É curioso como se transformou num cliché uma certa linha de respostas do tipo não tenho tempo para isso. Não vale a pena estar a relembrar e referir as rotinas de vida das pessoas e as cargas horárias a que estão sujeitos no âmbito das suas actividades profissionais, académicas ou escolares. Estamos todos conscientes, talvez por motivos nem sempre positivos, apesar de também os haver, que existe alguma escravidão do tempo. Pode parecer total, mas salvo casos pontuais, não o é de todo.
Este chavão que mencionei encerra uma particular minúcia porque estou convicto de que aquilo que as pessoas querem dizer quando convicta e sentidamente afirmam não ter tempo para determinada coisa, é simplesmente que não têm disponibilidade mental para se concentrarem nessa questão.
Haverá certamente alguém neste país que anda para ir ao médico desde o Verão, mas que ainda não o fez alegando falta de tempo, quando na realidade tem andado atarefado com outros encargos que desviam o sujeito de se concentrar nessa questão.
Tentar perceber porque motivo confundem as pessoas a disponibilidade temporal com a disponibilidade mental é uma questão bem mais complexa. De acordo com umas leituras recentes, diria que a chave poderá estar na premissa de que para além do tempo cronometrado pelos relógios, existem outros tipos de tempo, como por exemplo o tempo biológico, que dá azo ao conceito de relógio biológico.
Uma outra concepção de tempo é o tempo mental, aquele de que o cérebro se apercebe. Mediante um estado de ocupação variável, a sensação de passagem do tempo pode estar presente de forma mais ou menos acentuada, independentemente de ser óbvio que o tempo cronometrado dos relógios tem periodicidade fixada.
Assim, talvez a pessoa tenha tempo para mais coisas do que pensa, simplesmente a sua mente convence-a do contrário porque não tem espaço mental que a permite perceber que continuam a existir janelas na sua rotina que podem ser utilmente aproveitadas.



Atento hoje a escrite para um erro, que surge da infeliz avaliação de que uma matéria só é avaliada pela sua complexidade técnica, descurando o factor tempo como elemento tão ou mais decisivo que esta.

