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Sobre a pornografia literária


A estrondosa e avassaladora oferta que hoje se encontra no mercado livreiro, impõe um natural respeito, porque a comercialização de um livro estende-se muito para além do valor intrínseco da obra. Hoje há massificação de temas e há que ter bem presente que uma mesma coisa escrita por outro autor vale menos do que uma outra coisa escrita pelo mesmo autor.
O fenómeno literário que se vive hoje, perdoem-me por usar as palavras que vou usar, pode ser enquadrado numa certa forma de pornografia literária, que difunde a banalização do valor das produções, pela adulteração do sentido de singularidade, ou seja, pela forma como se desrespeita o que é conceber e delinear um livro, em detrimento de um sobrepovoamento de publicações nas prateleiras.
Como consequência dessa pornografia literária temos a explícita comercialização das obras como vector a considerar e até principal para a viabilidade de edição das mesmas. Aliás, diversos autores atingem uma profissionalização fácil devido a incorrerem na escrita mediática, totalmente voltada para o populismo e para o alcance da escala comercial.
A minha ambição de poder vir a escrever um livro, choca com estes conceitos, porque pego num livro para ler e penso no quão difícil possa ser chegar a um produto final, fechado, pronto. Imaginar a escrita de um livro como sendo algo não tão díspar quanto isso de um pegar num moldes e fazer réplicas sucessivas, não se me desmotiva como me aborrece e entristece. Há um esoterismo muito próprio que identifico no processo de conclusão de um livro, o qual não gostaria de ver perdido nem de ver chacinado da forma como as garras comerciais têm andado a fazer.
Hoje os nóbeis e notáveis do ponto de vista da matriz da Literatura, aqueles que serão estudados como cânones do nosso tempo, perdem espaço para pornógrafos literários que escrevem com cifrões e se refugiam neles para se afirmar como autores.
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Sobre a polícia e sua actividade

No seio dos lares crescem hoje crianças que, a menos que resgatadas do destino natural por alguma maternidade ou paternidade à altura do problema, crescerão alheias para os valores do respeito pela autoridade e cumprimento de deveres cívicos.
A polícia, sendo um vector da ordem pública, deve ser vista e ensinada aos mais novos como fonte de segurança, nunca fonte de problemas.
Apercebermo-nos da forma descarada com que muitos cidadãos deste país, jovens e graúdos, rebaixam e menosprezam a autoridade policial conduz a um clima favorável à adulteração da ordem pública.
O fomento, inclusive, dessa desconfiança relativamente ao corpo policial, conduz a que se censure, verbalmente e não só, a legitimidade para a polícia actuar.
É sabido que muitos agentes não reúnem os requisitos recomendáveis para o exercício da profissão, mas uma vez investidos da farda e distintivo, qualquer um tem de ser respeitado pelo cidadão, como condição para que possa viver em sociedade.
Perante cenários de total indisciplina de cidadãos criminosos, que geram ondas de criminalidade empoladas ou não pela comunicação social, acho um tremendo erro centrar a discussão da actuação policial, na sua legitimidade para intervir recorrendo à força, ou ao uso de armas de fogo.
Sabendo que a origem do problema nasce de quem não acata a autoridade policial ou seus deveres legais, as consequências inerentes ao incumprimentos desses deveres de respeito à autoridade ou à legislação, não podem ser o principal assunto a dissecar.
O uso da força, por parte da polícia, pode ser mais ou menos do agrado dos cidadãos em geral, mas acredito ser inevitável. O nosso humanismo não pode consentir que pessoas com falta dele, usem e abusem indevidamente da sociedade e outras pessoas. Por muito que queiramos a não violência, a polícia deve responder a abusos nem que pela via violenta, sob pena de desvirtuarmos o sentido de reposição da ordem.
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Sobre a religião: as falhas da católica apostólica romana

Quanto mais leio sobre aspectos da religião Cristã, mais desemboco no reconhecimento da sua desprovenção de lógica e sentido.
Começando pela severidade com que pautam o mundo, sempre desalegrados perante tudo, parecendo em constante agastamento, sem esboçar alegria ou sorrisos, coisa que o Dalai Lama faz, para grande gáudio meu, dado que a felicidade está dentro de nós, na capacidade de ver o positivo de tudo, e não no mundo em si.
Depois, abarcando toda a obstinação com que tomam decisões e estabelecem fundamentos, é de uma presunção assustadora tendo em conta que aqueles líderes são apenas homens que decidiram dedicar-se a explorar a religião em que acreditam. A igreja não admite erros e esse é um pecado capital. Admito que o deus não os cometa, mas os que se chamam deus na terra, pela sua condição de homens, erram e devem assumir. Como pode viver uma instituição religiosa a pregar o que não pratica? O passo inicial para qualquer perdão sério, é o reconhecimento do erro, logo quando este não sucede, tudo não passa de fantasia.
Finalmente, por mais que tente, acho injustificável a existência de um estado religioso, o Vaticano. É tortuoso o trilho que divide a igreja do estado, quanto mais aquele que permite justificar uma igreja como estado. Acho que ao definir residência oficial, cria-se um rol de complicações no que toca à ambição de espiritualidade. Quanto mais se premir a tecla do crescimento material, pela condição de propriedade de bens, mais se torna contraditória a crença na pobreza, tão bonita e simbólica da história do famoso Jesus. Não se entende a luxúria do culto, a ostentação das jóias, arte, vestes ou edifícios. Peço que não afirmem que é para exaltar deus, porque sou avesso a falácias. Finalmente, peço que me expliquem que formato é este o de os crentes serem alheios à selecção de líderes, cabendo aos próprios elegerem-se entre si e viverem, portanto, em circuito fechado.
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Sobre a febre dos currículos

Os currículos de hoje estão repletos de certificados e comprovativos de formação, entre outros diplomas e atestados, funcionando os mesmos como comprovativos de formação e de qualidade, ainda que aqui seja preciso um dose de calma.
Apesar de ser obrigado a ressalvar a serventia de tais documentos, pois a época actual não é dada a palavras de honra, julgo que há uma mentalidade para a busca e sobrevalorização incessante destes documentos. A sua sobrevalorização acarreta muitas vezes um esforço desmedido no sentido de obter, por meios lícitos ou não, classificações honrosas, o que, quando não controlado, deixa de ser salutar e de ser manifestamente compatível com os propósitos de qualquer curso: a aprendizagem.
Quando não se aproveitam os cursos com naturalidade, trabalhando o melhor possível dentro das regras do jogo, qualquer resultado final injusto e desequilibrado.
A concorrência é a grande matriarca dos caçadores de certificados, pois age como repelente mental da normalidade, criando estados de tensão que desencadeiam respostas de natureza atípica e anormal. Claro está que na busca de um emprego, por muito que não se deseje, o currículo constitui peça fundamental de análise, mas a questão, do ponto de vista de quem pretende empregar-se, deve ser lançada de outro miradouro. Falei algumas vezes a amigos, e passo a partilhar: não será preferível levar uma vida correcta e normal, obtendo resultados justos face às capacidades, os quais podem nem sempre chegar a excelentes, mas correr o risco de ser admitido e superar as expectativas? Assim evitar-se-ia o tombo sofrido por muitos pajens dos certificados, que são integrados nas empresas como autênticos supra-sumos da sabedoria técnica, e que depois fraquejam porque não reúnem valias ao nível da presença relacional entre os colegas ou se retraem quando são chamados a momentos da verdade. É preciso aprender a conviver com as limitações sem frustrações e aproveitar as devidas ocasiões para contraria-las, nunca o contrário.
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Sobre a desprofissionalização dos políticos

Nenhum ramo de actividade é mais sacrificado pelo povo do que a carreira de político. Os próprios conhecem e reconhecem esses estigmas, devendo até concordar, nos seus íntimos, com algumas das alegações costumais.
A parte penalizadora que não abrange as questões do foro da honestidade, passa de alguma forma pela não inclusão dessa classe no âmbito da lista de profissões do povo. Tal exclusão prende-se com a ideia do trabalho braçal ser fisicamente desgastante e de a classe política viver o seu dia-a-dia no seio de certas regalias que contra balanceiam, na perspectiva do povo, eventual esforço que dispendam.
Cabe-me a mim, perguntar também se é de facto interessante que a Política seja profissão. Julgo que um sim extingue diametralmente a visão da política como dever público ou actividade de intervenção social aberta ao cidadão comum. Uma política como profissão envolve rivalidade e criação dos subterrâneos jogos de poder que controlam peças num tabuleiro de relações e dinheiro. A necessidade de vingar num meio tão perverso como é o dos ideais, das argumentações ou dos convencimentos, motiva todo um esquecer das premissas e enquadramentos da política como entidade vital à existências de sociedades e nações. Daí surge a inoperacionalidade apontada aos políticos, bem como à sua repetição de hábitos e vícios.
O povo poderá ter a sua razão ao não aclamar nem identificar os políticos como operários, pois instintivamente assume uma posição que a lógica consegue suportar. A descrença e o vinco de descredibilização progressiva dos políticos, por parte do povo, em nada abona as necessidades de ambos. Privados de povo, os políticos recorrem a sensacionalismos e demagogias para fazer chegar e se fazerem ouvir e respeitar. O povo, privado de políticos, trabalha intervalando a labuta com desdém dos políticos, que, apesar de tudo, continuam sem aceitação como profissionais mas mantêm-se no recebimento mensal pelos seus préstimos. A pergunta é : de quem?
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Sobre a coerência personalística



* * * 

Por mais que alguém pretenda ou se esforce para adquirir a manutenção de uma uniformidade de decisão, pensamento e comportamento, é particularmente hercúlea a tarefa de conseguir sair-se bem em qualquer momento, entendendo-se por sair bem o resultado de haver conseguido manter a coerência  numa dada situação. Há todo um trabalho contínuo diário que deve ser posto em prática no sentido de evitar a exposição a nu de contrariedades naturais num espírito destreinado para o rigor que se deve imprimir à personalidade.

Muito do mal dizer que espontaneamente surge relativamente à pessoa de cada um parte de reconhecimentos pontuais de falta de consistência, de momentos particularmente ricos numa qualquer antítese personalística. Por vezes, a diferença entre o nada ter a apontar e o ter situa-se unicamente à distância da memória ou não desses momentos onde, mesmo que inconscientemente, se criam dubiedades e contradições que em nada abonam à consistência individual transmitida socialmente. O ter consciência dessas lacunas nos outros deve constituir uma prova da possibilidade de haver o efeito reverso: o de cada um nós poder gerar e transmitir, analogamente, sinais de defeituosa uniformidade susceptíveis de reconhecimento externo.

Urge então a necessidade de recordar com precisão que decisões, pensamentos e comportamentos tidos em momentos passados passíveis de ser considerados similares a uma situação presente, e de assumir a responsabilidade de cumprir ao máximo com os padrões previamente definidos nesses momentos antigos, para bem da reputação social e da valorização presente da pessoa que assim procede.

Tal actividade é a meu ver complicada o suficiente para não ser possível constringir a margem de erro a níveis baixos. Este facto constituiu certamente um motivo de satisfação para a classe dos advogados, que assim podem esquecer a questão da verdade do crime para discutir a coerência da personalidade, fazendo usufruto deliberado desta fraqueza humana.


Publicação original: 06/2007
Reedição: 11/2020
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Sobre a pirataria musical

Ouvi na semana passada dizer, e bem, que os portugueses não são sensíveis aos direitos musicais de autor, achando normal a colectivização de produções particulares.
Já me bati diversas ocasiões pelo cessar da pirataria junto dos que me são próximos. Muitas vezes fui confrontado com argumentos diversos, como o excessivo preço cobrado na aquisição de qualquer álbum lançado, ou aquele mais anárquico que assenta da ideia de que: se todos fazem porque serei diferente?
E eu vou respondendo com a chamada de atenção, para o que é do foro particular, do trabalho criativo de cada um, que tem o seu valor e deve ser cobrado. No limite apelo à relação sentimental que o ouvinte tem para com o artista, alegando que é no mínimo uma falta de respeito para com alguém que a pessoa pode até venerar. Não faz sentido ser-se fiel a uma artista mantendo cópias piratas na gaveta das suas colectâneas.
Esta conversa só faz sentido porque há alternativas. Não é preciso gastar dinheiro na compra para ouvir o que se gosta. Basta abdicar do selvagem desejo de posse.
Numa altura em que os computadores tendem cada vez mais para um estado de constante ligação à rede, porque não optar pela execução das faixas desejadas na própria rede, sem haver lugar a uma por vezes problemática ocupação do disco pessoal? O tempo perdido a sacar obras inteiras poderia ser dedicado à pesquisa na rede de sites dispostos a pagar os tais direitos negligenciados por muitos em troca de visitantes famintos de música. Os mesmos sites até se dão ao trabalho de tocar géneros, permitindo descobrir novos artistas de estilo idêntico.
Torna-se esquizofrénico recorrer à pirataria neste cenário.
Deixo-vos 4 sites, dos quais me sirvo recorrentemente com a felicidade de me sentir legal e de bem com aqueles de quem sou fã.

www.1club.fm ; http://www.videocodezone.com/ ; http://www.last.fm/ ; http://www.hotget.com/
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Sobre a corrupção

Proponho-me hoje falar aqui da corrupção, como sinal de protesto pela frequência com que a tenho identificado no meu dia-a-dia recente.
Quando penso na recorrência à corrupção, vejo-me na obrigatoriedade de discutir a questão da honra, que muito tem a ver com a dignidade.
Corromper é sempre um acto de desonra, é a abdicação da dignidade por um objectivo mundano, como que uma troca do valor abstracto pelo valor concreto.
O meu agastamento, que em muito contribui para escrever sobre este tema, prende-se com a constatação de que há por aí muito má gente a vender a sua honra por coisas menores, sem notar que com a perda dela se perde também toda a confiança e crença na clareza e ingenuidade dos seus propósitos.
Torna-se ainda mais grave, verificar que a corrupção é quase do foro patológico, na medida em que muitas vezes surge num contexto em que a busca desmedida e doentia de um objectivo provoca a sua ocorrência, como solução para a ausência de atributos naturais ou viabilidade que permitam alcançar o objectivo proposto.
No meio estudantil, a corrupção é a forma que alguns encontraram para fugir ao esforço do estudo ou limitação biológica. Não quero lançar ameaças com esta intervenção, apenas considero que chegará o dia em que se poderá retrospectivar e fará imenso sentido a máxima que afirma que na vida não há sorte nem azar, há consequências.
De qualquer forma, preocupa-me ver a juventude a crescer com a ideia de que, no limite, corromper é solução de recurso, qual seguro de vida alternativo.
Copiar num teste não será grave comparado com a corrupção nos negócios ou na justiça, mas há que lembrar que a corrupção por si só não existe, ela é resultado de um eu que após ter vendido a sua honra para questões menores, saberá um dia orientar-se na ampliação do seu raio de intervenção, se quiser ou necessitar.
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