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Sobre os perfis virtuais

A Internet é hoje um veículo extraordinário para um fenómeno que talvez outrora ocorresse em moldes similares, mas recorrendo à via postal, e que acredito ser apetecível do ponto de vista da reflexão.
Por este mundo da WEB fora, deixamos de encontrar seres humanos que respondem ao seu nome próprio, para constatar-se a existência de um leque colossal de identidades ocultas, dadas a conhecer por nomes vagos, místicos , exóticos ou indecifráveis. Torna-se clara a existência de uma moda para o disfarce, para o uso de identidades potenciadoras de curiosidade, cujo papel maior é esconder a pessoa que lhe dá uso e inocentar ou desavergonhar esse ser na sua expressão voluntária.
São do conhecimento geral os perigos de se falar com desconhecidos pela net, muito pela facilidade com que se simulam perfis e ludibriam conversas.
Por desconhecidos, ninguém alude às pessoas que se conhece, melhor ou pior, no mundo físico, pois essas, pelo contacto sensorial directo, permitem-nos um sentimento de segurança. Aquilo que dei conta e que é o cerne de toda esta intervenção, vai para a existência de pessoas que nos são à partida conhecidas no mundo físico, mas que parecem estranhos quando encontrados no mundo virtual. Noto isso em pessoas pouco expansivas no dia-a-dia, seres aparentemente curtos do ponto de vista intelectual, que demonstram perfis muito mais artilhados no meio virtual do aqueles que se verificam na realidade, para confusão minha.
Sei que, tal como disse ao começar, a net é vector de liberdade, que permite a revelação ilimitada da polpa de cada um, mas é deveras estranho desconhecer um conhecido e não saber qual perfil é o perfil real.
Assiste-se hoje à versão moderna do admirador secreto que enviava cartas revelando-se e declarando o seu ser, sem nunca revelar quem era; sinal de que há práticas de interesse intrínseco ao ser humano e não à sua época.
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Sobre o adiamento da felicidade

Num mundo cada vez mais fértil em oportunidades e opções, progressivamente se revela maior a problemática da procura e encontro do estado de felicidade.
A chegada de um novo dia, como sequência do dia anterior tem quase sempre como significado continuar algo previamente principiado e raramente é visto como um dia único, singular e irrepetível.
Acontece pois o aparecimento de uma sensação de adiamento da felicidade, quase como uma utopia de fé, criada para iludir a aspereza do presente, como um elixir que impele a vontade à chegada do futuro.
Vê-se então o ser humano a formular ideais, em que ingenuamente se convence que depois disto que está a fazer, ou daquilo que só a partir de xis cessará, é que a felicidade genuína lhe baterá à porta.
E como erra o ser humano ao ludibriar-se recorrendo a esta malha de lógica viciada.
Este mecanismo de estancar o terror do presente, com vista num marco futuro incerto, está para o ser humano, como a imagem de animal que puxa uma carroça iludido por uma cenoura que, suspensa à altura dos seus olhos, o faz querer alcança-la a todo custo, mesmo que tendo de puxar uma carroça.
A felicidade, ao contrário do que possamos sentir, depende mais da nossa exigência e atributos intelectuais do que do cruzamento de factos do mundo.
Ninguém deve viver no adiamento da felicidade, porque ela, tal como o tempo, a juventude, a saúde ou a vida, não são fenómenos estáticos ou consolidados, são estados dinâmicos, ausentes de concretização finita.
Termino com uma consideração final: perante o imbróglio de variáveis a que o mundo moderno se debate, a missão do homem no campo da felicidade, é saber extrair do seu presente, sempre pela via do pensamento, a felicidade que alimente a sua alma, ao invés de a adulterar com o vício de um futuro onírico, de chegada inexistente.

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Sobre a corrupção

Proponho-me hoje falar aqui da corrupção, como sinal de protesto pela frequência com que a tenho identificado no meu dia-a-dia recente.
Quando penso na recorrência à corrupção, vejo-me na obrigatoriedade de discutir a questão da honra, que muito tem a ver com a dignidade.
Corromper é sempre um acto de desonra, é a abdicação da dignidade por um objectivo mundano, como que uma troca do valor abstracto pelo valor concreto.
O meu agastamento, que em muito contribui para escrever sobre este tema, prende-se com a constatação de que há por aí muito má gente a vender a sua honra por coisas menores, sem notar que com a perda dela se perde também toda a confiança e crença na clareza e ingenuidade dos seus propósitos.
Torna-se ainda mais grave, verificar que a corrupção é quase do foro patológico, na medida em que muitas vezes surge num contexto em que a busca desmedida e doentia de um objectivo provoca a sua ocorrência, como solução para a ausência de atributos naturais ou viabilidade que permitam alcançar o objectivo proposto.
No meio estudantil, a corrupção é a forma que alguns encontraram para fugir ao esforço do estudo ou limitação biológica. Não quero lançar ameaças com esta intervenção, apenas considero que chegará o dia em que se poderá retrospectivar e fará imenso sentido a máxima que afirma que na vida não há sorte nem azar, há consequências.
De qualquer forma, preocupa-me ver a juventude a crescer com a ideia de que, no limite, corromper é solução de recurso, qual seguro de vida alternativo.
Copiar num teste não será grave comparado com a corrupção nos negócios ou na justiça, mas há que lembrar que a corrupção por si só não existe, ela é resultado de um eu que após ter vendido a sua honra para questões menores, saberá um dia orientar-se na ampliação do seu raio de intervenção, se quiser ou necessitar.
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Sobre a relatividade do valor

Pergunto-me hoje, sobre o que é o valor de uma coisa, sobre o quão colectivo e estático pode ser o valor de uma coisa ao ponto de atingir um estado de valorização independente daquele que cada ser humano lhe queira ou possa atribuir.
Não deixa de ser curioso que mesmo aquilo a que chamamos valor, portanto, o dinheiro, seja algo que não é intocável no que toca a valorizar ou desvalorizar. Vistas bem as coisas, o dinheiro até vive sempre em dois mercados distintos: o comercial, onde vai oscilando de valor face a complexas teorias económicas; e o pessoal, onde cada ser humano lhe atribui um maior ou menor valor face àquilo que pretenda comprar ou face ao stock de dinheiro que tenha no banco ou apenas de acordo com os princípios que adoptou para viver a sua vida.
Se o dinheiro, verdadeiro elo comum a qualquer ser humano vulgar, é ele próprio um valor relativo, o que dizer de diferentes e talvez mais poéticas formas de valor como são as palavras, as memórias ou os sentimentos? A questão agudiza nestes parâmetros e o debate implode sobre a ramificação possível daquilo a que é possível chamar valor, pois aí vários são os candidatos.
Mas não posso deixar de acrescer que a complexidade não se queda neste ponto, há ainda o facto de que o valor de qualquer coisa muda de forma paralela à mudança do contexto que rodeia a avaliação pontual que se possa fazer a seu respeito. E isso é perceptível no percurso de uma vida, onde novas prioridades sempre aparecem, como resultado de irmos, a cada instante, atribuindo um valor próprio a cada coisa.
Respondo-me, pois, à inquietação, pelo desembarcar na ideia de que realmente o valor de uma coisa é intrínseco e tão dependente de um eu situado algures no tempo-espaço que a imprecisão é enorme quando se cria uma teia argumentativa voltada para a justificação ou publicitação do valor de uma coisa que tanto pode ser um produto como pode ser um simples sentir.
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