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Sobre a falta de tempo

48568oTws_w É curioso como se transformou num cliché uma certa linha de respostas do tipo não tenho tempo para isso. Não vale a pena estar a relembrar e referir as rotinas de vida das pessoas e as cargas horárias a que estão sujeitos no âmbito das suas actividades profissionais, académicas ou escolares. Estamos todos conscientes, talvez por motivos nem sempre positivos, apesar de também os haver, que existe alguma escravidão do tempo. Pode parecer total, mas salvo casos pontuais, não o é de todo.

Este chavão que mencionei encerra uma particular minúcia porque estou convicto de que aquilo que as pessoas querem dizer quando convicta e sentidamente afirmam não ter tempo para determinada coisa, é simplesmente que não têm disponibilidade mental para se concentrarem nessa questão.

Haverá certamente alguém neste país que anda para ir ao médico desde o Verão, mas que ainda não o fez alegando falta de tempo, quando na realidade tem andado atarefado com outros encargos que desviam o sujeito de se concentrar nessa questão.

Tentar perceber porque motivo confundem as pessoas a disponibilidade temporal com a disponibilidade mental é uma questão bem mais complexa. De acordo com umas leituras recentes, diria que a chave poderá estar na premissa de que para além do tempo cronometrado pelos relógios, existem outros tipos de tempo, como por exemplo o tempo biológico, que dá azo ao conceito de relógio biológico.

Uma outra concepção de tempo é o tempo mental, aquele de que o cérebro se apercebe. Mediante um estado de ocupação variável, a sensação de passagem do tempo pode estar presente de forma mais ou menos acentuada, independentemente de ser óbvio que o tempo cronometrado dos relógios tem periodicidade fixada.

Assim, talvez a pessoa tenha tempo para mais coisas do que pensa, simplesmente a sua mente convence-a do contrário porque não tem espaço mental que a permite perceber que continuam a existir janelas na sua rotina que podem ser utilmente aproveitadas.

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Sobre os actuais locais de instrospecção

Atendendo à irrefutável carência de tempo que já se pode considerar uma característica da era em que vivemos, a introspecção tem vindo a perder o seu carácter de rotina estabelecida na vida das pessoas, para se espremer e encaixar algures num momento em que seja menos desconfortável e inoportuna.
Os locais de culto estão tornar-se inadequados porque as pessoas não têm tempo para ir a um desses sítios pensar na vida e no mundo que as rodeia.
Ao invés, nota-se cada vez mais que os grandes locais de culto das pessoas surgem pura e simplesmente aonde tenham de parar ou quedar-se por algum tempo. O trânsito é o principal responsável pela introspecção diária que se vai fazendo. Julgo que as pessoas, aprisionadas em filas perturbantes de veículos sem ter para onde ir, acabam por se ver reféns daquele embaraço logístico e como tal são obrigadas a fazer uma coisa que começa a ser contranatura: parar. Uma vez paradas, podem então fazer as suas introspecções. Os meios de transporte são, portanto, o principal local de culto dos tempos de hoje. Em verdade, uma larga fatia dos textos deste blogue corresponde a ideias que foram desencadeadas por introspecções nos transportes públicos.
As viagens são o grande aliado das pessoas para que consigam ter alguma apetência para se pensarem e se reflectirem cabalmente.
É que a chegada a casa é sinónimo de um rol de estímulos e tarefas a executar que levam ao adiamento por tempo indeterminado da introspecção caseira, e o que dizer da introspecção em locais de culto.
Permanece no entanto uma dúvida, que é a de se esclarecer se as pessoas estão tão introspectivas como dantes, quando tinham na sua rotina a ida aos locais de culto.
Talvez agora se assista a uma introspecção mais auto-didacta e menos orientada para determinados caminhos, o que é um voto de confiança na autonomia individual, mas que consiste num enorme desafio de coerência, imparcialidade e persistência. 
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Sobre a televisão: compromissos comerciais

A diáspora do capitalismo agressivo apoderou-se da televisão para mal de todos os que acumulam em si o direito a servir-se dela, consumindo-a. Acredito que larga culpa da desvirtuação da televisão enquanto ferramenta adequada ao progresso, passa pela necessidade de gerar lucros, mais-valias económicas que assegurem futuro.

Repudio e condeno veemente a forma irresponsável como convivemos com cadeias de televisão que prezam a subjugação dos seus espectadores às peripécias de manipulação de audiência para fins de proveitos publicitários. Divulgações de horários incorrectas, em que à hora indicada apenas há publicidade (muito comum nas transmissões desportivas), ou aliciamento de audiências com dinheiro supostamente fácil, cuja efectiva entrega é prolongada com exaustão, de que são exemplo os múltiplos programas vespertinos transmitidos diariamente.

É evidente que as cadeias de televisão vivem acorrentadas às audiências, pois estas são o meio para gerarem o lucro, mas a partir do momento em que são abandonados princípios básicos que honrem as reais capacidades que uma cadeia de televisão pode ter em sociedade moderna, julgo entrarmos no tortuoso caminho da superflueidade dos meios televisivos.

Que se clarifique a ideia de quem manda na televisão! O consumidor precisa da televisão, mas ela precisa cada vez mais dele. O consumidor tem cada vez mais alternativas a ela, pelo que é altura de verdadeiramente reivindicar a si os plenos poderes de se achar activo no panorama televisivo. A maioria de nós, espectadores, julga-se escravo das grelhas televisivas, mas nada mais errado. Que tal proporem-se umas televisões desligadas por uns tempos? Há que prezar respeito e responsabilidade acima de viabilidade económica, pois se querem fazer dinheiro, que trabalhem para tal dentro das regras da civilidade e do dever assumido.
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Sobre a celeridade das férias

Chega o Verão, as escolas encerram, os escritórios esvaziam, tudo se esvai de moldura humana excepto os destinos turísticos ou afectos ao lazer. As férias são o momento alto, geralmente, de cada ano, podendo figurar como vingança de um rol de inglórias ou apresentar-se como o coroar de um conjunto de vitórias, sendo mais natural, contudo, situar-se algures no meio destes cenários.
Independente da duração das férias, no cômputo geral identifica-se um sentimento generalizado de celeridade nas férias, como se houvesse uma inconsciência do passar do tempo para depois se acordar perto do retomar de actividades e haver lugar a lamentos e lamúrias.
Entre a juventude, a febre do nada fazer, que em suma resume muitas ocorrências, como o ir à praia, o assistir a séries, filmes e novelas na televisão, ou o jogar nos computadores e consolas, presta um grande contributo para essa fugacidade sentida no decorrer das férias. Esta parte, aliás, da clássica noção de que para se poder apreciar é necessários reparar.
Já os adultos preenchem a tradicional quinzena espalmados por aí, queimando-se como torradas, portando um leque de parafernálias ditas indispensáveis, caminhando para lá e para cá a ritmos preguiçosos, dormindo e dormitando um pouco por todo o lado. Todos nos subtraímos à noção de que aqueles são de facto os escassos dias do ano em que não há dependências intrusas vindas de fora da família, devendo por isso dar azo a algo mais do que as previsíveis actividades.
Se nos queixamos da rapidez com que percorremos as férias, talvez em muito se deva a um assumir, típico no resto do ano, de rotinas aparentemente distintas daquelas levadas no restante ano, mas que na sua polpa mantêm as contra-indicações das outras. As férias são a prova do quão forte é a política da mecanização e da absorção da consciência, de que tanto nos queixamos ao longo do ano.
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Sobre os ciclos de sono

A ritmos cada vez mais frenéticos, o sono tem sido o patinho feio da vida privada, sacrificado para dar azo ao cumprimento de todas as rotinas necessárias.
Tendo por base a ideia de que se o deixassem o ser humano descansaria um pouco mais do que o tempo que está acordado, haveria lugar a um contínuo deslocamento do sono em cerca de 1 ou 2 horas diárias. Isto é um pouco o que sucede com a juventude em férias que altera a sua rotina normal de sono pela liberdade de dormir até saciar, implicando isso alteração do estado de vigília.
Ocorre então que as exigências do meio, distribuídas pelos vários papéis desempenhados por cada um, exige que se abdique da actividade dormitória para que haja espaço de manobra para concluir tudo o que é pedido. Isso acontece com os adultos que subtraem horas de sono em troca de algum prazer ao serão ou aos jovens que entram com os estudos pela noite.
Quem já experimentou sabe que dormir pouco tem efeitos positivos na força da preguiça ao levantar bem como na sonolência diurna, pois curiosamente quem dorme mais parece querer dormir ainda mais.
Se a serventia de dormir pouco é assumida na obtenção de tempo para expedição de tarefas, não se pode dizer que seja o cérebro neutro a tal prática. Apelando desta vez à experiência de quem já dormiu até fartar, julgo ser de comum acordo que um acordar natural e saciado dá lugar a um dia de maior vigor mental, com disposição mais positiva ou com ânimo menos pesado.
Afastada a hipótese de dormir correctamente, recorre-se então ao acumular de cansaço pelas semanas, ressarcindo o corpo por vezes no decorrer dos dias e projectando no fim-de-semana a recuperação. Tal hábito, faz lembrar alguém que respira naturalmente aos fins-de-semana e que passa depois a semana a mergulhar em água e submergir apenas para respirar o tempo suficiente para não sucumbir.
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Sobre os prazos para aprender

Atento hoje a escrite para um erro, que surge da infeliz avaliação de que uma matéria só é avaliada pela sua complexidade técnica, descurando o factor tempo como elemento tão ou mais decisivo que esta.
Dá-se muitas vezes, em conversas entre pares, a discussão das dificuldades de certos assuntos no que toca ao seu estudo, de onde surgem sempre desacordos ou mesmo auto promoções de determinados intervenientes face ao à vontade, quase sempre exagerado, com que dominam as matérias.
Calha de se cair na tentação de achar que as matérias, e consequentemente os resultados das avaliações a elas, devem ser consideradas de forma descontextualizada. Não há dúvidas de que há duas formas de se complicar a vida a um estudante: ou leccionar assuntos complicados, ou dar-lhe tão pouco tempo para adquirir o conhecimento que a matéria se torna complicada indepentemente do resto.
Nem sempre está claro para todos a questão da temporização, pois quando se avaliam as matérias no seu desafio intelectual, dificilmente se considera o factor relógio, e como tal cai-se no erro de tornar injustas certas afirmações.
Estando este mundo repleto de informações, com tendências para agudizar cada vez mais a situação, o grande desafio do estudante deixa de ser o ideal de adquirir o conhecimento sem achar preocupado com prazos, e passa a ser conciliar o processo de aprendizagem com toda a estruturação de calendário que lhe é dada para o conseguir de forma regular.
Não deixo de me perguntar de que forma a inclusão deste agreste perturbador do espaço temporal necessário à sedimentação de conhecimentos, a calendarização apertada, não terá efeitos já hoje nas formações ministradas. Não se compreende qual é a pressa, qual o frenesim de leccionar tanta coisa de forma mecanizada e pouco saudável. Pois que se aprenda menos então, já que os prazos diminuem sempre.
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Sobre o visionamento de filmes

Hollywood Hills - Richard Combes (2025)

Há pessoas que devoram colectâneas inteiras de filmes, dando lucro a uma indústria cada vez mais enriquecida e preponderante.

Sendo eu um cinéfilo medíocre, facto que não escondo pois não me envergonha, há algo que me descobri em conhecidos meus que fazem da sétima arte o passatempo quase predilecto. É de alguma forma estranho ver que muitos espectadores visionam imensos filmes sem intervalar o fim de um e o principiar de outro, criando assim uma película quase contínua. Mais grave do que isso, porém, é a ausência de posicionamento perante cada obra, ou seja, é o captar o sentido directo e fechar a mão aos temas abordados nos interstícios de cada enredo. Torna-se frustrante notar que a maior parte desses cinéfilos mais evoluídos socorre-se da sua experiência para citar realizadores, actores e actrizes, principalmente, sem que presenteiem os outros com as suas experiências pessoais no campo das temáticas, das políticas, filosofias, psicologias ou éticas associadas às obras.

Não é que seja obrigatório falar destes assuntos ou intervalar um tempo fixo entre cada sessão, apenas me é estranho não permitir à obra penetrar na consciência, pondo a nu argumentos nem sempre perceptíveis e mexendo com alguns pilares do cerne de cada personalidade.

Quem agradece toda esta balbúrdia impensada do consumo são os estúdios, que descobrem fórmulas mágicas de cativar, gravando sem parar aquilo a que se pode chamar um género de petróleo televisivo.

Gostaria de no futuro estar mais atento à indústria cinematográfica e ver mais do que os filmes tidos como indispensáveis, mas ainda assim, muito provavelmente manterei a minha vontade de intercalar cada nova obra com o devido tempo para a digerir. Ver por ver, só para recordar caras e explosões julgo que é perder tempo e fazer parte de um filme do qual não pretendo ser coadjuvante de qualquer natureza.


Publicação original: 29 / 07 / 2007
Modificação: 07 / 01 / 2026

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Sobre a barragem da leitura

Vejo uma enorme diferença entre os estudos sobre os níveis de iliteracia e os níveis efectivos de iliteracia sentidos no dia-a-dia nacional.
No espaço de uma semana foi presenteado com situações várias cujo mote foi sempre alguém a recorrer a instruções verbais quando no seu campo visual estavam as informações necessárias à distância de uma leitura.
Tais ocorrências fizeram-me pensar no ilusório conhecimento apontado por todos esses estudos de massas.
Sugestionado ou não pela repetição de casos, ouso apontar a existência de uma preguiça visual a tal ponto implementada nos subconscientes que já nem permite detectar uma informação importante quando esta se faz necessária.
Eu duvido que tal fenómeno esteja limitado a faixas etárias ou a gerações próprias, mas reconheço que anda por aí expedita na sua acção. Aquilo que me inquieta é notar que semelhante efeito, acoplado a outros que também afectam a prática salutar e básica da leitura, pode ser visto como uma praga à comunicação, dado que a escrita é uma forma mais efectiva na comunicação colectiva, do que a simples repetição sonora da informação, essa sim entediante.
Não posso deixar de acreditar que a rapidez de informação tem também uma culpa a assumir, dado que caminhamos cada vez rumo a a uma velocidade que não é condizente com a temporização exigida pela leitura de modo a que seja uma ferramenta do conhecimento sólido. Mesmo a leitura de livros, apresenta-se para muitos como uma maratona da rapidez, ao longo da qual se vai contando constantemente a massa de papel que ainda falta percorrer, numa clara vontade de passar ao seguinte sem quase terminar o próprio livro que previamente se assumira querer ler. Os ritmos estão a chocar-se, cabendo a cada um viver no meio de tamanha mixórdia de exigências ou limitações e simular o resto para paz de espírito.
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Sobre o tempo estereotipado

A materialização do tempo, concretizada pelos relógios,, cronómetros, cronógrafos ou temporizadores determina hoje, ainda início do século XXI, mais do que deveria.
Não encontro outra utilidade de saber permanentemente o tempo que não perante situações onde mais de um ser humano tenham de se sincronizar para garantir organização num qualquer evento que participem ou do qual estejam dependentes.
Espanta-me que passemos a maior parte do tempo sem perder a noção do tempo, como se a sua perda conduzisse à impossibilidade de vida.
O tempo tem hoje uma posição autoritária face às vidas humanas. Ele, que deveria servir somente a organização colectiva, dita comummente as regras da rotina individual. Fá-lo sempre que alguém decide com base no tempo em vez da vontade, como quando se decide almoçar pelo que diz o relógio e não pela fome, ou quando se manda alguém para a cama por serem horinhas. Há nisto um quê de escravidão, inexplicável do ponto de vista de quem olha para o tempo e pensa, por exemplo, porque motivo deve andar toda uma civilização atada a 24 horas diárias. Podendo estar a ser ignorante, neste ponto, não vejo motivos para acreditar que 24 horas são a medida horária correcta para um dia nos tempos modernos. Há muito neste mundo que precisa de algumas reformulações, o próprio tempo desajustou a validade e utilidade das actuais convenções de contagem do tempo.
A prova mor de que a escravidão do tempo existe foram os recentes ecos dados por alguém que não recordo, mas cuja mensagem era clara: mudar o fuso horário português para que houvesse mais sincronia no plano europeu. Em termos objectivos, porque não manter o sistema horário e simplesmente deslocar as rotinas de acordo com o interesse? A nossa fraqueza é desistir de certas metas, deixando para os vindouros ou para os vizinhos a aparente maçada de discutir assuntos que não poderiam ser de maior interesse geral. É mais fácil discutir assentos de autocarro.
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