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Sobre a fragilidade do conhecimento

Qualquer abordagem visando a temática do conhecimento traz consigo a árdua tarefa de definir o conhecimento, de o qualificar enquanto fenómeno ou processo cognitivo. Conhecer, reconhecer, lembrar, saber, distinguir, definir ou explicar são todos termos que se tocam e que comungam de muito entre si. Haveria lugar a incontáveis correcções caso me propusesse lançar a minha versão sobre todos eles. Aquilo que sugiro, no entanto, é mais simples. Atentemo-nos na enorme massa de conhecimento que sustenta as nossa civilizações, e pensemos bem nos riscos que corremos cada vez mais ao adoptar o modelo virtual de armazenamento. Por várias vezes já me descobri na pensar na hipotética eventualidade de um desastre incomensurável e nas implicações que o mesmo teria na organização e sustentação das sociedades no campo do conhecimento. As novas tecnologias promulgam o conhecimento, dão-lhe acessibilidade contribuindo para uma menor necessidade de interiorização. No cenário que tracei, imagine-se a total abdicação da electricidade, por colapso. Como iríamos gerir a repentina perda de conhecimento que isso implicaria? Que dimensão teria o retrocesso civilizacional directamente associado à dissolução das fontes do saber dependentes da energia? Penso nisto não com o intuito lúdico de iludir-me do actual presente, mas com vista à reflexão sobre a forma como se processa o conhecimento e como se devem salvaguardar alguns aspectos que o impermeabilizem de percalços improváveis mas ainda assim possíveis. O conhecimento flui pelas teias de relacionamentos profissionais, amorosos, familiares ou amizades, mas em momento algum, sobre ele incide a posse alheia. Temos em nossas mãos o poder de gerar mais conhecimento em menor tempo útil, mas as mesmas ferramentas que são usadas para a obtenção dessas metas, podem apadrinhar, um dia num cenário desfavorável, uma inversão dessa tendência.
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Sobre a ética na ciência

Os grande projectos científicos, englobam, no seio dos investimentos que representam, estudos e pareceres legais e éticos sobre os assuntos em que se inserem, buscando estabelecer raios de intervenção cerceadores.
Seria um desgoverno completo avançar progressivamente para aprimoramentos do conhecimento sem que se fizesse sentir ou impor o freio resultante de reflexões racionais sobre os proveitos directos de cada pedaço de conhecimento face aos riscos a ele associados ou ao despoletar de focos potenciais de risco.
A psicologia alerta, porém, para um fenómeno muito comum nas actividades humanas, cuja descrição se identifica pela tendência humana para a projecção de expectativas em situações onde se exige neutralidade e ausência de emotividade.
Ainda que leigo na matéria, preocupa-me essa simultaneidade e dependência entre quem quer retirar proveitos das investigações que sustentam os projectos e quem tem de emitir um parecer ético e meramente racional sobre a mesma investigação.
Torna-se claro que a extrema complexidade e requisitos, que são e exigem, respectivamente, a ciência actual, conduzem a cenários onde o parecer ético mais consistente deveria chegar por parte do próprio cientista que investiga, pois só ele, por dedicar todo o seu tempo e atenção, conhece os meandros reais do seu trabalho. Este, porém, carrega em si a vontade de saber mais, o desafio de chegar mais longe, e como tal balanceia a ética do seu estudo com a vontade de que é portador, correndo o risco de eclipsar o propósito maior da ética, que é impedir o alcance de paradigmas que ameacem a natureza e o sentido de humanidade.
Dada a conjuntura em que nos encontramos, fértil na crise de valores, o maior desafio de quem faz ciência, a meu ver, é conciliar a obtenção de mérito científico com o reconhecimento da insustentabilidade de certas opções, pois não há mérito maior do que evitar o mal pela abdicação da descoberta da maldade.
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Sobre o uso da mente


O enorme esforço que o ser humano tem de despender para conferir elasticidade e profundidade à actividade do seu cérebro leva-me a perguntar se não será a actividade mental uma mais valia evolutiva cuja consolidação ainda inexiste.


A preguiça que se ergue quando é necessário estudar, aprender ou explorar mais, motiva esta hipótese que aqui levanto. Ela ganha, aliás, alguma força, se for tido em de linha de conta o facto de que o esforço intelectual paga-se melhor, em termos profissionais, do que as exigências físicas. Isto frequentemente não é muito bem compreendido por quem não conhece a problemática de ter de pensar obrigatoriamente todos os dias, no lugar de cumprir tarefas árduas do ponto de vista físico.

As empresas sabem que dependem de ideias para inovar, para ambicionar ou para projectar, daí se rodearem de peritos que nem sempre são bons profissionais, mas que surpreendem de quando em vez com construções teóricas que, após modeladas, permitem lançar trunfos no mercado e criar riqueza.

Se pensar não fosse um esforço ou desgaste, talvez não houvesse grande vantagem em estudar mais uns anos, em acumular graduações e formações, pois não haveria, em termos de mercado de trabalho, qualquer tipo de vantagem ou aliciante profissional que motivasse essa exigência adicional. Todavia, sobre a hipótese de ser uma vantagem evolutiva não consolidada, isso detém-se exactamente no obstáculo que é pensar. Uma espécie consolidada do ponto de vista intelectual não seria tão reticente em aproveitar o recurso que lhe confere superioridade evolutiva.

Um dos sinais de que todos temos em nós esse respeito pelo esforço de pensar está no reconhecer enorme utilidade a todas as ferramentas tecnológicas que se servem de cômputos, o que não deixa de ser sintomático de que poderemos andar ambicionar superar a não consolidação da mente pela via da tecnologia.
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