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Sobre o chegar mais alto

A natureza rege-se por mecanismos evolutivos e seleccionadores muito próprios, dos quais há muito nos achamos gratamente emancipados.
Da fuga à queda dos mais fracos, pela unificação da comunidade social surgiu a si agregado o acomodamento e a desvirtuação da ambição natural da natureza que é chegar mais alto, mais longe e mais perto, ou seja, progredir.
Quando numa nação não se aproveitam os recursos disponíveis, todos concordamos que está a haver uma má gestão. E o que dizer quando esses recursos são as faculdades mentais dos seus cidadãos? A falta de motivação para aprofundar e erguer ideias, içando-as para os temas de debate a fim de incentivar o trabalho de raciocínio deve constituir motivo de frustração para todos. A excessiva habituação ao presente da forma como é sentido, com a consequente adição de cegueira crítica e reflectiva é imagem de um mundo expectante, excessivamente à espera de Messias reais, como são os que revolucionam verdadeiramente as épocas com suas ideias e inovações. O medo da diferença de pensar, associado à ainda maior dificuldade de discordar de forma honrosa e pacífica só atesta a nossa medíocre tendência para o fraccionamento em clãs naturais contendo gente com tanta sintonia que estão sempre garantidas concordâncias constantes, para mal da busca pela verdade. O desvio das regras da Natureza pelo barrar da lei do mais forte, simplesmente veio em benefício de todos os que a interpretaram como medida facilitadora de paz e de inactividade aos que não se querem esforçar em prol de si mesmos ou dos outros que mutuamente o podem fazer também. A natureza premeia os mais fortes, os que chegam mais longe e mais perto com o domínio e a prevalência, mas nós, espertalhões, deixamos o domínio para uns e o mérito para outros, reservando para alguns o posto de parasitas que não se devem confundir com os incapacitados, esses sim merecedores do apoio dos fortes.
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Sobre as certezas e a verdade

As certezas, ainda que mais condenáveis do que as incertezas, por implicarem um posicionamento ou sentenciamento de uma forma de pensar, são, a meu ver, os vectores preferenciais com vista a um mais rápido caminho rumo à verdade.
Sendo a crítica, mais do que a sugestão até, uma forte de ferramenta no caminho do alcance da verdade, ela pactua com a certeza num aspecto crucial, ambas implicam uma exposição objectiva de um pensar, uma definição clara de mensagem, uma criação de fronteiras. Não conheço alguém que se proponha criticar as incertezas dos outros, pois essas são um campo ilimitado, sem fronteiras.
Aquando do acusar alguém de ter excessivas certezas, talvez se sugira pensar que esse mesmo existir de certezas possa constituir um convite maior à procura da verdade do que o silêncio daqueles que pautam a sua vida com tantas incertezas que isso se traduz numa inércia total ou relativização do mundo.
O método científico funciona na base da exposição e crítica, talvez por esse ser um mecanismo mais prático e fluido de tornar exequível a evolução do estado de ignorância em que a sociedade possa estar.
Ter certezas sobre diversos assuntos, além de poder ser visto como um esforço por ter êxito no panorama do conhecimento do mundo, deve ser observado mais como um exercício de autoconhecimento do que como sinal de ostentação. Quem exprime as certezas a que chegou ou que possui em si, não tem necessariamente de ambicionar a sabichão, podendo apenas estar a convidar-se para caminhar rumo à coerência e à uniformização do estilo de pensar, simultaneamente a que convida os outros a revelarem as suas próprias certezas sobre o assunto ou vestir o papel de crítico para bem de todos e para bem da vontade suprema de se chegar a um patamar superior após a discussão. Estes desígnios, tal como os expus, são parte dos motivos que me levam a escrever neste espaço da forma como o faço.
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Sobre o tempo estereotipado

A materialização do tempo, concretizada pelos relógios,, cronómetros, cronógrafos ou temporizadores determina hoje, ainda início do século XXI, mais do que deveria.
Não encontro outra utilidade de saber permanentemente o tempo que não perante situações onde mais de um ser humano tenham de se sincronizar para garantir organização num qualquer evento que participem ou do qual estejam dependentes.
Espanta-me que passemos a maior parte do tempo sem perder a noção do tempo, como se a sua perda conduzisse à impossibilidade de vida.
O tempo tem hoje uma posição autoritária face às vidas humanas. Ele, que deveria servir somente a organização colectiva, dita comummente as regras da rotina individual. Fá-lo sempre que alguém decide com base no tempo em vez da vontade, como quando se decide almoçar pelo que diz o relógio e não pela fome, ou quando se manda alguém para a cama por serem horinhas. Há nisto um quê de escravidão, inexplicável do ponto de vista de quem olha para o tempo e pensa, por exemplo, porque motivo deve andar toda uma civilização atada a 24 horas diárias. Podendo estar a ser ignorante, neste ponto, não vejo motivos para acreditar que 24 horas são a medida horária correcta para um dia nos tempos modernos. Há muito neste mundo que precisa de algumas reformulações, o próprio tempo desajustou a validade e utilidade das actuais convenções de contagem do tempo.
A prova mor de que a escravidão do tempo existe foram os recentes ecos dados por alguém que não recordo, mas cuja mensagem era clara: mudar o fuso horário português para que houvesse mais sincronia no plano europeu. Em termos objectivos, porque não manter o sistema horário e simplesmente deslocar as rotinas de acordo com o interesse? A nossa fraqueza é desistir de certas metas, deixando para os vindouros ou para os vizinhos a aparente maçada de discutir assuntos que não poderiam ser de maior interesse geral. É mais fácil discutir assentos de autocarro.
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Sobre a mortalidade dos famosos

Habituamo-nos a respeitar e invocar os nomes de grandes homens e mulheres do mundo sem que, diversas vezes, em momento algum tenhamos tido o cuidado de procurar descobrir as razões de tal projeção, de tal fama e de tal importância.

A dada altura do processo de alastramento da popularidade, a deturpação do sentido inicial, esse sim meritório de louvores, pode tornar-se de tal forma grande que não mais se sabe bem qual foi deveras o facto motivador do despoletar da onda de popularidade.

Assim, muitos serão os casos de gente a reconhecer os seres humanos importantes e dignos de referência sem contudo saber explicar sucintamente e claramente o porquê de tais elogios. Justifica-se até a eminência dessas pessoas com a própria popularidade, como se essa fosse razão para suscitar ainda mais popularidade.

Trazendo os exemplos para a escala do dia-a-dia, casos existiram em que fui adoçado com expectativa por conhecer alguém ou estar na sua presença e me vi depois nos campos da desilusão pelo defraudar das expectativas criadas. Isto tem algo a ver com o facto de o ser humano, por natureza, se entusiasmar com pouco e tender a relegar para segundo plano todas as restantes coisas, paralelamente à divinização de uma dada virtude.

A perda do fio revelador da virtuosidade pela adulteração ou abolição torna os dignos de referência em nomes avulsos, desprovidos de contexto ou história e, por conseguinte, transforma-os em modelos de curto-prazo que a curto-prazo perecerão pela escassez de argumentos válidos, em sociedade, para a manutenção do seu estatuto. São substituídos pelos famosos do momento, aqueles que não necessitam de relembrar o que quer que seja por estarem na infância do seu caminho rumo à popularidade. Porque não olhar, então, para a nossa cultura e verificar quem são os famosos de sempre e, num exercício de clareza, relembrar/conhecer motivos de tal projecção?
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