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Sobre o acomodamento na vida

A determinada fase, o ser humano cede ao acomodamento e deixa de se questionar.
Deixa de questionar se o encontraria parceiro melhor do o que tem, se encontraria emprego melhor do que o possui, ou, em suma, se teria melhores soluções para os diferentes aspectos de sua vida, comparativamente aos que arranjou até ao momento.
O acomodamento dá tranquilidade, mas também constrói uma barreira que impede a evolução, embora por outro lado barre o medo de regressão.
Ser precavido e agarrar-se ao se tem é a atitude sensata dos não se sentem capazes de confrontar os padrões e de sustentar uma posição fracturante.
Dizer que sim, ainda que falsamente, parece representar uma solução mais apetecível e fácil do que dizer que não uma vez que seja.
O aumento de responsabilidades, que acompanha o aumento de idade, vai produzindo ondas de acomodamento, que subtraem aos poucos o jovem irreverente das suas arrojadas ideias e quiçá audazes princípios que nos primeiros tempos de adulto poderiam parecer dados adquiridos.
O próprio poder de mudar parcialmente, apenas alguns detalhes, se vai perdendo e diluindo com o passar dos anos. Acabam as pessoas por se habituar, por se anestesiarem do mal das suas vidas com vícios vários, com actividades recompensadoras.
O medo da desgraça move esta dinâmica de aceitação do destino, um destino que teve a nossa mão outrora, mas que se acha agora na sua própria mão, à solta para se governar enquanto nos vamos alienando com coisas para consumir, conversas banais para ter, factos irrelevantes em que pensar.
Assim é a vida que nos espera, que me espera também, e que não sabemos, como não sei, se não acabaremos por subscrever e aceitar com total desprendimento e solidariedade para com os sintomas inicialmente identificados pela nossa juventude.
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Sobre o fracasso pelo atraso

O sentimento de chegar atrasado ou tarde de mais a determinado objectivo, situação ou pessoa, nem sempre pode ser contornado pela mentalização de que um atraso para esta oportunidade signifique um adiantamento para a próxima, pela suficiente razão de que pode não haver outra oportunidade seguinte.
Um lugar já ocupado, uma porta já fechada, um autocarro que já partiu, um contacto que já outro descobriu primeiro para os mesmos objectivos, uma meta passada em segundo lugar, uma paixão já ocupada por outrem. Sucedem-se em número e diversidade as frustrações por não se conseguir alcançar de forma pioneira aquilo a que nos proponhamos alcançar.
O mundo desloca-se e desenrola-se independentemente do nosso ritmo, não estando por nada a aguardar a nossa presença para nos entregar as oportunidades de bandeja.
Dominar os nossos fracassos é condição vital para que nos tempos de hoje seja possível manter uma mente saudável. O nosso autocarro já partiu, o nosso lugar ideal no estádio já está ocupado, a nossa oportunidade de promoção esfumou-se, a pessoa que desejávamos conhecer melhor já tem dono, só nos resta de facto saber superar os desaires que se nos impõe à revelia da nossa vontade.
Saudemos este mundo que não nos guarnece com tudo o que queremos, da forma como o queremos, pois é essa luta que dá sabor às conquistas e às decisões arrojadas.
Rendermo-nos ao desaire, achando-nos filhos do infortúnio é erro tão grande como o de escusar reflectir sobre o que correu mal e tentar clarificar até que ponto depende de cada um de nós o sucedido.
Arrisco dizer que a oportunidade seguinte existe na maioria dos casos, ainda que de formas não propriamente iguais em forma, mas idênticas em resultado.
Existirá pois um rumo preciso que converge com a mesma oportunidade que fracassou, perdido no meio do pessimismo ou desistência que dão tudo para nos assomar.
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Sobre a propaganda das ideias

É muito difícil apartar o mérito de uma ideia, da propaganda e até auto-elogio. Recentemente tenho notado grande balbúrdia na discussão da fronteira entre o fim do mérito pela ideia e o início da propaganda, na questão do novo computador Magalhães, medida do actual governo.
Em primeiro lugar devo dizer que o vasto leque de opinadores amadores e profissionais desta nação anseia diariamente por uma notícia ou anúncio sobre o qual se debruçar e desenvolver as suas ideias. Acontece que é sabido que quem tem uma ideia primeiro, ganha logo a primazia do pioneirismo e como é olhado com uma atenção particular.
Longe de querer discutir a política por detrás do projecto Magalhães, julgo apenas que interessa verificar como os detractores do projecto apelam à propaganda enquanto que os apoiantes do mesmo realçam o mérito da ideia.
Não há sentença absoluta em matérias de juízos sobre ideias. Uma coisa deve ser realçada, quando alguém tem uma ideia original, a propaganda é uma consequência. O sucesso de uma propaganda não são favas contadas. Note-se bem como as marcas investem nas propagandas das ideias que querem vender e nem sempre o conseguem. Recordemos ainda como ideias políticas recentes no ramos da saúde, que levou à demissão de um ministro, não tiveram sucesso apesar da propaganda pelos mesmo meios de comunicação com que nos chega agora o projecto Magalhães.
Além do mais, acho que a propaganda, além de consequência da originalidade, como mencionei, é consequência também daquilo a que poder-se-ia chamar da natureza intelectual humana. Todos nós, quando temos ideias próprias que cheguem ao nosso círculo de amigos, parentes ou colegas de trabalho, somos impulsionados a propagandear as nossas ideias, enquadrando-as, clarificando-as, realçando-lhes os pontos fortes, de forma a convencermos os nossos interlocutores daquilo que pensamos. A discussão deve perdurar, e não haverá propaganda que a demova.
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Sobre os animais de estimação




Os animais de estimação são tipicamente animais de projecção. A estimação deve-se, de resto, à projecção, que nada mais é do que a tendência que os seres humanos têm para dotar seres irracionais ou mesmo objectos inertes de vida, de características humanas, fantasiando-os como se de seres humanos se tratassem.

O balanceamento deste comportamento é que determina se somos uns patetas ao ponto de pôr os animais a comer à mesa connosco, ou se os vemos como um fim para ganhar dinheiro ou fazer testes científicos, sem grande respeito e ética.

Quando pego numa peça de fruta e tento usá-la como isco para que o meu cão deixe o sofá e volte para fora de casa, não lhe dando a peça de fruta obrigatoriamente depois de ele cumprir com aquilo que eu desejava, julgo ser interdito pensar que o animal pode ficar zangado ou triste com a desfeita que lhe fiz. Num primeiro momento, desatento, pode até surgir esta ideia, mas logo a seguir há que pensar que se trata de um cão, um ser irracional que nem sequer tem consciência de que existe. Não se pode confundir este tipo de raciocínio com a ideia de não se gostar ou tratar correctamente dos animais de estimação.

As pessoas dos ambientes rurais constituem nesta matéria um exemplo esclarecedor da situação, visto que têm um entendimento dos animais ditos de estimação bastante mais enquadrado com a realidade: não permitem aos animais de estimação o estatuto de seres humanos, estabelecendo naturalmente um papel de dono que lhes confere a responsabilidade pelos mesmo. Aqueles que dotam os seres de estimação de propriedades humanos a ponto de os interpretarem e considerem um filho ou uma criança, estarão certamente mais perto do comportamento condenável de irresponsabilização perante os estragos ou problemas que o seu animal possa causar.
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Sobre a mais valia do contraditório



The contradiction - Carol Burns (2022)




O desenvolvimento de uma acutilância intelectual vocacionada para o espírito de contraditório é uma mais-valia inestimável para a vida do ser que a possua.

Tudo se resume a não permitir que a mente adquira uma parcialidade compulsiva, que a impeça de sequer considerar a hipótese de aceitar estar errada em determinada análise.  O contraditório é a estratégia a adoptar caso se procure manter uma conversa ou uma reflexão individual dentro do rumo lógico que é sempre desejável.

A falta do contraditório como prática tão comum a ponto de que se confunda com a personalidade de uma pessoa justifica o tipo de conversas e uniões entre elementos amigos que se caracterizam por identificar um qualquer inimigo externo ao grupo e como tal passam a concordar com todas as opiniões, desabafos e ideias que este tenham, sem sequer as julgar em abstracto ou contrapor.

Qualquer pessoa que não contraponha a argumentação daquilo sobre o qual se debruce é um ser limitado que não está habilitado a ser decisor de questões que impliquem a vida dos outros. Normalmente, perante questões de menor importância, o contraditório não se apresenta como algo vital, mas a verdade é que só pela via da constante crítica é que se consegue manter a razoabilidade e a consistência com aquilo que nos define.

Quando se fala na capacidade de alguém pensar por si, nem sempre significa isto a existência de um contraditório, podendo porventura significar que a mesma pessoa, tende a incorporar os assuntos na sua grelha de aprovações e reprovações pré-estabelecida, a qual não é alvo de contraditório e como tal é também ela susceptível de falha, seja por existência de preconceitos, lacunas de perspetiva, e/ou  por pressupostos infundados

É interessante, de resto, salientar que é comum verificar-se o surgimento de um contraditório motivado por interesses prévios, ou seja, recorrer ao contraditório para favorecer uma vontade de atacar determinada posição, o que não é bem a mesma coisa de se servir do contraditório para dele extrair a posição mais sensata a coerente sobre o assunto.

Publicação original: 08/2008
Revisão: 10/2023
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Sobre o dilema da qualidade e quantidade na escrita

De que forma pode alguém saber se está a produzir material escrito em qualidade e quantidade de acordo com o seu potencial?
É importante à partida encarar esta questão ciente de que a temática das produções escritas é variável de elevada dependência no desfecho final da pergunta inicialmente avançada.
Se ignorarmos num primeiro momento a questão da qualidade, poderia afirmar sem receios que o tema determinaria a quantidade, na medida em que uma tendência para a escrita sentimental, aquela de fala de emoções e estados de espírito e que se perde nessa temática, levaria a um caudal rico de textos e reflexões, uns melhores que outros, umas mais claras que outras, naturalmente.
Tornar-se-ia um tédio abdicar da qualidade e avaliar tudo numa base quantitativa, embora se ganhasse em objectividade.
Sucede que a temática mexe também na qualidade e esta determina profundamente o valor da quantidade de material escrito produzido, podendo-se por fim analisar a proximidade ou distanciamento do que advier dessa análise comparativamente ao potencial que identifiquemos em nós.
A escolha de temas menos óbvios ou senso comum, porventura mais técnicos e abstractos, leva a que se escreva menos pois a dificuldade em desbravar o assuntos associada à motivação própria que exigem para os aflorar, assim o impõem. Contudo, a produção de um texto de eventualmente mais árdua interpretação sobre um assunto complexo e talvez órfão de intuição, pode constituir um ganho adicional superior a resmas de papel escrito sobre banalidades ou questões pouco racionais.
Só pela análise conjunta destas variáveis se poderá arriscar um palpite sobre o produto global do acto da escrita, ao qual se deverá somar os passos dados a favor de uma evolução literária que se exige. Escrever não deve ser um acto descomprometido.
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Sobre a relatividade de qualidade dos prémios quando existe uma imposição anual de os ver atríbuidos

A shallow sound - Matthew F Fisher (2018)


A premiação anual levada a cabo por várias entidades, desde a academia Nobel, passando pelos prémios literários como o Pullitzer, e ainda os de cariz empresarial e de investigação, todos procuram atribuir um galardão ao que de melhor se fez em dada área de intervenção ou actuação. Chamaria a atenção para o facto de que facilmente somos levados a igualar em nível de qualidade aqueles que merecedores foram de um galardão desta natureza.

E fazemo-lo, talvez, porque nos habituamos a estas premiações, de tal forma que nutrimos por elas afeições e respeito fixos de acordo com a notoriedade que reconhecemos à entidade atribuidora.
O valor e a qualidade de dois vencedores de um prémio deste género não podem nem devem ser admitidos iguais só com base na constância da entidade que os atribui. Assim, um Nobel da paz como Madre Teresa de Calcutá não pode nem deve ser tido como igual a alguém que recebeu o mesmo galardão por apadrinhar o microcrédito aos pobres ou ainda a alguém que pregue as boas práticas ambientais. O galardão é o mesmo, desfasado de anos apenas, mas a pessoa e o que fez para merecer tal premiação não são as mesmas. Num ano excepcionalmente rico em boas acções no âmbito do conceito de paz, talvez o segundo classificado que nada recebeu tenha mais valor do que o primeiro classificado - e como tal vencedor - do ano seguinte.

É esta relatividade que julgo ser importante chamar a atenção, na medida em que é a consequência da obrigatoriedade de atribuir um qualquer prémio todos os anos, segundo o critério tempoeral de um ano de actividade. O prémio a atribuir é função da qualidade do que se conseguir alcançar no ano a que diz respeito e como tal vive refém da oscilação criativa ou mediática do período a que se sujeita. Se se criassem prémios a atribuir aos que já os receberam, talvez se entendesse, por fim, que dois galardões iguais, em anos diferentes, não premeiam algo de igual valor.


Original: 08/2008
Revisão: 04/2021
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