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Sobre a pirataria musical

Ouvi na semana passada dizer, e bem, que os portugueses não são sensíveis aos direitos musicais de autor, achando normal a colectivização de produções particulares.
Já me bati diversas ocasiões pelo cessar da pirataria junto dos que me são próximos. Muitas vezes fui confrontado com argumentos diversos, como o excessivo preço cobrado na aquisição de qualquer álbum lançado, ou aquele mais anárquico que assenta da ideia de que: se todos fazem porque serei diferente?
E eu vou respondendo com a chamada de atenção, para o que é do foro particular, do trabalho criativo de cada um, que tem o seu valor e deve ser cobrado. No limite apelo à relação sentimental que o ouvinte tem para com o artista, alegando que é no mínimo uma falta de respeito para com alguém que a pessoa pode até venerar. Não faz sentido ser-se fiel a uma artista mantendo cópias piratas na gaveta das suas colectâneas.
Esta conversa só faz sentido porque há alternativas. Não é preciso gastar dinheiro na compra para ouvir o que se gosta. Basta abdicar do selvagem desejo de posse.
Numa altura em que os computadores tendem cada vez mais para um estado de constante ligação à rede, porque não optar pela execução das faixas desejadas na própria rede, sem haver lugar a uma por vezes problemática ocupação do disco pessoal? O tempo perdido a sacar obras inteiras poderia ser dedicado à pesquisa na rede de sites dispostos a pagar os tais direitos negligenciados por muitos em troca de visitantes famintos de música. Os mesmos sites até se dão ao trabalho de tocar géneros, permitindo descobrir novos artistas de estilo idêntico.
Torna-se esquizofrénico recorrer à pirataria neste cenário.
Deixo-vos 4 sites, dos quais me sirvo recorrentemente com a felicidade de me sentir legal e de bem com aqueles de quem sou fã.

www.1club.fm ; http://www.videocodezone.com/ ; http://www.last.fm/ ; http://www.hotget.com/
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Sobre a visão ocidental do mundo


Numa época em que o Ocidente vive em sobressalto com aquilo que do Médio Oriente pode surgir, faço disso mesmo objeto de atenção para uma comparação que em muito pode contribuir para a perceção da crise de valores Ocidental.

Aquilo que identificamos como excessos nos povos do Médio Oriente e que apregoamos como perigoso, é o mesmo que eles, no seu juízo válido, nos poderão apontar como defeito.

Olhamos para eles e vemos o oposto daquilo que somos, daí não nos entendermos. Escolhemos dizer praticamente sem exceção que eles estão errados por serem radicais nas suas crenças, sem percebermos que nós, com o nosso estrondoso relativismo e tolerância, já com enorme custo somos capazes de lutar por uma causa sem que dela esperemos ganhos materiais, por manifesta dificuldade em sermos mobilizados por emoções e sentimentos.

Aqueles povos, ao invés, lutam por uma causa mais facilmente descritível do que a nossa. Quem identifica a nossa causa? Paz? A paz de uns não poderá ser motivo de guerra para outros?

Vivemos numa crise de valores lastimável que permite praticamente tudo sem gerar revolta suficiente para provocar mudança de cenários. Eles morrem por uma causa, mas nós, ausentes de semelhante propósito, tornamos as nossas vidas alheias para o que os nossos representantes decidem. Berramos um pouco quando nos toca alguma medida negativa, mas não temos energia para mobilizar reacções a sério.

Apáticos vivemos e apáticos vemos dia após dia gente honesta e inferiorizada a morrer no médio Oriente, sangue de humanos a ser derramado por culpa nossa, individualmente, através inércia dedicada ao poder de veto.

Admiremos pelo menos aquela gente, quanta de famílias destruídas, sem estabilidade, para o qual cada dia também tem 24 horas e a qual ousamos criticar desmesuradamente e apelidar de terroristas, quando nós somos terroristas à nossa maneira também.




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Sobre o saber falar

Pela boca morre o peixe. Este é um ditado popular que em tudo sintetiza aquilo que me proponho reflectir hoje.
Sendo a boca, pelo processo discursivo, o elo primordial para manifestação de um ser, como é possível que nos acomodemos com uma leviana educação linguística, sem que sejam levados a cabo esforços que capacitem as gerações vindouras para o dom da fala, enquanto atributo chave que é.
É notória nas ruas a presença de uma inabilidade para falar bem, para explorar o vasto leque semântico em detrimento do calão. Contudo, mais grave do que isso é a postura assumida no processo discursivo. A inexistência de esforços madrugadores para a criação de flexibilidade linguística conduz, em certos casos, a uma frustração tal que induz reacções agressivas aos que se vêm colocados perante um problema onde os mesmos atributos discursivos deveriam surgir como moderadores da resolução da quezília. De qualquer forma, o elemento acusatório não se deve voltar tanto para estes, antes para aqueles que tendo elementos discursivos mais ou menos desenvolvidos, descredibilizam o seu pendor com uma postura corrosiva que apenas permite uma troca de argumentos inicial, seguida de um consequente colapso da discussão por fraqueza emocional ou por criação de zanga assumida.
Trazendo estas inquietudes comigo, quando ouvi um jovem rapaz dizer convictamente que era incapaz de compreender a finalidade da existência de uma disciplina de nome Filosofia, supus que obviamente só poderia estar a referir-se à estruturação da disciplina e não à sua existência em si. É que quanto à existência, talvez fosse de mais pertinente antecipação do que o Inglês em si, já que quem não sabe falar, não o sabe independentemente da língua, por muito que se esforce.
Pela boca morre também homem, de mais maneiras até que o peixe. O peixe só morre a comer. Nós morremos a comer, a fumar, a beber, e, pasmem-se, a falar.
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Sobre um transplante de cérebro


Pensando na eventualidade de um dia vir a torna-se possível realizar transplantes de cérebro entre humanos, chegou-se a um ponto extremamente pertinente: ninguém se torna outro pela mudança de corpo, pelo que cada um de nós nunca poderá deixar de ser efetivamente a pessoa que é.

A fantasia que a ideia do transplante provoca – a de que nos tornamos outra pessoa - ilude a impossibilidade total. O ser nunca será o corpo, ou não houvesse, lamentavelmente, pessoas nos hospitais alienadas de ser mas premiadas com um corpo saudável.

Esta aceção ilusória de que chegaríamos a ser outra pessoa caso nos apropriássemos de outro corpo é rebatida na totalidade pelo exemplo de um par de gémeos, já que ao se associar nem, que inconscientemente, o corpo como o ser, encontrar-se-ia nos gémeos um exemplo de dois seres iguais.

Não conseguiremos nunca portanto fugir a nós mesmos numa situação de transplante de cérebro, apesar de podermos fugir do nosso especto anterior por via de uma mudança de corpo. Convenhamos que o nosso ser é para os outros o nosso corpo, enquanto único veículo ao seus dispor para identificarem o nosso ser numa multidão. Isso conduz a uma ideia interessante: um transplante de cérebro acarretará sempre uma manutenção de identidade para o sujeito que a sofre mas levará a uma aparente mudança de ser na perspetiva de todos aqueles que necessitavam do corpo que é deixada para trás para nos reconhecer.

Há ainda mais uma ideia irresistível: o transplante de cérebro poderia lançar-nos numa espiral dramática a respeito daquilo que é a nossa identidade. Seríamos capazes de olhar para o nosso ex-corpo e apreciá-lo como um cadáver de um estranho? E olhar para as nossas novas mãos, barriga, rosto e cabelo e reconhecermo-nos nesse retrato? Continuarias a ser a mesma pessoa que eras?

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Sobre os óculo de sol

Percorrem as ruas, espelhando toda a paisagem visível. Os seus objectivos, contudo, estão longe de ser mostrar o que por fora se vê, visando mais o ocultar a ferramenta que faculta a visão, e que lhes permite a existência.
Não pretendo referir todos os aspectos sobre o pendor estilístico que confere, remeto para o texto Sobre a moda quaisquer considerações sobre esse propósito aplicável aos óculos de sol.
Um olhar mais arrojado pode apresentar os óculos de sol como um objecto facultador de cegueira provocada e temporária. Apesar de desconfortável, esta é uma perspectiva possível. Qualquer usuário desse tipo de acessório sabe bem as vantagens que tal adereço tem no que remete para o reconhecimento de outrem, por exemplo, em qualquer sítio. Torna-se, pelo seu uso, possível de provocar a cegueira intencional e dizer que não se viu aquilo que não se queria ver.
Ainda que adepto deste adereço, raros e peculiares são os momentos em que me proponho abordar alguém mantendo os óculos postos. Reconheço-lhes um papel destabilizador e pouco honesto quando o diálogo se interpõe. Ocultar os olhos numa conversa é atestar a possibilidade de mentir ou adulterar factos, o que é muito apetecível, por exemplo, pelos jogadores de Poker, jogo no qual a linguagem corporal (da qual os olhos são membros honorários) é decisiva para uma estratégia vitoriosa. Claro que existem as ressalvas das excepções, como em ambientes de excessiva exposição solar, ou em casos banais onde o cenário é distinto.
Há muito que o sol deixou de ser padrinho do uso público de óculos, situação que causa estranheza a muitos que ainda lhe atribuem uma funcionalidade óbvia. A moda rouba muitas justificações também ao seu uso em qualquer época do ano, mas não será legítimo também pensar, ainda que sem creditar excessivo peso, na hipótese do uso indiscriminado como forma de afastamento e auto exclusão?
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