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Sobre os limites humanos e biónicos na polissemia do mundo, à distância de uma janela com luz acesa à noite


Quiet Geometry of Winter Light, Neom Bauchaus (2024)


Épocas houve em que, ao circular fora de casa numa madrugada, ao deparar-me com janelas com luzes acesas, a minha imberbe juventude me levava a pensar que se tratava de algum jovem que ficasse a ver televisão até tarde ou a jogar videojogos até altas horas, eventualmente online em comunidade com outros jogadores.

Hoje, na qualidade de pai de três crianças, essa mesma experiência observacional remete-me para imaginar pais que andam a pé durante a noite para alimentar a sua prole, ou a pé devido a filhos doentes, ou ainda de pessoas doentes que estejam a passar a noite em branco total ou parcialmente.

Esta mudança de imagens sugeridas por uma mesma experiência mundana explica a polissemia do mundo, em particular a importância da maturidade etária do agente pensante quando se propõe a destilar de sentido sobre o que sensorialmente ausculta.

Hoje, essa polissemia pode ser ampliada com recurso à inteligência artificial, que nos permite operar para lá da nossa capacidade de imaginação, assim como testar quão cliché ou plausível é a nossa capacidade de vislumbre. Vejamos, ao solicitar a uma dessas que me dê cinco possibilidades de resposta para o fenómeno observacional descrito, duas das respostas (que pedi para substituir por outras), coincidiram com as minhas, a saber: possibilidade de cuidado a crianças; e tardar devido a um filme ou jogo.

Estas foram as possibilidades não antecipadas por mim que obtive da inteligência artificial: Trabalho noturno ou fuso horário diferente (Teletrabalho internacional, turnos, prazos ou estudo fora do horário comum); Insónia ou distúrbio temporário do sono (Dificuldade em dormir, acordar precoce ou ciclo de sono desregulado); Problema doméstico pontual (Infiltração, avaria, alarme, disjuntor ou outra situação que exija intervenção imediata); Luz esquecida ou sistema automático (Candeeiros deixados acesos, temporizadores, sensores ou iluminação inteligente mal ajustada); Vigilância ou necessidade de segurança momentânea (Alguém acordado por um ruído, à espera de alguém chegar, ou a verificar algo anómalo no prédio ou na rua).

Ocorre-me recordar a este respeito declarações de um visionário multimilionário futurista norte-americano que me apareceu há dias num meio multimédia a explicar que estender a longevidade humana talvez não seja boa ideia porque as pessoas enclausuram-se em convicções e isso é um fator de bloqueio à inovação e progresso. Razoabilidade ética do argumento à parte, entende-se que se vamos apurando o sentido que extraímos do mundo é possível que nos deixemos sedimentar numa derradeira interpretação do mesmo de onde não mais nos permitamos cansar na busca de novos sentidos.

Assim, se a falta de maturidade etária pode promover construções de sentido mais incompletas por lacunas de mundividência, ela pode pelo mesmo motivo permitir valiosos campos de liberdade cujo expoente máximo de demonstração são as crianças com as suas livres associações de ideias e criação de sentido. 

Excluindo a inteligência artificial, o sensato poderia ser um meio termo de maturidade, onde nem demasiado júnior nem adiantado sénior, subsista uma franja de perspicácia contemplativa de onde brotem linhas de entendimento que integrem mais hipóteses ou mais plausíveis hipóteses de sentido do que aquelas que os extremos de maturidade são pródigos em produzir. Porém, a chegada desse oráculo que é a inteligência artificial vem baralhar os limites humanos, a ponto de o limite humano poder não mais vir a ser admissível enquanto limitador do espectro de polissemia que efemérides observacionais possam suscitar. Não é uma demissão de capacidade pensante, é uma simbiose de combinatória e lógica.

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Sobre o filme "Hector e a Procura da Felicidade", e um almanaque sobre a felicidade na forma de comédia despreocupada

Hector e a Procura da Felicidade, direção Peter Chelsom, é um filme de comédia disfarçado de drama, montado sobre uma questão filosófica intemporal: a definição de felicidade. Por ter sido por mim visionado na aproximação à chegada de um novo ano civil, com o que tal implica em predisposição reflexiva, a experiência de o assistir pontuou muito acima daquilo que os fóruns da especialidade lhe reconhecem enquanto mérito cinematográfico. Isso e ter polpa metafísica, que é invariavelmente o que procuro encontrar na sétima arte.

O filme tem mérito no resgatar a ideia de que fazer uma grande viagem pode ser tomado como uma ferramenta de esclarecimento existencial, e fá-lo explorando nuances culturais da Ásia, África e América do Norte. Por compreender um psiquiatra em crise existencial, a personagem Hector (por Simon Pegg) vai anotando ilações tiradas durante a viagem, e acaba por destilar um conjunto de preceitos sobre a felicidade que vale a pena ler sequencialmente:

  • Comparar-se constantemente com os outros diminui a felicidade.
  • Muitas pessoas não sabem o que as torna verdadeiramente felizes.
  • Sentir-se útil ou valorizado contribui para a felicidade.
  • Trabalhar em algo que não se gosta é fonte de infelicidade.
  • A felicidade está ligada à liberdade de escolha.
  • O amor é uma das formas mais consistentes de felicidade.
  • O medo de ser infeliz pode impedir a felicidade.
  • Procurar obsessivamente a felicidade pode afastá-la.
  • A felicidade inclui aceitar que a vida envolve sofrimento.
  • Viver no presente favorece a felicidade.
  • Aceitar quem se é contribui para a felicidade.
  • Muitas vezes a felicidade já está presente, mas passa despercebida.

Não há vergonha no explicitarmos uns com os outros que somos movidos pela procura da felicidade. Por tímido que se seja no assumir de tal desígnio essa é a missão de todos os seres humanos na Terra, pois só isso dá a serenidade e uma derradeira economia de sentido para os recursos emocionais, energéticos e materiais que transacionamos.

O cinema de comédia não costuma veicular tantas ideias com cunho pensante de uma só vez, e Hector parece um filme que procurou também algo diferente, ser feliz a contar uma história simples e despreocupada onde, sem qualquer presunção, diverte o leitor enquanto lhe deposita convites subtis para que reflita ele próprio, qual o Hector, sobre o percurso que tem seguido para a sua vida.

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Sobre o filme "O Fantasma da Liberdade”, e uma fantástica e cómica proposta de surrealismo na sétima arte, sem recurso a efeitos especiais


O filme “O Fantasma da Liberdade”, do espanhol Luis Buñuel, é contemporâneo da revolução dos cravos portuguesa, e completa no ano em que este texto é escrito uns redondos cinquenta anos de existência. Foi para mim um achado, visto que não só o desconhecia como desconhecia o seu diretor, conviva de Salvador Dalí.

Personifica um invulgar exemplo de surrealismo cómico no cinema, destacando-se também por conseguir alcançar o surrealismo sem recurso a efeitos especiais paranormais, antes com encadeamentos ilógicos ou anacrónicos de cenas mundanas.

Acontece que o filme não é nada datado apesar de ser cunhado com inúmeros elementos de época que o podem afastar de um espectador mais sedento de contemporaneidade ou high-tech. Não obstante, o filme é interessante nos tempos atuais onde a inteligência artificial parece criar e recriar cenas repletas de associações inusitadas e surreais até. Neste caso, tudo decorre de criatividade humana, sendo surpreendente ver na sétima arte o que, em Salvador Dalí, nos parece natural encontrar em tela.

Destaco como especialmente prazerosa a cena em que se inverte a lógica de fazer refeições em público e de excretar em privado, pelo enorme choque cultural causado face às normas sociais mais básicas, assim como destaco a estonteante cena de ilusão de ótica do inspetor de polícia, que sai para almoçar, prevarica, é preso e levado à presença do inspetor da polícia, que já não é ele próprio, mas uma outra pessoa.

Ao belo desfecho do visionamento assiste favoravelmente a falta de um ator inequivocamente principal, assim como de algum erotismo, verificando-se uma permanente dinâmica e magistral amálgama de situações encadeadas por cruzamentos fortuitos entre personagens que começam como secundários e terminam como principais.

Fica na retina um intenso interesse por encontrar mais amiúde propostas deste criador e de cinema tão aliciante como “O Fantasma da Liberdade”.
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Sobre a impermanência como segredo do funcionamento da vida, e os cambiantes humanos e externos que parecem explicar o seu modus operandi

Luda in Kazan -   Sinead Breslin (2023)


Do dizer popular "não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe" pode ser extraído que há uma perceção recorrente na sociedade centrada na ideia de que a impermanência de condição é mais uma regra do que uma exceção.

Na esfera das atividades humanas há pelo menos três fatores que isoladamente ou em série se perfilam para provocar impermanência aos processos. São eles: (i) a quebra da continuidade forçada pela duração de um ciclo de luz (ou seja, a alternância do dia e noite); (ii) a flutuação hormonal de cada ser humano, em especial das mulheres; (iii) e por fim os eventos climáticos, mormente estações do ano, mas também ocasionais vagas de frio, tempestades, chuvas, calor, etc.

Os três cambiantes acima identificados, à falta de outros ainda mais ajustados, perfilam-se sozinhos ou em conjunto para promover a impermanência das coisas, desde logo porque forçam à existência de ciclos, de reversibilidade, de cessação da repetição. Por outro lado, estes mesmos motores dão azo à casuística de possibilidades em que a realidade se transforma e nos surge já vestida de efemérides, isto como mecanismo na antecâmara da concretização da roupagem de vida na qual cada um está, caso a caso, inserido.

Creio ser também isto o que a astrologia tende a querer inferir a partir de modelos simplistas para algo tão massivo e não linear. Acertará a espaços, mas a sensação que dela fica é que, qual previsão meteorológica do tempo para os próximos dias num dado território, os modelos astrológicos são demasiado imperfeitos para a universalidade e alcance espaciotemporal preditivo que almejam ter.

Concluo confessando que a tomada de consciência de que a impermanência faz parte dos segredos da vida é em si mesmo um bálsamo de tranquilização. Mesmo não tendo mapas que nos guiem certeiramente para fora dos casos mais bicudos ou insólitos em que a impermanência nos coloca, pelo menos temos como subsistir psicologicamente à tona desses problemas, com a noção de que o jogo da vida parece naturalmente ser assim mesmo, e de que com doses reforçadas de resiliência e estoicismo tudo acabará por impermanecer e... passar.

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Sobre o reassumir da importância de refletir demoradamente o mundo pela escrita, num tempo artificialmente inteligente


Images Fermées n°2 - Alberto Magnelli (1955)


 Apesar do tempo de humanidade que nos precedeu em muito superar a escala da nossa vida, décadas de vivência são temporalidade suficiente para testemunhar alterações tanto na sociedade como em nós mesmos, qual produto evolutivo da experiência individual e coletiva, da maturação de potencial cedo suspeitado ou fortuitamente aparecido já com a nossa carruagem de vida em andamento.

O registo do pensamento esbarra cada vez mais na trivialidade do ato, já não só pela profusão de postos emissores que a rede mundial digital cedo permitiu constituir, mas ainda mais agora pela substituição da palavra escrita e do ato reflexivo que a precede, pela concorrência da imagem em movimento e comunicação em discurso direto, espontânea e a quente quanto ao conteúdo. Não obstante, o registo por escrito do pensamento faz-se tão ou mais necessário do que décadas transatas, pois o seu mérito é constituir oficina de criação e esclarecimento de ondas de dúvida ou frémito interior, e com isso apurar naquele que escreve (e expetalvemente naquele que o lê) uma convocatória para uma vida mais esclarecida e pejada de sentido.

Deparamo-nos nesta fase com a emergente vertigem da inteligência artificial, que nos convida a desistir de mais e mais consumições mentais em detrimento de facilidades responsivas que esse instrumento se propõe realizar com ou sem procuração assinada, com ou sem respeito pelos direitos de autor. Por muito oculta e não auditada que permitámos que seja, a máquina ecoará só o que o reservatório de combustível contém e permite, e este acervo só contém o que lá foi e é despositado de novo. Sem conteúdo original, o que sai dessa fonte são receitas feitas sempre ingredientes cada vez mais gastos porque parados no tempo. Não se desista, pois, de continuar a produzir ingredientes intelectuais originais, sejam reflexões, sejam trabalhos técnicos, sejam criações artísticas, porque continua a não haver substituto para o trabalho novo, disciplinado, sério e honesto.

São estes os votos que reafirmo para mim e para o leitor, ainda que só eu saiba a que custo regresso a eles quando as circunstâncias de vida apelam e incitam à desistência de me recompremeter com semelhante missão. Há qualquer coisa de superior nesta empreitada, e é essa a estrela do firmamento que me continua a guiar.

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Sobre um sucedâneo para inteligência chamado ler situações com exatidão e tomar decisões acertadas a respeito das situações analisadas

Please be talented - Amy Lin (2017)


Os anos têm-me apurado a sensação de que o mais importante na vida é, de forma conjugada, a arte de saber ler as situações com exatidão e a arte de saber tomar decisões acertadas a respeito das situações analisadas.

Quando ao ler J.P. Snow me deparei com a ideia por ele veiculada de que os homens de ciência eram pessoas que sabiam tomar conta de si, penso que ele está a remeter para essa capacidade de ser o adulto na sala em cada a sala possível que a vida coloque um ser humano, ou seja, revelar-se alguém preparado para o que der e vier. Não porque tenha super poderes que extravasam as limitações da condição humana, mas porque compreenderá cada desafio com um discernimento apurado, e sobre esse entendimento decidirá no sentido correto com maior probabilidade que outros menos preparados nestas lides. Daqui decorre uma chance maior de sucesso pessoal e uma maior chance para salvaguardar a felicidade global.

Colocado de outra forma, devemos creditar com a nossa estima aqueles que mostram, por múltiplas ocasiões, emitir opiniões e pareceres que um longo tempo mostrem acertados, pois são esses os melhores a ler a realidade, e possivelmente os melhores a tomar decisões. É importante não ficar por um acerto, mas antes por uma sucessão delas pois há sempre sucessos casuísticos que nada devem ao talento humano embora o pareçam quando circunscritos a um período específico.

Não consigo precisar se as duas competências convivem sempre juntas, mas quer-me parecer que quem não lê bem as situações só por sorte ( e esta é improvável perdurar) conseguiria resolver consistentemente bem sucessivas situações. Por isso, àquele que lê bem a realidade, até pode faltar criatividade ou coragem para assumir a melhor solução para um problema, mas vai pelo menos escolher soluções para o problema certo, o que sem dúvida encurta o leque de lapsos possíveis.

E toda esta conversa é uma avenida que se substitui à discussão sobre inteligência das pessoas. O talento de entender cada problema enfrentado e de enfrentar com o melhor naipe de soluções é uma demonstração de capacidade que, chamem inteligência ou outro nome, dota aquele que a bem domina de maior autonomia e poder para se desenvencilhar mental, emocional e/ou materialmente do problema, aumentando-lhe a chance de ser feliz por não se deixar atolar em toda e qualquer infelicidade que lhe caiba em azar ter de superar.

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Sobre o livro 'Mau Tempo no Canal' (Vitorino Nemésio) e uma história de amor que é na verdade um quadro sociocultural multifacetado da sociedade açoriana no princípio do século XX

Retired Whaling Captain's Study, Nantucket, circa 1860 - Eugene Kupjack (1983)


O livro Mau Tempo no Canal, do açoriano Vitorino Nemésio, narra uma história insular centrada em Angra do Heroísmo (ilha Terceira), que se inicia tendo como pano de fundo um romance não assumido entre Margarida Dulmo, filha de uma família com origens luso-inglesas da elite local, mas ameaçada de cair em desgraça por acumulação de dívidas decorrentes da quebra da atividade baleeira, e João Garcia, filho do contabilista da família de Margarida, que, por vários motivos aventados ao longo da história, não pode senão abortar os planos de desposar Margarida.

É redutor imaginar que se trata de um Amor de Perdição à moda dos Açores, apesar de os elementos de isolacionismo e de ditames socioculturais se imporem às relações de amor puro e livre, até porque a história evolui esquecendo, por longos momentos, João Garcia e o seu amor algo obsessivo por Margarida, em detrimento desta última e de uma variedade de personagens, incluindo alguns com grau de parentesco com os dois protagonistas, e tantos outros que, de figurantes ou inexistentes em algumas passagens, passam a personagens quase principais nas seguintes. É o caso do tio Roberto, do empregado Manuel Bana, ou ainda de Caetano, o Barão da Urzelina. Vem ao de cima o tabuleiro das relações sociais e dos circuitos de convivência, onde proprietários não se misturam com empregados, e onde Margarida fura essas regras com uma naturalidade e exceção assinaláveis.

Costumo ser crítico de livros demasiado longos, pois não raro concluo que o leitor poderia ter sido poupado a páginas desnecessárias, mas não é o caso com Mau Tempo no Canal. A história ganha nova forma e fôlego quando o tio Roberto aparece na ilha após décadas em Inglaterra; quando a caça à baleia em barco a remos é subitamente retomada; e quando, já perto do fim, ocorre uma cena de tourada tradicional, com tudo o que de cultural e simbólico lhe está associada. As diversas passagens avolumam os ricos elementos culturais insulares — vida piscatória e de relação umbilical com o mar, agricultura e pecuária nas ilhas, relação com a capital Lisboa, influência/ascendência inglesa e belga nas ilhas, emigração para os EUA, vivência das festas populares — que Nemésio plasma em texto com uma linguagem de exceção e com um entrelaçamento narrativo de superlativo conseguimento.

Talvez Mau Tempo no Canal só não consiga igualar a importância de um livro de Eça de Queirós por lhe ser posterior (e a posição já estar tomada), ou ainda porque a história se passa num ponto remoto e muito específico (ilhéu) da portugalidade, não representativo da capital ou da localidade portuguesa de meios pequenos. Fora isso, e ressalvando o recurso a uma maior interioridade psicológica em detrimento da exterioridade descritiva, este livro é um diamante do bem narrar e do bem compreender — e fundar — uma história num espaço-tempo menos conhecido literariamente, e naturalmente ignorado por aqueles alheios à história arquipelágica portuguesa.

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Sobre um blackout ibérico por um dia, a eletricidade como bem básico, e um mundo cada vez mais batizado contra a calma


Blackout - Catheris Mondombo (2021)


Há coisa de um mês e meio a ibéria apagou-se eletricamente durante um dia, e tudo o mais foi sobreviver à falta desse bem básico de que hoje também precisamos como do pão para a boca: eletricidade. Ter de descortinar se há heresia neste entendimento é obrigarmo-nos a trilhar o caminho do que se entende por básico e do que se entende por alimento. Não o vou fazer, insisto em que a eletricidade é, no ano de 2025, um bem básico sem o qual a humanidade regressa ao equivalente às cavernas, senão mais atrás ainda por falta de preparação até para o tempo das cavernas.

O que, sim, mais me apraz refletir é a velocidade com que efemérides insólitas surgem e se debelam todas as semanas, a um ritmo frenético e incessante.  Nem é só a ideia de um mundo em constante mudança, é um mundo em revolução permanente, ao ponto dessas reviravoltas serem o normal e não a exceção. O que interessa o estado do tempo há 15 dias? Tanta água já correu debaixo das pontes desde então. O que interessa o estado do tempo dentro de 15 dias? Há tanta água para correr debaixo das pontes até lá!

Não mais haverá tempo para esperar e creditar a um profeta um total de 32 anos para operar uma revolução na relação do homem com os seus semelhantes e com o mundo. Hoje ele nem 32 minutos terá, ou para os ter, terá de conquistar (e pagar) por atenção coletiva.

Só pelo travão causado por efemérides causadoras de dor ou desespero pode a mensagem salvífica ainda penetrar e provocar impacto neste mundo tão batizado contra a calma. Fora disso o turbilhão diário, a disputa incessante do tempo na forma de atenção e desatenção, de fôlego cognitivo para compreensão ou desacreditação, do tanto de realidade que nos é ampliado e gratuitamente dado a dissecar, esmaga penitências, contrições e memórias inesquecíveis.

Este é o mundo indigerível por um estático e sucinto evangelho à moda antiga, um mundo onde o próprio Deus há de gastar um colossal quinhão de eletricidade só para se inteirar de tudo, fazer follow up, e encerrar para balanço o processador todas as noites. E a pergunta que não quer calar: o que é o saber estar num cenário destes? Seguir sempre e nunca travar? Travar quando nos couber em sorte uma grande missão que abdique sem pudor tudo o resto? Qual é a bússola e o sextante dos nossos tempos? Será elétrica, artificialmente inteligente, nuclear, quântica?  Este é sem dúvida um mundo rendido ao ritmo, e último que apague a luz, mas só por um dia.

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Caminhadas pela vizinhança (2025.5): diferenças entre não cientistas e cientistas, e a causa maior pela qual todos devemos lutar todos os dias

Citizen I - Abel Alejandre (2023)


  • "As Duas Culturas", por C.P. Snow, Editorial Presença, 1996
"Os não cientistas têm a impressão entranhada de que os cientistas são de um optimismo oco, inconscientes da condição humana. Por outro lado, os cientistas acreditam que os intelectuais literários são totalmente falhos de perspectiva, com um desinteresse peculiar pelo que se refere aos seres humanos seus irmãos, e, numa aceção profunda, anti-intelectuais, com a sua ânsia de restringirem tanto a arte como o pensamento ao momento do existencial. (...) A maior parte dos cientistas que conheci sentiam - tão profundamente como os não cientistas que conheci igualmente bem - como é trágica, em termos individuais, a condição de cada um de nós. Cada um de nós está só: por vezes escapamos à solidão, por meio do amor ou do afecto, ou talvez de momentos de criação, mas estes triunfos são manchas de luz que fazemos para nós próprios enquanto o caminho continua a ser trevas; cada um de nós é só que morre. (...) Mas quase todos os cientistas - e é aqui que a cor da esperança deveras se manifesta - não vêem por que razão, justamente, por ser trágica a condição do indivíduo, o deva igualmente ser a condição social. Cada um de nós é um solitário; cada um de nós é só que morre. Muito bem, trata-se de um destino contra o qual não podemos lutar - mas há imensa coisa na nossa condição de que não é destino, imensa coisa contra a qual não podemos deixar de lutar a menos que nos tornarmos menos que humanos."

  • Nuno Cardoso, no podcast A Beleza das Pequenas Coisas, 2025
"O que eu acho, que a gente tem de lutar - e se calhar estou a ser demasiado grandiloquente e demasiado convencido ao dizer isto - , o que gente tem de lutar todos os dias e a causa maior para mim, é a causa da cidadania, que implica todas as outras, que implica esforçar-nos para estarmos conscientes de que somos todos iguais, mesmo que a gente depois ache que eles [os outros] são diferentes, temos de chegar a casa, fazer um exame de consciência, e no dia a seguir sermos diferentes. 
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Sobre Aurélio Pereira, um descobridor dos tempos modernos que revelou ao mundo o talento futebolístico português enquanto especiaria cultural muito apreciada mundialmente


I AM LEGION, I - Segun Aiyesan - 2024

Embora com manifesto atraso de semanas, cabe-me cumprir o que em consciência me sinto há algum tempo crescentemente impelido a sublinhar sobre Aurélio Pereira, descobridor português dos tempos modernos, cavalheiro que navegou pelas difíceis águas da observação de pessoas não para desencantar caminhos marítimos ou territórios físicos para a nação portuguesa explorar e prosperar, mas para descobrir talentos humanos numa atividade cultural impactante na afirmação dos países em todo o mundo, como é há várias décadas o futebol.

Um país da dimensão de Portugal ser capaz de ombrear e superar nações cuja base de oferta de talento humano é proporcionalmente superior em fatores de até vinte e uma vezes - imaginemo-nos a defrontar e vencer um adversário que se nos pode opor na proporção de vinte um para um - é um feito de superação épica que lembra o de outrora sobre um pequeno país à beira mar plantado que se lançou aos mares para descobrir o que outras nações bem mais capacitadas no poderio podiam ter feito em seu lugar.

Descobrir o potencial em recursos humanos em idade infantil, cativá-los a abraçar um caminho e conseguir que singrem profissionalmente cruzando o cabo da adolescência é uma longa epopeia educativa, social, e desportiva, de tremenda responsabilidade e risco. Com tantos talentos descobertos no currículo - inclusive dois atletas que chegam ao patamar de melhores do mundo desfasados de apenas oito anos entre si - a sorte não pode explicar mais do que o mérito associado à excelência de Aurélio Pereira. A lista de tantos outros que atingiram a elite do futebol é longa e não menos digna de menção para titular o mérito ímpar de Aurélio.

Por fim, importa recordar que Aurélio Pereira foi também um praticante da modalidade em que se celebrizou, mas enquanto executante não chegou a jogador sénior ficando pessoalmente muito aquém dos patamares de elite e glória que, anos mais tarde, foi capaz de projetar para tantos outros talentos por si descobertos e encarreirados. Definirmos com sucesso a vocação a tempo de investirmos nela e a potenciarmos - ainda que com dissabores pelo percurso por acreditarmos com erro que o nosso caminho deveria ser o outro - é a prova provada de que só nos tornamos excecionais naquilo que somos naturalmente mais dotados, e portanto a grande missão para a realização pessoal e profissional é descobrir como encaixar na engrenagem da criação de impacto na sociedade a partir do talento que solitária ou em equipa se torna notório que transportamos em nós, coisa que Aurélio soube como poucos fazer, para bem da nação que o viu nascer.
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