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Sobre o comentário nos meios de comunicação social

Revistas, semanários, diários, gazetas, folhas, telejornais, colunas, blogues, as erupções do comentário ombreiam com a própria informação, criando espaço nos meios de comunicação para uma etapa póstuma à da informação, que é a digestão, maturação, ampliação e clarificação das notícias e coberturas que vão surgindo.
Geralmente são chamados a comentar senhores e senhoras que reúnam proveitos experienciais vários oriundo de formações curriculares ímpares ou cargos de notoriedade. Esta é a principal razão pela qual se dá tanta atenção às pessoas que comentam. Em seguida vem o que dizem, mas só depois, para então nos dar-mos à absorção daquilo que tais pessoas dizem ou escrevem. Muito se aprende, diga-se, com a comunhão das considerações que gente instruída e experiente possa apresentar às comunidades, mas julgo começar a escassear espaço para tanta gente a comentar, sobretudo porque a certa altura são tantos os comentadores que os factos passam a ser escassos, e como tal satura-se a paciência para ler tanto do mesmo em comentadores tão diferentes, podendo até dar-se a efeméride de se assistir ao comentar dos comentários uns dos outros.
Mais do que retratar este panorama, o que me faz escrever sobre este assunto é que no meio de tanta acumulação de comentadores, extensível até a gente anónima nos tantos fóruns de discussão públicos, os frequentadores vorazes desses meios acabam por se tornar numa comunidade que é daltónica para a sua passividade e que acaba por ser altamente condenável por isso. Por muito boas que as ideias dos comentadores possam ser, nunca substituirão a actividade a que se referem, e como tal nunca perderão o seu cariz passivo de observação. Mais, por muito crispado ou indignado que possa ser o tom de quem comenta, só essa cegueira de satisfazer a vontade de comentar é que impede o comentador de ver que quem tem tanto interesse, tanto a dizer, a elogiar, a contestar, a problematizar deveria estar na linha da frente para contribuir para as situações abordadas com tudo aquilo que teria a dizer no comentário. O engarrafamento de comentadores pode ser um vício, parte dos problemas até.
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Sobre o retorno a assuntos já abordados

Quiçá por fantasia ou impressão despreocupada, a quem escreve pode eventualmente reinar uma sensação de que uma vez redigido certo facto, argumento ou opinião, naturalmente não se sentirá necessidade de reiterar o produto escrito, ou seja, que o tema fica à partida resolvido face ao sujeito que o enfrenta.
Suponho que possa ser da natureza emotiva da escrita que se volte aos temas, esquecendo o valor racional do que se produziu, estático do ponto de vista temporal. A verdade é que o emocional, por ser mais prendado no exigir do presente, acaba por sobrepor-se com frequência à solidez do valor lógico daquilo que fora dito, culminando numa nova exposição sobre o tema.
Note-se bem que falo do campo da escrita pessoal, não da leitura pessoal, pois aí o resgate de textos antigos nada tem que ver com o impulso de retornar a abordar um conteúdo já exposto.
Para quem escreve, ergue-se então um problema de memória: não ficar preso à repetição temática nem a uma mensagem desprovida de novidade e imprevisibilidade, isto a menos que se trate de uma consentida e intencional campanha.
O que o pensamento me devolveu, foi precisamente a noção de que posso ser acometido para a escrita com vista a aliviar um impulso pontual de escrever sobre um qualquer assunto, embora de cada vez que o faça sinta que o assunto ficou resolvido, desde que me contente com o produto do esforço de redacção.
Também no jornalismo, na política, na educação, no desporto, nas conversas do dia-a-dia ou no pensamento contínuo de cada um, este fenómeno é vulgar, perceptível na forma como se regressa às mesmas conversas, ideias, memórias, argumentos, assuntos, factos, opiniões, temas e perturbações, instigados por uma carga emotiva que ganha à frieza da teia lógica, que tudo faz para fingir definitiva uma incursão plena de redundância.
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Sobre o desiquilíbrio das áreas do conhecimento

As áreas do conhecimento estão longe de possuir idênticos níveis de apuramento e tal facto reflecte-se de uma forma nem sempre imediatamente perceptível no ensino, desde o básico ao superior.
De facto, os fracassos a matemática e a física, que fazem muitos alunos adquirirem anticorpos contra as disciplinas em si, são reflexo da impreparação dos alunos mas devem ser ressalvados salientando que essas áreas do conhecimento não são equiparáveis às outras, na medida em que embora sejam englobadas num mesmo ciclo de estudos, não significa isso que partilhem igualmente o desafio e o grau de dificuldade.
Não tenho dúvidas de que se o ramo do Português, da Biologia ou da Psicologia alcançassem semelhantes patamares de desafio intelectual devido à matéria em si mesmo exposta, os resultados da Matemática encontrariam irmandade nos das outras disciplinas. Não se trata de menosprezar a dificuldade das outras áreas do conhecimento, antes de honrar devidamente o facto de que nas ditas ciências exactas, o esforço de superação alcança expoentes máximos que só poderiam ser equilibrados ou por uma suavização das mesmas disciplinas ou então por um elevar da fasquia nas restantes, mas nunca pela sua simplista comparação que acaba por ser discriminatória.
Seria bom que se pensasse também neste tipo de questões, porque poderão ser eventualmente menosprezadas face à ilusão das estatísticas mas que na sua raiz poderá potenciar a desacreditação das ciências exactas como passaporte para o ensino superior, unicamente porque desmotiva os alunos devido à sua mais apurada complexidade, que exige dos alunos a aprendizagem de ferramentas desafiadoras mais cedo que outras disciplinas. Há que tratar da saúde à desigualdade injusta dos ramos de conhecimento a ministrar nas escolas, para que a saúde não se apodere das perspectivas de estudos todas devido à sua aliciante potenciação de resultados.
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Sobre os jornais gratuitos

A invasiva ofensiva dos jornais gratuitos no nosso país constitui um marco controverso nos compêndios da história da comunicação social.
Eu julgo que se já não havia grande espaço para tantos jornais e publicações periódicas nas bancas nacionais, a chegada dos jornais gratuitos só vem agravar tal crise de território. Num primeiro momento vejo toda a utilidade de se poder fazer jornalismo gratuito para o consumidor, removendo barreiras económicas, mas logo de seguida sou levado a crer que a remoção de barreiras económicas tem um preço: o preço de não ser importunado na rua, já para não falar na compreensível simplificação dos artigos publicados, embora nem sempre seja má tal ocorrência.
Não vejo grandes problemas no jornalismo gratuito desde que não retire qualidade de vida ao cidadão a que se destina. Como estou longe de sentir que tal condição é garantida acho o jornalismo gratuito um problema para a sociedade, sobretudo porque encerra em si mesmo um paradoxo, que é acabar por não ser gratuito, e como tal não crer que o preço a pagar seja justo.
Nas ruas, nas faculdades, nas filas de trânsito, e em outros locais possíveis, pessoas distribuem jornais a qualquer transeunte ou condutor que calhe de se encontrar com estes, num espectáculo que é tanto engraçado quanto menos repetitivo for.
Há também outra coisa, que é embuste que se publicita relativo ao número de leitores, já que nestes jornais gratuitos é costume constar o número de leitores. Desconfio fortemente destes dados porque se nos jornais vendíveis os leitores que o compram poderão ser mais facilmente garantidamente leitores, já com os jornais gratuitos o despacho de exemplares indiferentemente à vontade de leitura das pessoas e oportunismo da situação, está longe de garantir uma correspondência, sendo muitos daqueles supostos leitores, gente que simplesmente virou a esquina e os deitou fora.
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