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Sobre os prognósticos para a vida

32080mtuk_w A determinado ponto da vida, sempre surge a ocasião de se pensar no futuro. Ou por desânimo, ou por êxtase, ou por morte, ou por vida, a formatação nervosa conduz as sinapses para um parecer temporal.

A noção de tempo é certamente responsável pelas preocupações do homem neste capítulo. Pensar na velhice, pensar na doença, pensar na morte de alguém que hoje parece insubstituível, pensar na degradação física dos tecidos epidérmicos, tudo exemplos da fava que a qualquer um poderá calhar.

Sem saber perfeitamente porquê, estes prognósticos decorrem com ímpar preferência pelo rolo de eventualidades negativas que sabemos poderem vir a ser realidades.

Não pensamos no nascimento de um filho ou primo, mas pensamos mais facilmente na morte de um deles. Não pensamos na possível saúde centenária de um velhinho querido, antes numa hipotética tragédia patológica.

Não pensamos num envelhecer a dois, mas numa viuvez qual calvário.

Sobrepõem-se os exemplos que comprovam a carga pessimista em que trabalha o cérebro, condensando receios legítimos mas totalmente selvagens, os quais podem conduzir a tensões exageradas se concordarmos que tais pressupostos negativos, ainda que possíveis, são resultados probabilísticos de fraca asseguração.

Invertamos a perspectiva, pensando agora no sentido tem viver a vida concedendo que regularmente se vá sofrendo por conta em cenários arbitrários como estes, que com a dose certa de crédito podem fazer desmoronar um presente feliz e tranquilo. Afinal, alguma vez deixou de rir só porque premunia que viria a chorar? Sem atenção e cuidado, cair nesta teia de sentimentalismos baratos pode ser um passo curto. Basta coincindir com uma fase descendente de confiança ou motivação que a depressão bate à porta, qual visita inesperada mas incontornável. Não espanta a quantidade de livros de auto-ajuda existente, há um mar de lágrimas e arrepios a evitar imperiosamente.

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Sobre o significado e o rumo deste blogue


Circles - Tugo Cheng (2016)


* * * 

Alimentar um espaço como este, que tenta cobrir um lato espectro de temas e questões, implica que se assumam posturas que permitam a sua viabilidade a prazo.Por muito que queiramos, a escrita que assenta na mera descrição de cenas do quotidiano não consegue ser tão motivante para quem lê como o é para quem escreve, além de que é de mais fácil questionamento sobre seu valor. Afinal, escrever para descrever aquilo que à partida está exposto em quem quiser reparar parece ser uma ocupação do tempo. Desconfio que no dia em que olhar para este espaço como uma mera ocupação do tempo estarei a viver o dia de encerramento do mesmo.

Escrever sobre temas variados implica a dissecação de lacunas e qualidades desses variados assuntos que vou percorrendo, a qual trás por arrasto a tentativa de impregnar de mim os textos que produzo, mais ainda, pela inclusão de tomadas de posição que obviamente condizem com a minha pessoa, a minha forma de pensar o mundo. A minha pessoa, por sua vez, confunde-se com o autor que sou quando redijo neste espaço.

O preço a pagar por orientar este espaço e a escrita de maneira a incluir sempre elementos pessoais a favor ou contra, sugestões e reclamações, é o expor-me de tal forma que o leitor mais atento possa perguntar-se, afinal, se este fulano tem sempre opinião sobre tudo. Não, senhor leitor, não tenho sempre opinião, nem meto sempre a colherada, simplesmente o faço nos textos escrevo, porque não se esqueça que para aqueles que escrevo existe um infinidade de outros que ficaram por dar à luz.
Temo com amistosa face que se possa olhar para este espaço e encontrar aqui um sindicato virtual, que se queixa de tudo, que roce um assumido abordar leviano de situações e questões longe de simplicidade e expedita resposta. Imberbe na compreensão de tantos assuntos, resta-me servir da ferramenta lógica que ainda vai incutindo fiscalidade ao que arrisco afirmar, negar, criticar ou aplaudir dos assuntos. Por isso caro leitor, fique por aí, e ajude-me a pensar neste mundo e evoluir dentro dele.


Publicação original: 11-2008
Revisão: 06-2019
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Sobre a concessão de irracionalidade

227903UACY_w Confesso-me apologista da racionalidade. Preocupam-me as implicações desta convicção, na medida em que reflicto regularmente sobre o significado desta apologia e a sua tangência na vida que levo e na consistência que a que procuro apossar-me.

Concretizando, cheguei à ilação de que se pode alcançar uma concessão de espaço à irracionalidade, pela rédea do que poderemos chamar de instinto, através da lógica. Sim, é possível pensar e concluir que é bom ser irracional de vez em quando, constituindo isto aquilo a que gostaria de chamar uma irracionalidade racional. Honra seja feita a este género de irracionalidade, visto que provém da actividade de um centro de problematização constante, como é o pensamento, pelo que aquele que chega à irracionalidade como conclusão da sua própria racionalidade, estará em bom caminho para não sentir remorsos sempre que se permita ser irracional.

O futebol representa cada vez mais a válvula de escape pela qual a tensão se esvai e por fim gritamos, explodimos em uivos. Aquele que é racional, poderia negar-se a esta festa de espasmos e suores reaccionais, mas se de facto conseguir perceber a importância do mesmo para a aliviação de tensões acumuladas e cuja saída possa estar a ser negada por outras vias, talvez seja possível conceber e como tal conceder momentos de irracionalidade conscientes.

Importa frisar que o elemento racional reside nessa consciência de que se está a ser irracional. Aquele que é irracional mas nem se apercebe disso, aquele que reage como sempre reagiu e nunca parou para pensar nisso, ou por não conseguir ou por não querer, esse não se insere no caminho racional.

No amor como nas artes, a irracionalidade tem o seu papel de motivação e manutenção de originalidade, atracção, paixão, ligação física, pelo não pode ser condenada racionalmente. Ao invés, saudemos essa janela, tornemo-la consciente, para que o edifício da racionalidade possa apresentar-se como o esplêndido produto da natureza.

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Sobre uma lógica para a justiça

349938ChJG_wO que fazer com um ser humano, exemplar da nossa espécie, que comete actos passíveis de ser encarados como atentados à vida e à paz?

Os tribunais propõem-se regular a interpretação dos supostos atentados e dar-lhes sentença, baseando-se em construções oficiais de natureza moral e ética que nada mais são do que o produto (colectivo) de uma tábua de regras que confere a cada falta idealizável uma respectiva punição. É pertinente perguntar porque evolui a sociedade para uma perspectiva de antecipação dos atentados à vida e paz assente num código legal, mas não se serve dessa clarividência que permite antecipar as formas de atentado para construir um sistema de prevenção eficaz. Será o género humano de tal forma ímpar que a batalha da prevenção dos atentados à vida e paz, os crimes, portanto, é uma batalha perdida à nascença? Porque não conseguimos prevenir as maldades que conseguimos prever ao ponto de escrever regras que as alocam a penas que vão da subtração de bens materiais à privação temporária ou perpétua da liberdade, quando não mesmo à privação da vida do faltoso?

E ainda o que dizer dessas penas? Quem é de fact o o responsável por elas, quem dá a cara pela própria justiça das penas? Pergunto-me ainda quem é que deveria ser julgado por permitir que uma sociedade, incapaz de prevenir crimes que consegue prever e legislar, possa personificar-se em absoluto num tribunal, o qual decide privar da vida um ser humano que cometeu um atentado contra a vida de outrem? Matar quem matou para mostrar que matar é mau. Mas então não haveríamos de matar quem matou quem aquele que matou para mostrar que matar era mau? Seria a morte da sociedade toda, pois é supostamente esta quem rege e determina o código legal que pretende adoptar para a tribo que representa. A discussão sobre a génese do mal e sobre se os atentados contra a vida e a paz são indissociáveis do homem, não podem ser de forma alguma esquecidos só porque existem edifícios onde se sentencia o que não se previne.

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Sobre a permeabilidade aos outros

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A permeabilidade individua l aos assuntos , opiniões e ideias avançadas pelos outros depende não apenas das hipotéticas convicções que transportemos connosco, como também do locutor que as introduz e envolvência associada.

Um indivíduo sem créditos conhecidos sobre uma dada matéria corre o risco de ser indevidamente levado a sério, independentemente da pertinência e verdade de duas palavras ou ideias.

Temos uma apetência natural para abrir o flanco a locutores que respeitemos, reconheçamos notoriedade e sapiência, isto é, mais facilmente neutralizamos o filtro interno, às exposições externas, pelo respeito devotado ao orador.

Muitos comentadores da televisão dizem disparates sem que o público deixe de ser permeável e sem que se abalem as convicções para o fazer, do público que escuta. Existem, pois, evidências claras da existência de naturais argumentos de autoridade.

Há ainda outro prisma sobre o qual considerara a aceitação das considerações dos outros, este mais narcisista, no qual é legítimo pensar que a permeabilidade é concedida mediante a sintonia de personalidade, ideologias ou relacionamento, entre o locutor e o receptor. O narcisismo reside na eventual permeabilidade a pessoas que de alguma forma contenham traços personalísticos, ideológicos concordante com as nossas, ou com quem tenhamos um relacionamento privilegiando, levando por consequência a uma promoção dessas qualidades partilhadas, a qual no limite desemboca na auto-promoção.

Por gostar de escrever, quando escuto ou leio um colega que partilhe este interesse, poderei estar mais permeável ao que diz, podendo concordar com ele mais facilidade até, porque indirectamente estarei a promover alguém que contém elementos que me valorizam a mim, e como tal, alguém que me permite tirar proveitos pela confirmação do meu gosto, situação que extravasa o valor intrínseco de suas palavras e ideias.

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Sobre o compadrio na crítica entre estudantes

98479dJLI_wNo universo escolar institui-se uma certa filosofia na qual se entende que se deve preterir ao máximo fazer considerações sobre o trabalho de outros colegas na presença dos professores. Por esta via sustenta-se uma compadrio ou solidariedade, como queiram, entre alunos, que se encobrem mutuamente e identificam como que o inimigo comum: o professor.

Espanta-me, aborrece-me e irrita-me que assim seja. Permitir que se chegue ao nível universitário e haja este corporativismo doentio que inibe os colegas de se comentarem livremente, mutuamente, é um grave sinal de imaturidade e falta de entendimento sobre a importância da crítica e da argumentação para o sucesso das coisas.

Claro está que é condenável que colegas de trabalho do mesmo ramo, instigados pela inveja, vingança ou malícia, se critiquem num modelo de deitar abaixo a todo o custo o trabalho realizado.

No resto, não só não admito promover essa filosofia como me chateio com quem o faz. As escolas falharam e continuam a falhar no ensino da postura certa perante as coisas, sobre o  receber as críticas como oportunidades de brilhar pela via da resposta e como força motriz do crescimento individual e da evolução mental.

Os formandos de qualquer curso, ainda para mais do âmbito universitário, não podem esquecer que se encontram numa fase de preparação para um mercado de trabalho que está longe de ser conivente com este tipo de facilitismos confortáveis, como é, vendo bem, esta prática de ferir a liberdade de expressão para não ferir susceptibilidades.

Aliás a juventude portuguesa tem este traço caricatural, que é ninguém falar quando se dá tempo de antena para o efeito. Depois, quando as atenções se voltam para outros, aí sim começam a falar, desenfreadamente, até, com multiplicação de juízos de valor. Lamento este desencontro de perspectivas, mas não sou assim, nem quero ser.

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Sobre a disponibilidade no telemóvel

105211qVxU_w Vai chegar o tempo em que o estar constantemente contactável será uma doença cujos sintomas maiores serão a claustrofobia assente na falta de oportunidades de estar só.

O telefone móvel, ainda que eu não seja um usuário referência do mesmo, começa a angustiar-me, porque instituiu-se de forma um tanto quanto bárbara que, com a disseminação desse aparelho e seus serviços, qualquer pessoa deve atender numa questão de segundos a qualquer chamada que surja ou mensagem que receba.

Se no âmbito profissional há notórias vantagens desta rapidez e contínua comunicação, a verdade é que já no foro da vida privada, estar constantemente disponível no telemóvel constitui uma tremenda de uma prisão e de uma adulteração da liberdade.

Ora não sendo sensato de forma alguma abdicar desta útil e interessante tecnologia devido a este detalhe cultural, acontece que tendo a ter o telemóvel no modo que não perturba o decorrer das actividades onde esteja, com som que leve à desconcentração, e acabo por fintar a falta de liberdade que é sentir que tenho de responder a qualquer solicitação, não permitindo que o aparelho me informe desse contacto. Este regista no visor a solicitação mas só a minha consulta intencional do aparelho é que me leva a dar conta da sua existência e a ponderar nessa altura a resposta, se de facto a quiser dar.

A sociedade está-se a habituar a que seja falta de educação não responder quando se liga para o telemóvel, mas a verdade é que há que manter a porta aberta para o facto de nem sempre se estar disponível ou receptivo a responder. E isto não pode de forma absoluta ser visto com falta de educação ou desconsideração, porque pelo mesmo motivo que as pessoas nas suas casas decidem a quem abrem a porta de casa, também cada um de nós tem o direito a dizer a quem e quando quer abrir os ouvidos e o cérebro, já agora. Há pessoas a manejar os telemóveis como autênticas espadas, esgrimindo telefonemas e mensagens escritas por todos os cantos, arriscando-se a meu ver, a uma depreciação completa da utilidade do aparelho e do sentido de comunicar.

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Sobre as explicações espontâneas

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Ressalvando as explicações que sejam dadas por pura cortesia e sensibilidade, quando o orador identifica as fraquezas do seu público e como tal explica melhor o que diz, passo a abordar de forma genérica os casos que não se enquadrem neste cenário.

Aquilo que me traz a um novo texto, foi ter-me apercebido do quão as explicações que damos, nem sempre de forma consciente no nosso discurso, indiciam o nosso desconhecimento ou fraco domínio das matérias em jogo no discurso.

Pelas explicações dadas por um orador que não seja solicitado no sentido de as fornecer, é possível supor com um razoável grau de confiança os conhecimentos que detém com certeza mas em particular aqueles que em que não consegue abordar com naturalidade suficiente para não achar que deve explicar. Nestes casos, não raro se assiste a uma simplificação do assunto, que é desconstruído em considerações e ideias mais simples e revela que só num patamar mais básico é que o orador se tranquiliza.

Um indivíduo que esteja a explicar um texto e que pare numa palavra em específico para explicar o seu significado, está a dar um sinal à sua plateia de que desconhecia ou conhecia tenuemente aquela palavra. Do mesmo modo, alguém que explica o que é fotossíntese quando refere um assunto que a implique mas que não incida especificamente no seu conceito, estará a mostrar aquilo que poderá ser uma fraqueza pessoal face àquele tema. Tendemos a pressupor nos outros as nossas fraquezas, o que leva a que achemos espontaneamente necessário explicar aos outros aquilo com que esbarramos, que não sabemos bem e precisamos de ajuda.

Isto levanta uma oportunidade, que surge em contracorrente ao sentido deste texto: pelo reconhecimento de que as explicações expõem possíveis fraquezas do orador perante a sua audiência, aquele que estiver consciente desta situação pode procurar controlar e contornar uma exposição que viria ser desgastante e desnecessária. Por esta via, o orador pode-se salvaguardar de uma inferiorização, dando melhor imagem de si.

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Sobre a pornografia literária


A estrondosa e avassaladora oferta que hoje se encontra no mercado livreiro, impõe um natural respeito, porque a comercialização de um livro estende-se muito para além do valor intrínseco da obra. Hoje há massificação de temas e há que ter bem presente que uma mesma coisa escrita por outro autor vale menos do que uma outra coisa escrita pelo mesmo autor.
O fenómeno literário que se vive hoje, perdoem-me por usar as palavras que vou usar, pode ser enquadrado numa certa forma de pornografia literária, que difunde a banalização do valor das produções, pela adulteração do sentido de singularidade, ou seja, pela forma como se desrespeita o que é conceber e delinear um livro, em detrimento de um sobrepovoamento de publicações nas prateleiras.
Como consequência dessa pornografia literária temos a explícita comercialização das obras como vector a considerar e até principal para a viabilidade de edição das mesmas. Aliás, diversos autores atingem uma profissionalização fácil devido a incorrerem na escrita mediática, totalmente voltada para o populismo e para o alcance da escala comercial.
A minha ambição de poder vir a escrever um livro, choca com estes conceitos, porque pego num livro para ler e penso no quão difícil possa ser chegar a um produto final, fechado, pronto. Imaginar a escrita de um livro como sendo algo não tão díspar quanto isso de um pegar num moldes e fazer réplicas sucessivas, não se me desmotiva como me aborrece e entristece. Há um esoterismo muito próprio que identifico no processo de conclusão de um livro, o qual não gostaria de ver perdido nem de ver chacinado da forma como as garras comerciais têm andado a fazer.
Hoje os nóbeis e notáveis do ponto de vista da matriz da Literatura, aqueles que serão estudados como cânones do nosso tempo, perdem espaço para pornógrafos literários que escrevem com cifrões e se refugiam neles para se afirmar como autores.
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