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Sobre a colectividade

A terciarização inerente às actividades colectivas, leva a que a responsabilidade individual dê origem a um código ético que se propõe a gerir toda a colectividade dos actos, decisões, comportamentos, ocorrências.
Fui despertado para o conceito num documentário onde se falava na forma como as empresas, devido a serem pessoas colectivas, como se designam, acabam por contornar muita coisa devido ao seu anonimato ou corporativismos.
Na altura o exemplo dado foi o de uma empresa do ramo petrolífero, cujo presidente foi alvo de manifestações ecologistas à porta da sua residência, devido a recentes decisões da empresa. O presidente convidou os activistas a tomarem um chá e começaram a conversar, do qual resultou o reconhecimento de que o presidente, enquanto pessoa singular, era contra a o prejuízo da natureza por parte da empresa a que presidida, mas que ele, enquanto presidente, não tinha como sentir-se mal por atentar contra esta, dado estar a caminhar no sentido do sucesso da empresa.
Ora, recorri a esta imagem que comigo retive, para chamar a atenção da quantidade de pessoas colectivas, quer sejam empresas, instituições, comunidades ou associações, que existem no mundo e que por força dessa colectividade, se consegue desprover as pessoas do seu sentido crítico e dos seus valores pessoais, unicamente porque se fantasia a passagem para o colectivo, uma existência desumanizada. Tal máquina serve os propósitos individuais de quem a gere, mas garante que os crimes não sejam cometidos por pessoas, além de ser um artifício psicológico para que se façam asneiras e não haja sentimento de culpa.
Não quero carimbar este texto como uma mensagem anti-empresarial ou anti-sociedade, gostava sim de trazê-la para um domínio mais largo, no qual também se verifica. Todos fazemos parte de comunidades, que embora não o sejam formalmente, acabam por ser pessoas colectivas, no qual se depositam as esperanças e as culpas, a meu ver com uma utopia desmedida. A culpa e o sucesso, é de homens e mulheres, a eles o mérito, a eles a responsabilidade, a eles a pena.
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Sobre a autonomia para falar espontaneamente




































Em Portugal existe muita cobardia para dar o primeiro passo e muito excesso de motivação quando este já foi dado. Normalmente verifica-se um retraimento na altura de dar a cara e exteriorizar o que se sente, a menos que estejam criadas condições para uma onda de revolta que propicie a manifestação daquilo que cada um gostaria de dizer.

As novas gerações são descaradas para um desprendimento com valores tidos como fundamentais, levando a uma imagem de rebeldia e descontrolo, embora estas mesmas gerações se furtem cada vez mais ao confronto directo com os problemas. Aquilo que fazem é fugir, ocultar, contornar e deturpar os problemas, nunca confrontá-los.

Mas o problema está longe de ser geracional, é um traço forte da cidadania portuguesa, este de não haver força para exteriorizar a insatisfação e esperar sempre para que esteja instalado um ambiente próprio que garanta, aí sim, o ataque. Podemos estar a falar de uma questão de confiança, mas é de lamentar que o país dependa tanto de ondas e menos de rupturas individuais. Habitualmente esta rupturas individuais de alguns que conseguem fugir ao medo de falar, geram ondas que pseudorupturas individuais, que são apenas resultado de o primeiro passo já haver sido dado.

Talvez por isso o fenómeno do comentário, opinião, palpite, achega reúna tantos adeptos praticantes pelo país fora. A imagem dos treinadores de bancada, conhecida no mundo do futebol, acaba por ser bastante comum a outros ramos da sociedade, chegando ao jornalismo e à política também.

Se há urgência para a instrução dos portugueses, desde o básico aos superior, passando pelo secundário, é a de combater o seguidismo e a falta de afirmação pessoal, que transforma os portugueses num núcleo de seres ricos em potencial mas com uma tranca inicial que bloqueia o espoletar espontâneo de manifestação pública. Esta valência vale mais para o país do que muitos livros escolares. Temos de acabar com os seguidismos que minam a coerência e que são autênticas prisões intelectuais, levando a uma hibernação pontualmente contrariada.
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Sobre a desburocratização do divórcio

A desburocratização do divórcio tem estado na ordem do dia. O tema perturba, levando a reacções potenciadas por emoções, que garantem raciocínios menos ponderados.
Não estou por dentro das medidas do projecto-lei mas tentarei uma breve abordagem.
A meu ver, o Estado não tem de governar as relações que cada cidadão da nação venha a encetar. Vendo bem as coisas, há quem viva casado sem que conste formalmente tal casamento. Devem inclusive já ter morrido inúmeros cidadãos que constituem de casos de casamentos informais que duraram até à morte. Não se pode confundir o que é de facto o casamento, para que não se confunda o que é o seu rompimento.
O casamento é fruto de uma vontade individual que nada tem que ver com o Estado. O Estado entra depois na forma como colecta impostos, garante serviços e trata desses cidadãos e família que venham a constituir. Agora, casamento não é casamento apenas porque consta no registo civil formalmente, casamento é casamento porque as duas partes assim o sentem e entendem. Como tal, não vejo porque motivo o divórcio deva depender tanto do estado, acho, antes, que as pessoas não se devem refugiar nas dificuldades do processo de divórcio para não recorrerem a ele se assim o entenderem, como adultos que são.
A facilitação do divórcio é uma medida altamente democrática, pois transporta para o seio dos casais a liberdade e sobretudo a responsabilidade das decisões, que deixarão assim de estar presas pela lentidão do Estado e pelos custos económicos associados ao lograr um divórcio.
Além do mais, relação alguma se pode esconder por trás do casamento como garante de um meio de familiar. Em muitos a realidade familiar não se aplica, havendo hostilidades de parte a parte e valores estranhos aos desejáveis para o casamento. A liberdade não é só poder votar, a liberdade é poder decidir a vida sem cair no absurdo de julgar ter vida apenas porque algures num arquivo morto de um qualquer departamento diz que se é vivo. O divórcio resolve-se preferencialmente a dois, mas deve depender apenas de um para acontecer, nunca de 3. Entre marido e o mulher, nem o estado mete a colher, nem o elo que não quer, a pode tirar.
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Sobre o cotio da sinceridade

A sinceridade tem tanto de virtude como de defeito. No domínio das relações humanas nem sempre se ganha ao revelar tudo o que pensa ou sente, tal como nem sempre se perde menos ao guardar aquilo que por dentro tem vontade de sair.
Não é possível garantir o que é melhor, mas é possível prever em que situações a alternativa de ser sincero ou não deve ser accionada.
Em tudo o que envolva diplomacia, não no contexto político, mas aplicado ao nível das relações sociais habituais, a ocultação da sinceridade tende a ser um mecanismo de manutenção de uma paz tranquilizante, que afasta percalços pontuais que sempre se criam quando se discorda peremptoriamente ou se secundariza o que se sente em prol do que outrem gostasse que se sentisse.
É provável que a sinceridade possa ser interpretada nos moldes de um texto que escrevi em Fevreiro, chamado About radicalism, sobretudo porque acaba por se tratar de um radicalismo em si, um extremar de posição na comunicação.
Existem depois conjuntos de situações cuja aplicação da sinceridade prendem-se mais com barreiras como medo ou vergonha, do que propriamente com retaliação ou inferiorização.
Agradecer, mostrar apreço, elogiar, premiar, honrar, citar ou gabar, são tudo sinceridades que a serem espontânea só enobrecem a qualidade humana, sobretudo quando a comunicação que serve de veículo está no patamar da honestidade com que o revelamos.
Eu sou adepto da sinceridade, embora nem sempre seja exemplar executante, mas confesso que por vezes conduz a um enveredar por discussões e acesas trocas de argumentos. Já sobre o segundo tipo, certamente não serei exemplar praticante, mas tento guardar para quando realmente julgo aplicável essas manifestações de sinceridade pura, pois só assim se evita a hipocrisia. Não pretendo ser daquele tipo de gente que faz da sinceridade um hábito semelhante a consultar as horas no telemóvel constantemente, pois isso conduz à insinceridade pelo descomedimento das vezes em que se exteriorizam sinceridades vãs.
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