um nós poder gerar e transmitir, analogamente, sinais de defeituosa uniformidade susceptíveis de reconhecimento externo.

Urge então a necessidade de recordar com precisão que decisões, pensamentos e comportamentos tidos em momentos passados passíveis de ser considerados similares a uma situação presente, e de assumir a responsabilidade de cumprir ao máximo com os padrões previamente definidos nesses momentos antigos, para bem da reputação social e da valorização presente da pessoa que assim procede.

Tal actividade é a meu ver complicada o suficiente para não ser possível constringir a margem de erro a níveis baixos. Este facto constituiu certamente um motivo de satisfação para a classe dos advogados, que assim podem esquecer a questão da verdade do crime para discutir a coerência da personalidade, fazendo usufruto deliberado desta fraqueza humana.


Publicação original: 06/2007
Reedição: 11/2020
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