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Sobre o blogue neste fim de ano

Relendo o texto inicial que prefaciou este espaço, dei conta de que esse autêntico prólogo permanece concordante com as linhas orientadores do que venho escrevendo ao longo destes mais de dois anos de actividade.
Gostaria que o meu espaço tivesse mais leitores, mas não pretendo que o incauto leitor confunda tal ideia com uma ambição de mais sucesso, porque é devido ao sucesso que reconheço a este meu espaço e a esta minha actividade autodidacta, que me surge o desejo de mais leitores.
E se nesse vigésimo segundo dia do mês de Outubro de há dois anos atrás eu justificava o nome do blogue com a desesperante oferta que a rede permite, desesperante unicamente pela dificuldade em detectar algo bom no meio de tanta fartura. Não encontro diferente motivação para deixar de renovar essa mensagem.
Incluiria apenas uma breve explicação, inédita, sobre o título do blogue, em particular a combinação numérica do nome, que descodifica o título apenas pela sonoridade: trivial. Estando o meu percurso académico inequivocamente ligado à Engenharia, os números são uma constante na minha vida, hipotecados apenas pela escrita, de que não prescindo. Resulta daqui o título deste espaço.
A crítica tem-se-me revelado favorável e incentivadora, mas iludido é aquele que se agarra aos elogios como prémio de consolação: desconhecerá que os inimigos prestam-se mais à honestidade do que os amigos. Não é justo, porém, abdicar do agradecimento àqueles que incentivam o meu trabalho, reagindo aos textos com comentários.
O mundo da escrita é um mundo constantemente novo, continuamente por desbravar, mas o do escritor não, é antes um funil cujo gargalo suga o convencimento de que o seu trabalho é bom e de que não tem por onde melhorar, que é a sua escrita é superior e magnânima.
No ano que se avizinha espero poder continuar a reflectir por escrito o mundo que me rodeia, trazendo a este espaço questões muitas vezes latentes, de que os subconscientes se apercebem, mas que com dificuldade ganham autonomia para se firmarem como temas de discussão.
A todos os transeuntes deste blogue, um sincero obrigado, repleto de retroactividade.
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Sobre o gostar de hoje e gostar de antes

148261TYBX_wHá duas gerações, as cabeças eram mais lentas, os gost os mais perenes e o apreciar um acto contínuo no tempo, sem convulsões e atropelamentos provenientes de novos apreciares.

Hoje não é assim e talvez mais útil que verificar se é melhor ou pior, tentação em que todos caímos facilmente, é estar consciente disso mesmo, que hoje não mais assim é.

Antes um álbum musical era ouvido exaustivamente uma vida inteira, porque apreciar era contínuo e o ouvido não cansava tão precocemente como agora.

Os livros davam-se muito à descrição, das paisagens, dos personagens, enfim de todo um conjunto de coisas que hoje levam a que a descrição seja argumento para se desgostar de um livro. Porque o apreciar era contínuo no tempo, não havia pressas, lia-se o livro bem lido, atentando a esses detalhes complementares à história que hoje qualquer leitor moderno gostaria de saltar na leitura.

A visita a um monumento era atempada, com margem para parar numa varanda e apreciar, para depois falar com o porteiro e apreciar ainda mais, não olhando para o relógio a menos de um compromisso importante que se avizinhasse. Hoje não, o entrar num monumento não raro constitui um contra-relógio entre a vontade de ver e paciência para ver.

Certamente por isso o gostar de hoje não é comparável ao gostar no tempo de nossos avós, sendo agora este, aos olhos deles, um gostar superficial fruto de um apreciar passageiro e desprendido.

Dar conta desde choque geracional, tão profundo como a experiência que as duas gerações separa, pode constituir passo primeiro para uma desaceleração da insaciável vontade de saltitar de gostos, de arriscar a gostar de tudo e ao fime ao cabo, aos olhos de nossos avós, gostar de nada.

Até no gostar de pessoas isto se verifica, nos amores de toda uma vida face aos amores de toda uma semana, que hoje prosperam.

Há uma hiperactividade que ensombra tudo aquilo que em nós exige calma e paciência, que passa pelo ensino, educação, pelo escrever ou falar, e que não faz do gostar e apreciar excepção. Estamos num frenesi que nos transforma autênticos saltimbancos do gostar.

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Sobre o escrever em terceira pessoa

416466BHJF_w No âmago deste acto de escrever que tanta vezes aqui ponho em prática, subsiste uma apetência de tranportar as exposições escritas para o impessoal campo da terceira pessoa do plural, que subtrai o sujeito às frases a tal ponto que quem escreve não se expõe mais do que o faz quando assina no fim.

O essencial quando se redige sobre qualquer tema que aborde assuntos relativos a seres humanos e algum grupo de seres humanos, desconsiderando a estrutura linguística, é mediar a vontade de expressar livremente o que se pensa, com a deselegante, invasiva e snobe postura de se exteriorizar a qualquer assunto, de se excluir aos pontos apresentados, como se, uma vez consagrado à escrita, o autor seja o único, na sua análise, que é capaz de olhar os assuntos de fora, sem que eles o incluam, sem que ele próprio seja agente desses assuntos e possa sofrer consequências deles. Um fenómeno parecido com o ver as coisas que estão no lado cá como se no lado de lá da rua estivessem.

Indo um pouco mais longe nesta perspectiva, talvez esta terceira pessoa do plural seja defensiva para o autor, sob pena de, ao se servir em exclusivo da primeira do singular, quem esteja a escrever não mais seja o autor, enquanto figura abstracta, mas antes o escritor, sujeito físico, mais toda a imagem pública que tem perante os seus leitores.

A crítica nessa terceira pessoa pluralizada de que falo, evita que se confunda a crítica com o crítico, e que se leia o texto a pensar no crítico que lhe deu origem, o que, convenhamos, é colocar o escritor em constante risco de condenação, numa constante sujeiçao à análise, qual desconfortável posição, que só não é evitada naquele tipo de publicações a que se convenciou chamar de diários, e que, por não serem para outra leitura que não a do escritor, não se perde nada em que autor e escritor se fundam numa mesma entidade redactorial.

Eis uma breve luz sobre a forma de escrever que reina neste espaço, que assim amaciará o eventual desconforto de não se perceber o porquê do seu uso.

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Sobre a desintoxicação da tecnologia

170197tYCX_wEm tempos que lá vão a leitura do livros Os Filhos da Droga, relato em primeira pessoa de uma toxicodependente, garantiram-me uma decisiva atenção,preocupação e sobretudo aversão às dependências de estupefacientes e psicotrópicos.

Eis que uma avaria num computador lançou-me em reacções de vazio, seguidas de busca desenfreada por reaver a quase todo o custo a tranquilidade que me dá o meu computador pessoal devidamente ligado e com acesso à rede.

Qualquer tutor de um jovem tem por princípio o alerta para a realidade das dependências, como caminho a evitar, mas muito dificilmente se dará conta, quanto mais alertar, de que a tecnologia vem-se tornando num autêntico vício.

A tecnologia é um bem necessário, mas assim como já antes alertei para a necessidade de haver uma educação que acompanhe a encontro da tecnologia com as massas ávidas por a consumir, a inexistância de mecanismos que funcionem como autênticas válvulas de escape à tecnologia, levando a que esta vicie e atinja patamares de indispensável préstimo, cada vez maior sideração se cria perante a arrebatadora e inquestionável utilidade que a tecnologia tem.

Este género de ressaca que senti e que aposto outros terem já sentido sempre que dos seus telemóveis, carros, consolas, máquinas de cortar relva se privaram num momento em precisavam, porque sempre precisa quando se está viciado, levou-me a acreditar que de facto é legítimo pensar-se numa silenciosa e profunda alteração do cerne humano por parte da tecnologia.

Conversando sobre a questão, torna-se óbvio que o ser humano não depende de um computador ou telemóvel para sobreviver, tenho por certo que todos concordarão, mas basta passar um punhado de dias sem algum desses dispositivos, e note-se que cada um tem os seus a que é mais apegado, para a realidade contrariar ideias que afinal estavam era por testar, sinal de que esta toxicodependência da tecnologia está latente e que no limite por motivos de orgulho se quererá assumir.

E se a droga é mais facilmente detectável e de mais aparatosa administração, somos de certa forma cegos à tecnologia, não dando conta dos limites quanto mais dos seus sintomas.

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Sobre a força do Natal

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Poucos eventos têm a força do Natal. As pessoas preparam-se para uma celebração que há muito extravasou e se emancipou da mera comemoração religiosa, tal como a religião outrora se apropriou do mesmo evento, de raízes pagãs e na altura com outro significado.

E se é verdade que a religião precisa do Natal como veículo de promoção e de aprofundamento de crença, não menos o é que a larga maioria dos católicos, praticantes, não praticantes, adiados ou esquecidos, pouco quer saber da religiosidade do evento perante as exigências de organização, económicas e logísticas que esta quadra imprime.
É fácil admirar o Natal, há tantas perspectivas por onde principiar uma análise que só por excepção faltará o que dizer. Eu cá decidi valorizar a importância do evento para a coesão das famílias, para a união e fortificaçáo dos laços genealógicos, pois poucos eventos de índole positiva têm a faculdade de reunir a consanguinidade da forma que o Natal o consegue.

Mais do que a suspeita generosidade da época, naturalmente indexada ao estado financeiro do país, aquilo que me excita é reunir, nem que por um serão apenas, diferentes gerações da mesma família, concentradas no único propósito de conviver.


Numa época em que as famílias têm sido severamente castigadas quanto à sua coesão e continuidade, resultante da quantidade de casamentos interrompidos, de uma vergonhosa natalidade, de algum egoísmo e desrespeito pelos membros mais idosos, é possível ver o Natal como incentivo e desafio à manutenção da família enquanto instituição pilar do equilíbrio social.

Faço votos que o vosso Natal possa prenunciar-se tão quente, envolvedor e excelso como o meu.
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Sobre o ser do tempo de...

Associada a cada geração existem objectos, acontecimentos, pessoas, actos, que marcaram de alguma forma aqueles que foram jovens contemporâneos num determinado período lá atrás.

É curioso notar como as diferentes gerações de se apropriam de uma fatia de anos que corresponde aos da sua juventude e faz deles os seus anos, o seu tempo. Quem nunca ouviu as célebres afirmações sobre o ser do tempo de não sei quê, ou de uma música, livro, filme, banda, actor, politica ser da altura dessa pessoa.

Tendo sido esta uma das descobertas mais curiosas que fiz recentemente, essencialmente por me ter apercebido, do que por se tratar de uma ideia árdua de obter, tenho vindo a perguntar-me porque motivo se apropriam as pessoas daquilo a que dizem ser o seu tempo, na juventude, embora continuem a ser contemporâneas de tantas outras coisas posteriores a esse seu tempo, com semelhante grau de participação e consciência.

Por outro lado, é na infância que muito do que cada um será se define, joga e constrói, ou seja, é dos períodos mais cruciais do processo de formação e como tal esse tempo que cada geração diz ser o seu tempo corresponde sempre a um período desfasado do de seu nascimento, coincidindo mais com uma faixa etária dos doze aos trinta anos.

Embora seja aquilo que memorizámos, os recortes do período do tempo de cada geração nada informam sobre a fase de nascimento, sobre o que se ouvia, lia, comentava, acontecia, pensava nessa época. Ora para aquilo que cada um hoje é, talvez conte mais ir à procura do ambiente que se respirava na data do nascimento, pois foi nesse ambiente que a geração nasceu, nesse ambiente que passou de bebé a criança, de criança a menino.

Noto que se sonega imenso a altura do nascimento, havendo mais interesse em dizer de cor aquilo que se via na televisão ou jogava nos intervalos da escola, do que propriamente saber aquilo que vimos, ouvimos, respirámos, vestimos ou brincámos aquando do nascimento, e que certamente muito mais respostas terão para que hoje somos. Mas desengane-se aquele que pensa que chegará ao tempo do nascimento com a mesma facilidade,  será um desafio.

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Sobre o pavor do senso comum

329341otVS_w Este é um texto que para os que sentem pavor do senso comum, na sua forma de expressão mais pura, como se encontra amiúde no território nacional, uma forma repleta de brutalidade, um baque de senso comum que esmaga qualquer indício de novidade, interesse, surpresa, uma mixórdia de passividade e estagnação.

Falo do ambiente seco, incolor, insalubre, que paira sobre inúmeras famílias, bairros, instituições ou relações interpessoais.

O pavor resulta da consciência da claustrofobia sentida toda a vez que me demoro em ambientes normais, e como tal avessos ao rompimento das normas da normalidade.

Qual sensação de revisita de um local já memorizado, as conversas são uma ladainha infindável de assuntos cliché, as aparentes novidades resultantes de um facto marcante recente, previsíveis por ser, exactamente, marcante, ou ainda a repetição de conversas esbatidas ao longo de anos, assentes em ideais de poupança, ideais de saúde, ideais de alimentação, ideais de relações ocas apregoadas com pompa mas que vêm à baila ciclicamente, reforçando esse bloqueio mental que é o senso comum.

A constatação do desperdiçar oportunidades de mostrar excentricidade, é uma dos intensificadoras do pavor: a título exemplificativo, refira-se a sensação de entrar numa residência e notar a pasmaceira decorativa, ou nulidade, em que se pode viver. As residências parecem repetir-se numa mesma rua, bairro ou cidade, sendo tudo cópias acumuladas, impregnadas de um pó que pano algum limpará, o pó do senso comum.

Depois o fenómeno natalício, que causa o cabo dos trabalhos pela única razão de que os presentes ditos do senso comum haverem sido comprados e oferecidos em anos antecedentes, e não mais haver senso comum que acuda para encontrar presentes.

Este piloto automático que no fundo é o apavorante senso comum, nas suas vertentes diversas, é o causador da maior parte dos problemas deste país, porque mais do que de hábitos, é um atrofio de mente, uma hipnose capaz de durar toda uma vida.

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Sobre os livros emocionais ou racionais ***


Miscellanea Bibliographica - Erik Desmazieres (2012)

* * *

As motivações para pegar num livro e ler são vastas. Cada leitor tem o direito de seleccionar um livro e colmatar lacunas ou restituir virtudes à sua vida, quaisquer que sejam. Os livros são um universo de juízos parciais. Discutir preferências é bom para quem tiver tempo para gastar com o assunto e nele prazerosamente se perder.

No meu entender existem duas divisões estruturais a aplicar aos livros: há obras maioritariamente emocionais e obras preferencialmente racionais. Depois de já ter provado das primeiras, e me haver extasiado com a forma como das letras pode advir um realismo de fazer suspirar, chorar e comover, mais atenção dou agora às produções racionais, aquelas de onde se extraem informações, ideias, matéria pensável.

Alguns dos livros inequivocamente racionais que já li, tiveram a força de se conseguir ler breves páginas e sentir uma saciedade comparável àquela que sente após uma refeição saborosa e agradável. O leitor pode então parar, deixar o resto da obra para mais tarde, e deleitar-se conjecturando (ou destilando) os raciocínios avançados pelo autor.

Torna-se mais complexo apreciar a literatura emocional após um genuíno apego à racional, não porque seja crível afirmar que se encontra num patamar evolutivo superior, simplesmente porque as emoções são estados de espírito, passageiros, que se esvaem e deixam memórias, contrapondo o que sucede com as ideias, que se digerem e interiorizam, tornando-se parte de cada um de forma cada mais indistinguível. Pese embora a divisão, a combinação dos dois géneros é comum ocorrer numa mesma obra.

As obras maioritariamente emocionais, e note-se que é ilegítimo resumi-las aos romances novelescos, são viciantes de uma forma mais descontrolada e passiva do que acontece com livros racionais, que dependem do leitor (e sua curiosidade inteletual) para que o vício exista e persista.

Numa frase sintetizaria a mensagem desta composição da seguinte forma: a literatura emocional provoca e estimula a nossa natureza, enquanto que a literatura racional procura ecoar e espicaçar a sabedoria de cada leitor.

Publicação original: 20-12-2018 

Revisão: 11-10-2017
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Sobre o desafio da avaliação escolar

12248_w O badalado assunto da avaliação tem muito que se lhe diga, e não raro o sujeito que o enuncia serve-se dele para colmatar problemas que sinta e não insuficiências globais que identifique enquanto participante do sistema de ensino e do sistema de avaliação.

Eis um desafio que se coloca tanto nas universidades como no ensino dito obrigatório: como levar a cabo uma avaliação ampla e criteriosa, possivelmente mais complexa do que a que existe, sem que esta represente uma sobrecarga excessiva daqueles que têm de avaliar, possivelmente professores, mas não excluindo os próprios alunos?

No meu entender e em crescendo de convicção, o sistema de ensino secundário urge em ter um modelo de avaliação que possa efectivamente diferenciar os alunos, dando resposta e justiça às capacidades dos alunos: estes não podem olhar para o documento que expresse a sua avaliação e não conseguir perceber quais são os aspectos em que o seu rendimento está a ser deficitário comparativamente com os colegas. Para isto as escolas e o processos de ensino teriam de evoluir significativamente para um modelo diversificado de aulas, escapando assim às clássicas aulas de exposição. Há pessoas que são mais lentas a absorver os conceitos, há pessoas que não tem confiança em si mesmos, há pessoas que não são originais, há pessoas que não conseguem falar sobre aquilo que sabem, há pessoas que não conseguem ter uma visão global sobre os assuntos. Com um modelo de avaliação centrado em diferentes frentes de avaliação, os avaliados poderiam destacar-se nos variados aspectos e assim que recebessem a sua classificação porventura percebessem melhor não apenas aquilo que os emancipa dos demais mas também os que os retarda e penaliza.

Se é um modelo criterioso que está em causa na actual proposta de avaliação de professores, então que seja aplicado porque trará justiça à avaliação e não mais permitirá encobrir as fraquezas e méritos de cada docente. A seguir faça-se igual aos alunos, do básico ao universitário, para mais transparência e conhecimento nas notas.

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Sobre os hospitais e a maneira como se vêem

167941YEgD_w Muito devido à corriqueira definição do que é um hospital, é legítimo alocar uma aura de negatividade e aversão a esses estabelecimentos, que se esgota na conotação negativa que a doença tem em sociedade e o seu significa na felicidade pessoal.

Ora esquecemo-nos que os hospitais, se não todos, uma boa fatia deles, tem no leque de préstimos o serviço de maternidade.

Quem lá entrar e puder observar o clima que se respira, terá a porta aberta para entender os hospitais de uma forma mais justa: adjectivos positivos também podem ser atribuídos sem perda de honestidade de quem os atribua.

Que se mude essa possível visão dos hospitais para uma noção de contraste, estes são locais onde se contrastam estados de saúde, em que se contrastam as sortes dos pacientes, doentes, internados, em que se contrastam história de vida, e ainda em que as visitas dos internados chegam com caras diferentes: tanto chegam visitantes para apoiar um enfermo ou como chegam para conhecer os mais recentes membros de suas famílias.

Uma coisa é certa, aqueles que lidam com tamanho contraste de forma acumulada e intensiva, certamente que desenvolvem uma qualquer concha fronteiriça invisível, que permita manter os índices de normalidade psicológica dentro dos limites saudáveis.

Ninguém consegue trabalhar num cenário de tragédia constante nem de euforia constante sem que desenvolva meios de evitar a comoção e alegria/dor desmedida vividas nas diferentes alas. Tais excessos são fracturantes.

O mais caricato em tudo isto, merecedor da particular nota, é a peculiaridade de em tão restrita área ocupada um edifício possa albergar tantos destinos de vida, possa ser morada última e morada primeira, possa contrapor a imagem da chegada de um acidentado de última hora, com um rebento que acaba de chegar a esse mesmo mundo. Realidades que se tocam física e temporalmente, à distância de uma janela ou piso.

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Sobre a falta de tempo

48568oTws_w É curioso como se transformou num cliché uma certa linha de respostas do tipo não tenho tempo para isso. Não vale a pena estar a relembrar e referir as rotinas de vida das pessoas e as cargas horárias a que estão sujeitos no âmbito das suas actividades profissionais, académicas ou escolares. Estamos todos conscientes, talvez por motivos nem sempre positivos, apesar de também os haver, que existe alguma escravidão do tempo. Pode parecer total, mas salvo casos pontuais, não o é de todo.

Este chavão que mencionei encerra uma particular minúcia porque estou convicto de que aquilo que as pessoas querem dizer quando convicta e sentidamente afirmam não ter tempo para determinada coisa, é simplesmente que não têm disponibilidade mental para se concentrarem nessa questão.

Haverá certamente alguém neste país que anda para ir ao médico desde o Verão, mas que ainda não o fez alegando falta de tempo, quando na realidade tem andado atarefado com outros encargos que desviam o sujeito de se concentrar nessa questão.

Tentar perceber porque motivo confundem as pessoas a disponibilidade temporal com a disponibilidade mental é uma questão bem mais complexa. De acordo com umas leituras recentes, diria que a chave poderá estar na premissa de que para além do tempo cronometrado pelos relógios, existem outros tipos de tempo, como por exemplo o tempo biológico, que dá azo ao conceito de relógio biológico.

Uma outra concepção de tempo é o tempo mental, aquele de que o cérebro se apercebe. Mediante um estado de ocupação variável, a sensação de passagem do tempo pode estar presente de forma mais ou menos acentuada, independentemente de ser óbvio que o tempo cronometrado dos relógios tem periodicidade fixada.

Assim, talvez a pessoa tenha tempo para mais coisas do que pensa, simplesmente a sua mente convence-a do contrário porque não tem espaço mental que a permite perceber que continuam a existir janelas na sua rotina que podem ser utilmente aproveitadas.

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Sobre o evocar o mundo inteiro

432055LQtp_w Quando se diz que o mundo inteiro faz isto, pensa aquilo ou sofre com um problema comum, concentramo-nos mais no conteúdo do que está a ser dito do que propriamente na referência que está a ser feita. Que mundo é este que se evoca? Será o mesmo para todos? Que imagem surge na mente em resultado da expressão mundo inteiro?

Uma imagem passível de surgir na mente é do planeta Terra visto do espaço, com a sua conformação esférica de matiz azul e branca. Uma opção legítima ainda que pobre em traços de humanidade e em resultados da actividade da mesma.

Pensar no mundo inteiro é jogar com a noção que dele se tenha. Só de forma mais atentada se poderá pensar nos países que o compõem, até lá a consideração cessa numa imagem vaga de continentes ou zonas geográficas.

Há algum tempo atrás ouvia com alguma regularidade uma frase, igualmente interessante, que era tu não sabes o que é o mundo, a qual pretendia aludir à ingenuidade da pessoa que dela fosse alvo. A frase em causa encerra um saber que importar avivar: realmente pessoa nenhuma sabe o que é mundo. O mundo está para além das tristezas e alegrias de cada cidadão, havendo defeitos e virtudes distintas em distintas partes nesse tal mundo inteiro. Se os americanos acordam com medo da economia, os zimbabwenses nem sabem o que isso é dada a guerra, devastação e miséria em que vivem. Na Islândia não se sofre do frio como se sofre devido à nação estar na bancarrota, enquanto que para algumas populações de África a bancarrota é uma realidade desde que nasceram, restando agora sobreviver ao calor que lhes seca os poços de água. Na China bebés morreram enquanto a repressão aos Tibetanos continuava. No Brasil, as cheias mataram e desalojaram inúmeras famílias, enquanto na Irlanda se descobriu que a carne de porco anda contaminada desde Setembro.

Ninguém consegue abranger na ideia de mundo inteiro todas as realidades possíveis de ser vividas dentro dele, pelo que é fantasista dotar de grande interesse a sua evocação.

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Sobre a escola e o lidar com o fracasso e sucesso

75217XEgd_wInúmeros são os alunos que passam mais de uma década a crescer dentro de uma filosofia educativa que nem ensina a lidar com o fracasso nem a lidar com o sucesso.

Alguns alunos habituam-se a pertencer uma elite que obtém sempre resultados próximos da plenitude, gente para a quais a gestão do sucesso pudesse ajudar a perceber que os resultados escolares nada mais são do que isso, o produto da avaliação de matérias alvo de estudo, e que não é legítimo extrapolar para a vida pessoal ou para a componente personalística tais méritos. Muitos ficam sem desafios estimulantes, moldam o seu espírito e tornam-se um tanto quanto convencidos, exageradamente seguros de si, mas sobretudo desconfiados dos que não partilham de semelhante sucesso escolar. Os que tiram piores notas parecem ser vistos como gente inválida para lhes explicar o que quer que seja, sem aptidões.

No extremo oposto, um vasto conjunto de estudantes nunca saberá o que é ser o melhor, ou estar próximo disso. Para estas pessoas, a desmotivação é o principal inimigo e a auto-estima a mais sensível variável que terão de gerir. Sendo ajudadas a lidar com o fracasso, porventura conseguissem relativizar os resultados do mesmo modo sugerido para os alunos de sucesso, mas desta feita para que banissem verdadeiramente a extrapolação de que o fracasso nos estudos é um fracasso na vida. É crucial que consigam identificar pontos positivos associados às suas pessoas e que se mentalizem que são igualmente válidos. O mundo lá fora não sabe que notas tiram, olha-los-ão do mesmo modo de sempre, quiçá igual aos alunos de sucesso.

Na minha concepção de escola não cabem apenas o avaliar e classificar estudantes, porque a pedagogia não se esgota nessa atribuição de graduações. Se as escolas se subtraem a ajudar os alunos a crescerem lidando com o sucesso e fracasso, deixando-os como autênticos autodidactas nessa matérias, serão estas escola imperfeitas que formarão cidadãos vulneráveis, duplamente arredados dos seus potenciais.

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Sobre o ser merecedor das atenções

24800_w A forma mais apaixonada ou mais desapaixonada com que abordamos cada assunto, não só influi na forma como os outros nos vêem, como também condiciona o modo como interagem connosco.

Aquele que pretender ser merecedor das atenções, sobretudo daquelas ditas genuínas, espontâneas e ávidas de curiosidade, deve ajustar o seu modus operandi de maneira a justificar esse possível estado de graça.

Melhor do que falar e ter quem escute é falar e ter quem queira escutar. Muitas das pessoas com que me cruzo na rua fala apaixonadamente sobre os aspectos maus da sua vida, a saúde, o emprego, o dinheiro, em particular a falta de cada um deles, mas peca por não encontrar e dedicar idêntica paixão na abordagem dos pontos positivos de suas vidas.

Esta questão da paixão com que cozinhamos o discurso, adquire especial importância se a considerarmos sob o ponto de vista dos requisitos para se poder ser considerado uma pessoa interessante. No meu entender está claro que a devoção aos assuntos importa bastante para o sentimento de interesse que o orador venha a induzir.

As palavras ditas com emoção são uma sedução, conseguem vender ideias e impressões mediante a criação de um impacto no receptor, que transcende o valor intrínseco daquilo que se esteja a comunicar. Tal como na sedução convencional, também aqui a paixão recomenda-se para um devido aprofundar e realçar de virtudes. Aquele que fala sem carimbar o seu discurso com alegria, vontade, proactividade, poderá ser ele próprio carimbado como triste, passivo, murcho. Tal como referi anteriormente, é de árdua concretização a distinção entre o que se diz e quem o diz, pelo que um discurso sem paixão, uma exposição desapaixonada, levará a que a própria pessoa não desperte interesse, a menos que se conheça bem a pessoa e haja razões pontuais para que uma dada exposição seja francamente desinteressante e desinspirada.

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