Procurar:

Sobre o lado oculto de cada pessoa

                           1072972_878f_625x1000

Existe todo um lado oculto, em cada um de nós, que se revela aos outros mediante uma via própria cuja descoberta poderá nunca acontecer.

Tal como nos animais ditos selvagens se fala num habitat natural, não é de todo irreal assumir a existência de um habitat natural inerente a cada ser humano. Certamente não falamos de ambientes geográficos enquadráveis num documentário sobre a natureza, antes de um misto de locais, pensamentos, estilos, decisões, que uma vez somados dizem mais sobre a identidade individual do que qualquer cartão de visita.

A partir do momento que se sai à rua, que se é bombardeado com toda a carga pública que caracteriza uma vida em sociedade, existe o accionamento de uma postura díspar daquela que temos fora da ribalta pública, e que condiciona globalmente o modo que os outros nos vêem, entendem, avaliam.

Ciente deste desfasamento, incorremos no risco de sermos mal entendidos, mal vistos, mal compreendidos, a menos que consigamos que seja alcançada essa via privilegiada que funcione como a montra verdadeiramente transparente a respeito daquilo que somos.

A gestão da imagem pública é uma matéria altamente complexa porque não se dominam as forças que determinam os rótulos que acabam por naturalmente surgir, sobre os quais nos podemos legitimamente sentir injustiçados, quando os confrontamos com auto-avaliação, mas sobre cuja acção simplesmente podemos negar e quando muito clamar por justiça.

A mudança de opinião poderá decorrer mediante um contacto mais demorado, íntimo e activo, no qual o nosso habitat natural se torne perceptível ao outro. É incomportável fazê-lo com todos, até porque interesse não haveria, mas é inegável o valor de conseguir mostrar e até provar àqueles que apreciamos, com quem construímos amizades e interagimos regularmente, que existe uma dimensão por eles desconhecida, de nós, que poderá influenciar irremediavelmente a forma como nos passarão a ver e pensar.

Do mesmo modo, talvez seja importante ter a noção de que aqueles que só nos conhecem no habitat natural, poderão cometer erros quando julgam que certas lacunas ou traços de personalidade, poderão ser mal vistos e entendidos no âmbito público, pois sonegarão essa barreira que é fazer-se à rua, suficiente para nos moldar completamente.

Ler mais...

Sobre as discussões e o código-civil

                       970172_3450_625x1000

As pessoas ligadas ao código-civil, em particular juristas, advogados, professores de direito, irrompem pelos debates em plena atitude e respostas que relembram as batalhas que fazem os cantores de rap, nas suas rimas e poesia que parecem ladainhas interpretadas numa furiosa sucessão.

Invocar e evocar artigos do código-civil, a constituição, despachos, decretos, diplomas, faz parte de um mundo técnico no qual as sociedades se organizam e regulam, mas dos quais não dependem quando se propõem a debater assuntos civilizacionais, metafísicos, éticos.

No meu entender, se as discussões estão a ser colocadas no campo do entendimento e do cerne dos assuntos, a legislação não deve comandar os conceitos porque o contrário é que é verdade, o homem serve-se da legislação para espelhar oficialmente as consequências dos conceitos que tem e de tudo o que dele resulta.

Do mesmo modo que um cantor de qualquer outro género se sentiria perdido perante a música em código dos rappers, também a mim me confunde e segrega participar numa discussão em que há certos intervenientes que difundem argumentos de natureza jurídica como se esses fossem de facto o principal. O principal, para mim, é o homem pensar nas coisas e verificar se a legislação está de acordo com o produto desse pensamento, caso exista, ou então de oficializar esse produto.

Em qualquer debate que se pretenda multidisciplinar sobre uma questão transversal e complexa sobre a sociedade, quer pela aceitação quer pela proibição, é importante não deixar que uma determinada classe profissional esteja demasiado representada, sob pena de haver uma tendência para se abordar a questão dentro de uma certa linha disciplinar, e sonegar outras dimensões da questão.

Aqueles que trabalham com as leis não estão mais preparados para discutir a raiz de aceitação de uma questão do que os outros indivíduos, pela simples razão de que a sociedade pensa-se sem ser em linguagem formal e legislativa. O tratamento das questões em sociedade merece um tratamento que não aquele dos tribunais.

As pessoas discursam pelo que lhes vai na alma, e não por puros jogos de dialéctica, de trocadilhos, de semântica, duelos de argumentação.

Ler mais...

Sobre o cepticismo provocado

                                   1173819_0ca9_625x1000

Existe uma crescente probabilidade de nos tornarmos cépticos quando assistimos, a ponto de sermos fulminados, ao desmentir de considerações que até então vigoravam como esteios inquestionáveis orientadores da conduta humana.

Esteios como o da recompensa do bem face ao mal, como o da prevalência da justiça a longo prazo, como o certeza da obtenção de resultados desde que se trabalhe com afinco.

De facto o cepticismo ganha espaço como resposta involuntária ao desespero de perceber que nem sempre o bem recompensa, nem sempre há justiça a longo prazo ou que nem sempre os resultados surgem como consequência do trabalho.

Uma vez envolto em cepticismo, a cérebro não mais se apaziguará perante a ordem do mundo, perante tolerância, optimismo generalizado e inconsciente face ao desenrolar do mundo. Ganha terreno o desespero, a angústia de não mais encontrar tranquilidade naquilo a que uma vida inteira nos quiseram incutir.

E então surgirá um de dois temas: o da loucura ou o do extremismo

A loucura de problematizar algo tão central como as linhas orientadores do género humano, pequenas considerações cuja origem se desconhece por estar diluída nos muitos anos de existência.

O extremismo de transportar o novelo emaranhado que é, no fundo, a realidade, para planos mais objectivos, procurando penetrar nalguma relação causal palpável e contra a qual se pode fazer, de facto, alguma coisa.

É complicado confrontar um mundo que não se apercebe ao mesmo tempo, portanto em simultâneo, dos fracassos dos princípios morais que nos regem, para o advento da mudança. Sem um canal que fale a muitos e possa ambicionar a que esses muitos falem a ainda mais, realmente o indivíduo fica a amordaçado, a matutar para si.

Há pessoas que falam e esquecem, há pessoas que não falam e aparentam esquecer, e depois há o grupo de todos os que querem esquecer e não conseguem.

Ninguém cala a injustiça, porque ela é como a fome, uma manifestação genuína, sintomática de uma intolerância visceral.

Não é meu hábito particularizar, mas convido o leitor a ler este texto quando estiver amargurado por alguma injustiça, e talvez se materialize o espírito de quem o escreveu, na altura do acto em si.

Ler mais...

Sobre os casamentos homossexuais

                          719640_fd40_625x1000

Uma relação homossexual, para existir, depende directamente de duas relações heterossexuais, os pais dos dois membros do casal gay, e indirectamente de uma infinidade de relações heterossexuais que permitiram chegar àquele ponto da árvore genealógica. É um paradoxo querer aceitar como legítima, numa sequência que se quer ver propagada, uma medida que não permite a sua propagação. Afinal somos a favor da propagação ou não?

É mais confortável e fácil defender a aceitação do casamento civil homo do que o contrário e ainda para mais pode-se sempre exibir uma cultura estética sofisticada tão ao agrado dos tiques de aparência de hoje.

As pessoas têm de perceber que a aceitação do casamento civil homo desfigura a lógica familiar face à Natureza. Só porque temos cultura e nos emancipamos dos animais, isso não significa que consigamos sustentar uma posição que é verdadeiramente conflituante com a força da natureza e com a lógica da propagação das espécies.

Não é de todo aceitável que pessoa alguma aceite os casamentos homossexuais desde que não a impliquem ou chateiem. É um absurdo pensar deste modo, porque nele está patente a fuga ao problema. Está-se a dizer que se os casamentos forem longe de nós, tudo bem. Isto é tolerância? Nenhuma.

No meu entender, partir do momento que os casamentos civis homossexuais equivalham juridicamente aos heterossexuais, os homossexuais lutarão para ganhar o direito à paternidade e maternidade, e esta é uma questão crítica. Para mim, aceitar o casamento é permitir que se avance para a questão seguinte, a dos filhos.

Os homossexuais querem ser pais? Mas que pais, pais como os que tiveram? Não se trata de educar uma criança e dar-lhe carinho, o que está em causa é a lógica que faz a engrenagem andar como sempre andou ao longo dos séculos sem que a nossa sociedade se tenha desmoronado.

O casamento civil dos homossexuais afecta-me enquanto cidadão, na medida em que me sinto responsável pelo presente e futuro da sociedade a que pertenço, como outros foram nas alturas em que viveram, e a minha contribuição será dada no sentido de confirmar a via correcta para a espécie humana.

Ler mais...

Sobre algumas subtilezas do cinema

                  765977_a17a_625x1000

O cinema tem algumas subtilezas que passam despercebidas a menos que a sua repetição as ponhas a descoberto.

Dei comigo a perguntar-me porque motivo quando um personagem é apanhado pelo vilão e este revela nenhuma outra intenção que não a de o matar, fala com ele e lhe diz que vai morrer. Faz algum sentido que se converse e se justifique porque motivo a pessoa vai morrer, quando, daí a instantes, já era? Qual o valor acrescentado, para o personagem candidato a vítima, que a justificação tem? Trata-se claramente de um justificação direccionada para o público que assiste à cena.

Já em temos falara de como a solidão, no cinema, é retractada de forma cuidada e irreal, porque o facto de haver uma assistência faz com que a personagem esteja verdadeiramente numa pseudosolidão.

No que toca aos enredos, existem nuances que abrem alas ao heroísmo surreal propalado em algumas produções. Quem vir e não se permitir algum cepticismo, nunca perceberá porque motivo o vilão não mata logo o herói, manda os capangas matar e lhe dá conversa. Não compreenderá também porque motivo o herói nunca se esbarra contra outros carros, quando o trânsito está acima de qualquer controlo ou habilidade, quando a probabilidade de bater supostamente seria igual para todos.

Talvez se dê o benefício da dúvida, porque os consumidores de cinema não têm experiência prática do mundo dos espiões, do mundo criminoso, do universo militar, tal como eu.

Faz-me ainda imensa confusão que cinco capangas a disparar armas de fogo contra um alvo não acertem uma vez que seja, e o herói consiga alvejá-los todos. É o cúmulo do sensacionalismo bélico.

Mas depois sempre surgirá um fã mais aguerrido e dirá que aquilo é cinema, não é vida real. Só que o cinema persegue a vida real, condimentando-a, a ponto de nos fazer querer encontrar os perfis dos personagens no nosso quotidiano.

Quem não gostaria de ser um agente que é perfeito do ponto de vista física, perfeito a executar, perfeito a falar, perfeito a dissimular, perfeito a sair ileso, e ainda para mais soma a isso uma namorada que faz parar o mundo?

Ler mais...

Sobre a argumentação nos assuntos de jovens

                          
Imagem: Ensemble - Hannes Beckmann (1946)


* * *

Alguns encarregados de educação de menores (ou tutores morais de jovens adultos) revelam por vezes uma prática habilidosa, típica, que incide na ideia de que uma dada idade em questão é a altura apropriada para se incorrer em determinados comportamentos, adoptar determinado estilo de vida ou defender determinado tipo de posições.

Para mim, quem usa esse tipo de argumentos encontra neles uma muleta fácil para não ter de se ralar com o assunto em causa de forma frontal. Dizer, por exemplo, que determinado jovem troca de companheira como quem muda de roupa e sustentar isso com o estar na idade própria para o fazer, é entrar num terreno perigoso que pode levar a resultados adversos.

Quando se está a discutir a moralidade de uma determinada questão, não se deve recorrer a este tipo de aliviadores de tensão de outro modo vicia-se completamente o exercício que estava a ser feito, a ponto de o abortar, Este tipo de argumento surge mais em pais, avós, padrinhos, etc, que dele se servem para justificar a irreverência, incorrecção com que os jovens visados governam as respectivas vidas.

Sou particularmente avesso a este argumento, sobretudo porque ele abala as considerações condenatórias que poderiam surgir fruto de uma disessação genuína das coisas. Ao se alegar a adequação de tal situação ao contexto etário ou experiencial do indivíduo, anulam-se as hipóteses de tal situação não dever existir e por ser inequivocamente negativa. Quero com isto dizer que quem diz que se está na idade para fumar uns charros porque quando senão nesta idade é que se deve fazer, está claramente a subtrair da conversa a possibilidade de condenação da tal conduta. O interlocutor falava da moralidade da situação e não da temporalidade em que se pode ser amoral.

Só quando nos apercebemos deste tipo de artifícios do pensamento é que percebemos de que forma o nosso circuito fechado corrompe os factos.

Publicação original: 09-02-2009
Revisão: 05-12-2016
Ler mais...

Sobre a crítica aos governantes

                        761764_9823_625x1000

Nós por cá, perdoe-se-me a apropriação da expressão, continuamos com severos problemas de imparcialidade na análise política e da classe política. Francamente que é paradoxal a forma como nos pomos todos a vociferar contra os que por sufrágio universal se legitimam governantes, sem que exista da nossa parte qualquer tipo de manifestação de insatisfação aquando do acto eleitoral.

As cidadãos elegem um líder para o país, legitimado para um período temporal conhecido, e depois, de repente, parece que se esquecem dessa concessão conquistada por ele, e desatam a contestar, o que facilmente adultera o sentido das coisas: quem vota no líder e o critica, está a criticar-se a si próprio.

Os jornalistas, comentadores ou meros cidadãos comuns poderão tecer as considerações que bem entenderem, sob o epíteto da liberdade de expressão, mas não se lhes deve apagar da consciência a legitimação que o governante obteve do povo, para actuar. Alguns confundem mesmo a legitimação da liberdade de expressão com a legitimação do sufrágio universal, investindo no primeiro como forma de abalar o segundo.

Estremeço perante o procedimento nacional de não ser capaz de gerar alternativas mas encontrar na recalcitração um tique nervoso crónico. Chegam as eleições e vendo as alternativas somos até bem capazes de reinvestir o líder que criticámos, para mais tarde voltar a falar mal dele.

Perdoem-me por dizer isto, mas a culpa do estado do país e das coisas é nossa. Dizer que é dos governos é entrar em ardis lógicas de penalização de B devido a C, quando A é quem legitima B e em A somos todos nós. E se você não legitimou o líder que contesta, revolte-se contra os que o legitimaram, não com o próprio líder, porque estará encontrar nele um bode expiatório.

Não gosto de ler muito do que se escreve sobre política na blogosfera porque quase sempre são recortes de cidadãos que se esquecem do seu papel e da sua eventual culpa nos resultados que apontam como fracassos, misérias, tragédias.

Qualquer um pode acordar de manhã e decidir-se a ser candidato a líder, embora seja bem mais fácil ser candidato a crítico, a candidato a revoltado que se realiza com pouco.

Ler mais...

Sobre a diferenciação como filosofia de vida

                      973222_c758_625x1000

A conjugação de algumas leituras sobre a globalização com o vínculo a que me submeti no final do ano transacto com uma associação de desenvolvimento pessoal, conduziu-me a um discurso promotor da diferenciação das pessoas.

Para aqueles a quem os estudos conseguem ser agente de diferenciação, pessoas que se destacam pelo seu mérito escolar, há que investir na manutenção desse estatuto.

Para todos os outros, a não diferenciação pela via dos estudos implica tão-somente o seguinte: necessidade de procurar veículos alternativos de diferenciação.

Instado a responder sobre o que o faz diferente das demais pessoas, qualquer um deve saber identificar a sua particularidade, o ponto nevrálgico que o emancipa do padrão, do banal, do previsível.

Estou cada vez mais convicto do ideal de procurar a diferença, perspectivas de existência desfasadas do todo, que tanto podem surgir pela via do pensamento, assumindo posições não convencionais, como pela via do estilo de vida e hábitos, adoptando passatempos ou rotinas menos comuns.

Os estudantes batalham pelas médias ao ponto do absurdo, talvez porque pensem que seja essa a sua via de diferenciação, mas porventura por não verem nenhuma outra. Ficam à mercê daquilo que as suas vidas, excluindo os resultados escolares, proporcionam ao processo de diferenciação. Poderão alegar ser diferentes porque as suas vidas têm de facto algo de inusitado, mas há que perceber que não se pode ficar à espera dos arranjos da vida, eventos aleatórios, para se responder cabalmente à questão “o que é te faz diferente?”.

Mais, pior do que não ter consciência do que se pode fazer ou não pela diferenciação, é desconhecer aquilo que já se fez. Só colocando a supracitada questão frequentemente a nós mesmos é que podemos estimular a procura de respostas e a consciência do que somos.

E se num primeiro momento poder-se-á pensar que a diferenciação é um conceito submisso às entrevistas de trabalho, em suma à obtenção de emprego, e como tal não é nenhum objectivo de vida, talvez valha a pena pensar na importância que tem para a felicidade ou saúde mental do indivíduo perceber a exclusividade da sua serventia para a sociedade, a história até agora virgem de uma existência possível.

Ler mais...

Sobre os juízos morais e a idade

                         947799_5f63_625x1000

Existe uma forma típica de responder, por parte dos responsáveis morais por menores ou por gente mais jovem, que incide na ideia de que a idade em questão é a apropriada para se ter determinado comportamento, adoptar determinado estilo de vida ou defender determinado tipo de posições.

Para mim, quem usa esse tipo de argumentos encontra neles uma muleta fácil para não ter de se preocupar frontalmente com o assunto. Dizer que determinado jovem troca de namorada como quem muda de roupa e sustentar isso com o estar na idade própria para o fazer é entrar num terreno perigoso que pode levar a resultados imprevisivelmente adversos.

Quando se está a discutir a moralidade de uma determinada questão, relativamente a alguém, não se deve recorrer a este tipo de aliviadores de tensão, de outro modo vicia-se completamente, ao ponto de abortar, o exercício que estava a ser feito. Este tipo de argumentária surge mais em pais, mães, avós, padrinhos, tios, etc, que dele se servem para justificar a irreverência, incorrecção com que muitos jovens governam as respectivas vidas, sem que tenham de abdicar momentaneamente do afecto e carinho que dedicam às pessoas em causa.

Sou particularmente avesso a este argumento pois atento a que ele abala as considerações condenatórias que poderiam surgir, porque, ao alegar a adequação de tal situação ao contexto etário do indivíduo, anulam-se as hipóteses de tal situação não ser aceitável e como tal ser condenável. Quem tolera que se fumem uns charros porque quando senão nesta idade é que isso deve ser feito, está claramente a subtrair da conversa as vias que admitem a condenação da tal conduta. Em causa está a moralidade da situação e não a temporalidade moral. Dizem que esta é a altura certa da vida para o tipo de questão em debate, em vez de se concentrarem na raiz do problema, a sua aceitação, adequação ou não do ponto de vista moral.

São vícios como este que fazem de gente boa e sã, maus tutores. É isto, também, que conduz a gerações que depois se dizem perdidas, tão perdidas como outrora o tino dos juízos sobre ela.

Ler mais...

Sobre o autodidactismo

                   795963_8b70_625x1000

O autodidactismo é uma característica comum a muitos homens que marcaram a história nos diferentes campos possíveis. Deve-se lembrar que muitos deles, pela sua condição aristocrática ou de generosa abastança, não tinham uma profissão estabelecida, pelo que se tornavam autodidactas num misto de passatempo e objectivo de vida.

Penso que nos equivocamos quando cremos que há pouco autodidactismo hoje em dia, fundamentalmente porque o associamos à erudição em matérias menos populares. Pela semântica percebe-se que o autodidacta é aquele que aprende por si mesmo, não havendo distinção sobre a matéria que é aprendida. Aqueles que vêem filmes ou que praticam, por si, uma modalidade desportiva ou artística, que ouvem música ou vêm documentários, são todos praticantes, ainda que possivelmente inconscientes, da autodidaxia.

Não está assim tão distante de nós, nem é tão criterioso na sua manifestação, o autodidactismo, pelo que não se entendem as reservas na vulgarização do termo.

As pessoas falam desta aprendizagem por si como se de uma invulgar capacidade humana, uma qualidade digna de alusão, um elogio, quando o que me parece é que o valor está mais na intensidade com que é posta em prática.

Nas escolas, surgem por vezes laivos de promoção do autodidactismo, mas não existe autodidaxia a la carte, porque me parece que na definição desta prática falta a referência à autoproposição da aprendizagem por si. Será que uma criança que seja mandada ler um livro para casa está a incorrer nos caminhos da autodidaxia? A obrigatoriedade excluí a criança da genuína aprendizagem por si.

A grande maioria dos clientes das livrarias são autodidactas, que praticam o autodidactismo pela tradicional via da erudição, o meio clássico ao qual está associado. No meu entender, é importante que as pessoas estejam conscientes do quão autodidactas são, no contexto das suas vidas, para que se consigam valorizar e sentir que podem dar um contributo tão válido à sociedade a que pertencem como aqueles que por algum motivo viram o seu autodidactismo mediatizado, porventura por incidirem em questões técnicas e menos populares. Reafirmo-o: o autodidactismo está presente e em contínuo uso, não façamos dele um cofre de génios ou da nata da sociedade.

Ler mais...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...