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Sobre os resultados escolares e os encarregados de educação

Assim como ouvi de outros os dizeres “A religião é o ópio do povo” e “O futebol é o ópio da pátria” assim cheguei à minha versão desta frase: “Os resultados escolares são o ópio dos encarregados de educação”
Tem vindo a discutir-se se os exames nacionais do ensino secundário têm ou não sido alvo de um facilitismo que possibilita a melhoria das estatísticas.
Eu verifiquei que houve mais manifestações por parte dos encarregados de educação quando se falou nas aulas de substituição, e na polémica dos novos horários das escolas, do que propriamente agora relativamente aos resultados escolares dos exames.
Os pais carregam uma enorme vontade que os seus filhos tenham sucesso. Os resultados escolares são pois o defraudar ou comprovar dessas expectativas. Para os próprios alunos, a sensação de que se pode ser o melhor trabalhando para tal é bastante mais útil na sua formação futura e estado presente do que o sentimento de fracasso generalizada que assoma muitos estudantes quando confrontados com os desaires sucessivos.
É portanto tranquilizador para os encarregados de educação, constatar que os seus filhos estão encaminhados nos estudos já que independentemente de se tratar de um facto ou não, abona a favor da instauração de uma aura de confiança e dever cumprido benéfica para ambos.
A educação é altamente dependente da confiança dos que estudam e dos que ensinam no toca ao sistema de ensino, com todas as variáveis que intervêm a este nível.
Os pais confiam nas escolas cada vez mais não só o ensino como a educação, e esperam que pela via da avaliação das competências do ensino, o mesmo carimbo aprovador possa representar competências e educações dos seus educandos. As notas são o factor de relacionamento dos pais com a escola, sendo portanto a moeda que move a lógica escolar.
Nem todos podem ser excelentes, certamente, mas só se poderá arriscar a filtrar os alunos o estado que tenha soluções para os que ficam pelo caminho e não podem brilhar em família. 
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Sobre o investimento público

Quando se pensa em investir, ocorre-me pensar em algo abstracto, devido à significância da palavra ”investir”. Penso em investir como sendo a aquisição de competências, um curso de fotografia, de línguas, ou então como sendo movimentações financeiras.
Por outro lado, quando se adiciona um complemento e se chega à expressão “investimento público” tudo muda de figura. Entendo por investimento público uma coisa: construção civil. Infra-estruturas grandiosas ou construções locais para as comunidades, a saber hospitais, centros de saúdes, escolas, estradas, pontes.
Chamo a atenção para estas diferenças enormes que impedem, pelo menos a mim, de olhar para aquilo a que se chama investimento público e esperar que contemple investimento em formação, em novas aprendizagens, em abertura de perspectivas, em aquisição de métodos de trabalho e formas de pensar amplas e modernas.
Tudo isto me faz alguma confusão, sobretudo porque acho que o dinheiro vai demasiadas vezes para edificações, as quais não nego valor, mas das quais não dependemos tanto como o fazemos do capital humano.
Em tempo de escassez de emprego, investimento público é ajudar a resolver os problemas directos dos cidadãos, que não passam por uma ponte nova, um comboio rápido, ou um nova auto-estrada. As pessoas precisam que o estado invista nelas, dando-lhes formação para superarem as suas lacunas, e incentivando-as com programas de ensino e acção no sentido de avançarem para negócios alternativos, para criarem as sua pequenas empresas assentes em ideias específicas que possam ter, dando-lhes emprego por essa via e fazendo com que a economia não desmorone com o pessimismo generalizado e epidémico que de outro modo se gera.
Todos sabemos que as obras dão mais votos que outra coisa qualquer, essencialmente porque são comprovações físicas do trabalho e empenho dos governantes, mas o país precisa que se acorde para o novo investimento público, mais centrado no cidadão e não no betão.
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Sobre o espirro em sociedade




Sneeze - Poul Lange

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No contexto social, a boa educação ensina que se adotem posturas e condutas específicas a cada evento, tornando-se tanto mais apuradas quanto mais formais forem as situações a que sejam postas em prática.

Se o riso, o bocejo, o arroto, o tom da voz, o léxico a usar ou o comportamento à mesa são tudo variáveis de relevo que interessa dominar para que a coerência seja mantida, existe uma variável que não citei, que acaba por ser muitas vezes de difícil controlo: o espirro.

Pela sua vertente espontânea, o espirro surge alheio ao contexto social e concretiza-se quase sempre da mesma forma, quer o cenário seja formal ou informal. Claro está que existem também maneiras de procurar contornar os efeitos de um espirro agressivo, como seja tapando a boca com um lenço, mas é difícil saber quando se vai espirrar e nem sempre há tempo para salvaguardar a situação desconfortável que lhe pode suceder.

O espirro traz consigo duas consequências passíveis de gerar intranquilidade: a saliva e ranho que pode ser expelido, sujando o rosto, mãos e roupa, e o odor que provoca talvez por constituir uma forte expulsão de ar pulmonar, ou mesmo devido aos fluidos que o acompanham. À saliva e ranho que os espirros potenciam para o exterior, deve somar-se eventuais resíduos alimentares que possam estar na boca ou início do esófago, agravando ainda mais os efeitos devastadores dos espirros no panorama social.

Para todos os que são clientes de placas dentárias, certamente uma fração mais idosa da população, os espirros são também uma ameaça para a estabilidade das suas dentaduras postiças, na medida em que pela sua força e energia, atentam contra a manutenção das mesmas no local correto da boca.

Pessoas muito educadas, muito corretas são por vezes vítimas do espirro, que em questão de segundos lhes criam situações dispensáveis mas para as quais a única solução é estar precavido. A única solução, de facto, é garantir sempre um lenço, o qual embora não elimine o problema consegue minimizá-lo.
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Sobre a intimidade intelectual **


Untitled - Francisco Nicolas (1990)

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Existe uma grande divisória entre o campo da intimidade física e aquilo a que se poderá chamar, desde que devidamente definida, de intimidade intelectual.

A partilha de espaços conduz o ser humano para situações de relacionamento com pares ditada em exclusivo pela proximidade espacial que se estabelece. Ainda que se alcance um certo à vontade, este tipo de intimidade, que etiqueto como sendo física, é nada mais do que uma ilusória noção da outra pessoa. A forma expedita com que nos expressamos leva comummente a que digamos conhecer determinada pessoa com quem se estabeleceu (nem sempre intencionalmente) uma intimidade física. A pessoa que profere tais palavras saberá que não tem à vontade com a pessoa de quem se diz conhecedor, mas para o ouvinte, a noção que fica é de que existe uma intimidade intelectual que permite a tais pessoas serem próximas uma da outra.

Existe pois uma nuance sempre que nos afirmamos conhecedores de alguém com quem apenas partilhamos espaços físicos. É altura de chamar a noção de intimidade intelectual. De facto, aquilo que sucede é que temos em nosso poder decidir o grau de intimidade intelectual que estabelecemos com cada sujeito com quem nos relacionamos. Isso faz com que o dar-se a conhecer seja uma proposta que parte do próprio e não uma mera consequência da presença/exposição em espaços públicos. A intimidade física rege-se muito pelo lado sensorial, dando azo a expressões como “a sua cara não me é estranha”. Porém, só pela dimensão intelectual é que revelamos o grosso do que somos, pondo a nu uma parte de nós que é vital para que alguém possa dizer que nos conhece.

Sublinho essa componente ativa no processo de intimidade intelectual, já que nem sempre nos damos conta do quanto nos fechamos à intimidade intelectual para certas pessoas, enquanto que, para outras, procuramos dar todo o acesso à nossa pessoa.



Publicação original: 11-06-2008 
Revisão: 27-04-2016
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Sobre a excepcionalidade

Hoje em dia existe uma grande sede na sociedade de pessoas brilhantes numa dada área de intervenção, gente que possa apresentar-se e criar impacto publicamente como excepcional.
O critério pelo qual se fixa o que se entende por excepcionalidade dos seres humanos deve ser devidamente debatido, sob pena de vivermos num mundo demasiado pré-formatado para um modelo único de selecção de talentos.
Custa-me bastante ver a forma como se desperdiça muitas vezes capital humano apenas porque se denota de difícil enquadramento no perfil de atributos criado colectivamente em sociedade como forma de distinguir as pessoas ditas notáveis.
A competitividade conduz a uma agudização do valor dos notáveis, pois leva a que se crie a noção de que o sucesso é para os melhores e que os demais sentirão certamente dificuldades porque não terão hipóteses.
Acontece que, como ouvi há relativamente pouco tempo, o mundo tem de estar preparado para todos os que não são notáveis, pelo menos no sentido aceite em sociedade, e como tal devem haver soluções para estes que não as de papel coadjuvante de fraca reputação.
As pessoas podem revelar-se notáveis de várias maneiras sem ter de valer em exclusivo pelos seus dotes naturais. O empenho, a motivação, a capacidade de trabalhar em equipa ou a facilidade de se colocar na posição de outrem para daí equacionar os problemas, são também algumas valências que certamente não constam no actual cânone da excepcionalidade, mas que acrescentam valor aos que as detêm.
O maior paradoxo disto tudo é que quando se passa da colectividade para a singularidade, qualquer sujeito é capaz de concordar ou mesmo sofrer com os efeitos do cultivo de um conceito de valor humano pouco real, dado que não tem em conta a pluralidade e diversidade das pessoas. Os excepcionais não são os que estão mais bem adaptados, são simplesmente aqueles a quem o modelo vigente, com as suas falhas e préstimos, confere uma notoriedade que chega a roçar o estatuto e peca por ser falseado pelo poder da imagem.
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