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Sobre a cronologia do estudo

O estudo, na vida de um homem, começa pelo imposto, passa em dada altura ao proposto e desemboca no suposto.
Tentei dar um pouco mais de civilidade à frase inicial, mas optei por manter a sua bruteza, finalmente, para que nela condensasse todo o conteúdo deste texto.
Motivei-me para esta escrita ao reflectir sobre o historial pelo qual passa um indivíduo no decorrer do seu crescimento escolar. Ao início, a escola exige das crianças o estudo, pela atribuição diária do tradicional trabalho de casa. Nesta fase procura-se principiar todo o ciclo do conhecimento e, como tal, recorre-se à imposição do estudo. Numa segunda etapa, a que reconheço variabilidade no surgimento, o indivíduo muda de paradigma, pois dá por si num meio que o estimula a estudar e que procura, de melhor ou pior maneira, fazer-se interessante de forma a que suscite vontade de estudar e aprender mais. Nesta altura, o estudo, pela razão de que existe de acordo com o imediato interesse do aluno, passa a ser um estudo do tipo proposto, onde o tutor sugere e o aluno faz-se valer de uma decisão de corresponder ou não.
A entrada na fase do suposto penso que não é certa e longe está de ser pacífica ou, em caso de preferência, de evitar atribulações. Acredito que muitas pessoas vivem vidas inteiras sem se aperceberem que deveriam entrar nesta fase para seu próprio sucesso e estabilidade. É que esta é a fase mais madura do estudo, a fase em que cada um deixa de depender do tutor e passar a chamar a si o estudo, buscando o saber de forma autodidacta e com o sentimento de total independência. De certa forma a vontade do indivíduo passa a ser o professor, e qualquer falta de empenho nesta fase conduz à culpabilização individual, pois cada um carrega o ónus de se concentrar no que entender devendo a sociedade exigir-lhe, sempre, que esteja preparado para qualquer vicissitude inesperada.
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Sobre as relações de conceitos

Dificilmente somos confrontados com a ideia de que é necessário saber ligar conhecimentos para se chegar algum dia à sabedoria absoluta.
Um homem que conhecesse todos os aspectos do mundo em que vive, nunca poderia ser um homem absolutamente sábio na medida em que apenas constituía uma base de dados suficiente para ressuscitar, através de exercícios de memória, informações avulsas. Existe algo superior à catalogação de conhecimentos, que é a relação dos conhecimentos. Um relacionamento do total de conhecimentos passíveis de catalogação traria um rol infinito de novos conhecimentos, que, por sua vez, poderiam ser outra vez sujeitos a novo cruzamento por relações, de forma ciclicamente infinita.
A falta de entendimento da veracidade deste processo mostra de forma clara a nosso distanciamento da sabedoria absoluta. Tendemos a relacionar corriqueiramente de forma viciada, culminando cedo de mais em conclusões a que ousamos chamar de conhecimento. Se o mundo se resumisse ao peixe, ao tomate e às batatas ninguém seria sábio absoluto apenas por conhecer estes 3 dados base: faltaria pelo menos a noção de caldeirada.
Temos então sabedoria como um processo duplamente árduo, de catalogar as premissas do mundo, passo pelo qual ficamos quase sempre, e a etapa de relacionamento total para a obtenção do verdadeiro conhecimento racional, o único que faz a diferença, pelo potencial criativo e inovador.
Fico tentado, posto isto, a atestar que tendo, cada vez mais, a apreciar aqueles que são capazes de fazer asserções espontâneas de conceitos de menos óbvia conexão; em detrimentos dos que se revelam autênticas enciclopédias ambulantes. Farto do estereótipo de sabedoria actual, começo a procurar ser eficiente no relacionamento aleatório de conceitos, pois aí reside o verdadeiro desafio da natureza humana.
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Sobre o formalismo das reflexões

Não conheço alguém que, no seio da sua vida intensa, em velocidade, produtividade ou alheação, tenha consigo contemplar-se minimamente, enquanto cidadão do mundo, sem que haja parado para reflectir sobre si e o mundo.
Saber reflectir certamente será o mais complexo, mas é no saber parar que provavelmente reside o desafio maior. Uma vez garantido o hábito de parar, a qualidade da reflexão cresce na mesma medida em que é posta em prática.
No acto da escrita, procura-se também a reflexão, ainda que esta possa ser praticada sem recurso a registo físico, ficando, no entanto, limitada à memória de cada um e à mera exposição verbal, sempre menos fiável. Quando traduzida pela escrita, a reflexão reflecte uma dupla paragem: a paragem da rotineira actividade mental, que se refere à paragem mencionada no início deste texto, e a paragem física, no sentido de um aprisionamento dos actos para a execução da escrita.
Nesta perspectiva, é de todo expectável que a escrita promova um formalismo mental e físico, que exige treino e habituação. Não me estranha haverem poucos que se propõem a escrever, e ainda menos a fazê-lo sob a forma de reflexões. A própria aversão à leitura, demonstra à partida, dificuldades em aceder ao formalismo em si, pois não raro representa descontrolo da mente na obtenção do estado necessário.
Mesmo no cerne do grupo daqueles que escrevem, seria possível identificar, diferentes patamares de formalismo: uns, mais treinados, capazes de se deixar absorver por completo intemporalmente pela proposta de escrita, fechando contacto com o meio circundante; e outros, menos qualificados, mais saturáveis com o esforço dispendido, com tendência a livrar-se da escrita com mais celeridade.
Do confronto das exigências do acto da escrita reflectiva com a menor popularidade desta dentro do actual contexto cultural, nasce algum conhecimento sobre o paradigma humano presente e desafios enunciado pelo advento do progresso.
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Sobre o bom humor para a felicidade

A manutenção de um permanente estado de bom humor, de forma exercitada, é vital para a contínua sensação de felicidade.
Reporta a experiência que há uma vantagem enorme em encarar o mundo com olhos de quem quer rir, na empírica medida de que se estabelece, desde logo, a opcionalidade de transitar para o campo da seriedade de forma intencional, criando assim um mecanismo de controlo do sentimento de felicidade.
Ocorre-me relembrar que o sentimento de felicidade, nas condições que referencio, parte do pressuposto de que a seta direccional se posiciona do eu para o mundo e não do mundo para o eu. Quero com isto dizer que está em nós a felicidade e a infelicidade, cabendo-nos, pois, optar por uma delas de acordo com a forma de encarar o mundo. No meu caso, tenho procurado naturalmente a felicidade pela tal gestão do bom humor de que falava.
Sabendo que muita da infelicidade pessoal reside no reconhecimento das limitações pessoais postas a nu pela realidade diária, pela gestão do bom humor procura-se não ocultar as mesmas perturbações, mas sim evitar que o eu se leve demasiado a sério a ponto de se frustrar com a própria lupa com que se observa. Neste exercício, além de se impedir a infelicidade pontual potencialmente existente pode-se chegar a incrementar a própria felicidade, pois o eu torna-se moldável e receptivo à exposição colectiva podendo ser até motivo para divertimento.
Não posso, todavia, cessar esta intervenção sem referir a fragilidade maior de acreditar na manutenção de bom humor. Acontece que a prática extrema destes desígnios é passível de conduzir a pessoa para o campo do absurdo, enraizando uma tendência para a banalização excessiva do eu e para a inexistência de um sentido crítico sério e construtivo que deve sempre existir, como elemento tutelar da racionalidade e do sentido social que o eu deve ter.
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